Entre Cavalos e Números
8 Capítulo 7
Notas iniciais
Os dias seguintes ao primeiro encontro entre Annabelle e Daniel passaram voando para ambos. Annabelle aproveitou a folga e viajou pra Belo Horizonte com Francisco e Louise, a fim de prestigiar a 35ª Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga Marchador*. Os três estiveram no Parque da Gameleira para acompanhar as provas de marcha, tambores e balizas e os campeonatos de morfologia**. O intuito principal da viagem, no entanto, foi bem além da paixão pelo esporte. Francisco Marcondes chegou à cidade mineira com a missão de aumentar a rede de contatos com os maiores criadores da raça no país e tentar levar algumas novidades referentes ao manejo do Mangalarga Marchador para a cidade de Ipiabas.
Já para Daniel, a semana foi de trabalho intenso. Depois de trocarem a estrutura do telhado da casa principal, as telhas novas foram instaladas e a equipe retornou à tarefa de acabamento. Os quartos que antes estavam ocupados por hóspedes finalmente tiveram seus móveis retirados, o piso foi quebrado, as paredes descascadas e os azulejos dos banheiros — cuja estampa era bem antiga e até desbotada — começaram a ser removidos.
Na sexta-feira, enquanto se preparavam pra mais um retorno à cidade do Rio de Janeiro, o engenheiro teve uma grata surpresa. Antes mesmo que pudesse entrar na van junto com os outros funcionários, o rapaz avistou, ao longe, um Honda Civic preto que lembrava muito o de seu pai. Sendo assim, pediu ao motorista da van que aguardasse só mais alguns minutos antes de embarcar, a fim de confirmar se o carro era ou não de seus pais.
Alguns minutos depois, o veículo com placa do Rio de Janeiro estacionou na frente da grande casa e seus ocupantes — Narcisa, João e Cecília —desceram, indo em direção ao mais novo. Daniel, pra não atrasar ainda mais os companheiros de trabalho, disse ao motorista que ficaria em Ipiabas e a Sprinter branca seguiu seu destino rumo à Cidade Maravilhosa.
— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntou à mãe, depois de ser abraçado por todos.
— Nós queríamos te fazer uma surpresa, meu filho. — Narcisa respondeu, ainda grudada ao rapaz.
— Vai dizer que não gostou de nos ver aqui? — João questionou.
— É claro que eu gostei. Só não tava esperando passar o fim de semana no meio do mato.
— Pois nós estávamos doidos pra vir. Eu e o tio João até pesquisamos na internet um monte de lugares legais pra gente ir. — Cecília falou, animada com a programação que havia feito para o fim de semana.
— E onde tá o George, que te deixou vir pra cá sozinha? — Daniel perguntou, desconfiado.
— Meu marido foi pra um congresso de Economia em Florianópolis e só volta no meio da próxima semana. — deu de ombros. — Além do mais, eu não nasci grudada nele. Mesmo que ele não tivesse viajando, eu estaria aqui, ele querendo ou não.
— Ok, senhora "Eu sou independente e faço o que quero". Não tá mais aqui quem falou. — riu, levantando as mãos em sinal de rendição.
— Bobo! Agora vamos, que eu tô louca pra andar no meio do mato. — Cecília disse, puxando o primo pelo braço e indo em direção à recepção do hotel fazenda. João e Narcisa apenas se olharam, rindo, e seguiram o mesmo rumo dos mais novos.
Assim que fizeram o check in, a contragosto de Teodoro, que queria hospedá-los em sua casa, deixaram suas malas nos respectivos quartos e saíram para um passeio pelos arredores do Recanto das Orquídeas. Entardecia quando passaram pela pracinha, observando as crianças brincando no parquinho ou jogando bola na quadra. Cecília ficou encantada com um grupo de mães reunidas com seus bebês e tratou de ir até lá, puxar assunto e já se inteirar desse universo que é o mundo infantil. Enquanto isso, Daniel, Narcisa e João sentaram em um banco um pouco mais afastado e aproveitaram pra conversar um pouco.
—Então, meu filho, como estão as coisas por aqui? — João foi o primeiro a perguntar.
—Tudo caminhando bem, pai. Já estamos quase terminando a reforma nos quartos de hóspedes que estavam ocupados e logo em seguida vamos pra cozinha. O único problema foi o telhado, que deu um puta trabalho pra trocar e atrasou em uns três dias o serviço, mas acho que esse imprevisto não vai impactar no prazo de entrega da obra não.
