Entre Céu & Mar

16 Indignações, suspeitas,descobertas e conselhos


Notas iniciais
Espero que gostem desse capítulo! Agora estou entrando em semana de provas, junto com um montão de coisas que irão tomar o meu tempo e me privar de escrever. Mas, mesmo assim, para os poucos que leem, vou tentar escrever neste curto período de tempo, embora seja bem provável que vá demorar mais um pouquinho.

Enfim... Boa leitura! E não esqueça de comentar!

-Eu vou socar tanto a cara do Alex que ele vai sentir inveja da Lua quando olhar no espelho! Pelo tamanho do ódio que eu estou sentindo agora, eu seria capaz de desintegrar ele em átomos!

Como podem ver Hank não ficara nem um pouco contente quando soube da notícia. E pior ainda quando descobriu que ele havia batido em Evellyn. “Por que eu deixei escapar essa? Ele não precisava saber”, ela pensou.

-Hank, relaxa. Eu estou bem, é sério. Isso não foi nada. Estou preocupada com Madison.

-Eu avisei a ele que se encostasse um dedo em você iria se arrepender. Promessa é dívida! E Eve, Madison foi por conta própria, então ela sabe bem a besteira na qual está se metendo.

-Madison faz tudo por drogas, Hank. Eu não posso acreditar que ela goste dele. Hank, ele a empurrou contra o carro só porque ela disse para ele não me bater! Tem ideia do que ele é capaz?

-Eu sei bem do que ele é capaz, Eve. E é por isso que eu quero você longe dele. Mas, se Madison entrou nessa não foi por falta de aviso.

-Dizer “eu te disse” agora não irá resolver nada. E os pais dela? O que eu digo a eles?

-A verdade ué.

-Ah, claro. “Olha Sra.Steel , é melhor deixar a polícia fora disso, porque sua filha fugiu com um traficante covarde que a espanca. A propósito, está muito bonita neste vestido.”

-Me poupe do seu sarcasmo, Eve. Quando a verdade é dura assim, não há maneira nenhuma de dizê-la sem causar dor. Seja direta.

-Eu sei, Hank .Olha, eu estou muito cansada. Foi um dia muito tenso, eu preciso dormir. Boa noite, e por favor, tente se acalmar.

-Minha namorada levou um soco de um cretino e você diz para eu me acalmar. Interessante isso. Tudo bem, boa noite gatinha.

Antes mesmo de cair na cama Evellyn sabia que não conseguiria pregar os olhos naquela noite. Mas discutir aquilo com Hank havia deixado-a exausta. Ele não entendia os seus motivos para se preocupar com Madison. Ela não estava em si. Ela estava doente. Ela pegou um baseado para tentar se acalmar, mesmo sabendo que era aquilo a causa de sua amiga está naquela situação agora.

*****

Pela manhã o olho de Evellyn estava bem pior. Uma mancha roxa havia se formado ao redor do local onde Alex havia lhe socado. Ela encarava o espelho pensando que não iria conseguir camuflar aquilo nem com uma tonelada de pó compacto, treinando a melhor desculpa para explicar aquele olho roxo.

Na cozinha, Ágata e Kate estavam com um humor um tanto exagerado para àquela hora. Kate estava animada, pois hoje voltava a trabalhar. Ela não estava mais aguentando ficar presa em casa. E sentia falta de se manter ocupada, pois em casa ela tinha tempo de sobra para pensar em Connor. Ágata estava contente com o trabalho voluntário no hospital. Estava ansiosa para ajudar as pessoas, pois era este o seu objetivo. Evellyn sentou-se à mesa esperando o momento em que Kate iria perceber o olho roxo. Não demorou muito, pois ela era bem observadora.

-Evellyn! O que foi isso no seu olho? Não me diga que voltou a se envolver em brigas? –Ela parecia preocupada.

-Não me envolvi em briga nenhuma, Kate. Quer dizer, meio que sim, mas não é nada do que você está pensando.

-Eu vou imaginar mil e uma coisas se você não me contar o que aconteceu.

-É uma longa história. Eu estava protegendo uma amiga e a tal pessoa me acertou. Foi só isso. Eu não revidei.

-Ainda sinto que há alguma coisa escondida aí. Por que não me conta quem fez isso com o seu lindo rostinho?

