Entre Céu & Mar
9 Interrogatórios
Notas iniciais
Eu realmente espero que gostem!
Naquela mesma noite Ágata não conseguira pregar os olhos, tamanha era a sua alegria. Ainda podia ouvir seu coração bater freneticamente, e era engraçado como o mundo e as coisas mais simples haviam adquirido uma forma diferente. Charlie, assim como ela também não conseguira pregar os olhos, mas por motivos diferentes. A sua mente fervia de vários pensamentos, e no final, decidiu desistir. Ele percebeu como Ágata andava ultimamente, um sorriso e olhar diferentes, não era a mesma Ágata de antes. Parecia mais feliz.
Na manhã seguinte tudo parecia normal. Evellyn devorando seu café da manhã, Kate cantarolando Amy Winehouse, e o noticiário da TV apenas para quebrar o silêncio. Ágata sentou-se à mesa, o sorriso ainda permanente em seu rosto.
-Ágata... Quer café? –Perguntou Kate, tirando-a do transe.
-Sim. –Ágata estendeu a xícara. Kate lançou-lhe um sorriso.
-Quero que me conte tudo depois!- Kate disse, sussurrando, Ágata assentiu.
E de repente, como um foguete, Connor chega, deixando para o passado a paz que ate então reinava. Ele batia nas gavetas, dispensas, geladeira, e qualquer coisa que aparecesse à sua frente. Seu rosto tão vermelho quanto o seu cabelo, ele rugia e praguejava.
-Mas que coisa, Connor, o que você procura tanto, hein?!
-Alguma coisa alcoólica, ou será que a miss ressaca aqui já acabou com tudo?! –Ele disse, referindo-se à Evellyn. Ela amaldiçoava todas as manhãs que passava com Connor, pois ele sempre sabia como deixá-la com o estômago embrulhado.
-Desde quando você bebe tão cedo?
-Desde quando isso é da sua conta, Kate? –Connor respondeu, como um rosnado. As duas meninas esperavam alguma ação da tia, porém o que ela fez foi apoiar-se em seus ombros, numa tentativa de acalmá-lo.
-Eu sei que você está nervoso com tudo isso, nós também estamos. Nervosos, indignados. É difícil aceitar a ideia de que alguém fez isso. Mas temos que nos acostumar, vai ficar tudo bem, e logo irão pegar essa pessoa. –Ela disse no tom de voz mais brando que podia ter. Connor não respondeu nada, e a olhava como se ela fosse um carneirinho, e ele, um lobo. Ágata e Evellyn se entreolhavam, como sempre fazia ao compartilhar o ódio mútuo que sentiam por aquele homem.
-E, falando nisso, não esqueçam meninas, é hoje. –Kate disse. As irmãs estavam tão absortas que esqueceram que dia era aquele. Kate dizia que a polícia só queria “conversar” um pouco, mas elas sabiam quais perguntas eles faziam.
-Por que temos que fazer isso outra vez? Só a Evellyn não participou!
-Mas agora é diferente, creio eu. Naquela época todos acreditavam que se tratava de um acidente, agora as coisas são diferentes. –Permaneceram em silêncio.
-Eu... Preciso ir também? –Perguntou Connor, apavorado.
-Não, por enquanto eles não disseram nada. Mas com certeza irão querer ouvir os funcionários, inclusive você. Não se preocupe, é só o trabalho deles. –Kate disse.
-E as meninas também irão?
-Não temos escolha mesmo. –Respondeu Evellyn.
-De qualquer forma, hoje eu vou buscá-las no colégio, quanto mais cedo fizermos isso, mais cedo acabamos.
***
Ágata recebeu seus amigos com o mesmo sorriso que assombrara Charlie na noite do parque. Um sorriso novo, que somente ele e Anna sabiam a sua origem. Ao ouvir a notícia, Sofia surpreendeu-se, feliz pela amiga. Anna fingiu a mesma surpresa, achou melhor não contar que ela também estava lá. Ágata nunca desconfiaria como Charlie estava naquela noite. Esse agora era um segredo apenas dos dois.
-Que maravilha, Ágata. Finalmente, achei que você iria deixar esse passar! –Dizia Sofia.
-Quero todos os detalhes depois. –Disse a cínica Anna.
-O.k, contarei tudo depois! –Ágata era a alegria em pessoa. Mais adiante uma figura desolada a observava de lado.
-Licença meninas. –Ela disse indo ao encontro do amigo.