—Que ótimo! Sabia que você era a pessoa certa pra cuidar dessa obra.
—É, até que não tá sendo tão ruim quanto eu esperava.
—E como você tá se sentindo em estar aqui depois de tanto tempo? — Narcisa questionou, enquanto recebia um olhar espantado do filho. —Sei que você não gosta de tocar nesse assunto, mas uma hora nós vamos ter que conversar sobre isso e quanto mais adiar, pior vai ser.
—A sua mãe tá certa, Dan. Desde que decidimos que você seria o responsável por essa obra, nossa maior preocupação era como você reagiria a esse retorno. A Cecília até tentou nos tranquilizar, dizendo que conversou contigo e que você tava levando numa boa, mas eu tenho a impressão de que não é bem assim. Você tá muito mais calado que o normal, anda pelos cantos pensativo e quando a gente tenta se aproximar, você se fecha e cria uma barreira ao seu redor.
—Na boa, acho que não é uma boa hora pra falar sobre isso. — Daniel falou, ressabiado.
—E quando é uma boa hora? Semana que vem, quando você voltar pro Rio e passar o fim de semana enfiado dentro do quarto, dizendo que precisa descansar porque trabalhou demais durante a semana? Isso é desculpa, Daniel. Nós estamos aqui tentando te ajudar, mas você não colabora. Eu sei o quanto tá sendo difícil esse retorno, mas se não falar, não colocar pra fora, como vai lidar com isso? — Narcisa questionou, incisiva.
—Como se falar sobre o meu passado fosse tão simples quanto dizer que eu tomei suco de limão no almoço. — desdenhou.
—Não é, mas se você não se esforçar, só vai acumular isso dentro de si e quando resolver botar pra fora, vai ser muito pior.
—Tudo bem, mãe, vocês querem saber como eu me sinto? — perguntou, respirando fundo. —Eu tô uma merda por dentro, tá legal? No começo eu até levava numa boa, tava empolgado com o início das obras e não tinha tempo pra pensar nisso. Só que agora que a poeira baixou, a ficha finalmente caiu. É horrível andar pelas ruas sabendo que a qualquer momento eu posso dar de cara com aquele verme. É horrível não se sentir confortável em uma cidade que tem tudo pra ser um lugar de paz. É horrível ter que fingir que tô em paz, quando o passado me assombra o tempo todo. Eu fecho os olhos e as lembranças daquele dia vêm à minha mente como se tivesse acontecido ontem, mas tudo bem. Não é a primeira nem a última vez que isso acontece. Uma hora eu esqueço e aprendo a seguir em frente. — deu de ombros. Narcisa e João não tiveram outra reação, a não ser abraçá-lo.
—As coisas não têm que ser assim, meu filho. — João disse, depois de algum tempo. — Não é fingir que tá tudo bem e tentar esquecer. É encarar o problema de frente, colocar pra fora tudo o que você sente e aprender a lidar com essa situação da melhor maneira possível. Você não tá sozinho, Dan. Você tem a mim, à sua mãe, à Cecília e mais um bando de gente que te ama e se preocupa contigo.
—Eu não sei se vou conseguir superar esse trauma um dia. Ainda é algo muito forte dentro de mim. Toda vez que eu entro naquela van e pego a estrada pra cá, me dá um aperto no coração, sabe? Um sentimento ruim de que algo pode acontecer a qualquer momento e eu não sei como vou reagir, se eu vou conseguir suportar.
—Então eu acho que você devia ir embora com a gente na segunda e nós colocamos outra pessoa pra tomar conta dessa obra. Se não tá te fazendo bem, não tem porque ficar se martirizando, se machucando sem necessidade. — Narcisa disse, secando algumas lágrimas que havia derramado diante do desabafo do filho.
—E quem vocês vão colocar no meu lugar? O Olavo, pra fazer um monte de merda e tirar onda com a cara do tio Teodoro? Ou o Paschoalino, que teve filho a menos de um mês e precisa ajudar a esposa a tomar conta do bebê?
—Nós vamos dar um jeito, Dan. Seu pai pode ficar por aqui supervisionando tudo, enquanto você faz os projetos no Rio.