-Eu já vou indo. Perdi a fome. –Evellyn disse louca para sair logo dali.

-Eu também já estou indo. Até logo, Kate. –Ágata se despediu.

-E eu ainda tento conversar com elas. –Murmurou Kate, após a dupla saída com estilo.

*****

Ágata contava animadíssima sobre o trabalho voluntário no hospital. Anna tentava prestar atenção, porém estava ocupada demais enviando sms pelo celular. Para ser mais claro, ocupada demais com Charlie. Sofia ouvia tudo atentamente, perguntando-se onde Ágata tirava tempo para tantas coisas.

-E a irmã dele? É legal?

-É sim. Eu gostei dela. Não parece ser a bruxa da qual ele me falou. Erick exagera às vezes. Ela até me considera como irmã agora!

-Sei não... Desconfio muito de demonstrações de afeto tão rápidas assim. –Sofia disse, e por mais estranho que pareça, ela tinha razão.

-Pois eu não vejo nada demais. Acho que o mundo se esqueceu de como faz bem o afeto. Mas, há algumas pessoas que não têm medo de compartilhar amor.

-Vai nessa Ágata... Ouça um conselho de amiga. E talvez seja o meu melhor conselho para você. Cuidado com as pessoas. Um dia essa sua ingenuidade ainda a trará muito sofrimento. –Sofia alertou, coberta de razão. Ágata a respondeu como que a espantar o mau olhado.

Ela sabia se defender sozinha. Era o que acreditava, mas só por acreditar não tornava isso verdadeiro.

-E o que você acha Anna? Anna? –Ágata chamava a atenção de Anna, que parecia estar em outra dimensão.

-Ah... O quê? –Ela estava perdida no assunto.

-Esquece. O que está acontecendo? Ultimamente você está sempre fora de órbita. –Sofia questionou.

-O quê? Claro que não! Eu estou normal. Eu, apenas... Eu tenho que ir, depois nos falamos. –E se retirou apressada.

-Tem alguma coisa errada com essa garota. –Sofia murmurou.

-Deixe-a Sofia... Isso deve ser coisa do coração.

-Pois é. Ela terminou com o namorado dela, acredita?

-Ah, isso não é novidade.

-Eu sei, mas ela não está nem um pouco parecida com alguém que acaba de terminar o namoro. Ela deve estar saindo com mais alguém, e não quer nos contar.

-Se ela não quer, deve ter os seus motivos. Por favor, Sofia. Não faça disso uma investigação.

-Claro que não. Logo esquecerei isso.

-Ótimo. Erick está vindo aí. Falamo-nos depois na sala. –Ágata disse, deixando Sofia sozinha com os seus planos.

-Logo esquecerei isso.... –Ela repetiu. –Assim que eu descobrir o que há com Anna.

*****

Anna aproximou-se cuidadosamente de Charlie, que estava ocupado demais com o seu tablet. “É a minha vez de surpreendê-lo”, ela pensou, lembrando de todas as vezes que Charlie surgia do nada e quase a matava de susto. Ela tapou os seus olhos com as mãos, esperando que ele adivinhasse quem era. Charlie assustou-se com aquelas mãos quentes e imprevisíveis que lhe tomaram a visão, mas sabia que aquilo só podia ser coisa de uma pessoa.

-Pode parar Anna. Já sei que é você.

-Babaca. –Ela disse, antes de beijá-lo. Um beijo breve, mas mesmo assim tentador. Beijar Charlie era uma das coisas que ela mais gostava de fazer, e era bom fazer isso sem sentir culpa. Ao menos, na maioria do tempo, porque ainda não haviam assumido nada em público. Há algumas semanas atrás, não imaginaria que iria se sentir tão feliz assim, e que essa felicidade era por causa de Charlie. Realmente, o mundo dá voltas.

-Nos vemos hoje de novo?

-Claro.

Eles agora passavam bastante tempo juntos. Iam ao cinema, saíam a vários lugares, e por incrível que pareça nunca encontravam ninguém conhecido (quem mora em cidades pequenas sabe muito bem o quanto isso é difícil). Também iam à casa um do outro, e os pais já suspeitavam do namoro, porém os filhos não confirmavam nada. Discutiam sobre bandas, filmes, séries, livros. Era como se tivessem voltado ao que eram antes, só que mais forte.

