Entre Céu & Mar

15 Uns vem, outros vão


Notas iniciais
Muito obrigada por estar lendo este capítulo! Não esqueça de comentar o que achou. Sua opinião é muito importante para mim, assim como a sua atenção.

Boa leitura amores de mim. Kisses :*

Os dias se arrastaram depois da ida de Hank, ao menos para Evellyn. Ela se recusava a acreditar que o dia tinha apenas vinte e quatro horas, pois parecia mais que o dobro agora. Havia o telefone, skype, facebook e etc., mas eles bem sabiam que nenhuma tecnologia ou qualquer rede social poderia substituir o calor do verdadeiro encontro. De acordo com ele, tudo ia às mil maravilhas. Já havia perdido a conta de quantas cidades do litoral havia visitado, fazendo um pouco de inveja a Evellyn, que daria tudo para dar uma boa escapada daquele lugar. Aquele refúgio de riquinhos hipócritas a tirava do sério às vezes. Hank estava ganhando uma boa reputação na região, e sentia que aqueles dias poderiam sim se estender.

-Sinto sua falta. –Ele disse a ela certa vez.

-Também sinto muito a sua falta. Não faz ideia. Toda a vez que vejo uma prancha de surfe eu me lembro de você. –Ele riu do outro lado da linha.

-Tudo aqui me lembra você. –Ele disse.

-Tem certeza de que sente apenas a minha falta?

-Eu... Sinto a falta de todos aí.

-Você entendeu o que eu quis dizer. Tem se controlado?-Evellyn podia sentir a abstinência na voz dele.

-É difícil, mas eu estou tentando. Tem algumas pessoas aqui que podem me quebrar o galho.

-Hank, por favor! Não faz isso. Você não conhece essas pessoas, elas podem estar tramando para você. Um deslize e está tudo acabado!

-Relaxa, ‘Courtney Love’! Eu sei me cuidar.

-Sei. Eu me preocupo com você, sabe disso.

-Sim, sim. E eu agradeço. Eu vou tomar cuidado, por você. Agora eu tenho que ir. Beijão.

-Okay. Boa sorte, amor. Mil beijos.

Algo dentro dela dizia com todas as forças que Hank não iria aguentar por muito tempo.

-Como Hank está? –Kate disse, aparecendo atrás dela feito um fantasma.

-Está bem, como sempre. –Ela respondeu.

-E eu ainda não tive a oportunidade de conhecê-lo.

-Quando ele voltar eu prometo que te apresento.

-Combinado.

-E você, Kate? Como está se sentindo?

-Estou bem, na medida do possível. Eles estão achando que Trina pode ter alguma coisa a ver com o incêndio. Mas então por que ela iria chamar a ajuda? Não faz sentido. Não creio que ela possa ter começado o fogo.

-Eu também não. –“Ou prefiro não acreditar”, Evellyn pensou.

*****

-Minha irmã está de volta. –Erick anunciou a Ágata, e parecia não estar contente.

-Que bom! Isso é algo bom, não é?

-É sim, eu acho. Quer dizer, eu amo minha irmã, mas ela me tira do sério.

-Isso é normal. –Ela respondeu, e realmente ela tinha experiência nisso.

-Pelo menos vocês não têm aquela palhaçada de vantagem de irmã mais velha.

-Na verdade, eu nasci cinco minutos antes da minha irmã, então eu tenho certo privilégio.

-Então com essa experiência toda de irmã mais velha espero que você me ajude.

-Como?

-Minha mãe te convidou a passar o sábado lá em casa. Aí você conhece a minha irmã e a minha mãe, e eu vou ter uma desculpa para não ouvir minha irmã lamentando pelo ex que ela não aceita como ex.

-Parece uma missão e tanto. Mas... Será que elas irão gostar de mim?

-Claro que vão! Só não deixe a minha irmã te enlouquecer com as neuroses dela.

-Não se preocupe, estou acostumada!

-Então você vai?

-Sim, sim.

-Ótimo! Eu vou a sua casa te buscar.

-Combinado. –Ela disse, dando-lhe um beijo tímido (pois não é muito adequado ficar se pegando nos corredores do colégio, pelo menos não para moças como Ágata).

-Desculpe interromper o momento, mas vocês viram a Anna? –Sofia apareceu de repente.

