Entre Céu & Mar
24 A nova Ágata
Notas iniciais
Nenhuma briga como aquela se repetiu. Dois dias passaram e as marcas do confronto das gêmeas começavam a desaparecer. Que unhas fortes elas tinham! Não houve xingamentos, discussões, ou nada parecido. E isso até poderia ser bom, mas não era. Apesar de viverem na Califórnia, o clima dentro daquela casa estava mais para um frio polar. E não era por excesso de ar condicionado. As duas irmãs, que já eram distantes, não se cruzavam mais. Nem olhavam uma para a outra. Apenas quando olhavam no espelho. Aí não tinha como fugir da aparência da outra.
Kate observava aquela situação desapontada. Ela bem sabe que não pode fazer nada. E essa é a pior parte. O silêncio é perturbador. Algumas coisas tinham mudado sim. Elas passaram de estranhas para inimigas.
E para completar, Ágata não era mais Ágata.
–O que você ainda faz deitada? É sempre a primeira a acordar! –Kate disse, entrando no quarto de Ágata.
Ela levantou um pouco a cabeça e seu cabelo louro estava todo bagunçado, escondendo boa parte do rosto.
–Não vou à aula hoje. –Ela anunciou, antes de voltar para debaixo do travesseiro.
–Você o quê?! –Kate exclamou como se estivesse num mundo totalmente errado.
–Você me ouviu. –Ágata disse com a voz rouca de sono.
–Ágata, você nunca falta aula. Você adora aquela escola. Você é a Ágata! Não pode faltar! –Kate tentou lembrá-la quem realmente ela é.
–Mais um motivo para eu poder faltar aula. Eu nunca falto, minhas notas são formidáveis, e sou responsável o bastante para saber se posso ou não faltar aula. Então não me impeça, pois você não tem argumentos para me mandar para aquele lugar! –Ágata exclamou cheia de si.
–É, você tem razão. –Disse Kate, pensativa. –Mas pelo menos posso saber por que você não quer ir à aula?
–Só não estou bem para ver o pessoal do colégio hoje. Só isso.
–Tradução: você não está bem para ver Erick.
Ágata lançou-lhe um olhar feroz ao ouvir o nome dele.
–Eu sabia. –Kate a olhou com reprovação. –Ágata, não acredito que você vai ficar aqui se lamentando por causa dele. Isso é medíocre. Veja Evellyn, ela e Hank também terminaram e ela não está assim, desse jeito.
Ágata levantou-se de supetão da cama e fuzilou Kate com toda a fúria.
–Como ousa me comparar a ela?! Ela não tem mesmo o direito de ficar triste! Foi ela que o traiu! E com o Erick ainda por cima! O único sentimento que ela deveria ter é vergonha! –Ágata cuspiu as palavras com ódio e rancor.
–Desculpe Ágata. Eu entendo toda a sua raiva. Se você não quer ir à aula não precisa ir. –Disse Kate, levantando-se já cansada daquela conversa.
–Feche a porta quando sair. –Ágata disse secamente antes de voltar para a cama.
–Ah, Ágata. –Kate parou entre a porta. –Avise-me quando a antiga Ágata voltar.
E com aquelas últimas palavras, Kate saiu do lugar de isolamento de Ágata. Palavras que deixaram Ágata sem fala. Kate não falou sério. Ela estava atravessando uma fase difícil. Ela tem se mantido forte desde a descoberta sobre o assassinato. Seu mundo parecia está de cabeça para baixo. Ela não podia ter uma folga? Tirar a carapaça do sorriso que sempre mente “estou bem” e descansar? Ela estava cheia de tantos problemas e sentia que uma parte de sua vida estava indo embora sem que ela tenha aproveitado o melhor.
*****
Mas se as coisas estavam ruins para Ágata, Anna conseguia superar. A noite do baile deveria ter sido especial para ela, e de certa forma fora sim, se Sofia não tivesse estragado tudo. Não conversara com Ágata depois do ocorrido. Pensou em lhe contar sobre Charlie. Pelo menos ela ficaria feliz. Porém, ela tinha de guardar aquilo para ela, pois não havia ninguém para conversar.
Alguma coisa estava estranha. Anna, que se sentia invisível na maioria das vezes, parecia uma celebridade. Todos pareciam apontar para ela e rir de um jeito malicioso.
–E aí putanna! Devia seguir a carreira de atriz. Você tem futuro! –Um garoto italiano diz e enfim a ficha cai para Anna.
Ela sente todo o corpo gelar. De repente seu estômago parece estar embrulhado. Ouvir todas aquelas risadas torna a situação cada vez pior. Anna se sente literalmente nua na frente de todos, o que não seria mais novidade porque todos a viram daquele jeito.
Tudo por culpa de Sofia.
A humilhação é dolorosa demais e Anna sente as lágrimas prestes a jorrar no rosto. Mas antes ela precisa de um acerto de contas. Ela precisa encontrar Sofia.
Sofia estava sentada ao redor de várias pessoas rindo enquanto todos olhavam para o seu celular. Anna não era boba e sabia o que eles estavam vendo.