Sofia seguiu Anna até onde seus pés aguentavam, a fim de descobrir qual era a razão pela felicidade anormal da amiga. E a cena que viu não poderia ser mais imprevisível: Anna e Charlie de mãos dadas.

-Aí tem coisa... –Murmurou ela sem tirar os olhos do casal.

Anna disse algo mais que Sofia não foi capaz de entender, e afastou-se de Charlie a caminho da sala. Sofia não iria descansar até conseguir respostas, e, sem esperar interceptou-a.

-Ah! Droga, Sofia! Qual é a sua aparecendo assim de fininho atrás dos outros? Até parece assombração! –Disse Anna, sendo surpreendida por Sofia.

-Nossa Anna. Qual é a sua me diz você? O que você está acontecendo entre você e o quatro olhos ali?

-Nada. Nada que seja da sua conta. –Anna disse e se retirou, deixando Sofia a comer poeira.

“Não pode ser...Anna e Charlie? Seja o que for, eu vou descobrir”, ela pensou. Vocês devem estar pensando: “que perda de tempo ficar importunando a vida de dois adolescentes apaixonados. Como se isso fosse algo anormal”. Mas Sofia criava caso com tudo. De alguma forma estranha, a felicidade alheia a incomodava um pouco. Talvez por elas estarem felizes de um modo que Sofia desaprova, ou por ela mesma não ter alcançado a sua felicidade ainda... Não havia razão. Mas, pensando bem, não é tão estranho assim. A maioria das pessoas ao menos uma vez se incomodou com a felicidade alheia.

*****

Kate nunca pensou que ficaria tão feliz ao estar de volta ao que ela chamava de “prisão de concreto”. Era bom rever o rosto dos funcionários, dirigindo-lhe uma preocupação quase que obrigatória. Era bom sentir o cheiro das canetas esferográficas, ver as papeladas que a esperavam, e enfim, estar de volta ao seu escritório que tinha uma vista bem privilegiada.

-Bem vinda de volta, chefinha! –Disse Trina, num tom de voz quase infantil. É, nem tudo nessa vida são flores.

-Obrigada, Trina. –Kate respondeu sem tirar o sorriso do rosto.

-Eu tomei as rédeas enquanto esteve fora, já que Connor... Você sabe. Eu era a secretária dele.

-Eu sei bem o que você era. Olha Trina, eu não me importo com coisas mal resolvidas do passado, ou sobre as acusações do incêndio sobre você. Eu estou aqui para fazer o meu trabalho, e espero que você faça o mesmo, e bem feito. Senão, já sabe... –Kate foi curta e grossa, o que fazia bem o estilo dela.

-Sim, senhora. Venha, eu a levarei ao seu escritório.

-Eu não fiquei tanto tempo fora assim, Trina. Sei exatamente onde fica o meu escritório.

-Eu sei, Kate. É que eu queria falar algo...

-Fale então.

-Eu não sei os policiais comentaram com você. Tem a ver com Andrew e Scarlet...

-É melhor continuarmos no meu escritório. –Disse Kate, seus olhos rondando o ambiente à procura de olhares e ouvidos curiosos.

As reformas que fizeram tornaram o escritório ainda mais aconchegante do que já era. A parede de papel que fora consumida pelo fogo agora dera lugar a mais um dos trabalhos abstratos intrigantes de Evellyn. Pintaram ao redor com cores vivas, mas não tão gritantes, e caíram no gosto de Kate. Todos os móveis foram trocados, inclusive tapetes, plantas e quadros. O ambiente inteiro cheirava a tinta fresca e novidade.

-Nossa... Ficou incrível! –Trina exclamou logo ao entrar.

-Pensei que já tinha visto. Olha, essa parede foi pintada por Evellyn.

-É maravilhoso! Ela tem talento mesmo! –Disse Trina, observando a parede como uma crítica das belas artes, o que com certeza ela não era.

-Sim. Ainda bem que nada de muito importante fora consumido pelo fogo. Todos os documentos importantes você havia tirado na hora. Até parecia adivinhar.

Trina não respondeu nada. É péssima a sensação de culpa sem merecer sentir tal castigo.