-Não, não. Nem o Charlie. –Ágata respondeu.

-E quem se importa com o Charlie? Eu quero achar a Anna, e com certeza não vai ser com o Charlie.

-Eu não afirmaria com tanta certeza. –Erick murmurou, tão baixo que nem ele mesmo entendeu.

-O que você disse amor?

-Nada, nada. –Ele se calou.

-Bom, se a virem, diz que eu preciso falar com ela.

*****

Anna andava distraída pelos corredores quando foi surpreendida por Charlie, que para irritá-la ainda mais, estava irresistível aquele dia. Seus cabelos estavam molhados e bem arrumados, como sempre, e os óculos... Ah, como ela adorava o charme daqueles óculos.

-Achei você! –Ele disse, pegando em seus braços. –Anna se afastou quando sentiu o seu perfume, um pouco mais delicado que os outros perfumes masculinos. “Mas que droga! Por que até o perfume dele é irresistível”?

-Mario finalmente encontrou sua princesa! Parabéns, nerd.

-Precisamos conversar. –Ele disse sério. Isso lhe assustou um pouco.

- Também acho. –Ela concordou.

-Por que você está fugindo de mim, depois do que aconteceu?

-Não estou fugindo de você, e o que aconteceu? –Ela perguntou sínica.

-Não se faz de sonsa. O que está acontecendo?

-Ok, a verdade é que o que aconteceu aquele dia foi um erro que não vai mais se repetir. Eu... Voltei com o meu namorado.

Charlie soltou uma sonora gargalhada, mais surpreso do que engraçado.

-Não acredito. –Ele disse.

-Não importa. É sério mesmo. –Ele percebeu que ela estava falando a verdade.

-Não dá para acreditar! Por que as pessoas hoje em dia namoram sem realmente se gostarem? O que aconteceu com o “antes só do que mal acompanhado”?

-O que te faz ter tanta certeza que eu não gosto dele? –Anna arrependeu-se logo depois de ter perguntado. Charlie pegou em seus braços e a levou até uma sala vazia, que por ‘coincidência’ estava aberta. Ele acariciou o seu rosto, e a beijou novamente. Anna não recuou, não conseguia. Suas mãos acariciavam seu cabelo molhado.

-Por essa razão... –Ele disse. –Porque toda a vez que eu te beijo você não recua, na verdade, seus olhos denunciam que você anseia por mais.

-Charlie... –Ela disse, enquanto ele a interrompia com beijos curtos. –Eu não consigo entender. Você se diz tão apaixonado por Ágata, e agora tenta me conquistar. Você está brincando comigo? Porque se estiver... Charlie eu acabo, acabo mesmo com você.

-Como você disse, não faz sentido eu continuar lutando por Ágata. Ela está com Erick, e está feliz, embora eu não confie nele. E, você sabe que temos algo especial.

-Então eu sou um esparadrapo para a sua ferida. Como me senti especial agora. –Ela disse, quase indo embora quando foi barrada por Charlie. Ele não desistia mesmo.

-Façamos o seguinte: Você termina com o idiota do seu namorado, seja lá quem for, e eu prometo esquecer de vez Ágata. –Ele propôs. Ela não gostou muito, pois ele deixava bem explícito que ainda gostava de Ágata.

-Eu... Não sei Charlie.

-Você quer isso tanto quanto eu. Ah! Tive uma ideia. Que tal resolvermos isso como nos velhos tempos? Você , eu e videogame. Se você ganhar, eu faço o que você quiser. Deixo-te em paz, ou colo em você. A escolha é sua. Se eu ganhar, faremos o que eu propus.

-Acho justo. Eu topo!

-Ótimo. Hoje na minha casa. Eu vou acabar com você.

-Veremos. –Anna adorava desafios.

Charlie lhe deu um último beijo de despedida.

-Para não perder o hábito. –Foi a desculpa que ele deu antes de sair.

Assim que Charlie saiu Anna precisou tapar a boca para conter o sorriso, como se sua felicidade fosse obrigatoriamente clandestina. E ficou ali, por um tempo, pensando na confusão que havia se metido, sentindo o cheiro do cabelo de Charlie, que havia ficado impregnado em seus dedos.

