Entre Casos e Cafés
9 08 - Verdade
Domênico esperou até que ela se acalmasse. Antônia se afastou e olhou para o rosto dele com suas lágrimas embaçando sua visão.
— Tá tudo bem. Não fica assim... – tentou acalmá-la.
Passou as mãos no rosto dela e enquanto o fazia, Antônia o interrompeu segurando nos pulsos dele.
— Fui burra, impulsiva e passional. Deveria ter acreditado em você. – a voz dela saiu falha.
— Não. – ele balançou a cabeça. – Eu entendo.
Domênico soltou o rosto dela e fechou a porta do apartamento. Ele ficou de costas pra ela.
— Você achou que eu estava agindo por ciúmes e com razão. Juro pra você que depois de tudo que aconteceu, nunca quis estar errado como queria estar agora.
— Você deveria ter me contado. – se aproximou dele de novo, tocando em seu ombro.
— Esquece, Antônia, agora já foi... Temos que dar um jeito de pegar eles agora. Senta.
Ofereceu o sofá pra ela se sentar e os dois sentaram. Antônia observava o curativo no braço dele.
— Expedito me disse que foi de raspão.
— Foi. Vai ficar uma cicatriz maneira. – ele quase sorriu e ela sentiu vontade de bater nele, como sempre fazia quando falava alguma coisa sem noção.
— Você é maluco. – afirmou e Domênico olhou pra ela.
Por você, pensou.
— Quase tomou um tiro por mim.
— Nessas horas a gente não pensa, só age. Agi por impulso, sei que não deveria ter feito isso, mas não ia deixar você tomar um tiro. Faria isso por qualquer um ali...
— Eu sei. – ela assentiu. – Você é um bom parceiro, Domênico.
Não estava suportando estar ali ao lado dela, tentando agir como se não fosse uma prova do quanto a amava. Era a primeira vez que a via tão vulnerável por sua causa. Sabia que não devia misturar as coisas, era apenas preocupação e o que eles tinham era uma amizade e parceria no trabalho. Claramente tinham uma conexão diferente, mas não era o tipo de sentimento que ele desejava. Já estava cansado de se iludir.
— Você também é, Antônia. Sei que faria o mesmo por qualquer um de nós. – sorriu e ela concordou. – Quer um café? Eu posso passar pra gente...
— Quero. Obrigada.
Antônia esperou que ele fosse até a cozinha e passou as mãos no rosto novamente. Sentia-se exausta fisicamente e emocionalmente. Seu peito ainda estava cheio de mágoa e dor por Júlio, ainda queria chorar, mas o sentimento de gratidão por Domênico a mantinha de pé. Foi esse sentimento que a fez ir da Tijuca até Copacabana naquela manhã e estar naquele apartamento.
Não era a primeira vez que entrava no apartamento dele, mas naquele dia ao passar pela portaria foi impossível não se lembrar dos beijos trocados na calçada há meses atrás. Se ele realmente não se lembrava, não sabia se deveria tocar no assunto.
Estava confusa e perdida em um mar de sentimentos que não sabia lidar. Em toda a sua vida foi assim, após a perda de seus pais, ela se fazia de forte, sufocava seus sentimentos para não preocupar o irmão, mas havia algo em sua amizade com Domênico que quebrava aquele muro que tinha criado. Ele a fazia rir como ninguém, via o seu lado mais fraco e a humanizava, coisas que ninguém tinha feito antes.
Concluiu que ele a conhecia de verdade, mas ela não sabia nem metade da vida dele. Antônia nunca tinha se interessado por sua história, talvez fosse medo de se aproximar demais, de misturar as coisas, de brincar com os sentimentos dele. O mesmo medo e frio na barriga daquela noite.
Ela observava dois quadros de fotos na estante da TV. Em um estava ele a família: um casal que ela presumiu ser seus pais por serem mais velhos, outro casal que talvez fosse a irmã dele e o marido, e ele ao centro com a sobrinha no colo. O segundo era da corporação: Antônia, Siqueira, Nina, Expedito e ele. Sorriu ao se recordar de um dia que Domênico disse que eles eram sua segunda família. Achou estranho não ver uma foto da namorada dele, aquela loira.