-Não sei por que você perde tanto tempo com esse nerd! –Sofia disse alto o bastante para que Charlie ouvisse. Nessas horas Anna sentia o instinto de defendê-lo, mas não queria correr o risco de ser igualada a ele.
-Charlie, está tudo bem? –Ágata perguntou, seus olhos procuravam os dele, preocupados.
-Vai ficar, espero.
-Quer me contar algo?-Por um segundo, ele tinha tudo na ponta da língua, mas como sempre, as palavras morriam antes de adquirirem som.
-Não, melhor você não saber. Isso não importa mais. –Ele disse. Charlie se sentia ainda pior em ver Ágata. Ela estava mais irresistível hoje do que nunca, seu perfume exalando, adocicado. Usava uma blusa e uma saia na altura da cintura. Charlie não pode resistir em contemplar suas pernas de fora, e naquele momento se deu conta de que ele não servia para ela.
-Por que você não me diz o que está acontecendo, Charlie? Você tem andado tão estranho ultimamente. –Dizia ela, querendo abraçar o velho amigo.
-O que acontece comigo deve ficar comigo. Agora, acho que você vai querer ir ver outra pessoa. –Disse Charlie, apontado para Erick, que se aproximava dos dois.
-Bom dia, anjo! –Disse ele, abordando-a por trás. Ágata nem percebeu quando Charlie se afastou.
-Bom dia meu bem!
-Já estão nessa de nomes carinhosos? Por favor, melosos demais não! Disse Sofia, aproximando-se dos dois, gesticulando uma vela imaginária.
-Ágata, me acompanhe. –Ele disse, retribuindo as meninas um sorriso tímido.
Erick a levou para o canto mais afastado da biblioteca. Não havia ninguém, a não ser pela bibliotecária, que por sinal estava ocupada demais.
-Erick.. O que você...
-Shhh... Silêncio! Estamos em uma biblioteca. — Ele disse, imitando a bibliotecária. –Queria te dar uma coisa. –Ele disse, pegando o pequeno livro de poesias. Ágata pegou o objeto com tamanha felicidade, e cheirou. Tinha aquele cheiro de livro velho, as folhas amareladas, cheiro de memórias. Era uma das melhores coisas do mundo. Havia uma pequena dedicatória:
A mais bela de todas que foi permitido meus olhos a ver,
Gostaria de dizer o que o meu coração grita, porém o amor é um idioma impossível de descrever.
Apenas posso dizer que a namoro há muito tempo,
Tenho sorte em poder te chamar, com todo o coração de
Amor, sua voz é a mais bela canção.
P.S: Seria a pessoa mais feliz deste mundo, se agora, eu pudesse te chamar MINHA namorada. Com amor, sempre seu, Erick.
Mesmo não sendo a mais bela dedicatória do mundo, para Ágata, eram as palavras mais belas. Era sincero. E Ágata não sabia repetir outra coisa senão sim, sim e mais sims, esquecendo-se de onde estava. Abraçou-lhe com ternura, e o beijou ali mesmo, entre aquelas estantes.-AH! Como aquelas estantes tinham história para contar! Era incrível como eram tão diferentes, mas ao mesmo tempo, se encaixavam perfeitamente. O coração segue a sua própria concepção de razão.
***
Evellyn ouvira da boca de ninguém mais ninguém menos que Madison sobre a sua irmã. Em matéria de boatos, Madison era graduada.
-Eu já suspeitava. Não sabia que o McJohnson fazia o tipo dela.
-Sim, e você conhece muito bem a sua irmã.
-Mad, não precisava ser tão irônica.
-E você e Hank? Quando irão oficializar?
-Eu.. Eu sei lá, Madison! -Ela respondeu confusa.
Madison a olhou como quem diz “Bem que eu te avisei”. “Mas do que ela pode falar? Com um namorado daqueles, preferia morrer sozinha”, pensou Evellyn. Madison a fez refletir em um assunto que recentemente lhe incomodava. Ela adorava Hank, e queria passar todo o tempo possível com ele. Mas ele não fazia o tipo compromissado, e não queria estragar algo tão bom, que estava apenas começando. E do que valia o status de namoro? Ela se sentia mais pertencente a ele do que muitos com aliança no dedo jamais sentiram.
-Faz tempo que não saímos juntas Eve, como antigamente.
-Concordo. Mas se o carcereiro do seu namorado me “aprovasse” seria bom. Mas ele me olha como se eu fosse errada demais para você. –Evellyn disse. Madison riu desanimada, pois, naquela altura do campeonato, Evellyn era uma”Ágata” em comparação a ela.
