Entre Céu & Mar
11 Inesquecíveis 17 anos
Madison contava os dias ansiosamente, pois daqui a sete dias ela completaria 17 anos. E só fazia pensar nos preparativos da festa. Tudo bancado por Alex, é claro.
-Eve! Você não pode perder! Alex já confirmou a boate e tudo mais! Acho que este será o melhor aniversário que já comemorei! – Dizia Madison, entusiasmada. Evellyn iria, afinal Madison era a sua melhor amiga, e não poderia fazer a desfeita de não ir. Mesmo se isso significasse ficar perto de Alex.
-E por qual motivo este seria o melhor?
-Porque este será épico! Você verá. Ah, esqueci de mencionar que a banda do seu cunhado vai tocar no meu aniversário.
-Erick tem uma banda? – Ela perguntou, surpresa.
-Sim, pensei que sabia. Ele é músico, qual a surpresa?
-Nada... É só que.. É legal. Os outros pretendentes da minha irmã eram bem diferentes.
-Pois é, nem dá para acreditar. Sua irmã, namorando o líder de uma banda de rock! Isso é uma coisa que eu esperava de você.
-Pois é, para ver como as pessoas são imprevisíveis. E eles, são bons?
-São ótimos! Ouvi eles tocando, e tenho certeza de que você vai gostar!
-Bom, veremos. – Respondeu Evellyn, curiosa.
-Falando nisso, e como anda você e Hank? Já se acertaram?
-Nós conversamos e tal, e eu não estou com raiva.
-Então voltaram? –Evellyn já esperava por esta pergunta.
-Voltar ao quê? O que tínhamos não era nada sério...
-Ah sim, continue se enganando. Então é esse o problema. Eve, não o julgue, o motivo para ele não contar foi convincente. Você também ficou com raiva de mim e olha agora. E nós nos conhecemos há anos, e você o conhece há pouco mais de um mês.
-Eu sei Madison. Já disse, eu não estou com raiva disso. Mas, eu preciso de mais que palavras. Eu nem sei se ele gosta de mim...
-Ainda resta alguma dúvida? –Madison a respondeu, fuzilando-a. Evellyn permaneceu em silêncio.
-Foi o que eu pensei. Quer um conselho? Para de fugir dos seus sentimentos. –Madison a atingiu em cheiro, e sabia disso. Conhecia a amiga, e sabia das decepções que vivera, e de como ela era complicada. Já estava acostumada.
-Eve, se eu fizer uma coisa, você se importa?
-Não.. Claro que não, Mad. A casa é sua, lembra?
-Tudo bem, então.
Madison levantou-se e foi direto ao closet. Elas estavam em seu quarto ainda desarrumado (e pelo visto continuaria assim). Pegou uma caixa de sapatos que estava bem escondida. Retirou um pacote. Seu conteúdo era fácil de adivinhar. Madison se jogou na cama, ligou o rádio e enrolou o cigarro de maconha, esquecendo-se de Evellyn ali, que a fitava constrangida.
-Quer experimentar? –Madison ofereceu-lhe, com a mesma naturalidade de quem oferece um jeans em uma loja. Evellyn congelou na hora. Era a primeira vez que recebia a oferta, o que era bem estranho, a julgar pelos lugares que frequentava. Tinha medo de recusar e ser ridicularizada por Madison, mas pensou por outro lado, ela nunca faria isso com ela. Por outro lado, a curiosidade pela substância desconhecida já a intrigara muitas vezes, e por um instante quase aceitou, mas no fim ela renegou o seu desejo.
-É melhor uma de nós ficar sóbria, sabe, para o caso de alguém aparecer.... –Fora a melhor desculpa que lhe veio a mente. Madison a olhou como que a fingir ter acreditado.
-Sei, tenho certeza de que ninguém vai aparecer, mas se você quer assim, tudo bem. – E acendeu o cigarro.
O cheiro logo inundou o quarto. Evellyn não achou tão ruim, até gostou do cheiro forte de mato queimado. Com efeito, era bem melhor que o cheiro de cigarro de nicotina, que a sufocava. Seus pulmões simplesmente se recusavam a funcionar diante daquele cheiro. Os efeitos também não demoraram a vir, e logo Madison parecia estar em outro mundo, estava ainda mais eufórica do que já era, ria sem motivo algum, e não tinha noção de nada. Evellyn estranhou as atitudes de Madison de súbito, mas logo se sentiu mais confortável, e começou a rir da amiga. Não parecia ser algo ruim, pelo contrário, Madison parecia tão... Feliz. Uma felicidade sem motivo, não tinha noção de nada, e os problemas simplesmente evaporavam junto com a fumaça.