—Sinto muito, mãe, mas eu não posso fazer isso. Seria injusto manter vocês dois longe um do outro. Além do mais, eu não sei lidar com o Olavo, não suporto esse cara e nós vamos viver em pé de guerra. Da última vez em que eu fui cobrá-lo, nós discutimos e eu quase parti pra cima dele, o que nunca tinha acontecido antes. Não vai dar certo nós dois no mesmo ambiente, tendo que conviver.
—A gente pode demitir o Olavo, já que ele é o problema. —João sugeriu.
—Talvez seja uma boa opção. Acontece que, com a demissão do Olavo, vamos ter que contratar alguém e vai levar um tempo até essa pessoa se acostumar com nosso ritmo de trabalho. Hoje a construtora tem quatro obras em fase de finalização e mais a do Recanto das Orquídeas, que já tá na metade. Vocês sabem, melhor que eu, que não dá pra arriscar uma nova contratação a essa altura do campeonato, com os prazos de entrega batendo à nossa porta.
—Mas e você, Daniel? Vai continuar sofrendo, sabendo que existe a possibilidade de cortar o mal pela raiz?
—Eu já sofri a vida inteira, pai. Um mês a mais ou a menos não vai fazer a menor diferença. Deixa o Olavo terminar o trabalho dele e depois a gente volta a conversar sobre isso. — sorriu, triste.
—Não concordo, por mim você ia embora na segunda mesmo, mas já que insiste. Assim que ele concluir a reforma na casa do Bitu, você volta pro Rio. Estamos conversados?
—Estamos, seu João. Tudo bem pra você, mãe? — Daniel perguntou, virando-se para Narcisa, que apenas afirmou com a cabeça e o abraçou. João fez o mesmo e os três ficaram algum tempo em silêncio observando o movimento da praça. Não demorou muito e Cecília se juntou ao trio, eufórica com o tanto de informações que descobriu com aquelas mães.
À noite, depois de jantarem no restaurante do hotel, se reuniram no quarto de Narcisa e João, onde ficaram os quatro deitados na cama vendo Deadpool. Não foi o programa que Cecília imaginou pra uma sexta-feira à noite, mas mesmo assim se divertiu bastante. Até Daniel, que até então tinha a expressão mais fechada, deu boas gargalhadas com o filme.
No sábado pela manhã, logo depois do desjejum regado a frutas, queijos e pães, resolveram fazer uma excursão pela cidade. João e Cecília já haviam pesquisado alguns lugares que gostariam de conhecer e com a ajuda de Teodoro, fecharam um passeio com um grupo de hóspedes do hotel.
O primeiro ponto do passeio de Jeep foi a visitação a um criatório de tilápia. No enorme lago, os visitantes puderam conhecer um pouco mais sobre o peixe, a história do criatório e ver como é feito o manejo dos tanques. Ao final da visita, que durou cerca de 40 minutos, foi servido um bolinho de tilápia que agradou a todos.
A próxima parada foi a Cachoeira da Floresta. Para chegar ao local, passaram por uma estrada de terra cheia de buracos, o que deixou Cecília bastante enjoada devido ao sacolejar do automóvel. A cachoeira, distante 6km do centro da cidade, é composta por duas quedas d'água — uma de 3,5 m e outra de 5m, sendo que a maior forma uma piscina natural de águas cristalinas — e fica em meio à Mata Atlântica, tendo um bom volume de água. Devido às baixas temperaturas, ninguém ousou mergulhar, apenas apreciaram a vista, o contato com a natureza e principalmente o barulho da água caindo em meio às pedras, emitindo um som relaxante.
No intervalo para o almoço, o grupo parou no restaurante Adolphina, um casarão antigo de paredes brancas e janelas azuis, com comida caseira e saborosa, feita no fogão a lenha. Logo na entrada, foram recebidos pela proprietária, dona Adolphina, uma senhora de 85 anos, simpática e atenciosa. O restaurante foi o ponto alto do passeio, na opinião de Narcisa, mesmo que ainda não tivessem terminado. Como boa amante de gastronomia que era, se deliciou com um frango ao molho pardo — especialidade da casa — e com os doces de leite e mamão, feitos no próprio estabelecimento. Também aproveitou pra conversar com dona Adolphina e pegar algumas dicas culinárias, que lhe seriam valiosas quando quisesse cozinhar para a família e os amigos.