*****

A casa encontrava-se um silêncio perturbador. Evellyn quebrava a cabeça tentando resolver algumas questões de matemática, mas a sua cabeça estava longe de “x” e “y”. Pensava em Hank, morta de preocupação com seu problema com as drogas. Pensava em Connor, no ódio que sentia. Onde aquele rato havia se enfiado, afinal? Qualquer esgoto era nobre demais para ele. E sobre o incêndio. Teria sido mesmo culpa de Trina?

Um perfume floral e delicado invadiu a sala. Era Ágata, que checava o visual no velho espelho da sala. Parecia tão despreocupada, como se nada estivesse acontecendo. Aquilo a irritava um pouco, mas no fundo gostaria de ser assim. Ela perdia muito tempo da sua vida se preocupando com os problemas.

-Kate saiu para resolver as últimas mudanças no escritório dela. E, ela ainda quer que você faça um de seus trabalhos em uma parede. Mas nada de grafite. –Ágata disse para Evellyn, como uma secretária.

-Ok. Já tenho algo em mente. –A campainha tocou. Era Erick.

-Eu vou sair, vou à casa de Erick. Tchau.

-Tanto faz, tchau. –Evellyn respondeu indiferente.

“Ótimo, a casa toda só para mim.” Evellyn adorava ficar sozinha em casa. Sentia-se mais confortável. Agora era apenas ela e seus pensamentos. Não por muito tempo.

Alguns minutos depois de Ágata ter saído, a campainha tocou várias vezes.

-Mas que droga. –Evellyn murmurou, enquanto ia em direção a porta, lutando contra a preguiça que dominava o seu corpo.

-Oi, Eve querida. –Era uma Trina preocupada a sua porta.

-Sua tia está em casa? –Trina perguntou.

-Não, apenas eu.

-Posso conversar com você então?

-Claro, pode entrar. –Evellyn disse.

A última vez que havia falado com Trina fora no hospital, e ter ela de novo ali era um tanto desconfortável. Elas estavam se tornando bem íntimas nos últimos dias, mas ambas haviam percebido que aquilo havia mudado.

-Você acredita no que os policiais dizem? Que eu poderia ter causado o incêndio? –Ela foi direta, pegando Evellyn de surpresa. Ela ficou sem saber o que dizer.

-Não, claro que não, Trina. –Ela mentiu.

-Eu nunca faria uma coisa dessas! Eu não sei o que fazer. Ninguém acredita em mim, e todos me olham como se estivessem colocando a culpa em mim! Droga! Por que eu tinha que ficar até tarde justo naquele dia? –Ela desabafou.

-Eu não sei de nada, Trina. E eu não posso fazer nada.

-Eu sei, eu sei. Eu... Só queria conversar com Kate. Pedir desculpas por qualquer coisa que eu tenha feito. E saber se ela também acha que eu tenho culpa no cartório.

-Não, não. Por mais que ela tivesse motivos, Kate não acredita que possa ter sido você. O coração dela é muito nobre. Apesar daquela sua ligação invisível com Connor.

-Como? –Trina disse, como se tivesse escutado o maior absurdo de sua vida.

-Todos nós percebemos que você e Connor têm uma história. E algo me diz que você deve saber onde aquele rato está.

-Evellyn, por Deus! Se eu tivesse qualquer pista de Connor eu já teria entregado à polícia!

-Sei.

-Não, não sabe não. Nem você, nem Ágata, nem todo mundo. Vocês não fazem a mínima ideia com quem estão lidando. –Trina disse, num tom quase ameaçador. Aquilo assustou Evellyn.

O telefone tocou, rompendo o silêncio constrangedor que havia se formado ali. Evellyn atendeu quase que imediatamente.

-Alô?

-Posso falar com Evellyn?

-Ela mesma.

-Eve, minha filha, aqui é a mãe da Madison. Minha filha está com você?

-Não... Eu pensei que ela estava em casa. Não a vi no colégio hoje.

-Ela não voltou para casa desde ontem. Tivemos uma discussão, mais uma sobre aquele namorado cafajeste dela. E... Eu acho que acabei piorando.

-Eu sei como é. Também não gosto do Alex.

-Você tem alguma ideia de onde ela poderia estar?

-Eu não sei.... Talvez na casa do Alex. Eu, eu acho que sei onde fica. Eu vou procurá-la. Pode deixar.

-Obrigada, minha filha. Você é uma boa garota.