Evellyn decidiu ficar com a amiga até os efeitos passarem, para garantir que estaria bem. E depois de algumas horas, ela parecia estar melhor. Um pouco sonolenta e com os olhos vermelhos, mas a euforia havia passado. Evellyn pegou sua mochila e se despediu da amiga. Infelizmente, Madison não conseguia prestar atenção em nada, e não podia responder.
Evellyn deixou o apartamento da amiga, morrendo de arrependimento. “Devia ter aceitado!” –Pensou. Madison ria até chorar, batia palmas, parecia estar tão bem! Não era nada parecido com o que diziam.
Porém, ela desconhecia as consequências. E aquele não seria o único convite.
***
Os dias se passaram como um raio. Uma semana apertada, é o melhor termo que a define. Madison cuidando para que sua festa fosse perfeita, Erick dando duro nos ensaios, Kate se adaptando a presença quase onipotente de Trina, Connor treinando suas mentiras para a polícia, Hank tramando o seu plano... E assim seguiu, até o grande dia, tão esperado para Madison (e para quase metade do colégio) havia chegado, invisível a quase todos os olhos que estavam preocupados com seus próprios problemas.
Evellyn examinava a sua produção no espelho. O rosto alvo em contraste com a maquiagem pesada nos olhos. Usava uma mini-saia, meia arrastão e uma blusa que cobria a barriga e as costas apenas com um tecido preto muito transparente. As mechas vermelhas reluziam mais aquela noite. Ela estava estonteante, irresistível, sem dúvida. Ao ver que estava pronta, desceu.
-Você está linda, Evellyn. –Disse Kate, olhando-a atrás do balcão.
-Quanto custa o programa? –Perguntou o tão irritante Connor. Evellyn já esperava pela provocação.
-Connor! –Kate repreendeu.
-Que foi? É o que parece! Ágata nunca usaria isso.
-Evellyn não é Ágata. E, aliás, isso parece roupa de beata em comparação aos trajes de Trina, mas dela você nunca reclama.
-Vai começar... Caso você tenha esquecido, Trina é adulta, não mora aqui e você não é a responsável por ela. Ninguém vai te criticar se Trina voltar bêbada para casa, ou se fez uma tatuagem, ou se está saindo com um mau elemento. Acho que alguém deveria ter uma atitude, mas não... “Evellyn não é Ágata”, essa é a desculpa para ela sair aprontando como se aqui fosse Las Vegas.
-Eu já vou indo! –Disse Evellyn, que não estava disposta a ouvir aquela discussão.
-Espere, Eve querida, por que não leva a sua irmã? –Kate perguntou, pegando de surpresa todos da sala.
-Como assim? –Evellyn ria, incrédula. Ágata , que assistia pela milésima vez My Sister’s Keeper também olhava para a tia, incrédula.
-Pensei que ela talvez devesse querer ver o seu namorado, não é Ágata? –Kate tentava se explicar, mas na verdade queria alguém que tomasse conta de Evellyn.
-Bem, eu disse a ele que não queria ir, que isso não fazia o meu estilo, e ele aceitou. Eu não quero ir.
-Claro! Música alta e dançante, gente eufórica, o que uma flor delicada iria fazer num lugar desses? Dançar balé? – Evellyn respondeu, irônica. Ágata sentiu-se ofendida, a irmã não fazia ideia de quem ela era. Ela não era uma simples flor delicada.
-Agora, como eu queria ter feito há muito tempo, eu vou indo!
Ela saiu a tempo de ouvir o famoso “juízo” da tia. Sua amiga a esperava no carro. Evellyn tinha certeza de que não estaria em condições de dirigir ao final da festa, e não queria correr o risco. Em casa, Ágata continuou assistindo ao filme normalmente, enquanto derramava lágrimas.
-Não sei como você consegue ficar aí, tão calma, com o seu namorado lá. –Connor disse.
-O que você quer dizer, dessa vez? Qual é a próxima crítica? –Ela perguntou, irritada e seca.