-Esqueça o Alex, vamos sair hoje! Fazer as mesmas coisas, como antigamente. Sinto falta disso.
-Eu também, mas hoje não vai dar Mad, eu tenho que ir a delegacia. –Ela respondeu, com enorme aperto. Também sentia falta da amiga, porém, Madison não era a mesma de antes.
-Entendo... Depois me conte como foi, você sabe. Um dia ainda trabalharei lá!
O último sinal soou, dando fim as últimas aulas. Era hora de enfrentar as autoridades.
-Pode deixar. –Disse Evellyn, em direção a saída.
-Mad? –Ela parou, chamando a atenção da amiga.
-Nada, mas é bom tê-la de volta! –Evellyn disse, e as duas amigas trocaram um último sorriso antes de irem embora.
***
A delegacia não era muito diferente do que representavam na TV. Paredes cinza, sem vida, e algumas poltronas de couro, e policiais andando de um lado para o outro, com sua fonte de energia nas mãos: uma boa xícara de café.
-O café para eles é como espinafre para o Popeye. –Murmurava Kate.
-Srtª Baker, me acompanhe. –Disse um policial, que aparentava ter uns quarenta anos e que não tinha paciência para argumentos. Era um homem de poucas palavras. Kate os acompanhou até uma sala com as paredes igualmente cinzas, onde só havia uma mesa e três cadeiras. Ela já tinha visto lugares parecidos em alguns filmes. Kate mantinha-se serena, sabia que com aquelas pessoas o segredo era tratá-los com igual frieza.
-Para começar, saiba que estamos fazendo de tudo para ajudá-las. Nós, assim como vocês, não descansaremos até encontrar o culpado por trás de tudo isso. Então, é importante que a senhorita relate qualquer coisa, por mais simples que seja talvez nos ajude.
-Eu entendo... Eu não preguei os olhos esta noite, revirando a memória para qualquer coisa suspeita, mas nada...
-Você e o seu irmão eram muito próximos? Mantinham contato sempre?
-Costumávamos ser. Mas então quando comecei a trabalhar e viajar perdemos o contato. Por isso, acho que não ajudaria muito meus relatos nessa investigação.
-Muito pelo contrário, Srtª. Temos bons motivos para acreditar que o suspeito seja um antigo inimigo. Talvez você conheça, e não sabe.
-Andrew não tinha inimigos, que eu saiba. E se tinha, estavam muito bem camuflados por trás da máscara da bajulação.
-E a Sra. Baker?
-O mesmo para Scarlet, mas eu não a conhecia muito bem, então não posso afirmar.
-Kate, lembra-se o que estava fazendo antes da morte de Andrew e Scarlet?
-Humm... Eu estava em Paris, se não me engano, prestes a assinar um contrato de seis meses com uma revista famosa. Lembro que eles adoravam as minhas fotografias. –Ela afirmou com orgulho.
-E de repente, você largou o que mais importava para você, assim, sem pestanejar. Estranho, não acha? –O policial pôs em prática a sua velha desconfiança.
-Foi preciso fazer aquele sacrifício. Minhas filh... Sobrinhas* precisavam de mim. Não era mais a irresponsável que todos conheciam antes.
-Todos ainda temos uma pequena chama do passado dentro de nós. Parece que você se apegou às meninas como se elas fossem suas filhas, não é?
-Amo-as como se realmente fossem, afinal, são do meu sangue, e não me arrependo das minhas escolhas. Nunca me arrependo de nada que fiz.
-Você vivia como uma nômade, a cada ano, um país diferente. Era sempre você e suas fotografias. Acha mesmo que você é responsável o bastante para cuidar de duas adolescentes?
Kate começou a se irritar com o outro policial. Por que estavam fazendo aquelas perguntas? Aonde chegariam com isso? Estavam a chamando de irresponsável, e ela não podia fazer nada.
-Eu tenho certeza! Veja as meninas, estão ótimas, e eu não vejo como isso pode ajudar na investigação.
-Ah claro, e Evellyn é um perfeito clone da tia. Ficamos sabendo aqui sobre suas peripécias. Mas verdade, isso não vem ao caso. O que não entendemos é: Como uma jovem irresponsável e nômade como você, decide largar tudo que mais ama, e logo de brinde a responsabilidade uma família traumatizada e uma grande empresa para manter?