-Então, você estava falando sobre Andrew e Scarlet. Não, ainda não me relataram nada.

-Bom, eu pensei que você já sabia por que é a tutora das meninas e tal. Mas acho que eu fiquei sabendo primeiro porque a polícia queria tirar informações de mim. Não há mais dúvidas de que Connor está envolvido com o assassinato, mas agora eles acham que ele não é a cabeça disso. Na verdade, Connor é a penas um cúmplice. Uma peça no jogo. Há um mandante, um líder.

Mais uma novidade para Kate. Ela ouviu a notícia da boca de Trina, sem saber ao certo se isso era bom ou ruim.

-E por que eles te procuraram e não procuraram a mim? –Eis a questão.

-Aparentemente, eles pensam que eu também estou envolvida. –Trina disse, sentindo vergonha da própria voz.

-Ah, sim... E eles têm alguma prova disso? –Kate parecia não se mostrar alterada perante a novidade. Como se não fosse nada o fato de Trina, aquela Trina bem à sua frente, agora ser um dos suspeitos. A polícia deve amar gente ruiva.

-Não! Claro que não! Eles não têm prova alguma porque eu não fiz isso! Eu cansei de repetir, mas eles disseram que ouvem assassinos dizerem isso todos os dias! –Trina disse e aparentemente era verdade. “Eu sou inocente”, “Eu não fiz isso”, “Eu nem estava lá” eram mentiras clichês entre os culpados.

-Fique tranquila, Trina. Não há nada a temer, se não há nada a esconder. –Kate disse isso com aquela naturalidade que sempre a acompanhou. Às vezes Kate parecia ser um iceberg, que não pode ser atingido por ninguém.

-Você não acha que eu tenho culpa no cartório, ou tenho? –Trina perguntou,os olhos cinzentos fuzilando Kate, como se houvessem segredos terríveis prestes a renascer das cinzas.

-Não Trina. Não acredito que você possa ter feito isso. Você não iria conseguir. Mas não afirmo nada. Não ponho a mão no fogo por ninguém. –Foi só o que ela respondeu. Fogo. Ninguém sabia, mas ela agora nutria um certo medo desse elemento em particular. Com todas as razões, sem dúvida.

-Não sei se isso é bom. Mas vou fazer a minha própria investigação. Não confio na polícia.

-Garota esperta. –Kate comentou, antes que Trina saísse. Não confiar na polícia era algo que elas tinham em comum.

“É, tudo está aparentemente normal. Um problema atrás do outro. É bom estar de volta”, Kate pensou.

*****

Finalmente Evellyn iria conhecer os the travelers, a banda da qual ajudara a escolher o nome. Sem Hank, e sem Madison lhe sobrava tempo de sobra, já que seus outros amigos não iriam lhe entender nesse momento. Eles costumavam ensaiar ora na casa de qualquer um dos três, mas era mais comum na casa de Caleb, o baterista.

-A garagem deles é enorme. –Dizia Erick no caminho. –Tem mais espaço para os instrumentos, e não é tão abafada. Você sabe como aqui é quente. –Disse Erick, que parecia não estar acostumado ao clima californiano.

-Acha que eles irão gostar de mim?

-Você ainda pergunta? Uma loira gostosa usando uma camisa do Nirvana? Imagina! Eles irão odiar. –Disse Erick, galhofeiro.

-Cuidado com as palavras, Erick. Acho que “gostosa” não é um termo adequado para qualificar a sua cunhada. –Ela disse rindo, mas não se impediu de enrubescer.

-Tem razão, foi mal. Às vezes eu exagero nas brincadeiras. Olha, chegamos. –Ele disse, apontando para uma enorme casa ao lado deles. Evellyn já podia ouvir o som da banda se aquecendo.

Os dois saíram do carro e foram direto para a garagem. Erick tinha razão; a garagem era enorme. Não só a garagem, mas a casa inteira. O jardim mais parecia um bosque, por causa da quantidade exagerada de plantas e árvores. Ostentação era a cara de Orange County. Evellyn tomou cuidado para não tropeçar nos inúmeros fios no chão. Um dos rapazes tocava, ou melhor, espancava a bateria. O outro estava sentado em uma das caixas de som tocando baixo. Evellyn parou para ouvir um pouco mais o som. Sempre foi apaixonada pelo som do baixo. Parecia lhe invadir o corpo inteiro, era uma sensação surreal.