–Olá, Anna Hollywood. –Sofia não perdeu a hora para debochar.
Naquela hora o sangue de Anna ferveu tamanho era o ódio. Tudo era culpa de Sofia. Ela merecia pagar por isso. Sem hesitar, ela avançou para cima de Sofia. As duas rolaram no chão aos tapas, enquanto todos ao redor acompanhavam gritavam.
Felizmente, o fim da briga veio brevemente quando o diretor e também pai de Anna apareceu.
–Vocês duas na minha sala agora. E o resto volte a estudar. –E com essas palavras de ordem ele pôs fim àquela confusão.
As duas tiveram que aguentar, juntas, quase uma hora de sermões, gritos e repreensões. Quando enfim o diretor terminou, seus ouvidos estavam ardendo.
–Espero que isso não se repita mais.
–Com certeza não irá se repetir. Posso ir agora?-Sofia disse, exagerando o quanto podia no tom de bajuladora.
–Você pode. Aliás, deve. Preciso ter uma conversa particular com a minha filha. –Ele disse, lançando um olhar fuzilador em direção à Anna.
–Sim, senhor. Com licença. –Sofia saiu, tentando conter um risinho com as mãos.
–Mais essa agora? Já não acha que a escola já sabe o suficiente para te difamar?! –Seu pai começou a gritar novamente.
–Pai, sinto muito pela briga. –Ela começou, tentando melhorar aquela situação.
–Só pela briga? –Ele disse, e algo em seu semblante diz que ele sabe muito mais.
Anna sentiu o corpo inteiro congelar. Ele sabe do vídeo.
–Já que você não quer contar, eu conto para você. Hoje, quando entrei na minha sala, me deparei com isso. –Ele disse, mostrando um sutiã que estava guardado dentro de uma gaveta. O sutiã dela. –Eu logo pensei: deve ter sido alguma vagabunda desse colégio. Mas na minha sala? Aí passou dos limites. Então, passei algumas horas imaginando quem poderia ter esquecido isso na minha sala, quando certo vídeo chegou para mim.
Anna estava boquiaberta e sentia-se minúscula, tamanha era a sua vergonha.
–Pai.. Eu... Você nem faz ideia da vergonha que eu... eu sinto muito! –A vergonha de Anna era tanta que ela mal conseguia abrir os olhos. Que dirá olhá-lo no rosto.
–Sente? Vergonha? Se você sentisse vergonha não teria feito isso. E na minha sala! Com Charlie? Por Deus, com todos os garotos mais afortunados dessa escola, logo ele?! Você tem ideia do que fez com a sua imagem? Tem ideia do que isso pode fazer com a MINHA imagem? Provavelmente eu sou a piada do ano. Eu sim tenho vergonha, e de você.
Anna começava a chorar agora. Não queria que as coisas chegassem aquele ponto.
–Eu ia contar...
–Contar o quê? Que você transou com o bolsista na minha sala? –Ele disse com repulsa.
–O que você quer que eu faça, afinal? Quer me tirar dessa escola? Será um alívio.
–Não. Nem pensar. Você vai continuar nessa escola, escutando todas as ofensas, porque você não é inocente. Vai ter de lidar com as consequências. Você tem até o fim desse ano para limpar sua imagem e parar de vê-lo. –Ele deu o seu ultimato.
–Ou o quê?
–Ou eu juro que o expulso dessa escola.
–Você não pode fazer isso! –Anna gritou, indignada. –Ele é um dos melhores alunos dessa escola.
–Claro que eu posso fazer isso. Eu poderia expulsar os dois depois do que fizeram nessa sala. Agora saia, e reflita. Espero que pelo menos uma vez na vida você enxergue a razão.
*****
Charlie também estava sendo vítima de ofensas.
–Olhem só! Lá vem o tarado do joystick! –As pessoas repetiam sempre que o viam.
Ele também sentia vergonha, mas seu objetivo principal agora era encontrar Anna. Não demorou muito para encontrá-la em algum canto, sozinha e taciturna.
–Anna, eu fiquei sabendo... –Ele começou, sentando do seu lado.
–Charlie...
–Tudo bem, eu estou aqui agora. Quem liga para o que eles dizem? Daqui a alguns meses eles esquecem isso.
Talvez eles esquecessem, mas o pai de Anna não.
–Por enquanto, eu quero ficar sozinha. –Ela disse, levantando-se e deixando Charlie confuso.
–Anna... –Ele tentou impedi-la, mas não era o melhor a se fazer. Ela realmente precisava de um tempo.
*****
Ágata rastejava entre os corredores, assustada com a imensidão daquela casa. Sozinha ali, ela parecia ainda maior, e mais fantasmagórica. Quase que assombrada. O único barulho que se ouvia era o virar de páginas do livro que ela lia. E aquele silêncio já se tornara insuportável. Não conseguia entender porque Evellyn gostava de ficar sozinha em casa. Era perturbador. Ao menos para ela.
O som da campainha levou embora toda a paz daquele silêncio. Ágata levantou-se imediatamente da poltrona empoleirada da biblioteca, e foi em direção à porta. “Deve ser Sofia”, ela pensou. Sofia havia prometido passar na sua casa depois do colégio, apenas para não ficar sozinha. É claro que ela preferia a companhia de Anna, mas ela parecia ter morrido para o mundo e o seu celular a acompanhou.
