Entre Céu & Mar

6 Um gigante adormecido desperta


Notas iniciais
Como sempre, mil desculpas pela demora, mas provas finais e outros motivos não me deixaram escrever.
Espero que gostem!

“A morte vem de repente, porém, tarda em ir.”

Depois de longos minutos, seguido pelo caos que havia se formado, a polícia finalmente havia chegado ao local. Interditaram a cena do acidente, tentando sem êxito, afastar os olhares curiosos. Alguns policiais conversaram entre si, e analisavam a cena e o corpo diante deles falava por si. Outros dois tentavam conversar com a família, tirar algumas informações sobre a vítima, mas estava claro que no estado emocional que se encontravam , eram incapazes de falar sobre qualquer coisa. E havia mais um policial, este anotava tudo que o rapaz envolvido no acidente falava, ou berrava. Também não se encontrava muito bem, ou talvez o efeito do álcool não tivesse passado.

Depois de meia hora, os curiosos enfim deixaram o local, cada um seguindo o seu rumo. Solange levava o seu pai de volta para a casa, estavam desolados, enquanto viam o corpo de Patrick sendo carregado. Evellyn sabia exatamente o que estavam sentindo. Ela viu, embora que todos naquela hora tentaram impedi-la, ela viu o corpo de seus pais, e fora traumático. No estado em que se encontravam, era quase irreconhecível. Aquela imagem a tormenta até hoje, o que desencadeou todo aquele trauma. Ela ainda sentia-se culpada por ter deixado sua irmã, uma garota ingênua, sofrer sozinha. Sentiu que aquela era a mesma sensação que estavam sentindo agora.

Hank também estava chocado, deu para notar quando se despediram. A noite já chegava, e ela não via a hora de chegar em casa, tentar esquecer a cena que insistia em permanecer na sua mente. E ela revivia várias e várias vezes, ainda podia ouvir o grito histérico de Solange, ecoando sem parar. A cada estava silenciosa, provavelmente não teria ninguém em casa, achou melhor assim, pois não queria explicar porque ficou fora por tanto tempo. Foi direto para a cozinha, onde sua irmã se encontrava. Ágata estava em frente à janela, cantarolada despreocupada, enquanto regava alguns vasinhos de plantas. Virou-se de repente, e quase derrubou o vasinho em suas mãos, ao se deparar com Evellyn.

-Meu Deus, Evellyn! Nem vi você chegar! O que aconteceu? Parece que viu um fantasma! –Evellyn apoiava a cabeça nos braços, estava pálida demais para alguém que passara a tarde toda na praia.

-Bem, talvez eu tenha visto um.. –Ágata lhe deu um copo d’água.

-Como assim? O que houve?

-Bom, eu estava na praia.. E então.. Foi tão de repente.. Muita gente aglomerada, um acidente de Jet – Esqui, o corpo estendido na areia.. Foi horrível! –Ágata processava as palavras da irmã.

-Que horror! E você conhece a vítima?

-Não.. Seu nome é Patrick eu acho. Era conhecido de um amigo meu. Eu vou tomar um banho, relaxar um pouco, tentar esquecer o que eu vi. Amanha a cidade toda vai comentar sobre isso. –Ela disse, retirando-se. “Ela tem razão”, pensou Ágata. Já vira aquele filme antes, e dessa vez não seria diferente.

***

Dito e feito. O fim de semana havia passado, e com ele, vinham também os novos boatos, afinal, quando acontece uma tragédia, ninguém se preocupa com os verdadeiros detalhes, de fato. Estão ocupados demais tirando suas próprias conclusões precipitadas.

Evellyn não estava nem aí para os comentários de seus colegas, afinal de contas, ela tinha visto a cena toda, e sabia que aquilo era pura babaquice. Procurou então por Madison, a fim de fugir um pouco do assunto. Ela avistou Madison logo na entrada, e do seu lado, quem mais poderia ser: Alex. “Arg! Eles estão se tornando um daqueles casais insuportáveis, que nunca desgrudam um do outro.” Pensou em procurá-la em outra hora, mas notou que discutiam, o que não era novidade. Aproximou-se um pouco mais, o bastante para pegar o fim da conversa:

-Fica frio Alex! É só até os meus pais desencanarem e devolverem o meu carro! –Madison suplicava pela sua compreensão.

-É bom que isso seja rápido, porque eu não vou gastar minha gasolina todo dia com você! Vai ser bom você andar um pouco a pé, quem sabe não emagrece um pouco!- Ele disse, por fim. Sua foz era tão grossa que amedrontava qualquer um. Irritado, bateu a porta de sua caminhonete verde-réptil com força, dando uma arrancada forte. Madison olhava para os céus, suplicava por paciência. Respirou fundo, virou-se, surpresa ao dar de cara com Evellyn.