Na parte da tarde, a excursão continuou pelo Centro Histórico de Ipiabas. Visitaram a Igreja Nossa Senhora da Piedade, a Estação Ferroviária, a feirinha de artesanato e a Fazenda da Prosperidade — última parada do passeio. A fazenda, construída nas primeiras décadas do século XIX, foi uma das mais importantes da região durante o ciclo do café. Atualmente, é um dos pontos mais visitados por turistas interessados em conhecer a cultura local. A visita, que durou duas horas e passou pelos pontos principais da propriedade, terminou em uma cozinha, onde foi servido um banquete típico da época colonial. A mesa estava cheia com os mais variados bolos, doces, sucos, pães e até uma linguiça feita na própria fazenda.
No final da tarde, o Jeep retornou ao hotel e todos estavam exaustos. Depois de se banhar e ver um pouco de TV, Daniel decidiu ir até o quarto de Cecília. Estava cansado de ficar sozinho e nada melhor que a prima para alegrar sua noite. A encontrou deitada na cama de casal, acariciando a barriga e falando ao telefone com George. A garota fez sinal pro primo entrar e se despediu do marido, indicando o lugar vago ao seu lado na cama, que foi prontamente ocupado pelo engenheiro.
—A que devo a honra dessa visita inesperada em pleno sábado à noite? — Cecília perguntou, se virando para o primo.
—Tava sem nada pra fazer, e como eu sei que você gosta muito da minha pessoa, vim aqui te fazer companhia.
—Fala a verdade, você não quer é ficar sozinho.
—Eu amo a minha companhia, mas já tá chato ficar trancado naquele quarto sem ter o que fazer. — Daniel disse, e Cecília sorriu.
—E o que você quer? Ficar trancado no MEU quarto, ou dar uma volta?
—O que for melhor pra você e pro meu afilhado.
—Pois eu acho que o Muri merece respirar um pouco de ar fresco. Me dá dois minutos pra eu trocar de roupa e nós vamos dar um passeio na varanda.
—Tá, te espero na porta do meu quarto. Vai bem agasalhada que lá fora tá frio.
—Ok, papai. — riu e o rapaz se dirigiu ao quarto.
Como combinado, depois de cinco minutos os primos se encontraram no corredor e foram em direção à varanda. Fazia bastante frio, os termômetros marcavam 7°C e o único barulho que se ouvia era dos grilos e sapos.
—Tem certeza que quer ficar aqui, Ceci? —Daniel perguntou, preocupado. — Não vai fazer mal a você e ao bebê?
—Fica tranquilo, nós estamos bem. Fazia tempo que eu não me sentia tão em paz.
—E como tá a saúde do Muri? Ele tá se desenvolvendo direitinho?
—Melhor do que o esperado. A cada dia que passa, mais ele cresce. Agora já tá dando pra sentir ele mexer um pouquinho e é emocionante cada vez que eu percebo os movimentos do meu pequeno. — disse, emocionada, enquanto colocava a mão na barriga, acariciando-a.
—Deve ser maravilhoso mesmo. Como o George tá se sentindo com a ideia de ser pai? O relacionamento de vocês tá bem? Você diminuiu seu ritmo de trabalho?
—Nossa, quantas perguntas! — riu. — Nós estamos maravilhosamente bem, o Ge tá radiante com a novidade, que nem é mais tão novidade assim, e eu continuo trabalhando do mesmo jeito. Você sabe que gravidez não é doença e eu tenho as minhas responsabilidades, não vou deixar de cumpri-las só porque tô grávida.
—Você e essa sua teimosia. Devia aproveitar esse momento e descansar um pouco. Eu não sei como funciona esse mundo de bebês, mas já ouvi falar que depois que nascem, dão o maior cansaço nos pais.
—Isso é verdade. Nos primeiros meses, eles têm que acordar de três em três horas pra mamar, choram com cólica, fazem cocô o tempo todo e por aí vai. Só que é um sacrifício que vale a pena. Quando eu descobri a gravidez, não me achava preparada pra ser mãe, mas agora tudo mudou. É como se uma força crescesse dentro de mim, conforme o Muri vai crescendo, sabe?
—Não, eu não sei, mas fico feliz por você. A gente cresceu junto, você sempre disse que queria um filho e agora tá aí, realizando esse sonho.
