Entre Céu & Mar

30 Entre céu e mar


Notas iniciais
"This is the end...Beautiful friend....This is the end...My only friend, the end" Último capítulo! Nem acredito! Mais de um ano escrevendo, quase desistindo, mas enfim, cheguei até aqui. Gostaria de agradecer aos poucos leitores que a leram até aqui, especialmente minha amiga Raquel, que me deu a ideia, e sempre acompanhou tudo que eu escrevo. Se não fosse por ela, eu teria desistido. O penúltimo capítulo foi bem tenso, com a revelação e tudo mais, portanto esse será mais leve. Então... é isso aí. Último capítulo. Espero que gostem. Por favor, não esqueçam de comentar.

Sangue no assoalho. O som perturbador dos tiros. Os gritos agonizantes de Evellyn. A violência das cordas. A farsa de Kate.

Ágata seguiu para o hospital, e os últimos acontecimentos ainda ressoavam, quentes e ricos em detalhes na sua mente. Ela tinha os olhos fechados, e a escuridão proporcionada era ainda pior, enriquecia as lembranças.

Sentiu um aperto de mão e calor humano, que logo a fez abrir os olhos. A presença de Erick a relaxou um pouco.

Erick estava chocado, assim como todos. Nunca ao menos cogitou a ideia de que fosse Kate. Ele tomou cuidado para não mencionar o assunto, mas era impossível. As mãos de Ágata ainda estavam manchadas pelo sangue de Trina, quando ela tentou ampará-la.

A enfermeira apareceu com todos os objetos necessários para a coleta de sangue. Trina havia perdido muito sangue, e por sorte, o tipo sanguíneo de Ágata a permitia ser um doador universal.

Erick afagou seu rosto no ombro, de modo que ela não visse o sangue.

–Não precisa, Erick. Eu quero ser médica. Devo estar acostumada a isso e a coisas muito piores. –Ela disse afastando-se.

Enquanto a enfermeira coletava o sangue de Ágata, ela parecia inerte às lembranças de algumas horas atrás. Aquela cena não seria esquecida nem tão cedo. Voltariam os seus pesadelos, assim como os de Evellyn. Kate era o porto seguro das duas. E ver toda aquela revelação inacreditável era demais para ela suportar. Será que voltaria a confiar em alguém?

–Trina vai sobreviver. –Disse a enfermeira com ar otimista. –Apesar de ela ter perdido muito sangue, o tiro foi de raspão.

–E quanto aos outros? –Ágata perguntou.

–Connor levou um tiro numa parte crítica da perna. Mas irá sobreviver também. E não se preocupe: assim que ele receber alta, será levado para a prisão. E Kate...

Ágata sentiu um aperto no coração ao ouvir seu nome.

–O estado dela é curioso. Assim como Trina, Kate perdeu bastante sangue com o tiro um pouco mais abaixo do ombro. Ela se encontra num estado de coma irreversível um pouco raro. Já vimos alguns casos assim. Ela pode ouvir as coisas ao seu redor, mas não pode falar, nem se mexer. Nem ao menos piscar os olhos. É como se ela estivesse presa dentro dela mesma.

Ágata se surpreendeu ao ficar aliviada com a notícia. Não era justo que Kate morresse tão rápido, e qualquer prisão perpétua era pouco pelo que ela fizera àquela família. Porém, o que Kate mais almejava nessa vida, além da vingança (que não conseguiu) era ser livre. Seu pior medo era viver presa, e agora estava presa no seu próprio corpo. Não podia imaginar castigo melhor para o monstro que era.

–Temos quase certeza absoluta de que Kate não vai sobreviver por muito tempo. Mesmo com tudo que aconteceu, vocês ainda são a família dela. Eu aconselharia desligar os aparelhos que a mantém viva...

–Não. –Ágata respondeu imediatamente. –Deixe-a morrer por conta própria. Ela merece passar os últimos dias presa no seu pior pesadelo.

Tanto a enfermeira quanto Erick se surpreenderam com a maldade presente na decisão de Ágata. Kate era um monstro, não havia dúvidas, mas aquele era o momento para Ágata mostrar que era melhor que ela.

Porém, ela não ligava para isso. Ela tinha que pagar pelo que fez, aquele era o melhor jeito.

–E a minha irmã? –Ela perguntou, verdadeiramente preocupada.