-Eve! Bom dia!-Ela disse, tentando disfarçar o constrangimento.

-Oi Madison, o dia não parece ter começado muito bem para você.. O que foi desta vez? –Evellyn foi direta.

-Nada com o que se preocupar. Meu carro.. Bem, ele está no concerto...

-Bateu com o carro outra vez?!

-Como você faz isso?! Arranca a verdade apenas com os olhos!

-Madison, quando e como você bateu com o carro?

-Ah, é uma longa história. Estava voltando da casa do Alex, e bati com o carro, estava um pouco bêbada..

-Outra vez o Alex, será que você não percebe que ele só te traz problemas?

Evellyn só queria ajudar a amiga, vendo a livre o quanto antes de Alex, porém, Madison estava cansada demais para ter aquela conversa.

-É complicado, você não entenderia, mas não é o amor que me mantém junto de Alex.. –Evellyn a olhou, surpresa, pronta para começar um interrogatório.

-Mas, e aí, ficou sabendo do acidente? –Madison mudou a rota da conversa, dando aquele assunto por encerrado.

-Pior.. Eu estava lá quando tudo aconteceu.

-Sério?! E você só me conta agora? Como que foi? Teve muito sangue? Disseram-me que ele estava horrível. Por que você estava lá na hora certa? Aliás, boa pergunta essa: O que você estava fazendo na praia sexta, se o tempo estava uma porcaria?

-Madison! Você devia seguir carreira policial, sabia? Eu estava com o Hank... Droga! –No momento, Evellyn havia se esquecido completamente do que Hank havia lhe pedido.

-Não acredito que o cachorro do Hank está na cidade? E andando de boa por aí! Ah quando o Alex souber disso... –Madison puxou o celular do bolso, e já estava discando o número, quando Evellyn arrancou o objeto de sua mão, violentamente.

-Por nossa amizade Madison! Não conte ao Alex! Hank está fugindo dele! Ele tinha os seus motivos!

-Eu sei que ele estava fugindo! E que belo motivo ele tinha, hein? Uma fuga romântica, que meigo! Não sabia que estava tão sério assim! Quer dizer que você é da mesma laia dele agora é?

-Eu não sei de nada! Você sabe e não quer me contar! Pensei que não havia segredos entre nós duas!

-Você é uma garota esperta, Eve. Logo irá descobrir. –Madison deu o assunto por encerrado, caminhando em direção ao corredor, no exato momento em que o sinal tocou.

***

Aquela manhã fora uma das mais longas, ao menos para Evellyn. Como não conseguia de maneira nenhuma prestar atenção à aula, ela ligou seus fones de ouvido, e fugiu daquele mundo o qual não se encaixava. O professor realizava algumas perguntas, e como sempre, seu alvo preferido era Evellyn:

-E então Evellyn, qual é a resposta?-Evellyn estava quase cochilando, foi pega de surpresa. Todos os olhares virados para ela. Sentiu-se enrubescer.

-O senhor poderia repetir a pergunta, por favor? –Ela disse, inocentemente.

-Ninguém vai repetir coisa nenhuma. Evellyn, seu esforço escolar é realmente vergonhoso. Mas, em toda a família de grande estirpe, há um gene ruim. Então, Ágata, qual é a resposta correta? –Evellyn sentiu o rosto queimar, ouvia algumas risadas contidas. Desejou com todos os esforços que a irmã dissesse a resposta errada. Mas era óbvio que ela não faria isso, Ágata tinha a necessidade de ganhar sempre.

-Muito bem, Ágata!

O professor conhecia bem cada ponto fraco dos alunos. E não poderia ter poupado Evellyn dessa vez. Ele se virou para o quadro, enquanto Evellyn o encarava, desejando-lhe uma morte lenta e dolorosa, ao som de Another Brick in The Wall.

O sinal enfim tocou, anunciando o término da última aula. “Enfim, liberdade.” Pensou. Só queria um pouco de paz, mas não teria nem tão cedo. Madison já vinha em sua direção:

-Eve, meu anjo, se eu te pedir um favorzinho, você faz pra mim?

-Depende, Madison. O que você quer agora, hein?-Evellyn ainda estava irritada.

-Por favor! É só uma carona até a academia do Alex!

-Alex tem uma academia agora? Que droga!

-Eu sei que você odeia academias, mas mesmo assim, você nem precisa entrar lá! Por favor!

-Ai! Tudo bem! Anda, vamos lá!-Evellyn acabou cedendo.