-Você não conhece essas festas, deveria ter ido sim com Evellyn. Há música alta, jovens eufóricos, e garotas excitantes que fazem de tudo para sair com qualquer intrigante de uma banda. Geralmente, eles começam por isso mesmo. –Ela presumiu que seria mais um de seus venenos, porém ela conhecia o antídoto há muito tempo.
-Mas Erick não é assim, diferente de OUTRAS PESSOAS, ele possui caráter, e é de confiança, coisa que OUTRAS PESSOAS também não possuem. Você pode achar que eu não conheço o mundo, mas sei de muita coisa que ninguém imaginaria. “E apesar de tudo, ainda acredito na bondade humana.”-Ela disse, por fim citando a famosa frase de Anne Frank.
-Ingênua Ágata... Você só conhece o que está nos livros, a realidade é bem pior. Já deveria saber disso, mas isso só se aprende com o tempo, ou como a sua irmã está fazendo agora, com a vida.
Ágata decidiu não ouvir as suas palavras. Nada que Connor dissesse poderia lhe atingir, ela confiava em Erick, e se recusava a acreditar que tudo nesse mundo é ruim. Há o bem e o mal, mas nem sempre as pessoas fazem a escolha certa.
***
A boate fervia de tanta gente, como era esperado. Um festival de corpos em sintonia com as luzes frenéticas e a música alta, ora a mando do DJ, ora pela banda. O DJ comandava quando Evellyn chegou, e para começar, ela logo pegou uma bebida. Muitos olhavam para ela, deslumbrados. Caçava Madison no meio daquela confusão, e não fora difícil encontrar a amiga, que usava um vestido prata bem marcante.
-Feliz aniversário, Mad! –Ela gritou, sendo recebida pelo abraço da amiga, abraço este sufocante. A festa mal havia começado e Madison já estava meio “alta”.
-Obrigada, Eve!
-Fiz isso para você, espero que goste! –Ela disse, estendendo o pequeno embrulho para a amiga.
-Tenho certeza que vou! Você é a pessoa mais criativa que eu conheço! Muito obrigada!
-Evellyn, eu esperava por você. –Ouvir aquela voz lhe causava repulsa automaticamente. Era Alex, mais uma vez grudado na cintura de Madison. “Que vontade de vomitar”, pensou.
-O que você quer Alex? Hank? Pode esquecer, não sei dele. –Ela foi direta ao ponto.
-Que maravilha, mas não quero falar dele. Quero conversar com você. A sós. –Ele disse, olhando para Madison. Evellyn a olhou incrédula ao ver a rapidez com a qual ela saíra, obedecendo Alex.
-Azar o seu, pois eu não estou a fim de perder tempo. –Disse Evellyn, pronta para se afastar. Ele pegou forte em seu braço, impedindo a sua fuga, ela tentava se soltar, mas suas tentativas foram em vão. Alex malhava muito (outra coisa que ela odiava nele).
-Me solta, sua muralha!
-Calma princesa. Eu vou te soltar, mas antes você vai ter que cooperar. – Evellyn queria sair de perto dele o mais rápido possível, mas vendo que não tinha outra chance, optou por ouvi-lo.
-Isso... Assim é bem melhor, não acha? Ok, estou sabendo que a imprestável da Madison compartilhou o nosso “segredinho” com você. Isso me deixou fervilhando de raiva, como poderia imaginar. Fique sabendo que a sua curiosidade imbecil custou caro a ela. –Evellyn congelou na hora. A preocupação logo a tomou por completo.
-O que você fez a ela, seu monstro?! –O pânico a dominou.
-A mesma coisa que farei com você, se PENSAR em abrir essa sua boca. Ou talvez pior. –Ele apertou seu braço mais forte, tão forte que a fez gemer de dor.
-Escuta. Sou boa em guardar segredos, mas sei jogar também. Deixe-me em paz, e se eu souber que maltratou a Mad, você já era! –Disse ela, determinada. Alex riu debochadamente.
-Garota esperta, deve ser por isso que Hank gosta tanto de você. Que imbecil. Então, temos um acordo, você não ficará sabendo mais sobre Madison e eu. –Ele disse, um sorriso no rosto que escondia alguma coisa. Evellyn sabia que Alex não era de confiança, e logo quebraria o acordo. Mas valia a pena tentar.
-Ótimo, então agora, me deixe em paz. –Ela disse, soltando-se e afastando-se de Alex. Bebeu o resto da bebida que ainda tinha no copo, enquanto apreciava os fortes efeitos da tequila. Mal terminou, e voltou às bebidas. Um bar tender fazia um de seus shows na hora, e o pequeno bar estava lotado.