–Sua irmã está bem mais calma agora, embora ainda não responda os nossos comandos. Você conhece a situação. Uma visita a um psiquiatra e bastantes cuidados serão o necessário para ela voltar ao normal. Embora dessa vez o estado dela seja pior.

–Se você descobrisse que a pessoa a quem você trata como mãe é um psicopata que quer acabar com a sua vida, também não se encontraria no juízo perfeito. –Ágata cuspiu em defesa da irmã.

A bolsa de sangue estava quase cheia, e apesar a fraqueza, Ágata não parecia incomodada.

–Eu quero vê-la. –Ágata disse com a voz fraca e o rosto mais pálido que o ambiente ao seu redor. Ela levantou-se, mas rapidamente caiu nos braços de Erick, devido à tontura.

–Você precisa repor suas forças primeiro. Aí você pode vê-la. Vem, vamos comer alguma coisa. –Ele disse, colocando seus braços ao redor do seu pescoço, levando-a sem esforço algum.

*****

Alguns dias haviam se passado, e elas continuavam no hospital. Ágata revezava sua companhia entre Evellyn e Trina, que já havia acordado e poderia voltar para casa hoje mesmo. Evellyn ainda continuava incomunicável, olhando para o nada, inerte em suas lembranças. De modo que só restava Trina para conversar.

–Desculpe por não ter confiado em você. –Ágata disse a Trina, que a lançou um sorriso compreensivo.

–Você não tem culpa, querida. Kate é uma ótima mentirosa. Confesso que em alguns momentos até eu acreditei nela. –Disse Trina, cabisbaixa.

Ágata parecia preocupada e perdida.

–O que foi? –Trina perguntou, notando sua aflição.

–O que vai ser de mim e de minha irmã agora, Trina? Eu não quero voltar para aquela casa. –Ágata começou a chorar mais uma vez. Não podia sequer imaginar em voltar àquela casa com a sua irmã. Em cada cômodo restava uma lembrança da mentira daqueles últimos anos e dos últimos acontecimentos.

–E não vai. –Disse Trina, pegando na sua mão e amparando suas lágrimas com o dedo. –Eu sou sua família agora, esqueceu? Vocês podem ir para o meu apartamento, até conseguimos vender aquela casa e arrumar outro lugar. Começar de novo. Tentar esquecer o que passou.

Aquela parecia uma ideia boa. Porém, esquecer o que passou não seria possível. Aos poucos, elas pensarão cada vez menos, e as lembranças daquele dia ficarão presas numa parte de suas mentes que nunca irão abrir novamente.

–Você promete? –Disse Ágata, contaminada pelo desejo de recomeçar.

–Prometo. –Disse Trina, beijando suas mãos.

Trina pediu que buscassem as coisas de Ágata e Evellyn, assim que a casa foi liberada. Apesar de tudo, o antigo quarto de Kate foi uma cena de crime, e a polícia precisava entender o que havia acontecido. Ou seja, mais depoimentos, sendo que mais uma vez Evellyn não poderia depor, em vista do seu estado. Trina estava com um belo curativo no local onde a bala passou, mas finalmente estava se aguentando de pé, graças a Ágata.

–Vamos ver Evellyn? –Trina convidou Ágata, antes que os policiais aparecessem em busca de respostas.

–Sim, mas antes eu preciso ver uma pessoa. –Ágata disse com o rosto sombrio, e logo Trina percebeu suas intenções.

–Você tem certeza? –Ela perguntou preocupada, mas Ágata apenas assentiu com a cabeça.

*****

Ver o rosto de Kate depois de tudo era assustador, mas Ágata enfrentou todas as emoções presentes dentro de si e entrou no quarto onde ela estava. Kate não parecia a mesma. Estava cercada de tubos e aparelhos que mantinham sua existência medíocre funcionando. Sua pele sempre cor de caramelo tinha adquirido uma palidez doentia. O mais estranho de tudo era ver alguém sempre dinâmica (até mesmo na hora de matar), imobilizada numa cama de hospital.

–Você deve estar me escutando agora, não é? Isso é bom. Agora você sabe como é estar presa, sem chance de defesa, tendo que ouvir e aceitar tudo. Esperar pela morte.