Madison mostrou-lhe o caminho até a academia. Ela não era muito grande, mas podia denominar-se promissora. Ela lhe explicou depois que Alex era sócio. Evellyn pegou se perguntando de onde Alex tirava dinheiro, se nunca trabalhava, e não tinha família. Ao menos o que sabia.

-Você não quer entrar mesmo? –Perguntou Madison, sua voz parecia transparecer medo.

-Não, é melhor eu ir para casa agora. –Evellyn voltou-se para a rua, enquanto Madison entrava na academia. Já estava ligando o carro quando escutou passos rápidos e uma puxada no ombro.

-Eve! Você tem que ver isso! Depressa! –Intrigada, Evellyn lhe acompanhou. A princípio ouvia-se uma discussão, tamanha eram as palavras hostis e o volume das vozes. Todos na academia pararam para assistir a briga. Evellyn reconheceu a voz de Alex e Hank. Sentiu o corpo inteiro gelar, e, agindo por puro instinto, correu para ver o que estava acontecendo.

-Como é que é hein, playboy?Some assim do nada e eu? Nem a cor do dinheiro vejo! – Alex mantinha Hank contra a parede, sufocando-o apertando cada vez mais o seu pescoço. Hank sentiu um misto de nervosismo e vergonha ao ver Evellyn. Fez o máximo de força para se livrar das mãos de Alex.

-O seu papai tem grana! Já era para ter pagado há muito tempo! –Alex fez um gesto brusco, pronto para o soco certeiro.

-Hank!-Evellyn gritou, apavorada, e no momento de adrenalina, meteu-se no meio da briga.

-Eve!Não!-Madison tentou impedi-la, mas já era tarde. Ela viu o exato momento em que Alex levantou a mão para Evellyn. Ela conhecia bem o peso daquelas mãos, e não deixaria que ele fizesse o mesmo com sua amiga. Encheu-se de coragem e quando abriu os olhos, estava segurando firme o braço de Alex. Ele a fitou diabolicamente, antes de jogá-la no chão.

-Madison!-Evellyn correu para ajudar a amiga. Foi o momento certo para Alex acertar um soco no rosto de Hank. Aquilo foi o suficiente para desencadear toda a ira dentro dele. Foi tomado por um ódio tão grande, que nem viu a hora em que deixou Alex não chão. Tirou um envelope do bolso:

-Tome a porcaria do seu dinheiro! Pra mim chega! Cansei disso! –Hank rasgou o envelope, e jogou todo o dinheiro em cima de Alex. Antes de sair, pôde ouvir Alex não chão, gozando:

-Eu te conheço Hank!Não dou uma semana, e você vai voltar!

Hank deixou a academia com os nervos fervendo. Estava furioso, morrendo de ódio de Alex. Jurou ali mesmo que nunca tornaria a lhe procurar novamente, ou suas “mercadorias.” “Irei dar um jeito nisso,” pensou. Ele estava sentado na calçada, cabisbaixo, quando notou a presença de Evellyn, bem a sua frente. Ela ainda tinha os olhos assustados.

-Hank, está tudo bem? O seu olho.. –Hank não havia sentido dor até ela falar.

-Isso não é nada, daqui a alguns dias passa.

-O que aconteceu, afinal? Você não o pagou?

-Sim... Fui lá para isso mesmo. Mas Alex não é um cara de muitas conversas, e logo que me viu, partiu para a briga.

-Fiquei assustava... Não sabia o que fazer... Madison jogada no chão..

-Eve.. –Ele trouxe o seu rosto para mais perto do seu. –Quero me desculpar pelo que você viu hoje, eu sou super contra violência, mas ele ia acabar me arrebentando..

-Está tudo bem Hank, pelo menos isso acabou.

-É.. Assim espero. –Hank abriu um sorriso tímido, e puxou-lhe para um beijo. Havia uma pontada de dúvida em suas palavras, e Evellyn achou que aquele seria o momento perfeito para lhe interrogar sobre a origem da dívida. Ela tinha suas suspeitas, mas achava a ideia absurda demais.

-Eu ia ligar para você agora mesmo. Hoje é o velório de Patrick, eu preciso ir, dar uma força para eles, mas não consigo lidar muito bem com esse lance todo de morte sozinho.. Queria saber se você gostaria de ir comigo?

Evellyn recusou de imediato.

-Por que não?

-Porque eu detesto velórios. E, aliás, nem conheço a família direito, nem ao menos cheguei ver o Patrick vivo, seria muito inconveniente.

-Isso não é desculpa, não seria inconveniente nenhum, eles não são assim. E, aliás, eu também não cheguei a ver o Patrick totalmente vivo.. Todas as vezes que nos encontramos, ele estava caído de bêbado, e parecia um zumbi... Por favor!