—Também tô feliz demais, esse bebê vai trazer muitas alegrias pra nossa família. Agora vamos deixar de falar um pouco de mim e focar em você. Gostou do passeio de hoje?
—Até que não foi tão ruim como eu esperava.
—É? Então estamos tendo algum progresso por aqui?
—Acho que sim. — disse, envergonhado.
—E como tá a vida?
—Ai Ceci, de novo esse assunto? Ontem eu já tive uma conversa com os meus pais e foi desgastante. Eles já sabem como eu me sinto, nós já falamos a respeito e eu só queria seguir em frente.
—Aff, Daniel, tu é um idiota, sabia? Sempre tirando conclusões precipitadas sobre tudo. Você tem que parar com essa mania. — resmungou.
—E eu posso saber por que? Todas as vezes que alguém me pergunta como tão as coisas ou como eu me sinto, é pra falar do passado.
—Pois dessa vez tu se enganou, e feio. Eu quero saber como tá a tua vida sim, mas aqui na cidade. Já fez alguma amizade, conheceu alguém?
—Não e não.
—Ah, para. Você só pode estar brincando comigo. — perguntou, recebendo uma negativa do primo. —O que você fica fazendo depois do expediente?
—Eu descanso, querida. Trabalhar numa obra não é fácil, envolve um monte de responsabilidades e é bem trabalhoso.
—Eu sei que é, mas não é possível que tu não conheceu ninguém.
—Na verdade, conheci, mas não foi a melhor das experiências.
—Sério? E quem é ela? Como ela é? É bonita? O que vocês conversaram?
—Calma, tá parecendo aquelas garotinhas lá do condomínio, querendo saber como foi o primeiro beijo da amiga.
—Primeiro, eu SOU uma garota. Segundo, faz pelo menos quatro anos que tu não arruma uma namorada. Terceiro, curiosidade é meu nome do meio. Agora para de enrolar e me conta.
—O nome dela é Annabelle e ela é sobrinha do tio Teodoro. Tem cara de que tem uns 20 anos e é o tipo de garota que cheira a encrenca.
—Posso saber por que?
—Ela me fez bater o carro e não assumiu o erro.
—Essa é a tal garota do cavalo? Achei que eram pessoas diferentes.
—Não. Você acredita que depois ela teve a cara de pau de me perguntar se tava tudo resolvido? Aposto que era consciência pesada por ter feito merda.
—Ou ela tava mesmo preocupada com a sua saúde.
—Acho difícil. Uma patricinha mimada, arrogante e que se acha a dona da verdade não se preocupa com ninguém além dela mesma.
—E como você pode dizer uma coisa dessas se conheceu a menina ontem?
—Eu sei, sinto que ela é assim.
—Quem é você e o que fez com o meu primo? — Cecília perguntou, irritada. — Não é possível que eu tô ouvindo isso, Daniel. Pré julgando as pessoas? Que coisa feia! Tu nunca tinha visto a garota na tua vida até cinco dias atrás e já tá aí falando mal dela? Fala sério, hein?
—Fala sério digo eu. Ela é prepotente e se acha melhor que os outros sim. Se não fosse, teria admitido que causou o meu acidente e eu não estaria aqui falando essas coisas.
—Você tá dizendo isso só porque o primeiro contato de vocês foi numa situação de estresse. Se tivesse sido em outra oportunidade, aposto que teriam se dado bem.
—Meio impossível. Meu santo não bateu mesmo com o dessa garota.
—Pois eu acho que você ainda vai se surpreender. Algo me diz que essa impressão ruim que você tem da Annabelle vai mudar conforme vocês forem se conhecendo.
—Ai, ai, prima. Você às vezes tem cada ideia. — riu. — Sempre querendo bancar a cupido, né?
—Não. Eu só quero a sua felicidade. Aliás, quem falou em relacionamento aqui? Você é que já deve estar de olho na garota e tá aí fazendo cu doce, se fingindo de bravinho só pra disfarçar que se sentiu atraído por ela.
—Aff, não viaja. Mais fácil um burro passar voando do que eu me envolver com a Annabelle.
—E eu posso saber por que? Ela é tipo a bruxa da Branca de Neve, com a cara enrugada, nariz gigante e que tem uma verruga na ponta?