-Vejam só... o Erick chegou. Atrasado, como manda a tradição.

-Ainda não tinha se acostumado? É mais fácil você se equilibrar num skate do que ele chegar no horário certo. E todos nós sabemos que você em cima de um skate é uma catástrofe. –O cara do baixo comentou.

-É bom ver vocês também. –Erick disse, sem esconder o tom irônico. –Essa aqui é...

-Cara! O que você fez com a Ágata?! –O baterista comentou, jogando as baquetas para o alto. Erick o fitou desconcertado, e Evellyn não estava diferente.

-Essa é a Evellyn. A irmã dela, seu otário. –Ele a corrigiu.

-Aah... Isso explica tudo. Foi mal, Evellyn.

-Tudo bem. –Ela disse. Na verdade não era não, essa comparação era a pior parte de ter uma irmã gêmea. Por mais que ela fosse diferente, sempre iriam enxergá-la como cópia.

-Eve, o otário da bateria é o Caleb, mas isso você já sabe. E esse aqui é o James. –Ele disse, apontando para o cara do baixo, digo, James. Ele tinha cabelos cacheados e olhos tão fundos que a fizera se perguntar a quantos dias ele não dormia.

-Tudo joia, Eve? –Ele disse, cumprimentando-a. Ela respondeu que sim com a cabeça.

-Não parece. –Ele disse, apontando para o próprio olho. Evellyn, que se perguntara se o olho roxo ainda estava bastante marcante teve sua resposta na hora.

-Foi um acidente. –Ela tentou disfarçar o constrangimento. Podia sentir os olhos de Erick fuzilar as suas costas.

-Tudo bem. Eu não devia ter perguntado. Mas, mudando de assunto, eu sempre digo: um é bom, dois é melhor. Que tal se um dia saíssemos eu e você, Erick e Ágata?

-Desculpe, mas eu não estou disponível. –Foi só o que ela disse.

-E o que te fez pensar que ela iria sair com você, James? Foi mal Eve, mas inconveniente é o sobrenome dele. –Erick disse sempre zombeteiro.

-Okay, Okay.... Podemos começar logo? –Caleb gritou lá do fundo, batendo as baquetas. Ele era bem nervosinho.

Evellyn sentou mais para o canto, e deixou que eles trabalhassem. Por enquanto a banda tocava apenas covers, mas logo iriam criar as próprias composições. Evellyn gostava muito do som dos meninos, e em algumas músicas até arriscou alguns versos, mas Erick sempre chegava com o microfone para perto dela, causando o efeito contrário. Era um ambiente totalmente underground, do jeito que ela gostava. Enquanto ouvia o som dos meninos ela esquecia um pouco os problemas, e preocupava-se apenas em rabiscar símbolos para a banda. Todos eles contendo asas. Agradeceu aos céus por Erick não ter perguntado sobre o olho roxo, pois ela não queria mais confusão.

*****

Ao término do ensaio, Erick veio ao encontro de Evellyn para estudar. Os outros meninos ficaram também, fazendo coisas que eles denominavam “coisas de homem”. Para Evellyn era apenas um nome idiota para ficar sem fazer nada.

Erick lia a matéria, mas sua voz estava bem distante da mente de Evellyn. Ela tinha o rosto apoiado nas mãos, e a sua unha pegava no olho roxo. Ainda doía; Evellyn tentava esquecer a cena, mas seu rosto insistia em lembrar. Ela tinha que buscar as melhores palavras para explicar o que houve com Madison. Mas naquele ponto Hank tinha razão: Quando a verdade é dura assim, não há maneira nenhuma de dizê-la sem causar dor. Seja direta.

-Evellyn? Você prestou atenção? –Erick disse, tentando trazê-la de volta a realidade.

-Foi mal, Erick. É que eu ando meio distraída.

-O que está acontecendo, Eve?

-Não é nada. –“Nada que mereça a sua preocupação”, ela pensou. Erick respirou fundo, pois sabia que era difícil arrancar algo de Evellyn.

-Esse olho roxo não foi acidente, não é? –Ele perguntou. Evellyn assentiu com a cabeça, envergonhada.