Ágata esperou em vão por alguma reação. Vendo que o destino de Kate era esse, ela continuou:

–Eu nunca vou entender a sua mente. Sei que não vai valer de nada dizer o quanto você nos decepcionou, porque você é incapaz de sentir remorso. Mas quero que veja no que se tornou. Um ser miserável, incapaz de amar, que tentou substituir isso pelo desejo ardente de vingança. Você pensou que iria conseguir, mas tudo que você conseguiu até aqui não valeu de nada. Não conseguiu se vingar, e eu, Evellyn e Trina ainda estamos aqui. Seguiremos nossa vida, livres, coisa que você nunca será capaz de ser. Seu corpo é sua prisão. E permanecerá assim até morrer. Eu deveria sentir ódio de você, mas não. Eu sinto pena. Porque você é fraca, Kate. Pode ter matado os meus pais, destruído a vida de muitos, mas não concluiu sua vingança. E o que restou de você? Nada.

Ágata cuspiu aquelas palavras com nojo. Kate ainda estava sem reação, mas ela podia imaginar como estava praguejando por dentro. Ela afastou-se dali, sentindo-se mais livre do que nunca, porque conseguira cuspir aquelas palavras. A antiga Ágata a guardaria para si, mas aquela Ágata era surpreendentemente forte.

Na sala de espera se encontrava Trina, que finalmente conseguira se livrar daqueles policiais, e Evellyn, ainda absorta. Ágata se juntou à irmã, enquanto tomando estrada rumo ao apartamento de Trina.

*****

Na primeira semana, as coisas iam “bem” ao seu modo. As enormes caixas chegaram ao apartamento de Trina que logo foi ficando pequeno. Inúmeras caixas com livros, CDs e DVDs, quadros, pôsteres, desenhos, objetos de decoração, fotos, etc. Depois vieram as malas, com todas as roupas, calçados, acessórios, documentos, e tudo que fosse necessário a elas. Era estranho para ambas verem o seu quarto, o seu mundo totalmente empacotado. Mais estranho seria voltar àquela casa.

Trina assumiria o lugar de Kate na empresa e na família, até que as gêmeas atingissem a maioridade e resolvessem o que fazer com todo o seu patrimônio. Por sorte, o ano estava acabando e não tinham que ir à escola. Não suportariam os cochichos e expressões de pena. Alguns amigos ligavam para demonstrar apoio, mas elas precisavam mesmo era da família.

–Trago notícias. –Disse Trina, adentrando o apartamento, a todo o vapor. Estava se recuperando do tiro, mas ainda continuava a mesma Trina de sempre.

–Consegui um comprador para a casa. E já estou vendo outra casa para nós. Acho que vocês irão gostar. –Ela disse, dando um beijo em cada testa.

Diferente de quando seus pais morreram e uma desconhecida chegou para cuidar delas, Trina já era conhecida. Confiança nela elas tinham, mas um relacionamento familiar ainda estava para crescer. Coisa que não seria difícil. Não levava muito tempo para simpatizar com Trina.

–Como você está, Eve? –Ela perguntou a Evellyn, amavelmente.

Evellyn é claro, não respondeu. Mas sua expressão estava mais tranquila, e agora olhava para as pessoas, ao invés de fitar o nada.

–Ela está melhorando. Eu a vi querendo tocar a guitarra antiga do meu pai.

Era a melhor forma de se sentir próxima do seu pai. Trabalharam naquela guitarra abandonada juntos, e foi a única vez que ele esteve orgulhoso dela. Talvez, se voltasse a tocar, ele ficasse orgulhoso, em qualquer lugar que estivesse.

–E voltou a pintar. São um pouco perturbadores, mas acho que é a melhor forma dela se livrar daquelas cenas. –Ágata disse, erguendo algumas pinturas.

Evellyn não diminuíra em talento, apesar do trauma em si. Os desenhos eram violentos, com bastante presença de sangue.

O psiquiatra disse que talvez fosse uma boa forma de terapia para ela. Pela primeira vez, algum psiquiatra disse algo que lhe pareceu útil.

–São formidáveis, Eve. –Disse Trina, maravilhada com o seu talento.

Evellyn moveu os lábios como se tentasse sorrir, e ergueu um pequeno pote que outrora deveria ter contido tinta vermelha.

–Ah! –Trina exclamou. –A tinta vermelha acabou. É de se imaginar com todo aquele sangue. –Ela disse, pegando o pote vazio. –Vou comprar mais tinta, não se preocupe.

–A polícia voltou a nos incomodar? –Perguntou Ágata, sem demonstrar paciência alguma.

–Sim. Ao que parece, Connor saiu do hospital e está preso. Kate está nas últimas, e acho que não irá sobreviver mais algumas semanas. –Disse Trina, pensativa.