-Nossa! Não costumo ouvir isso. Mas obrigada. Qualquer coisa que eu descobrir eu aviso a senhora. Tchau. –Ela desligou o telefone, realmente preocupada com a amiga.

-Trina, eu realmente gostaria muito de continuar a nossa pequena discussão, mas eu tenho que achar uma amiga que realmente precisa de ajuda. –Ela disse irônica como sempre, indo em direção a porta com as chaves do carro nas mãos. Trina saiu sem dizer uma palavra, e Evellyn pôs-se em direção à casa de Alex, morrendo de medo do que aquele monstro poderia fazer com ela, agora que estava sozinha.

*****

Era estranho estar de volta à casa de Charlie. Nunca mais entrara lá. Surpreendeu-se por ainda saber onde ele morava. Viera pensando no caminho até aqui, se não iria se decepcionar depois pelo que estava fazendo. Provavelmente sim.

-Quem é? –Charlie atendeu o interfone.

-Anna.

Ela entrou. Não havia ninguém em casa, a não ser Charlie. Era bem comum. Na verdade, ela só vira os seus pais uma vez na vida.

-Uma pequena demonstração de ostentação. –Ele disse, trazendo nos braços sua coleção de jogos. Anna foi lendo cada um deles, alguns antigos. “street fighter,mortal kombat, the king of fighters, killer instinct, art of fighting, samurai shodown, tekken. marvel x capcom, Mario, Zelda, Super Metroid, Bomber Man, Donkey Kong, etc..

Charlie exibia sua coleção, todo orgulhoso.

-Tá vendo? Quem precisa de academia com um peso desses? –Ele disse, fazendo poses ridículas provenientes de marombeiros.

-Acho que você é o único nerd convencido que eu conheço.

-É, aprendi a ser assim com alguém também. –Ele disse, soltando uma indireta.

-Então, vamos começar com o quê?

-Mortal Kombat. A cada derrota você me deve um beijo.

-Violência gera beijos, é essa a sua filosofia?

-Eu sou intenso, Anna. –Ele disse, fazendo-a rir ainda mais.

-Você duvida?!

-Mas é claro!

-Você é tão... Esquece! Vou deixar que meus dedos respondam por mim! –Ele disse, pegando no joystick. Anna pegou o seu também.

-Mortal Kombat. Sério, é esse o seu jeito de conquistar uma garota?

-Eu sei, não é um jogo muito romântico. Mas você gosta, admite.

-Gosto. –Ela disse não se referindo exatamente ao jogo.

E ficaram assim durante horas, vidrados. Muitos xingamentos, alguns gritos, e violência, muita violência. Mas em vários momentos eles davam uma trégua. Seria sempre assim, eles iriam se odiar por um momento, e no outro o ódio iria se dissipar em beijos? Não, não era verdade. Eles nunca se odiaram, eles se adoram.

Ela havia perdido a conta de quantas vezes havia perdido. Embora fosse isso mesmo que ela quisesse, não era preciso muito esforço para perder com Charlie. Ele era realmente bom.

-Loser. É isso que você é. Uma loser. Uma... Uma Noob. –Aquela foi a gota d’água.

-Você me chamou do quê?! NOOB?! -E avançou em cima dele. Anna o encheu de tapas e arranhões. Não estava furiosa com ele de verdade, tanto que os dois terminaram rindo.

-Foi mal, foi mal, foi mal! –Ele dizia em cada pausa de tapas.

-Foi péssimo, Charlie. Péssimo! –Ela disse, se levantando. Ele a puxou de volta para si.

-Eu ainda ganhei, esqueceu? Direito a mais uma recompensa.

-Tem razão. –Ela disse, beijando-o novamente. Na verdade, era Charlie que vencia, mas quem saía ganhando eram os dois.

-Então... Eu ganhei. Acho que faremos o que eu propus. Se estiver de acordo, é claro. –Ela assentiu com a cabeça.

-O que somos agora, afinal? –Ela perguntou.

-Acho que o que a sociedade chama de namorados.

-Podemos deixar a sociedade fora disso? Algo apenas para nós dois?

-Por quê? Qual o problema? –Anna não respondeu.

-Tudo bem, mas com uma condição. Termine com o ridículo do seu namorado de fachada.

-Já fiz isso antes de vir para cá.

-Rápida você, não? –Ele disse, beijando-a outra vez.