-Quem fez isso com você, Evellyn? Foi o Hank?

-Não! Claro que não! Hank nunca seria capaz de fazer isso comigo! –Evellyn respondeu de imediato, como se tivesse escutado o maior absurdo de todos.

-Então quem foi? Tem alguém te incomodando?

-Não. Não mais. Mas isso aqui não é nada comparado ao que minha amiga passou e irá passar. –Ela disse, apontando para os olhos.

-Eve, eu realmente quero entender o que está acontecendo, mas você tem que me dizer o que aconteceu.

Evellyn respirou fundo para tentar resumir ao máximo o que aconteceu.

-Madison fugiu com Alex, o namorado dela que é um idiota, vive espancando ela. Ela brigou com os pais, vive drogada e daí... Você imagina a confusão. Eu bem que tentei impedi-la, mas olha aqui o resultado. –Ela disse, apontando para o olho roxo. –Ela preferiu ir com ele a ficar aqui comigo. Eu, que fui a melhor amiga dela por tantos anos. –Ela resumiu a história ao máximo, enquanto olhava para o vazio, cabisbaixa. Erick nem sabia o que dizer. De todas as histórias para aquele olho roxo, nunca lhe passou pela cabeça que poderia ter acontecido assim.

-Eu sinto muito, Eve. Mas não fique ressentida. Madison com certeza está confusa, e envolvida com drogas... Não consegue raciocinar direito (acho que nunca conseguiu). É a única explicação para ela ter fugido com esse monstro.

-Eu penso assim também. E agora eu tenho que explicar o que aconteceu para a mãe dela. Qual a melhor forma de dar uma notícia dessas? Como eu vou olhar na cara da Sra. Steel e dizer que a filha dela se entregou a um monstro por conta própria?

-Haja o que houver, não dê a notícia pelo telefone.

-Muito obrigada, Erick. Ajudou muito. –Disse Evellyn, como sempre abusando do tom irônico.

-Você não está com cabeça para estudar mesmo... É melhor deixar para lá. –Ele disse. Evellyn mais uma vez não ouvia as suas palavras, desejando ignorar todos estes problemas. Sem Hank, só havia uma coisa que a ajudaria.

-Erick... É melhor eu ir agora. Tenho que dar uma péssima notícia. –Ela disse, levantando-se e pegando a mochila. Um fecho estava aberto e com o movimento brusco uma pequena caixinha caiu no chão.

-Eve, você deixou cair isto... –Ele disse, pegando a caixinha. Involuntariamente ela se abriu, revelando o seu conteúdo. Quando Erick viu a erva logo se deu conta do que era.

-Obrigada. –Ela pegou a caixinha de volta com um movimento rápido, envergonhada.

-Espera. –Ele disse, segurando o seu braço. Evellyn esperava que ele desse uma bronca, e ela não queria ouvir isso. Mesmo sabendo que de qualquer forma ele teria razão.

-Eu te levo até lá. Não precisa fazer isso sozinha. –Ele disse, para a sua surpresa. Evellyn não pôde evitar o sorriso.

*****

Evellyn lhe mostrou onde era a casa de Madison. Ou melhor, antiga casa. Erick ligara o som, e a música ajudava a relaxar um pouco. Agora não conseguia fitar o rosto de Erick normalmente. Ele havia visto a droga, ela tinha certeza. Não queria que ele pensasse que ela era uma viciada, pois isso ela não era mesmo. Ainda não.

-Evellyn, você sabe o real motivo da fuga de Madison, não é? –Erick não havia falado nada até aquela hora.

-Não entendi. –Ela disse, mesmo sabendo onde ele queria chegar.

-Você sabe sim. Você mesma disse que não acreditava que Madison estava apaixonada. E convenhamos, ela não está mesmo. Agora, me diga: por que ela fugiu? –Ele sabia a resposta, mas queria ouvir da boca dela.

-Pelas drogas. –Ela disse como se confessasse seu próprio crime.

-Então... não sente nem um pouco de remorso quando você usa? Será que não sente nem um pouco de medo de acontecer o mesmo com você?

-Erick. Não sou uma viciada. Eu só uso quando estou nervosa (o que é quase sempre). Eu pensei que não pensasse assim de mim, como a maioria pensa. –Evellyn retrucou, enojada com o tom infantil de sua voz.