-Eve, é você?! Uma voz conhecida a chamou no meio do público.
-Sol?Sol! –Gritou Evellyn, surpresa em vê-la ali.
-Como você está? Faz tempo que não a vejo.
-Estou melhor, obrigada. Realmente sumi depois de... Você sabe. Nem lhe agradeci pelo que você fez naquele dia, no velório do meu irmão. Nunca me esquecerei.
-Que isso.. Não foi nada. É que eu não gosto de ver ninguém mal, eu me sinto mal pela pessoa! –Disse Evellyn, demonstrando mais uma de suas características: empatia.
-Não sabia que você conhecia Madison...
-Ah, e não conhecia mesmo. Estou aqui de penetra, vim com Hank. –Ela disse, rindo.
-Ah.. Então ele veio...
-É... Ele me contou o que houve entre vocês. Mas, em defesa dele, se você conhecesse aqueles idiotas, saberia que qualquer um fica confuso com tanta palhaçada. E depois disso, ele só fala de você...
-Isso é sério? –Evellyn não podia acreditar que alguém poderia se importar assim com ela. Solange assentiu com a cabeça, e parecia estar dizendo a verdade.
-Eu sei Sol... Mas apesar de tudo e... Outras coisas também, não estou com raiva dele.
-Eve! Isso é sério? –Disse uma voz esperançosa que a arrepiou dos pés a cabeça. Evellyn virou-se para trás e deparou-se com Hank, que estava a poucos centímetros de distância. Seus olhos verdes de esperança encontraram-se com os azuis de Evellyn.
-Olha.. Eu vou para a pista de dança... –Disse Solange, ao notar que se tornara invisível ali..
-Oi, Hank... –Evellyn respondeu.
-Que bom que você veio! –Ele a abraçou forte, e ela não recuou. Sabia que era um hábito de Hank. Estar em seus braços novamente fez seu coração disparar.
-Podemos conversar?
-Mais?
-Sim, até ficarmos bem. Você disse que não está com raiva de mim.
-E não estou.
-Tudo que Sol disse é verdade, eu não entendo por que não voltamos a ser o que éramos antes.
-E o que tínhamos antes? Parecia que você tinha vergonha de estar comigo.
-Eve! Como eu poderia ter vergonha de estar ao seu lado?
-Boa pergunta. Mas é o que parece.
-Eu, sinceramente não sei o que dizer. –Hank estava cansado de discutir.
-Então não diga mais nada. Você diz tanto, mas não faz nada. Eu sei que eu sou complicada, trago comigo vários defeitos, e a insegurança é um deles. Eu sei disso. Deixei que me conhecesse mais, e não o julgo se estiver cansado. Nem eu me suporto! Mas, se você for louco o bastante para continuar, me mostre uma atitude, esqueça as palavras. Elas enganam. Ao invés disso, me dê a prova de que isso não passou de “momentos”. –Evellyn desabafou.
Hank não acreditava nas suas palavras, como uma garota tão incrível e talentosa poderia se ver assim? Por que se colocava tão embaixo?
-Eve, como irei te mostrar a garota incrível que você é? Se o que você quer é atitude, então é isso que você vai ver! –Hank a pegou pela mão e a arrastou para a multidão, convicto no que faria. Evellyn não entendia nada, e então percebeu que Hank era mesmo louco, por insistir tanto.
Naquele exato momento, o DJ cedeu lugar à banda, e os três meninos roubaram a atenção para o palco Dentre eles, Erick ajeitava o microfone. No palco, o menino tímido de blusa xadrez, calça rasgada e camisa do Nirvana parecia ser outra pessoa.
-Boa noite, galera! Estamos aqui para, assim como vocês tornar esse aniversário inesquecível! Agora, vamos dar lugar ao ROCK!
Uma multidão extasiada gritou em coro, junto com ele, E assim, com todos falando a língua do rock, ele iniciou o “show” com sua versão super personalizada de “About A Girl-Nirvana”. Sem querer, ele fazia um apelo na música, pedindo uma amiga, alguém “com ouvidos para emprestar”. Mal sabia ele que essa amiga estava a poucos metros de distância:
“I need an easy friend
I do... with an ear to lend
I do... think you fit this shoe
I do... but you have a clue
I'll take advantage while
You hang me out to dry
But I can't see you every night
Free, I do... “(…)”
Evellyn foi tomada de súbito pela banda. Eles haviam a surpreendido, não eram bons, eram melhores que isso. Parece que haviam adivinhado ao escolher uma de suas músicas favoritas. Cantou-a do começo ao fim, sem se preocupar em desafinar.