Anna não sabia o quanto aquilo iria durar, ou até que ponto iria, mas estava feliz. Estava realmente feliz como há muito não sentia. Charlie diria o mesmo. Quando estava com Anna não se lembrava de Ágata, o que aliviava e muito o seu coração. Não adianta perder tempo com um terreno que já tem dono.

*****

Erick veio falando de sua família no caminho. Sua mãe se chamava Estela e sua irmã Pauline McJohnson. A mãe trabalhava no hospital, e vivia de plantão. Sua irmã só aparecia algumas vezes ao ano, mas dessa vez ela veio para ficar. O que ele menos gostava na irmã era que ela sempre falava do pai ausente. Ao contrário de Erick, ela ainda falava com ele às vezes.

-Chegamos. –Ele disse, levando-a até o portão de madeira. A casa de Erick era bem aconchegante.

-Filho, por que demorou tanto? –A mãe de Erick apareceu na sala de repente. Ela era bem pálida, e com aparência de cansada, mas muito bonita. Tinha cabelos negros e médios.

-Mãe, esta é a Ágata, minha namorada.

-Ah sim, claro que é! Prazer Ágata, pode me chamar de Estela. –Ela disse, sendo gentil.

-Prazer em conhecê-la.

-Mãe! Manda o Erick ajudar em alguma coisa! –Pauline chegou a sala e deu de cara com Ágata.

Ver o rosto reconhecido lhe congelou dos pés a cabeça. Ágata também olhou fixo para Pauline. Ela tinha cabelos longos e pretos, como da sua mãe, e o corpo (enfiado em um micro vestido justíssimo) deixava bem claro que ela era uma frequentadora assídua da academia.

-Evellyn?!! –Ela gritou assustada.

-Você conhece minha irmã? –Ágata não entendia nada.

-I... Irmã??

-Ágata tem uma irmã gêmea. Evellyn. Como você a conhece?

Àquela altura do campeonato Pauline já sabia tudo sobre Evellyn. Assim que um dos amigos fofoqueiros de Hank a contou sobre o seu novo namoro, e do show que ele deu no aniversário de Madison, Pauline entrou em colapso. Procurou-a em todas as redes sociais, e descobriu que o boato era verdade. E foi assim que decorou cada característica do seu rosto, e ficou sabendo que ela ainda estava no ensino médio, havia perdido os pais de uma forma horrível, que ela adorava rock, desenhava super bem, tinha mechas californianas vermelhas, não conseguia sair de uma festa sequer sem estar bêbada, e que... O pior de tudo. Era a vadia que havia ocupado o seu lugar.

Mas olhando Ágata melhor desta vez, seu cabelo louro impecável, suas roupas delicadas, sua postura... Aquela nunca poderia ser a Evellyn. (Será mesmo que não?)

-Eu... Eu a vi no facebook. Vocês são idênticas.

-É, ninguém tinha percebido antes. –Ágata disse, irônica. -Prazer em conhecê-la, Pauline. O Erick falou muito de você.

-Não acredite nas coisas horríveis que ele disse a meu respeito. Não sou tão neurótica assim, só um pouquinho.

-Imagina! Coitado do seu ex, que vai ser perseguido até a morte agora.

-Não, não. Coitada daquela que está do lado dele. –Ela disse ameaçadora.

-Ok, vamos comer agora? Fiz pasteis. –A mãe de Erick convidou.

-É, só mesmo Pauline para fazer você parar em casa um pouco. –Erick comentou, fazendo Estela mudar de expressão.

*****

-Os pasteis estavam uma delícia, Estela. –Ágata disse, assim que terminaram de comer.

-Que bom que gostou, querida. Vejo que tem bom gosto.

-Mas é claro que ela tem. Eu sou a prova disso. –Erick disse exibindo-se.

-Nem é convencido! -Ágata disse, enquanto recolhia os pratos.

-Não precisa, querida. Você é a visita. E, se não se importa, preciso ter um conversa particular com o meu filho convencido. –Estela disse, mantendo o sorriso no rosto.

-Claro, claro. –Ela disse, retirando-se.

-Depois nos falamos. –Erick sussurrou antes de lhe dar um selinho.

Ágata era curiosa como ninguém, e não resistira em ouvir a conversa atrás da porta.

-Seu pai perguntou por você. –Estela começou.