-E as roupas? Acabei de sair do colégio, não acho que sejam adequadas. –Hank a olhou dos pés a cabeça, Evellyn usava uma blusa vermelha de alças, e com um tecido fino preto por cima, calça jeans e all star.

-Acho que está mais do que adequada, anda, para de frescura!-Evellyn acabou cedendo.

-Ok então! Eu vou.. Que insistente você é.

***

No velório, havia mais gente do que era imaginado. A maioria, só estava lá por curiosidade, ou apenas por educação. Poucos se importavam mesmo com a família. O ambiente todo estava decorado com velas e lírios roxos, havia fotos de Patrick espalhadas por todo o canto. Ao centro, uma enorme coroa de flores, e o caixão. O pai não saia de lá. Solange estava sentada no último banco, a cada segundo alguém ia cumprimentá-la, e a todos respondia com um sorriso desanimado.

-Sol! –Hank e Evellyn se aproximaram. Hank a abraçou forte.

-Como você está?

-Já estive melhor, mas vou ficar bem. –Ela respondeu, só agora se dando conta da presença de Evellyn.

-Ah!Olá Eve.. Obrigada por ter vindo. Desculpe não ter te cumprimentado. –Solange a abraçou forte. Sua voz estava falha.

Um homem de terno subiu ao altar, dando início a cerimônia. O pai só saiu de perto do filho para que ele pudesse enfim começar. Todos ficaram em silêncio, e tomaram seus assentos. Evellyn e Hank se sentaram ao lado de Solange e de seu pai. O homem então começou a falar:

“-A morte sempre meche muito com os nossos sentimentos. É repleta de mistérios, e talvez seja essa a razão pela qual a tememos muito. Não podemos adivinhar o dia em que ela nos acometerá. Somos todos mortais, e é claro que todos nós vamos morrer um dia. Por isso devemos viver de modo que nossa presença seja notada, viver de sonhos, e fazer o máximo para torná-los realidade. Nunca deixar nada para amanhã, porque talvez possa ser tarde demais.”

Um gemido quase imperceptível chamou a atenção de Evellyn. Notou que Solange chorava. Esta, num salto deixou o seu lugar bruscamente, e pôs-se em direção da saída, atraindo os olhares de todos. Automaticamente, Evellyn a seguiu, sem entender direito o porquê, mas sabia que era o certo a fazer. Encontrou Solange na escadaria, debruçada em lágrimas. Evellyn sentou-se ao seu lado, coberta de empatia. Afagou os seus cabelos.

-Conte-me tudo que está guardado aí. –Solange a olhou, um pouco receosa. Evellyn ainda era uma estranha para ela, não sabia nada sobre ela, mas sabia suficientemente que ela entenderia a sua dor.

-Aquela sala está cheia de hipócritas! Eles nem conheciam o Patrick, apenas fingem se importar, mas, mas...

-Mas na verdade, eles não fazem ideia de como é forte a dor que você está sentindo, e não se importam como você está de verdade. Só dizem “sinto muito”, ou “meus pêsames”, por educação. –Evellyn completou o seu desabafo.

-Eve.. Olhe só para mim, chorando como uma menininha abandonada. Sua perda foi bem maior que a minha, tanto que chega a ser idiota chorar.

-Não pense assim! Não é porque seu sofrimento é menor que o dos outros, que você não tem o direito de desabafar. É tolice tentar achar alívio vendo o tamanho do sofrimento dos outros.

-Você tem toda a razão Eve. Mas então, o que eu devo fazer agora?

-Chore. Só chore. Porque ninguém foi feito para ser forte o tempo todo.

Solange sorriu, o primeiro verdadeiro em semanas. Deitou sua cabeça sob o colo de Evellyn, enquanto permitia que as lágrimas rolassem, sem culpa.

***

As semanas passaram depressa, levando consigo todos os boatos. Depois de alguns dias, ninguém mais falava sobre o acidente, a agora deveria estar comentando sobre a filha de alguém que estava grávida, ou sobre quem estava envolvido com drogas, ou sobre qualquer coisa que ousasse modificar a imagem de paraíso daquele lugar.

Era uma noite completamente normal de quarta-feira. Kate arrumava a mesa para o jantar, Ágata tocava o piano, e Evellyn se concentrava em seus desenhos.

-O jantar está servido!-Kate anunciou. Elas se dirigiram à mesa. Tudo estava perfeitamente normal, mas parece que quando tudo costuma ir bem, a desgraça bate à porta.

E como se adivinhassem o momento perfeito, a campainha tocou.