Ágata não sentiu remorso em sua decisão. E, mesmo sem ouvir sua voz, ela sentiu que Evellyn queria o mesmo. Kate tinha que pagar pelo que fez.

*****

Trina era ágil e tinha o dom de convencer as pessoas. E foi assim que conseguiu, em poucos dias, organizar a mudança e comprar uma bela e enorme casa aconchegante.

As três chegaram ao lugar onde agora seria o seu lar. Uma vizinhança nova. Isso era bom, porque pelo menos eles não conheciam as brigas na época de seus pais. Eles se arrumavam para as festas de fim de ano, coisa que não fariam dessa vez. Obviamente, a família não se encontrava em clima de festa.

A casa era bem grande, como mandava a tradição. Ficava num local bem alto, com uma vista privilegiada da costa e do farol no mar. Um caminho de pedras levava até a varanda. A casa era cercada por um jardim bem cuidado, cheio de flores esperando pelos cuidados de Ágata.

–Venham meninas, vamos conhecê-la por dentro! –Chamou Trina, carregando uma boa quantidade de malas.

As meninas entraram timidamente no seu novo lar, muito bonito diga-se por sinal. A casa por dentro era dotada de cores claras, um ambiente aconchegante. Elas notaram alguns móveis familiares, misturados aos móveis do apartamento de Trina. Era tudo belo e impecável, mas ainda estranho. A casa estava completamente mobilhada, contando até com a presença de alguns objetos pessoais, mas ainda faltava se acostumar. A casa ainda estava fria, e precisava de contato familiar para se tornar verdadeiramente aconchegante. Aquele era o seu novo lar, um recomeço com Trina. Um jeito de deixar para trás todo o passado e seguir em frente.

*****

Depois de quase um mês, a família Baker parecia estar acostumada a casa. O relacionamento com Trina ia melhorando a cada dia, mesmo que Evellyn ainda se recusasse a falar. Ágata conhecia a irmã. Ela ainda estava se fechando, mas quando estivesse pronta para se abrir para a nova vida, ela e Trina estariam do seu lado para dar todo o apoio. Enquanto isso, ela passava quase o tempo todo dentro de seu quarto/mundo pintando.

Os novos vizinhos tinham visto a história da família pela TV, portanto, todo dia a campainha tocava com algum “bem feitor” querendo saber como estavam e presenteá-los com doces e tortas. A campainha soou naquele dia, de modo que quando Trina se dirigiu à porta, pensou em se tratar de outro vizinho aspirante a doceiro.

–Vejo que ainda não desistiram de nos matar, mas em vez de usar arma, querem nos matar de diabetes. –Trina murmurou para Ágata, que deu um riso fraco.

Porém, ao abrir a porta ela se surpreendeu ao ver que não era nenhum vizinho.

–Jefferson! –Ela exclamou surpresa, abraçando o velho amigo.

–Trina, me desculpe por não ter aparecido antes. Eu fiquei tão preocupado com você. –Ele disse envergonhado.

–Está tudo bem, Jeff. Eu consegui. Acabou. –Ela inspirou tranquila.

–Eu precisava passar aqui para ver como você estava e... dizer que você pode contar sempre comigo.

–Obrigada, Jeferson. Você sempre foi um ótimo amigo. –Trina agradeceu, mas Jeferson parecia muito satisfeito ao ouvir a palavra “amigo”.

–O que foi? –Ela perguntou sinicamente, como se não soubesse a resposta.

–Eu quero estar ao seu lado, Trina, mas não só como amigo. –Ele disse o que ela sabia há anos. Trina sorriu cúmplice.

–Eu sempre soube, Jef. E, eu tenho que admitir que não sou indiferente a isso.

Um sorriso de esperança brotou no rosto do detetive.

–Mas, ainda há coisas na minha vida que eu preciso resolver, e as meninas precisam muito de mim.

–Eu posso ajudar. –Jeferson propôs.

–E eu agradeço, Jeff. Mas, eu ainda não estou com cabeça para isso. Talvez, daqui a um tempo...

Jeferson já esperava por isso.

–Está tudo bem. –Ele disse sem perder as esperanças.

Trina sorriu e o puxou pela mão.

–Meninas, venham aqui. –Ela as chamou, e rapidamente, as duas irmãs gêmeas apareceram.