-Que pai?

-Erick, não comece.

-Não comece você, mãe. Quantas vezes eu tenho que dizer que eu não quero saber dele. Ele teve dezesseis anos para aparecer. Agora é tarde demais. Não importa se Pauline ainda fala com ele. Eu não sou Pauline.

-Erick, meu filho. Esse seu ódio pelo seu pai não vai levar a lugar nenhum. Uma hora vocês vão ter que se falar. Tudo se resolve numa conversa.

-Ah é? Então me explica como se pode suprir dezesseis anos em uma conversa?

-Erick, você sabe que eu nunca te forçaria a fazer nada, mas, por favor, pense mais a respeito.

-Eu já pensei. Já tenho uma resposta, e ela é não!

Ágata se surpreendeu ao ver o ódio que Erick sentia pelo pai. Naquele momento percebeu que deveria fazer alguma coisa a respeito. Não podia deixar que ele passasse a sua vida sem um pai. Ela sabia muito bem a falta que faz.

-Ele é sempre cabeça dura assim, vai se acostumando. –Pauline surpreendeu Ágata.

-Ah, eu só estava examinando essa planta....

-“Ah, eu só estava examinando essa planta....” Oh! Bromélias! E de brinde uma discussão entre mãe e filho. Mas fique tranquila, não vou te dedurar.

-Obrigada. Eu fiquei preocupada com Erick.

-Todas nós estamos. Meu pai quer muito falar com ele, e esse silêncio do Erick magoa.

-Eu poderia falar com ele. Saber o que o pai dele quer. Talvez assim puder convencê-lo a visitar o pai, quem sabe.

-É, afinal você é a namorada dele, então tem uma carta na manga. –Pauline a olhou com olhos maliciosos. Ágata ficou rubra. Ela não imaginava convencer o Erick por meio de favores sexuais. Isso nunca.

-Família realmente é algo complicado. Erick me contou sobre a sua história. Eu realmente sinto muito. Você a sua irmã devem ser bem próximas, não é?

-Na verdade, não. –Disse Ágata, estranhando o súbito interesse de Pauline pela sua irmã.

-Como assim? Vocês são gêmeas, não são?

-Sim, mas a realidade é bem diferente. Vivemos sobre o mesmo teto, estudamos na mesma escola, e isso já basta.

-Nossa.... –Pauline ficou surpresa.

-Às vezes nem parece que eu tenho uma irmã.

-É uma pena... Mas, se você permitir, eu posso ser sua irmã/cunhada. Se quiser, é claro.

-Eu adoraria.

-Que ótimo. Taí o começo de uma bela amizade. –Pauline disse, abraçando-a.

-Que bom que vocês estão se dando bem. –Estela disse, aparecendo na sala. –Desculpe ter roubado Erick de você um minutinho. Agora, eu quero falar com você.

-Tudo bem. O que quer saber?

-Na verdade, eu tenho uma proposta.

-Que tipo de proposta? –Ágata quis saber, novamente curiosa.

-Bem... Erick disse que o seu sonho é se tornar médica. Estamos precisando de voluntárias na pediatria. Sabe, as crianças andam tão tristes...

-Deve ser porque um hospital não é bem a Disney... –Erick comentou.

-Eu adoraria! Meu sonho é me tornar uma pediatra.

-Que ótimo! Eu vou encaminhá-la, e digo quando você poderá começar com as visitas. Muito obrigada, Ágata.

-Eu que agradeço!

-Você faz jus ao seu nome. Significa boa, bondosa. –Estela comentou. –Pauline, filha, venha me ajudar na cozinha. –Ela ordenou. Pauline a seguiu, deixando o casal a sós na sala.

-Minha família te adorou.

-Também as adorei. Mas, você não acha que está faltando algo?

-Não, não. Eu tenho tudo que eu preciso aqui. –Ele disse, beijando-a.

Ágata pensou em falar sobre o seu pai, mas decidiu que ainda era cedo. Mas ela precisava ajudá-lo. Tudo que ela queria era que Erick fosse feliz.

*****

Evellyn perdera a conta de quantas vezes tentou ligar para Madison, mas sempre caía na caixa postal. Ela não tinha certeza de onde ficava a casa de Alex, mas precisava ir. “Se Madison não estiver lá, ele com certeza sabe onde ela está”, pensava ela.