-Eu adoro essa música! –Ela gritou, ao término da canção. Todos aplaudiam com fervor.
-E eu adoro você! –Hank gritou igualmente, conseguindo o que queria: chamar a sua atenção. Inesperadamente ele pegou a sua mão e a puxou para o palco. O coração de Evellyn saltitava, e o pavor crescia à medida que se aproximavam.
-Hank! O que pensa que está fazendo, seu idiota?!
-Me redimindo! –Ele respondeu, deixando-a ainda mais confusa. Evellyn era um misto de vergonha e curiosidade. Vergonha por todos estarem olhando para ela, e curiosidade pelo o que o imprevisível Hank faria dessa vez.
-Dá licença um minutinho? Valeu cara! –Ele disse, enquanto roubava o microfone de Erick, no exato momento em que anunciavam a próxima canção. A reação de Erick foi de surpresa, o que aquele maluco queria, estragando a primeira apresentação deles?
-Hank! Quanto você bebeu? Vamos sair daqui, agora! –Evellyn sussurrou para ele, em vão.
-Não, você vai ficar aqui e ouvir tudo o que eu tenho a dizer. Escuta aqui gente, para começar, eu sou idiota.
-Percebe-se. –Murmurou Erick, que assistia Hank, impaciente. Ele continuou:
-Há um tempinho atrás, eu não levei a sério o prazer que eu tinha com a companhia dessa garota aqui, Evellyn Baker. A garota mais sensacional que eu conheci. Dá para acreditar? Olha isso, ela é linda! Como eu disse, eu sou um idiota. –Ele dizia apontando para Evellyn. Ela sentia cada centímetro do seu rosto fervilhar de vergonha, ao ver que todos estavam riam. “Hank, você me paga!”
-Eu fui um burro, e a fiz pensar que tinha vergonha de estar com ela. Também não confiei nela, e esse foi o pior erro que eu cometi, porque ela é a única pessoa no mundo que eu posso confiar de olhos fechados. Eve... –Ele pegou na sua mão. Você disse que queria atitudes, que queria provas de que eu a levo a sério. Então, cá estou eu, na frente de todo mundo, para dizer que não paro de pensar em você, e que a quero de volta. Quero-te de volta, como minha namorada.
As palavras de Hank emocionaram a banda, as pessoas e principalmente, Evellyn. Um sorriso brotou em seu rosto, seu coração pulava, não mais de vergonha, e sim de alegria. Não acreditava no que acabara de ouvir. Por um momento ela esqueceu todos que estavam olhando, e sua resposta não poderia ser outra:
-Sim!Sim! Mil vezes, sim! –Ela gritou, pulando em seus braços. O tão esperado beijo foi aplaudido pela maioria, e aceitado com desgosto por alguns. Mas ninguém poderia negar a felicidade estampada no sorriso daqueles enamorados.
***
Por fim, eles se jogaram no meio da multidão, e a banda prosseguiu com Sweet Child O’ Mine. A noite seguiu animada. A cada copo Evellyn se “soltava” mais. O casal estava extasiado, ora bebendo, ora dançando, ora beijando, ou tudo de uma vez só.
Já se passavam as horas da madrugada, e a festa ainda corria animada. A banda já se preparava para se despedir.
-Ah... Mas já? –Evellyn reclamou, estava adorando a banda. A noite toda estava maravilhosa.
-Eles são bons mesmo, mas acho que o vocalista não deve ter gostado quando eu roubei o microfone dele. –Disse Hank, com os braços envoltos em Evellyn. Percebeu que não havia desgrudado dela desde o seu pedido.
-E com razão, você é louco, Hank. –Ela disse, puxando-o para um longo e arrebatador beijo. Ele corria as mãos em suas costas, para aproximar ainda mais os seus corpos.
-Humm.... Desculpa atrapalhar o casal, mas viemos fazer um convite. –Disse Madison, acabando com o clima. Os dois olharam confusos, sem entender por que Alex e mais uma turma estavam ali também, a fitá-los, esperando uma resposta.