-Eu não estou te julgando, Eve. Você sabe que eu nunca faria isso. Mas não pude ver a droga na sua mochila e não falar nada. Eu sei que você não é viciada, mas eu me importo com você. Não quero que veja a droga como a fuga para os seus problemas. “Ignorar os fatos não os altera”.

Evellyn fitou o seu rosto pela primeira vez desde que entraram no carro. “Por quê?” Ela pensou. “Por que se importa tanto comigo?”. Evellyn não podia renegar o fato de que Erick tinha razão. Tinha toda a razão. Olhar para ele daquele jeito trouxe de volta aquela sensação estranha que volta e meia contaminava os dois, como um bocejo.

-Nunca te bateu uma curiosidade? Ver os efeitos e pensar em como deveria ser? –Evellyn que perguntou dessa vez, lembrando daquela noite no aniversário de Madison. Por que aquilo parecia ser tão distante agora?

-Não vou mentir, já pensei sim. Por que algo tão proibido mexe tanto com a mente das pessoas? A curiosidade pelo desconhecido é um desejo desastroso. Mas aí eu me lembro de Kurt Cobain, Amy Winehouse, Hillel Slovak, Jimi Hendrix.... Tantos outros, grandes artistas que arruinaram sua vida por causa das drogas. Eu não quero isso para mim. Quero trazer para mim as boas influências deles, os talentos que foram tragados pelas drogas. Eu aprendi com os erros deles e não quero repeti-los.

O pequeno discurso de Erick acabou a fazendo pensar. Ela realmente não precisava daquilo. Ninguém precisava. Não queria chegar aonde Madison chegou. Ela tinha um talento nato e não precisava das drogas para desenvolvê-lo. “Mas são tantos problemas! E eles simplesmente evaporam quando eu fumo”, ela pensou mais uma vez. E mais uma vez Erick tinha razão. “Ignorar os fatos não os altera”.

-Você tem toda a razão, Erick. –Ela disse enfim. Eles haviam acabado de chegar à casa de Madison. Era um dia ensolarado como todos os outros, e ela podia ver a Sra. Steel regar as plantas do jardim. Por um momento achou injusto tirar a paz dela, mas que mãe pode estar em paz quando não sabe o que houve com o seu filho?

-Então é aqui. É uma casa bem bonita, não acredito que Madison largou isso. Você quer que eu vá com você?

-Não Erick, não será preciso. Você me ajudou muito, e eu irei ficar te devendo essa. Mas eu tenho que fazer isso sozinha. Muito obrigada. –Ela disse, dando-lhe um beijo no rosto. O contato repentino fizera ambos enrubescer.

-Não foi nada. Eu vou ficar aqui te esperando. –Ele disse. Evellyn lhe dirigiu um sorriso fraco e saiu do carro. Erick ficou observando-a se aproximar da mãe de Madison, relutante, com as mãos no bolso. Vira seus lábios se moverem e constatou que ela já estava dando a notícia. Devia ser duro receber uma notícia daquelas, ainda mais contar. Mas por um lado ficou feliz por Evellyn não estar nessa.

Agora ele podia ver aquela senhora se desmanchar em lágrimas. Quase podia ouvi-la dizer: “Não, minha filhinha não!” E podia sentir de longe o desconforto de Evellyn, que envergonhadamente oferecia os seus braços num abraço consolador, enquanto seus olhos queimavam com o surgimento das primeiras lágrimas.

*****

Ágata chegou ao hospital super animada. Diferente de algumas pessoas, ela gostava do ambiente hospitalar. Gostava das cores claras, do corre-corre, do jaleco branco.

-É irônico passar por esses corredores e saber que todo dia uma vida se vai e outra acaba de chegar a esse mundo. –Estella disse assim que avistou Ágata um pouco perdida na sala de espera, fitando o ambiente ao seu redor.

-Animada para o primeiro dia como voluntária? –Ela disse. Estella estava com um jaleco branquíssimo, e aquela cor lhe caía como uma luva.

-Claro! –Ágata respondeu, embora estivesse um pouco confusa. –Mas o que um voluntário faz, de verdade?