–Este aqui é o meu amigo Jeferson. Ele me ajudou muito para solucionar o caso de seus pais. Jeferson, essa é Ágata e essa é Evellyn. Minha família. –Ela os apresentou, orgulhosa.

As duas cumprimentaram Jeferson, agradecidas.

–É um prazer conhecê-lo, Jeferson. –Ágata disse.

O telefone soou de repente, pegando as atenções viradas para Jeferson todas para si.

–Eu vou atender. –Trina disse.

Os três a observaram falar ao telefone. A julgar pela expressão em seu rosto, a notícia a seguir não era boa.

–Quem era? –Ágata quis saber, assim que Trina se aproximou.

–Era do hospital. Kate não sobreviveu. –Ela anunciou, pesarosa.

As duas irmãs estavam surpresas com a notícia, mas não sentiam tristeza. Para elas, Kate havia morrido naquele dia que revelou quem era. Aliás, Kate nunca existira. Apenas mentira. A surpresa vinha pelo fato dela ter morrido tão depressa. Apesar de tudo, ela era uma sobrevivente.

Evellyn irrompeu pela sala e sumiu pela porta de repente.

–Evellyn! –Trina a chamou colocando-se à procura dela.

–Não Trina. Deixe-a. Eu vou atrás. –Disse Ágata, dando tempo para que Evellyn se afastasse sozinha. Mesmo que a perdesse, ela sabia muito bem para onde sua irmã estava indo.

*****

Ágata não gostava das docas, talvez porque lhe lembravam um passado ruim. Mas estava decidida a ajudar a irmã. Terminar de vez com aquela distância. Aquela competição absurda que começara desde o útero de sua mãe.

Era fim de tarde de domingo, primeiro dia do ano. As docas estavam vazias, como ela esperava, a não ser por uma figura magra e pálida, de cabelos dourados como os seus, mas que terminava em fogo. O dragão vermelho não a deixava mentir. Evellyn estava sentada no chão de madeira, com seu caderno de desenhos, observando a imensidão do horizonte, enquanto quicava seixos no mar. Seu olhar sem expressão fitava o oceano, como se naquela imensidão que não se decide entre azul e verde, ela encontrasse as respostas para as perguntas que assombravam sua mente, feito fantasmas. Mas ela bem sabia que nada poderia justificar o que Kate tinha feito. E era difícil aceitar que os últimos três anos haviam sido nada mais que uma farsa.

–Agora eu entendo porque você gosta tanto desse lugar. É lindo! –Evellyn foi pega de surpresa ao ouvir a voz da irmã.

Ágata estava atrás dela, o vestido e os cabelos frenéticos com o vento frio e forte. Evellyn limitou-se a olhar para a irmã e depois voltar a fitar o oceano. Ela não tinha falado nada desde o incidente Kate. Nem mesmo com Hank. Apenas hoje lhe enviou uma carta relatando tudo que havia acontecido.

Ágata não se magoou, sabia muito bem como sua irmã ficava quando traumatizada. Não era nada fácil.

Ágata sentou-se ao lado da irmã. Um silêncio constrangedor se seguiu então. Evellyn quicando seixos na água, e Ágata apenas observando.

–Eu nunca consegui fazer isso. –Ágata quebrou o silêncio, apontando para a mão de Evellyn. –Quicar seixos.

Evellyn continuou a ignorá-la, mas dessa vez pegou na sua mão e ali colocou um seixo. Mexeu em seus dedos e depois soltou o seixo, que quicou na água.

–Obrigada. –Ágata disse, meio sem jeito. Viu o caderno em suas mãos e pegou.

Evellyn, que nunca mostrou nada à irmã perfeccionista, não pestanejou. Nem pareceu perceber. Era o desenho de um pôr-do-sol num porto, e havia duas garotinhas louras de costas, sentadas e abraçadas, observando juntas àquela maravilha da natureza.

–Meu Deus, é lindo! Somos nós? –Evellyn assentiu com a cabeça. Ela esperava que a irmã viesse, não sabia explicar como. Talvez fosse “a ligação”.

–Por que você nunca me mostrou seus desenhos?

–Porque eles não estão dentro de suas exigências de perfeição. –Evellyn respondeu secamente, assustada ao ouvir a própria voz, depois de tantos dias sem falar.

“Ao menos dessa vez ela falou”, pensou Ágata.

–Isso não é verdade. Isso aqui é o que você é, e é perfeito! Eu nunca conseguiria desenhar assim...