-Por Deus! Meu irmão e a sua mulher haviam acabado de morrer, eu estava desesperada! Duas crianças do MEU sangue precisavam de mim! Qualquer pessoa de bom coração faria a mesma coisa! Pela segunda vez, nunca me arrependo daquilo que fiz. –Kate começava a se exaltar.
-Então quer dizer que o império econômico e todo aquele dinheiro não significaram nada?
-Eu não ligo a mínima para o dinheiro. Não sou como o meu pai e meu irmão, eles sim era materialistas. Eu amava a minha vida, mas também amava meu irmão, e eu sei que ele faria o mesmo por mim! Eu sem que vocês estão acostumados a enxergar sempre o lado ruim das pessoas, e eu sei que eu sou irresponsável, sempre fui! Logo minhas queridas sobrinhas andarão com as próprias pernas, e o meu dever estará cumprido
-Então Andrew só dava valor ao mundo do dinheiro. Sabe de alguém da empresa, ou de outras adversárias que tenha algumas ações suspeitas? . –O policial parecia não ter ouvido nada sobre aquele discurso sentimental.
-Eu.. Sei lá. Eu não seria capaz de notar isso. Ainda creio na bondade humana. –Respondeu Kate, um tanto envergonhada por depois de tantos anos, continuar a mesma menina ingênua.
-É, isso parece bem óbvio, vista de quem a senhorita anda acompanhada. Você e o Sr. Holdem mantêm um relacionamento, não é? Ele costumava ser o braço direito do seu irmão e de sua cunhada.
-Sim, e daí? Agora só falta vocês suspeitarem do Connor! –Respondeu Kate, rindo da suposta situação. Mas o sorriso logo morreu quando percebeu que os policiais falavam sério.
-Ele era o mais próximo dos dois. Ele controlava praticamente tudo naquela empresa. Até as pessoas. Nunca percebeu nada de estranho nele?
-O quê?! Essa é boa. Acho que eu conheço bem o cara com quem convivo! Se quiserem alguma coisa, perguntem a ele, pois eu já disse tudo que sabia. Por que, ao invés de ficar aqui, acusando gente inocente não vão à procura de provas e atrás do assassino de verdade?! Hein?!
-É exatamente o que estamos fazendo. Agora, por favor, a Srtª conhece a saída. Obrigado pelo seu depoimento. Isso é tudo. Manteremos você e suas sobrinhas informadas. –Disse o policial de poucas palavras, apontando para a porta. –Kate saiu festejando por dentro, só pela ideia de não ter que passar mais nenhum minuto naquela sala novamente.
-Preparem-se. –Ela alertou às duas irmãs, que esperavam impacientes pela sua vez.
-Quem é a próxima? –Uma policial de cabelos cacheados esperava impaciente. As duas se entreolharam.
-Sou eu. –Disse Ágata, levantando-se. Embora sua aparência demonstrasse fragilidade, ela era bem forte e corajosa. A vida lhe ensinara a ser assim. E ela conhecia os limites da sua irmã. Queria lhe mostrar que tudo ficaria bem. Evellyn, em resposta, sussurrou um obrigada com o sorriso.
Ágata agora estava na mesma sala fria e morta, e a sensação que tinha era que estava presa à uma armadilha. Sentada à famosa mesa, ouviu atentamente o policial. Ele a olhou dos pés a cabeça, e sorriu, tendo certeza de que arrancaria a verdade mais fácil do que imaginava.
-Bom, para começar, conte-nos como era a rotina em sua casa. Eram uma família harmoniosa, unida? –Disse o policial. Ágata, ingênua como sempre, não havia percebido o sarcasmo em sua voz.
-Bem, vivíamos como qualquer outra família. Momentos felizes, tristes. Brigas, mas no fim, todas as famílias são assim. –Ágata mantinha a voz firme, mas estava nervosa.
-Não tente nos enrolar. Sabemos das brigas. As paredes têm ouvidos. E os vizinhos, uma boca do tamanho do oceano. –“Então por que perguntam se já sabem a resposta?” — Pensou Ágata, mas atrevimento para proferir aquelas palavras, só existia em Evellyn.
-Agora, por favor, a verdade. Disse o policial, demonstrando impaciência. Ágata respirou fundo, e tentou resumir da melhor maneira como viviam. As brigas, a ausência dos pais, a discussão entre os dois, e até aquela vez em ouviu a palavra divórcio. Mas eles não fariam isso. Estragariam a própria imagem. Lembrar de todos aqueles maus momentos era uma tortura, mas talvez isso ajudaria em alguma coisa.