Chegou até o endereço. Havia um caminhão de mudanças estacionado bem na frente. A garagem estava aberta e tocava Bad Girls –M.I.A no carro. Era a música preferida de Madison. Ela logo avistou uma figura usando um micro short jeans rasgado. Sem dúvida, era Madison.

-Madison, Madison! –Evellyn gritou e correu ao encontro da amiga.

-Eve? O que você está fazendo aqui? –Madison parecia surpresa.

-Sua mãe está louca atrás de você. O que aconteceu? Para onde está indo?

-Não dá para eu continuar naquela casa. Minha mãe quer controlar a minha vida toda. Alex vai sair da cidade e eu vou junto. –Evellyn recebeu a bomba.

-Você o quê? Não! Não! Você não pode ir! Não com ele! Seu lugar é aqui, junto da sua família!

-Qual é, Evellyn! Que hipocrisia é essa agora? Você como ninguém sabe o que é isso.

-O que tá acontecendo aqui, Madison?! –Alex surgiu com algumas caixas, gritando como sempre. Sua voz parecia o som de um soco.

-Mad, escuta só. Você não sabe o que está fazendo. Seus pais não vão sossegar enquanto não te encontrarem. Você ainda é menor, não pode sair assim.

-Tenho idade o bastante para pedir emancipação.

-Mas juízo nenhum na cabeça!

-Cale a boca, Evellyn! Eu vou e você não pode me impedir! E se você contar, eu vou para bem longe, aonde jamais irão me encontrar! –Evellyn percebeu que a amiga estava “alterada”. Ela não aguentava mais, não iria ver a sua melhor amiga fugir com um monstro e estragar a sua vida. Já havia aguentado as loucuras dela por muito tempo em silêncio.

-Madison, não vou ficar plantada aqui vendo você acabar com a sua vida aos poucos. Não consigo aceitar que você esteja fugindo com um cara que de desrespeita, te espanca, te faz de escrava... Se você algum dia foi minha amiga de verdade, volte e largue ele. É a minha amizade ou Alex. –Ela deu o seu ultimato.

-Olha aqui eu já cansei dessa baboseira aqui! Evellyn, eu vou te dar uma lição que você nunca vai esquecer. Nunca, nenhuma mulher vai levantar a voz para mim. Eu sabia que Madison não devia se misturar com você. Agora você vai ter tudo o que merece. –E ele avançou para cima de Evellyn, apertou seus braços com muita força e lhe deu um soco. Evellyn caiu ao chão, apavorada.

-Quero ver o que você vai arrumar agora que não tem o seu Hank para te defender.

-Eu nunca precisei de homem nenhum para me defender, e eu não tenho medo de você, seu demônio!

-Agora já chega! –Ele disse, com as mãos fechadas em punho. Madison agarrou o seu braço.

-Alex, não! Não a machuque! Deixe-a em paz!

-Cala a boca, Madison! Você não manda em mim! –Alex gritou, empurrando Madison com toda a força para o carro. Com a força do impacto ela também caiu no chão.

-Madison, pelo amor de Deus... –Evellyn suplicava para que a amiga tomasse juízo.

Alex entrou no carro resmungando, e Madison se viu dividida entre a sua antiga vida e a nova, que ela não teria certeza se seria a melhor coisa a fazer. Mas ela não podia mais viver seguindo ordens.

-Sinto muito, Eve. Saiba que você sempre será a minha melhor amiga, mas eu tenho que ir. Preciso ir. Quero ir. –Ela se levantou e encarou Evellyn face a face.

-Então, sinto muito Madison, mas você morreu para mim. –Evellyn disse, enquanto sentia o calor das lágrimas rolando em seu rosto.

Madison entrou no carro, e Evellyn olhou-o até sumir no horizonte. Lembrou-se da primeira vez, na quarta-série quando conheceu Madison. Ela nunca poderia imaginar que sua amizade poderia ter chegado aquele ponto. Iam naquele carro todas as confissões e desabafos, as primeiras descobertas, e junto, ia um pedaço de Evellyn, e para sempre a sua preocupação. Ela encostou-se no carro e apenas esperou que as lágrimas viessem em abundancia.

Notas finais
Meio tenso esse final, né? Espero que tenham gostado. Não esqueçam de comentar. Beijinhos e até a próxima! xD