-Voluntários como você ajudam a entreter crianças. Temos uma sala só para brincadeiras, as crianças adoram, mas, elas precisam de alguém para diverti-las. Elas lutam contra coisas que a maioria das crianças nunca saberá o quanto dói, e isso realmente é importante para elas. –Estella disse.

-Para mim parece ótimo. Eu adoro crianças, e o que eu mais gosto é ajudar.

-Meu filho não brinca quando diz que você é um anjo. Tenho certeza que as crianças irão adorar a sua companhia. –Estella disse.

-Estella quem é a novata? Voluntária também? Ela não tem cara de quem apronta. O que foi Barbie? Roubou uma channel ou alguns diamantes e o papaizinho convenceu a polícia para fazer trabalho voluntário? –Uma enfermeira gordinha e baixinha, mas com a arrogância do tamanho do Everest apareceu e parecia avaliar Ágata da cabeça aos pés.

-Rute, ela não fez nada de errado. Essa é Ágata, ela se voluntariou a trabalhar aqui. Ela é a namorada do Erick.

-Ah, então perdão por insultar a namorada do seu filho. Branquela você só recebe meu pedido de desculpas por que a Estelinha aqui é outro nível. Agora, é sério esse papo de voluntária mesmo? Está aqui por livre e espontânea vontade?

-Estou sim. Adoro esse lugar, e eu não preciso roubar nenhum diamante ou nenhuma channel. –Ela disse em tom de defesa.

-Ela é Ágata Baker. –Estella explicou, ressaltando o sobrenome.

-Ah... Então faz parte da nobreza de O.C. Perdão, Vossa Alteza, mas eu não sabia que pessoas como você trabalhavam.

-Ágata, essa é a nossa gentil e nada arrogante enfermeira Rute. –Estella apresentou-a.

-Já percebeu como sua sogra é irônica? Eu simplesmente amo gente irônica. Venha criança, não precisa se assustar, vou levá-la até eles.

Ágata seguiu Rute mantendo certa distância. A primeira impressão que a enfermeira deixou tinha a intimidado um pouco. Rute parecia ser o tipo de pessoa que não confia em ninguém, que sempre vê o mal nas pessoas e vê gentileza como sinal de falsidade.

-Você não devia estar se embebedando em alguma balada por aí, ou fazendo aqueles regimes loucos de vaca: só capim e água? Ou malhando, pegando sol, sei lá...

-Por que generaliza tanto, hein?

-O que está fazendo aqui então? Tentando agradar a sogra? Não precisa de tanto esforço. Estella trata qualquer um bem, até o traste do ex-marido dela.

-Olha, meus motivos para estar aqui são os mais puros, embora você não acredite. Aliás, pouco me importa se você acredita ou não. Não preciso provar a ninguém. –Ágata disse com o rosto inclinado e o nariz arrebitado. Queria mostrar que também sabia responder.

-Okay... Barbie, não precisa se irritar. Pronto, chegamos. –Ela disse, abrindo uma porta branca.

Ágata nunca imaginara que poderia haver uma sala tão colorida no meio daquele branco todo do hospital, mas havia. Brinquedos espalhados por todos os lados esperando para que uma mãozinha o pegasse e lhe desse uma história; cartazes com frases infantis de auto-estima espalhadas por todo o canto; um enorme tapete colorido emborrachado que lembrava um quebra-cabeça, e crianças, muitas crianças, cada uma com sua necessidade especial. Mas Ágata não se importava. Pelo contrário.

-São todos seus. “Welcome to the jungle”, Barbie. –Disse Rute, fechando a porta e deixando Ágata sozinha com todas aquelas crianças.

As que podiam logo atacaram Ágata, gritando coisas como: “oba, tia nova!”, “conta uma história pra gente!”, “brinca comigo” ou “quero uma Barbie igual a essa”. Apesar de tudo elas tinham energia.

Algumas pessoas enlouqueceriam num lugar cheio de crianças, outras não suportariam a pena por causa de suas necessidades especiais. Porém, Ágata pegou um pequeno livro de contos infantis, sentou num banquinho e começou o seu trabalho, sentindo-se realizada.

-Eu vou adorar isso! –Ela disse para si mesma, enquanto tornava o dia daquelas crianças bem melhor.

Notas finais
Então... O que acharam?