-Um verdadeiro pandemônio, seria a palavra certa para resumir o que a Srtª disse. Os vizinhos deviam estar fartos disso. Alguém próximo a vocês tinha um comportamento perturbado?
-Não.
-Seus pais recebiam ameaças? Em quem confiavam? Como iam os negócios? –Ágata não sabia por onde começar.
-Eu não sei. Meus pais nunca discutiam negócios perto de mim ou de Evellyn. Aliás, nem sequer conversávamos. Algumas vezes meus pais recebiam cartas que logo queimavam, e sempre ficavam nervosos quando chegavam. Eles não confiavam em quase ninguém, acho que Connor...
-Este homem outra vez. Temos que interrogá-lo também. Que cartas eram essas? Isso pode ajudar e muito a investigação. Por acaso se lembra do remetente? Eles chegaram a citar algum nome? Empresa? Qualquer coisa!
-Não, eu cheguei a perguntar, algumas vezes, mas eles sempre me diziam que aquilo não era problema meu. Desculpem-me.
-E o Sr, Holdem, confia nele? –Disse o policial. Assim como as duas irmãs, o policial tinha suspeitas de sobre para não confiar nele.
-Na verdade, não. –Assumiu Ágata, torcendo para que Kate não tivesse escutado, do outro lado.
-Curioso. Ele tem algum comportamento estranho? Alguma vez as ameaçou?
-Sim, não. Eu sei lá. Não gosto de Connor, talvez seja porque eu o conheci no pior dia da minha vida...
-Ou talvez porque saiba de algo e não quer nos contar, por medo.
-O quê? Estão desconfiando de mim?
-Sempre desconfiamos de alguma coisa. Mas se souber de qualquer coisa, tem que nos contar. Será melhor para todos. A cada dia fica mais perigoso para vocês. Nada impede que o assassino ataque novamente. –Ágata arrepiou-se de pavor só de pensar. Por que eles tinham que lembrar? Por que submetê-las a tanto medo, a tanto dever?
-Já disse tudo o que eu sei. E não estou escondendo nada. Podem ter certeza disso. Eu não tenho medo. –Mentiu.
-Tudo bem, senhorita. Já fez a sua parte. Faça o favor de se retirar. –Disse um deles, mostrando a saída. Ágata saiu confusa, mas preocupou-se em manter a expressão aliviada, para não assustar a irmã.
Chegara a vez de Evellyn. Ágata lançou-lhe um olhar confortador, porém sabia que eles pegariam pesado com ela e o seu histórico. Evellyn entrou na sala e logo a reconheceu em seus pesadelos. Sonhava que aquelas paredes se juntariam e a sufocavam, e num segundo estava sozinha, e no outro, seus pais estavam sendo esmagados junto com ela, gritando: assassina! Sentiu que o nervosismo tomava conta do seu corpo, e os policiais também tinham percebido. Mas isso não os impediu de prosseguir:
-Evellyn Baker, dezesseis anos, duas suspensões, vandalismo, três batidas no carro por estar bêbada, identidade falsa, brigas, pequenos furtos...Poderíamos ficar o dia todo nisso, porém, não vamos voltar a acusá-la, porque não tem mais jeito. Está bem óbvio quem é a maçã podre da família! – O policial zombava, tirando-a do sério.
-Aonde querem chegar com isso? Hein? O que querem de mim?
-Vários psicólogos e um “ataque de frescura” nos impediram de interrogá-la. Agora, antes de começar, é bom saber que sabemos a verdade, sabemos a fúria que suas peripécias causavam aos seus pais, e sobre o seu pavio curto. Então, se pensar em mentir, as coisas ficarão bem feias..
-Eu não tenho pavio curto! –Disse Evellyn, bastante enfurecida. Os policiais riram ao ver o quanto aquela situação parecia irônica.
-Engane-se como quiser. Agora, conte-nos exatamente tudo o que sabe. –Ele olhava fixamente os seus olhos. Evellyn ouviu a própria voz sair trêmula, e se odiou por ser tão insegura. Então, relatou tudo que sabia. Todas as brigas (omitindo algumas coisas), as discussões entre os dois, alguns nomes de estranhos mencionados, e tudo que conseguia lembrar naquele ano. A verdade é que todas as lembranças daquele ano pareciam estar escondidas por uma névoa. Evellyn não se recordava de nada, exceto como se sentira. Porém só havia uma coisa que embora ela quisesse muito esquecer não conseguia. Talvez isso fosse parte da sua punição.