—Pelo contrário, se tem uma coisa que ela é, é bonita. A gente se viu muito pouco, acho que umas duas ou três vezes desde o acidente, mas eu não sou idiota a ponto de não perceber que a garota é linda.
—Então pronto. Se ela não é nenhum monstro, vocês podem ficar juntos sim. — disse, e Daniel mais uma vez negou.
Depois que o assunto Annabelle se encerrou, os dois ainda ficaram ali conversando por mais algum tempo, até que Cecília começou a se cansar e decidiu que era hora de ir pra cama.
No dia seguinte, logo depois do café, o quarteto foi convidado a ir até a casa de Teodoro, onde Chang os aguardava. Ao chegarem, encontraram a chinesa entretida cuidando do jardim. Para a surpresa de Daniel, ela não estava sozinha. Annabelle cuidava das plantas junto com a tia, mexendo na terra e colhendo alguns morangos que seriam usados para a sobremesa do almoço de domingo. Ao vê-los, Chang largou tudo e foi ao encontro dos visitantes, enquanto Annabelle apenas acenou a todos e continuou fazendo o seu trabalho.
Mais tarde, na hora do almoço, os pais de Annabelle se juntaram ao grupo e a família pôde saborear uma deliciosa batata recheada, prato preferido de Chang. Pra sobremesa, pavê de morango. Ao longo do tempo em que estiveram juntos, Daniel e Annabelle não trocaram mais que meia dúzia de palavras, mas era quase que impossível para a garota não manter os olhos no engenheiro. O fato não passou despercebido por Cecília, que decidiu não falar nada para não incomodar o primo, mas sabia que algo estava começando a acontecer e ficou extremamente feliz. Apesar de Daniel jurar de pés juntos que nada aconteceria entre os dois, sentia que Annabelle faria muito bem ao rapaz. Durante as horas em que estiveram na casa dos Marcondes, as duas puderam conversar e ela viu que a implicância do engenheiro não passava de um equívoco. A amazona se mostrou uma garota simpática, inteligente, alto astral e até meio geniosa, mas Cecília pressentia que esse jeito impulsivo tiraria Daniel dos trilhos logo, logo.
No fim da tarde, por volta das 16h, Narcisa, João e Cecília partiram rumo ao Rio de Janeiro. Antes de ir, agradeceram a Chang e Teodoro a hospitalidade e prometeram voltar mais vezes, especialmente em uma data em que a cidade recebesse algum evento. Como chegariam ao Rio por volta de 18:30, Daniel achou melhor ficar na cidade mesmo e só ir pra casa no próximo final de semana.
Logo após a partida dos pais e da prima, o engenheiro se despediu de todos e seguiu rumo ao hotel fazenda, triste por não ter mais a companhia daqueles que mais amava. Ia caminhando à pé pelas ruas da cidade, quando ouviu alguém chamá-lo. Ao se virar para ver quem era, deu de cara com Annabelle correndo em sua direção.
—Oi. — ela disse, assim que o alcançou, tentando recuperar o fôlego.
—Oi. — ele respondeu, surpreso com a aproximação.
—Você tá indo pra fazenda, né?
—Aham.
—Posso te fazer companhia? Meus pais tão indo pra casa de um amigo e eu preciso ir até a fazenda tratar do meu cavalo.
—Por que, se você tem pessoas pra fazer isso por você? — perguntou, meio irritado.
—Os funcionários da fazenda só cuidam do Zimbabu quando eu viajo. Quando tô em casa, gosto eu mesma de fazer isso. —explicou.
—Hum.
—Tá tudo bem?
—Tá. — os dois caminharam em silêncio por um tempo, até que Annabelle decidiu quebrá-lo novamente.
—A minha presença te incomoda tanto assim? — perguntou, sentindo a indiferença do engenheiro.
—Por que tá dizendo isso?
—Eu tô aqui, tentando puxar assunto, tentando ter uma conversa decente contigo, mas parece que você não me quer por perto.
—Que bom que você percebeu. — desdenhou.
—Tá falando sério? Por que eu não me lembro de ter feito nada pra causar essa repulsa em você.
—Tem certeza que não? O fato de ter provocado aquela porcaria de acidente e até agora não ter admitido não te diz nada?
—Ah, então o problema é esse? — perguntou, rindo debochada.— Quando é que você vai crescer e aprender que nem sempre as pessoas são culpadas pelos seus erros? Eu não te fiz soltar as mãos do volante em nenhum momento. Você soltou porque quis.