-Quem pode ser a essa hora?-Ágata estranhou.

-Vocês convidaram alguém? –Kate perguntou. As duas negaram.

-Deve ser o Connor ou alguma testemunha de Jeová. –Evellyn supôs.

-Vá atender Ágata, e conquiste as testemunhas de Jeová com a sua bondade. –Disse Kate, irônica. Ágata foi atender a porta, e surpreendeu-se ao dar de cara com três policiais.

-Boa noite, senhorita. Deve ser a Ágata, não é? –O mais alto deles, o moreno de olhos verdes disse.

-Boa noite, sou eu mesma. Algum problema?

-Talvez. Viemos aqui lhes comunicar de uma “novidade” não muito boa. A responsável de vocês se encontra em casa?

-Está sim, por favor, entrem. –Ágata estava nervosa. O que a polícia queria com elas? Kate e Evellyn observavam os policiais, sem entender nada. Todos os olhares se viraram contra Evellyn.

-Que foi?! Eu não fiz nada dessa vez! –Os policiais riram.

-Fique tranquila, não viemos prender ninguém.

-Então o que vieram fazer aqui, afinal? –Kate foi curta e grossa.

-Viemos lhes comunicar de algo que vocês têm todo o direito de saber.

-Tem a ver com o acidente de Patrick?-Evellyn perguntou, preocupada.

-Relativamente, podemos dizer que sim.

-Vá direito ao assunto senhor, não gosto de explicações pela metade. –Kate era fria como gelo. Nunca gostou de policiais. O moreno foi o primeiro a falar.

-Claro, como quiser. Como íamos dizendo, realizamos algumas investigações depois do acidente. Esse foi mais um dos muitos acidentes causados pelos mesmos veículos da sua empresa. Um deles vocês devem se lembrar com bastante dor, ocorrido há três anos atrás... –Elas mantiveram silêncio. Por que tornar a tocar nesse assunto agora?

-Pois bem, os inúmeros acidentes se tornaram mais do que simples coincidência, e adquirimos um mandato, permitindo uma investigação mais profunda. O caso de Patrick foi mesmo um acidente, ele estava bêbado, e não tinha habilitação, portanto, não deveria estar dirigindo. Mas nossas investigações nos levaram a um caso mais antigo, que estava adormecido por anos no arquivo morto: a morte de seus pais.

Ágata arrepiou-se. Já tinha lido muitos romances policiais, e sabia que eles não teriam as procurado em vão. Sabia que aí tinha alguma coisa, e não era nada bom. Percebeu que eles já não usavam mais o termo “acidente”. Eles continuaram:

-Com o número de provas novas que conseguimos coletar dessa vez, o caso foi tirado do arquivo morto, e agora se tornou ativo.

-O que vocês querem dizer afinal? Alguém matou o meu irmão e a minha cunhada?! –Kate demonstrava indignação, impaciência.

-Lamento por receberem a notícia assim, tão de repente. Mas é verdade. Temos quase absoluta certeza de que o acidente de Andrew e Scarlet Baker não foi por acaso, ele foi planejado.

-Não posso acreditar! Vocês estão querendo dizer que... Que... Alguém queria meus pais mortos?! Por quê?! –Ágata mal conseguia respirar.

-Sim. –Eles responderam em coro.

-Mas como vocês só descobrem isso agora?! Todos estes anos fomos enganadas! –Kate buscava compreender o que estava acontecendo.

-Entendemos a sua indignação, mas vale lembrar que naquela época não tínhamos mandatos suficientes para uma investigação decente. A cena do crime literalmente havia se explodido, só nos restavam os corpos, e olhe lá. Viemos aqui porque achamos melhor vocês saberem desde já. E não se surpreendam se aparecermos aqui para interrogá-las, ou coletar amostras de DNA por exemplo. E vamos sim querer interrogá-las, principalmente você Evellyn, que escapou da primeira vez.

-Resumindo: Continuaremos a trabalhar no caso, até encontramos o culpado. Obrigada pela atenção. Boa noite. –O louro mais novo disse.

Os policiais entraram na viatura, deixando para trás uma família agora desolada. Elas não podiam acreditar no que acabaram de ouvir. A dor que as acompanhou durante esses três anos parecia agora mil vezes pior, misturada ao ódio. Porque agora sabiam que nada foi por acaso, havia um culpado, alguém responsável por toda aquela dor. Alguém havia tirado seus pais de suas vidas. Agora podiam culpar alguém.

Eles haviam tocado na ferida que já cicatrizava, despertando um gigante adormecido.

Notas finais
Não esqueçam de comentar sobre o que acharam..