Ela não se esquecia das últimas palavras que disse a eles. Seu desejo que se tornara realidade. Ela nunca esqueceria que eles partiram sem saberem que apesar de tudo, ela ainda os amava. Mas citar essas palavras só iria piorar.
-Você, Evellyn, não tem controle sobre si mesma. É capaz de fazer algo e esquecer depois.
-Vamos ver se você se lembra disso. 20 de maio de 2010. Encontraram os corpos. Todos presenciaram a Srtª surtar, gritando frases como: “É minha culpa, eu sou um monstro, eu os matei.” Bem suspeito, não acha?
Sim, eles tinham que fazer isso. Lembrá-la daquele episódio.
-O que vocês estão querendo dizer? Que eu matei os meus pais?Isso é ridículo!
-Se eu fosse você garota, eu mediria mais as minhas palavras.
-Mas você não é eu. Não me conhece. Não conheceu os meus pais. Eu sei que fui uma péssima filha, e o meu “histórico” aqui prova que eu não sou confiável. Mas eu não fiz isso!
-Como pode afirmar com tanta certeza? Ninguém aqui te acusou, a não ser a sua própria consciência.
-Agora, olhe bem para nós: Em momento nenhum de sua vida, numa fração de segundo qualquer, você sequer pensou em querer a morte de seus pais?
-Incapaz de mentir, Evellyn abaixou a cabeça e calou-se, sentindo o princípio de uma lágrima umedecer seus cílios.
-Foi o que eu pensei. Isso é tudo. Qualquer coisa iremos mantê-la informada. Estamos de olho em você Srtª Baker. –Antes que ela deixasse a terrível sala, o policial fez um comentário mudo:
-Sua sorte é que nasceu em berço de ouro.
Evellyn deixou a sala fantasmagórica com a mente perturbada. A tia e a irmã chegaram a lhe interrogar, mas ao julgar pela expressão da moça, podia-se ter uma ideia. E como era de seu costume, ela precisava de alguma coisa, qualquer coisa, que afastasse as lembranças daquele dia terrível.
E lendo a mente dela, como ele sempre fazia, Hank apareceu. Evellyn olhou, agitada, o celular.
“Estou aqui, perto do estacionamento.”
Sem hesitar, ela correu até o estacionamento, afastando-se da tia e da irmã. Hank a recebeu de braços abertos, como sempre.
-O que você faz aqui? –Ela perguntou ainda em seus braços.
-Vim te salvar. E então, me conte como foi?
-Exatamente igual a um episódio de CSI.
-Seja mais clara, por favor.
-Hank, a última coisa que eu quero fazer agora é conversar sobre isso.
-Então o que você quer fazer? –Ele perguntou, tendo como resposta um beijo. Kate e Ágata observavam de longe a cena.
-Humm... Gostei da ideia. Aquela que está nos olhando é a sua tia, não é?
-Sim, é ela mesma. Mas ela não liga. Kate é legal.
-É, ela aparenta ser. Então vamos. –Disse ele sorrindo, abrindo a porta do carro para Evellyn. Kate observava a cena, acenando para Evellyn com uma piscadela.
-Vamos Ágata, sua irmã está ocupada agora.
***
No caminho para a casa, tia e sobrinha foram conversando. Era curioso. Quando as irmãs estavam sozinhas com a tia, eram confidentes. Mas, entre as três, só havia segredo. Elas conversaram sobre o interrogatório, sobre Connor, e as suspeitas dirigidas a ele:
-Tenho quase certeza de que logo irão chamá-lo para o interrogatório também.
Conversaram sobre Erick também. Ágata contou sobre o pedido na biblioteca, e Kate lhe dava ótimos conselhos. Era ótimo para Ágata ter alguém para compartilhar aquela nova alegria. De uns tempos para cá, as duas irmãs não conseguiam imaginar suas vidas sem Kate.
-Por que você não convida Erick para jantar conosco hoje?
-Ele está ensaiando com a nova banda dele. Ensaiam umas três ou quatro vezes por semana. Eles irão tocar semana que vem em uma boate, um aniversário talvez. –Ágata demonstrava aversão à ideia da banda. Achava que aquilo não resultaria em nada. Mas era bom para ele ter o seu momento.
-E você vai?
-Não! Claro que não!
-E por que não? Ágata, agora que você é a namorada dele, terá que apoiar aquilo que ele faz.