Domênico voltou com as duas xícaras de café. Ela pegou uma e agradeceu, enquanto ele voltava a se sentar ao lado dela.
— Sua sobrinha é linda. Quantos anos ela tem?
Ele sorriu imediatamente.
— A Laura tem cinco.
— Seus pais já sabem...?
— Não. Não quis preocupar eles desse jeito.
Antônia quase riu.
— O quê? – observou o sorriso no rosto dela.
— Você é policial e tomou um tiro. Não tem como não se preocupar.
— É verdade, mas depois eu conto.
Um silêncio esquisito permaneceu entre os dois, enquanto cada um tomava um gole de café.
— Mas e aí, como vamos fazer pra pegar eles? O Siqueira já falou com a PF e a Rodoviária... – ele disparou a falar, acionando o botão do profissionalismo.
— Domênico, obrigada. – ela o interrompeu.
Ele colocou a xícara na mesa de centro da sala, ainda atordoado com tudo. O analgésico o deixava meio mole, mas o efeito começava a passar fazendo seu machucado arder novamente. Olhar para Antônia viva e bem (fisicamente, pelo menos) a sua frente era o seu maior presente por aquele ato.
— De nada.
Antônia deu um sorriso sem graça, apoiou a xícara dela do lado da dele e pegou nas mãos dele, virando seu corpo para ficar de frente com o dele. Tentava criar uma coragem que não tinha para expelir a verdade, tinha que ser justa depois do que aconteceu. Não poderia mais esconder e sabia que não teria outro momento pra dizer.
Afinal, ela poderia estar agora se preparando para o velório dele e não se perdoar por ter mentido, com medo de seus próprios sentimentos, por não saber lidar consigo mesma.
— Domênico, eu...
Ele se surpreendeu com o gesto, mas seus dedos seguravam a mão dela de volta. Sentir o calor dela em sua mão o fazia bem. Sabia que ela estava grata, mas não a esse ponto. Quase nunca Antônia se aproximava dele daquele jeito.
— Tá tudo bem, Antônia. – ele apertou a mão dela, queria deixar claro que não precisava agradecer.
— Eu preciso te contar uma coisa, que... Vai acabar me sufocando...
— O que foi?
Domênico começou a imaginar centenas de possibilidades das coisas que ela poderia dizer, e em várias, Julio estava presente. Seu coração começou a ficar pequeno no peito.
— Sabe aquela noite do bar? Perto do ano novo? – não olhava para o rosto dele, encarava as mãos dos dois.
— Sei... – estava confuso, já que não esperava por aquilo.
— Aquela noite, você ficou muito bêbado e eu te trouxe pra casa.
— Não lembro direito, mas...
— Calma, me deixa falar...
Ele se aquietou, enquanto ela olhava para as mãos deles, seus olhos não saiam no rosto dela.
— Eu te coloquei em um táxi e nós viemos até a portaria do seu prédio. Você dormiu no carro e quando chegamos, fui te carregar até o portão, mas no meio do caminho... Você me parou e começou a dizer umas coisas...
Ele quis perguntar: “que coisas!?”, mas seu coração ficou tão disparado com a possibilidade de ter feito merda que não conseguiu.
— Disse que tava apaixonado por mim, que nunca amou ninguém como me amava... – sorriu sem graça.
Burro, burro, burro! Ele se martirizava em silêncio. Não era mentira, mas sabia que não devia ter falado nada.
— Eu menti quando você me perguntou se tinha acontecido alguma coisa. Aconteceu.
— O que aconteceu? – ele engoliu em seco com medo de agarrado ela sem o seu consentimento.
— Eu te beijei.
Antônia olhou para o rosto dele para ver a sua expressão e ele estava surpreso demais para falar.
— A gente se beijou. Eu não devia ter mentido pra você.
— Foi real? – ele piscou ainda em choque. – Eu pensei que tinha sonhado com aquilo. Fiquei com medo de te perguntar e você...
— Eu sei. Foi real e não devia ter mentido, mas eu fiquei com medo da sua reação, você sempre foi muito impulsivo e... Me desculpa, devia ter sido verdadeira.