—Sim, mas se você não tivesse aparecido de repente, eu não teria levado susto.
—Aí já não é problema meu. Eu comando as minhas emoções e o meu animal; os outros eu ainda não tenho o poder de controlar, infelizmente.
—Percebe-se o quanto você controla bem o seu animal. — ironizou. — Tanto que ele empinou quando viu o meu carro.
—É normal isso acontecer. O Zimbabu não é o primeiro nem vai ser o último cavalo da face da Terra a empinar porque se assustou com algo que encontrou pelo caminho.
— Acontece que essa sua falta de controle quase me custou uma lesão grave. A sorte é que eu tava mais devagar e...
— E o estrago não foi tão grande. — interrompeu, suspirando cansada. — Tá legal, eu já sei essa história de trás pra frente e de frente pra trás. Se o problema é eu não admitir o meu erro, tudo bem. A culpa pelo seu acidente foi minha sim, mas em partes. O Zimbabu ficou quase uma semana preso dentro da baia, sem se exercitar por conta de um problema que teve na fazenda. Com isso, quando eu fui tirá-lo de lá pra andar aquele dia, ele tava muito agitado, querendo correr. Eu só não esperava que ele fosse empinar ao dar de cara com a sua caminhonete.
— Você sabe que esse erro quase custou a minha vida, né?
— Também não é pra tanto, Daniel. Você tá exagerando. Como você mesmo disse, tava em baixa velocidade, não tinha como ser pior do que foi.
— Mesmo assim, foi errado. — insistiu, surpreso por ver a garota admitindo seu erro. Não esperava essa atitude dela, e isso o desarmou completamente.
— Sim, mas já passou. Eu reconheci que fiz besteira e prometo que vou tomar mais cuidado com o meu cavalo quando tiver andando pela estrada da fazenda. Agora, será que dava pra gente seguir em frente e tentar pelo menos ser amigos? Sei que a gente se conheceu de uma forma estranha e até meio errada, mas eu queria mesmo saber um pouco mais a seu respeito. Meu tio e meu pai falam tão bem de você, têm um carinho tão grande contigo, que eu queria ter a oportunidade de conhecer um pouco mais esse cara legal de quem eles tanto falam. — disse, parando para olhar nos olhos do rapaz enquanto chegavam à entrada da casa grande da fazenda.
— Tudo bem. Eu admito que fui meio chato pegando no seu pé por conta do acidente, mas que bom que você finalmente concordou que tava errada.
— É. Amigos então? — Annabelle perguntou, com um sorriso no rosto.
— Amigos. — Daniel concordou, estendendo sua mão para que a garota apertasse, mas ela fez mais que isso. O puxou para um abraço apertado, que o engenheiro não teve saída a não ser retribuir, mesmo que de forma desajeitada.
Ao se separarem, a amazona tinha um sorriso gigante no rosto, que Daniel não deixou de notar. Os dois ficaram em silêncio durante alguns segundos, apenas se olhando sem graça, até Annabelle decidir que era hora de tirar o time de campo e ir tratar de seu animal, como havia se proposto a fazer. Ao se despedir de Daniel, no entanto, a garota deixou um beijo na bochecha do rapaz, que ficou olhando pro nada, surpreso pelo gesto inesperado. Não sabia exatamente o que tinha acontecido nos últimos minutos, mas algo lhe dizia que essa aproximação não lhe traria nada de bom. Só restava esperar pra ver.
* A 35ª Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga Marchador ocorreu entre os dias 13 e 23 de Julho de 2016, no Parque da Gameleira, em Belo Horizonte. Entretanto, pra não sair completamente do contexto da história, eu escrevi como se tivesse acontecido entre os dias 20 e 30 de Julho. Se tivesse seguido as datas, os primeiros capítulos estariam totalmente fora da ordem cronológica da história e tudo ficaria sem sentido.
** Campeonato de Morfologia: É uma avaliação do padrão racial e do nível de enquadramento do animal aos padrões seletivos da raça. São valorizadas, nessa etapa, características referentes à estrutura corporal do animal. Os grandes campeões são aqueles que apresentam um bom conjunto de características como o equilíbrio estrutural, a frente leve, a firmeza da linha superior e um bom relevo muscular.
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