-Eu sei Kate. Mas isso não faz o meu estilo. Eu posso apoiá-lo sem precisar ir. Ele é um bom músico. –Ágata disse, afirmando para si mesma que aquele era um plano sem futuro.
-Bem, faça aquilo que achar melhor. –Disse Kate, presumindo onde aquilo iria chegar.
***
Parecia que ia chover, o dia estava nublado e ventava muito. Hank e Evellyn foram para uma cafeteria, esquentar os corpos da maneira que mais gostavam, através do calor humano. Evellyn acabou lhe contando tudo que havia acontecido lá. As perguntas, os policiais que pareciam adorar vê-la nervosa, sem ter o que dizer. Fazendo-a se sentir culpada.
-Não fique nervosa com isso, essa é a tática deles. Fazem a pessoa se sentir culpada, sem ter outra saída senão falar a verdade.
-Como você sabe disso?
-Tenho certa experiência. Acredite se quiser, mas eu já tentei a faculdade de direito. –Ele disse, tirando de Evellyn uma sonora gargalhada.
-Você? Advogado? Como o seu pai? Nunca!
-É, você tem razão em dizer isso. Só me submeti a isso porque o meu pai insistiu. Mas eu não suportei. –Ele disse, meio desanimado. Agora ela entendia porque Hank não continuou com a faculdade.
-Você não tem que fazer nada que não queira, só por obrigação.
-Tem razão Eve, mas naquela época eu estava confuso, e não sabia o que eu queria. Não sabia. –Ele disse, olhando para Evellyn. E naquele momento ela percebeu que Hank não era exatamente como ela pensara. Que apesar de toda aquela marra, ele escondia certa carência. Pensou consigo que ela deveria fazer o pedido. Ela nunca havia se sentido assim, e sabia que ele era especial. Nunca ligou para compromissos, mas agora o que ela mais queria era gritar para todo o mundo que estava com ele.
-Hank, quero te dizer uma coisa... –Ela começou, mas antes que pudesse terminar a sua frase, uma gargalhada lhes chamou a atenção. Um grupo de garotos (todos na mesma faixa etária de Hank) debochavam de algo. Evellyn não entendia por que eles apontavam para ela e Hank.
-Eve, espera um minuto, vou resolver isso. –Disse Hank, sério como ela nunca havia presenciado.
Hank foi ao encontro do grupo, e ao que parecia, eles eram bem íntimos.
-O que vocês estão fazendo aqui?-Ele começou, assustado com a presença dos velhos amigos que não via desde que largou a faculdade e Pauline.
-Que isso hein Hank, largou a faculdade para trabalhar de babá!
-O mundo dá voltas mesmo,hein. De veterana à caloura. Anda regredindo?
-Não, não é nada disso que vocês estão pensando.
-Virou pedófilo agora é, cara? Ou psicólogo pessoal da gêmea problemática?
-Cara.. Quando a Pauline souber que você está namorando uma...
-Galera, dá um tempo! Ela não é a minha namorada!Ok? –Hank tentava se “justificar” sem fazer ideia de que Evellyn ouvira tudo, e esperava em vão que ele a defendesse. Porém, quando ouviu suas palavras, sentiu uma profunda raiva.
Ela estava certa sobre Hank. Ele era como todos os outros. Queria sair de lá o mais rápido possível, enquanto abandonava Hank e suas desculpas. Quando ele notou a sua ausência, já era tarde demais.
***
Tudo que Evellyn não queria naquele momento era ouvir o nome de Hank. Ele continuava a ligar, mas ela desligara o telefone. O caminho a pé até a casa a fez refletir e a tempestade passou a tempo. A única certeza que tinha era que Hank era igual a todos os outros. Na frente dos amigos se mostrava um idiota qualquer. “Então ele tinha vergonha de mim...” Ela pensou, lembrando de suas palavras, das gozações que seus amigos faziam, fazendo-a parecer uma garota mimada e revoltada. Mas ele a conhecia, ele sabia de coisas que ela não havia contado à ninguém. Mas não a defendeu, não teria a coragem.
Chegou a casa a tempo para o jantar. Seu rosto sereno não revelava indício algum da ira que escondia por dentro. Todos estavam reunidos à mesa, a comida estava posta, porém, o prato principal como sempre era o silêncio. A pedido da tia, as meninas não falaram sobre a suspeita da polícia sobre Connor, mesmo quando o mesmo perguntou. Embora continuasse apreensivo, Connor parecia estar mais confortável com a situação, e Kate o queria assim. Evellyn sentou-se a mesa, taciturna, não tinha ânimo para nada. Aquela realmente tinha sido uma tarde cansativa.