–Ágata, por que você veio até aqui? –Evellyn foi direta.

–Eu... Só queria conversar.

–Isso sim é algo imprevisível. –Evellyn murmurou. Sua atenção foi toda para um pequeno livro nas mãos de Ágata.

–É de uma escritora brasileira. Marina Colasanti.

Ágata abriu o conto e começou a ler, assim como havia feito com aquela menina cega no hospital. O conto que a fez abrir os olhos, e perceber o quão estúpido era aquela distancia da irmã.

Evellyn notou que aquela era a história das duas. Tão diferentes, sempre competindo para ter e/ou ser o que a outra tinha ou era. O final a deixou surpresa, mas voltou novamente ao jogo do silêncio.

Ágata estava cansada disso tudo e resolveu então abrir o jogo e dizer as palavras que havia ensaiado no caminho até aqui.

–Olha, eu não vim aqui para discutir, até porque passamos os últimos dezesseis anos assim. Às vezes nem parece que eu tenho uma irmã, porque somos como duas estranhas dentro de casa. Mas em momentos de crise, nos abraçamos e é a coisa mais natural do mundo. Sabe por quê? Porque você é a única pessoa do mundo que sabe exatamente o que eu estou sentindo, porque sente o mesmo. Somente nós duas nos entendemos perfeitamente. E não damos a mínima para isso! Eu cansei de competir, brigar, eu quero ter uma irmã, não uma conhecida com o corpo igual ao meu. Eu já perdi a mãe, o pai, Kate. Não quero perder você. Não mais. Eu sei o que aconteceu entre nós nesse ano, e eu fiquei muito magoada, é óbvio. Mas apesar de tudo, eu sempre te amei, irmã.

Ágata dizia aquelas palavras com os olhos úmidos de lágrima. Evellyn sem perceber também estava chorando. Aquela era uma verdade conhecida entre as duas, mas nunca tiveram coragem para dizer.

–Tem razão... –Evellyn concordou, enfim. Uma coisa que havia aprendido com tudo aquilo era que ter orgulho em demonstrar seus sentimentos era o que a mantinha afastada de todos. Descobriu que não havia vergonha nenhuma em dizer “eu te amo.” Ela e a irmã eram totalmente diferentes, mas mesmo assim elas se entendiam. Era como yin yang, perfeita união dos opostos.

–Ágata, sobre eu e Erick, eu já pedi perdão e peço novamente. Não faz ideia de como eu me senti um lixo ao te magoar...

–Está tudo bem, irmã... Não se pode apagar o que está no passado, mas podemos recomeçar do zero. Se tem uma coisa que aprendi, é que ninguém é perfeito, mas quando amamos alguém, amamos até o defeito da pessoa. –As duas agora choravam juntas.

–Ouvir essa frase vinda de você é quase... Surreal!

–Para você ver como as coisas mudam. Percebi o que muitos deveriam saber : a vida não é um conto de fadas, no qual sabemos que começa com “era uma vez”, e apesar de tudo termina com um “felizes para sempre.” Ela é bem mais imprevisível. –Ágata estava decepcionada pelo tempo que levou para acreditar nisso, a julgar por tudo que havia passado. Por tudo que ela e a irmã haviam passado.

Evellyn então rompeu a distância que havia entre a irmã e deu-lhe um abraço apertado, como elas sempre faziam quando precisavam uma da outra.

–Eu te amo. –Evellyn enfim disse, enquanto ambas molhavam o ombro da outra com suas lágrimas.

Era o começo de uma nova vida, bem diferente de tudo que elas presenciaram até ali. Sentiam ali o começo de uma grande amizade, enfim.

E as irmãs permaneceram ali, envolvidas num abraço que juntava para sempre aquilo que era tão separado. Lá no horizonte paradisíaco que a cercavam, o sol se punha no oceano, tingindo o céu e a água no mesmo tom laranja tão revigorante.

Naquele momento no abraço infinito do horizonte, parecia não haver mais separação de águas, e Céu e Mar eram um só.

Fim

Notas finais
Pois é... é o fim da minha primeira fic nesse site. Mas não será a última. Tenho diversas ideias, que estão loucas para sair no papel,digo, word. Quero contar com a presença de vocês na próxima. Muito obrigada por terem acompanhado até aqui! São poucos, mas vocês são ótimos. De verdade. Beijos e mais uma vez, obrigada por tudo! Não me abandonem! Até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!