-Não olhem como se não soubessem de nada. A festa ainda não terminou, e vocês sabem disso. Ela continua, para os “VIPS”. Então, o casalzinho vem ou não? –Quem se pronunciou dessa vez foi Alex. Eles se entreolharam. Sabiam exatamente do que se tratava.
-Não acho uma boa ideia, Alex...
-Relaxa Hank. Vamos esquecer as diferenças. Hoje é tudo por conta de Madison. E, além disso, sua namoradinha tem que participar oficialmente das nossas reuniões , agora que sabe de tudo.
-É melhor deixar ela fora disso, Alex.
-E que mal há nisso? É só diversão. Você sabe disso.
-Hank, está tudo bem. É melhor irmos com eles, não preciso de proteção. –Evellyn se manifestou, decidida a ir até o fim.
-Tem certeza? –Ela assentiu.
-Ótimo. Viu só, Hank? Podem vir! –Alex dizia, extasiado. E por que não estaria? Conhecia bem o perfil de Evellyn e faria de tudo para ter mais um cliente. Uma cliente rica.
Eles seguiram o grupo até uma sala que outrora fora um camarim, ou coisa parecida. Havia vários espelhos, as paredes eram roxas. Havia também dois divãs vermelhos em volta de uma mesa de centro, e um narguile.
O ambiente era aconchegante, sem dúvida. Todos se sentaram e logo começaram a fumar o narguile. Até aí tudo normal para Evellyn.
-O.k, galera, agora vamos a alguma coisa de verdade. –Disse Alex, compartilhando vários saquinhos entre os jovens.
-Considerem uma pequena “lembrancinha” do aniversário. Hank, para você é especial, para matar a saudade. –Alex estendeu o saquinho de cocaína para Hank, que o pegou imediatamente. Lembrou-se de Evellyn, e a fitou, envergonhado. Em resposta, ela sorriu de modo a mostrar que estava tudo bem. Hank despejou o conteúdo na mesa, e com a ajuda de um canudo ingeriu em poucos segundos. Evellyn ficou surpresa com a rapidez que o pó havia sumido.
-Não se assuste, você vai se acostumar. –Disse Alex, notando o seu espanto.
-Ah, e não poderia esquecer. Esse é para você, gatinha. De presente, o quanto você quiser. –Ele disse, estendendo o baseado para Evellyn. Ela receou por um tempo, mas depois, a curiosidade pelo desconhecido havia se tornado indomável.
-Que foi? Vai amarelar agora? Já era de se esperar, você é igual a sua irmã. –Alex disse, a fim de provocá-la. Foi a gota d’água para Evellyn. Ela estava determinada a experimentar. Alguns na sala já sentiam o efeito das drogas, e começavam a bater palmar e a rir descontroladamente. Eles pareciam estar tão alegres, sem nenhuma preocupação em mente. Ela queria se sentir assim também, fazer parte daquilo.
Então, sem pensar no quão estranho era Alex lhe tratar bem, e nos efeitos que viriam depois, ela pegou o baseado, e, meio sem jeito, o fumou.
O efeito da droga não tardou em vir. Seu corpo ficou mole, como se tivesse sido anestesiado. Nada fazia sentido e ela não tinha controle de si mesma. Dentro de alguns minutos Evellyn estava igual aos outros, rindo e dizendo coisas sem sentido.
***
E a noite terminou daquele jeito, Evellyn, mesmo ainda fora de si e completamente “chapada” conseguira chamar o taxista: Otto, seu fiel salvador das noitadas. Otto era um túmulo, e certamente não espalharia nada. Nem o cheiro de maconha impregnado na roupa de Evellyn.
-05h20 A.M, faz um tempinho que não nos vemos a essa hora. –Brincava Otto, enquanto Evellyn era colocada no carro por Hank. Se ela pudesse lhe compreender, teria rido.
-Leve ela em segurança, ok? –Disse Hank, ou melhor, tentou dizer. Otto concordou mesmo sem entender o que ele dissera.
-Ah, senhorita Baker, não muda nunca! Vamos, é hora de ir para casa. –Ele sussurrou, rindo.
Evellyn chegou a casa na mesma hora que o sol aparecia no horizonte. Alguns acordavam, e outros, como Evellyn, apagavam por completo. Porém, as memórias e o enorme sorriso em seu rosto (produtos da noite/manhã) não apagariam assim. Aquela noite havia entrado na história, e aquele aniversário havia sido mesmo inesquecível.
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