-Nossa... Que ânimo todo é esse? –Connor começou, com a velha implicância de sempre.
-Isso não é cara de quem passou a tarde toda com aquele surfista maravilhoso! –Kate disse, inocentemente.
-Evellyn namorando? Quem é o corajoso?
-Eu NÃO estou namorando. Esqueçam isso. –“Não, por favor, não comecem com esse assunto!” Ela suplicava.
-Hank Collins. Ah Evellyn, por favor. Pelo que eu e Ágata vimos hoje, isso está bem longe de ser somente uma amizade.
-Aquele Hank? Filho do Sr. Collins? O advogado? Ah, era de se supor. Ele é bem da sua laia mesmo. Aquele rapaz não presta, nem para a faculdade. Conheço o joguinho dele. Já fiz o mesmo na idade dele. Cara mais velho, moça do colegial. Provavelmente irá te enrolar até conseguir o que quer, se já não conseguiu. Provavelmente ele tem uma namorada. –Connor não podia evitar a situação para colocá-la para baixo. Parecia querer seguir a função de Andrew.
Evellyn sentiu o desejo súbito de fazê-lo engolir suas palavras, como sempre. Mas o que mais a irritava era que ele tinha razão. Talvez tudo não passara de um jogo, e ela saiu bem a tempo. Lembrou do nome Pauline, e imaginou que ela, em qualquer lugar que esteja, ainda o espera. Uma idiota, assim como ela. Evellyn segurava uma concha com sopa ainda fervilhando, de tão quente. Seu olhar dirigido a Connor mostrava intensamente o desejo de despejar aquela sopa nele. Kate, tentando acalmar a situação (pois conhecia muito bem o humor da sobrinha), tentou mudar a rota da conversa.
-Tudo bem, não vamos mais fala nisso. Mas, quem está oficialmente namorando é Ágata! –Ela disse, deixando Ágata rubra.
-Mesmo, quem é o sortudo? –Connor disse, como sempre, ele a tratava diferente da outra irmã.
-Erick McJohnson. –Kate disse.
-Não conheço, mas parabéns Ágata. Pelo menos alguém aqui é levada a sério. –Ele disse, como sempre querendo atingir Evellyn. Ela já preparava a sua resposta, quando a campainha soou.
-Eve, querida, pode atender a porta? –Evellyn obedeceu a tia com gosto, daria tudo para sair daquela mesa.
A figura que se apresentou mostrava-se tão inconveniente quanto a sua visita. Uma mulher, não tão mais nova que Kate, de cabelos longos, tingidos num tom forte e artificial de vermelho. Seus olhos tinham o aspecto acinzentado, como fênix. Trajava um vestido preto, consideradamente curto. A julgar pelo porte e pelos seus modos, ela parecia ter saído de uma revista playboy. A atenção de Evellyn voltou-se para a enorme quantidade de malas que ela trazia consigo, perguntando-se quem era aquela mulher e o que cargas d’água ela fazia ali, com tanta bagagem. Sem cerimônia, a ruiva atacou Evellyn em um abraço sufocante.
-Ai meu Deus! Nem acredito! Como o tempo passou! Você deve ser a Evellyn, não é?! –Disse a ruiva, alto demais. Evellyn assentiu com a cabeça, ainda atordoada com a presença dela.
-Eu sabia! Das duas, você era a que tinha a personalidade mais forte. Fico feliz que os seus pais não tenham feito uma lavagem cerebral em você. Adorei o seu cabelo! –Ela dizia, examinando-a dos pés a cabeça. Continuou:
-Claro que você não se lembra de mim. Mas eu me lembro de vocês. Eu era apenas uma adolescente quando cuidava de vocês duas. Não sabe como eu sofri durante esses anos sem poder vê-las. “Então por que nunca nos visitou?” Evellyn perguntou para si mesma. Ainda não sabia o seu nome, nem muito menos quem ela era, mas logo presumiu que ela devia ser da família.
-Quem é você, afinal de contas?!
-É, ninguém falou de mim durante todos esses anos, mas de qualquer forma, sou Trina Cooper, prima da sua mãe, e de vocês também!
-Ah... Prazer, Trina. –Disse Evellyn, concretizando sua hipótese, cumprimentando aquela que a partir daquele dia iria marcar a sua vida.
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