— Antônia, eu...
— Quero deixar claro que a culpa não foi sua. Eu sei que você sente algo por mim... Só não soube lidar e acabei te beijando pra saber como eu ia me sentir se...
Domênico sentia o coração batendo tão forte no peito que não teve medo de que ela escutasse ou que sua mão suasse. Aquele beijo tinha sido real e foi retribuído.
— O que você sentiu?
Antônia olhava nos olhos dele, ainda estava confusa e não sabia o que responder, apenas balançou a cabeça. Domênico levou a mão dela até os lábios e a beijou. Ela sentiu as lágrimas em seus olhos de novo.
– Nada mudou. Eu ainda sou apaixonado por você, Antônia. Muito. Tanto que chega a doer, mas não quero que você se sinta obrigada a sentir o mesmo por mim.
Antônia só assentiu. Seu coração quis gritar que sentia o mesmo, pois aquele frio na barriga não era normal. Ela tinha consciência de tudo que estava em jogo, dos seus sentimentos perdidos e dos dele.
Lembrou-se da noite anterior e do medo que sentiu ao perdê-lo e tentou colocar na balança o que pesava mais. Ela tinha medo do ontem e do amanhã, mas o presente era o que ela tinha em seus dedos.
Ele limpou uma lágrima que escorreu no rosto dela. Sabia que deveria estar muito bravo por ter sido enganado, mas na verdade, só estava agradecido por Antônia ter sido sincera.
Fechou os olhos ao sentir a mão dele em seu rosto, se viu ansiosa para sentir aquele turbilhão de novo, mas largou a mão dele.
— Tá tudo bem, entendo. – ele disse, por fim. – Vamos esquecer isso, né?
Nem ele acreditava nas próprias palavras, porque ele não ia esquecer.
Domênico queria ler o que se passava na cabeça dela. Seus olhos castanhos o deixavam perdido e saber que já tinha beijado aqueles lábios de verdade... Meu Deus!
Viva o presente. Antônia pensou.
Ele foi pego de surpresa quando Antônia se aproximou dele e seus lábios tocaram os dele. Domênico segurou no rosto dela quando sentiu as mãos dela no seu. Fechou os olhos e aproveitou a sensação de tê-la, deixou seus lábios grudados no dela. Antônia suspirou entregue ao beijo e ele o aprofundou. Suas línguas se tocaram e ele sentiu o corpo dela ainda mais próximo do dele.
Domênico soltou o rosto dela, usou o seu braço que não estava machucado para envolver a cintura ela e deixou que Antônia se encaixasse em seu colo. Sentia uma das mãos dela em sua nuca. Seu corpo era puro êxtase e fogo, sua respiração antes tão tranquila estava saindo do controle e seu coração parecia que iria abandonar o seu corpo.
Quando se deu conta, Antônia estava no colo dele no sofá. Suas pernas ao redor da cintura dele e as mãos dele agarravam a sua cintura. Ela mordeu o lábio dele entre o beijo e não percebeu que guardava todo aquele sentimento por ele dentro de si. Estava tão empolgada que suas mãos agarraram os braços dele e ele gemeu de dor.
Ela se afastou ao sentir seus dedos tocando o curativo no braço direito.
— Desculpa... Desculpa... – ela pediu.
— Não. – disse em um tom sério, chamando a atenção dela. Seus olhos encontraram os olhos dele, cheios de uma devoção e desejo que a fizeram perder as palavras. Ele riu a fazendo rir também.
Naquele momento ela soube que estava onde deveria estar. Sem se importar com o ontem ou com o amanhã. Os braços de Domênico eram o seu lar e onde se sentia bem.
Ele acariciou o rosto dela e roubou mais um beijo. Antônia sabia que não estava pronta pra se entregar totalmente à ele, mas admitir que sentia algo forte já era um avanço. Ela deu um selinho nele e o abraçou.
Domênico a abraçou de volta, deixou que Antônia encostasse sua cabeça em seu ombro e beijou seu cabelo.
Ele nunca tinha se sentido tão bem. E estar vivo nunca foi tão bom.
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