Porém, quando atendeu a porta, era bem percebível que aqueles cabelos castanho-escuros e aqueles ombros largos não pertenciam a Sofia.
–O que você está fazendo aqui? A Evellyn não está se é isso que quer saber. –Ágata não maneirou nem um pouco no tom de voz.
–Você sabe muito bem que eu vim conversar com você. –Erick disse, e parecia estar ofendido.
–Erick, nós já conversamos. Lembra que eu pedi para você nunca mais aparecer na minha frente?
–Ágata, só me escute.
–Não, eu não quero! Eu estou tentando não pensar no que você disse. Estou tentando esquecer. Mas com você aqui tudo fica mais difícil.
–Ágata, por favor...
–Erick, vá embora. –Ágata tinha e expressão dura, mas por dentro sentia que estava prestes a desmoronar.
–Tudo bem, se é isso que você quer, eu vou. –Ele começou a se afastar. Ágata virou-se aliviada por aquilo ter acabado.
–Mas Ágata... Antes, eu posso te perguntar uma coisa? –Ele nunca desistia.
Ela assentiu, querendo que ele acabasse logo.
–Algum dia você vai me perdoar?
Ele precisava perguntar aquilo. A sua consciência estava lhe destruindo. Ágata ficou um bom tempo pensativa, taciturna.
–Talvez. Algum dia. Eu não sei, Erick. No momento estou com muita raiva de você. Talvez algum dia eu te perdoe. Talvez até uma segunda chance. Mas nada vai ser como antes. Disso eu tenho certeza. –Ela disse, fitando-o com aqueles olhos azuis taciturnos, mergulhados nas águas da mágoa, comumente chamadas de lágrimas.
–O que ele está fazendo aqui? –Era Sofia que chegava justo naquele momento. Ela olhava para Erick com uma expressão de nojo. Olhar hipócrita, pois o que Erick fez não chegava aos pés do que ela tinha feito a Anna.
–Ele já está indo embora. –Ágata anunciou quase que como uma ordem, e assim Erick sumiu adentro do denso e verde jardim.
As duas foram em direção ao quarto de Ágata. A última vez que Sofia esteve ali, as duas até se divertiram à custa de Evellyn. Agora tudo parecia tão desanimado.
–Como você consegue ficar sozinha nessa casa enorme? É assustador. Ainda mais por ter foto de gente morta. –Sofia realmente não tinha trava na língua. Ágata a encarou com um olhar ofendido.
–Desculpe. Eu esqueci. Sério, foi estúpido. –Ágata concordou com a cabeça. Realmente metade das coisas que Sofia falava era estúpido.
–Tudo bem. Não vai aparecer fantasma nenhum. Se os meus pais não ligavam para eu e Evellyn enquanto vivos, que dirá agora. –Ágata murmurou, sem se tocar o quanto isso parecia ser cruel. –Então. O que eu perdi hoje na escola?
Sofia sentiu uma pontada de vergonha ao se lembrar da manhã na escola. Não estava arrependida de ter feito aquilo com Anna. Pelo menos agora ela seria obrigada a ficar longe de Charlie e era tudo que ela queria. Porém, se Ágata soubesse do que ela fez (e mais tarde ela iria acabar descobrindo mesmo) nunca a perdoaria. Ágata é ótima para julgar as pessoas. Nunca mais olharia na sua cara, e é claro que ficaria do lado de Anna e Charlie.
–Nada demais. Claro, só as matérias chatas que não entendo como você consegue gostar. –Foi só o que ela disse.
–Estou querendo uma folga da escola. –Ágata confessou, entediada.
–Acho que você quer uma folga da sua vida inteira.
–É, mais ou menos isso. –Disse ela, enquanto dobrava algumas roupas, impecavelmente limpas e alvas.
–Você precisa mudar um pouco, Ágata. Experimentar coisas novas.
–Se você está falando de drogas, então procurou a irmã errada.
Sofia riu.
–Não seja exagerada. Estou dizendo que você deveria conhecer outro mundo além do ‘mundo perfeito de Ágata’. –Sofia sugeriu debochadamente.
–Meu mundo está longe de ser perfeito, Sofia.
–Pois bem, nenhum deles é. Mas que tal mostrar a todos que você não é a Ágata sempre boazinha? Você lembra-se de Valentina, no balé, lembra?
Ágata parou por um momento a sua tarefa quando um flashback rápido do seu passado pela sua memória. Aquele dia foi horrível.
–Eu ainda me sinto mal por isso, Sofia. Aquilo foi sério. Ela poderia nunca mais ter conseguido dançar. –Ágata disse. A mágoa vinda como enjoo.
–Não viaja Ágata. Vaso ruim não quebra. Você tem outro lado, um lado que poucos conhecem.
–E o que você me sugere? –Ágata pouco a pouco se rendia.
–Vamos nos divertir, Ágata. Aprontar. Você precisa disso. Veja só, você nem ao menos foi a alguma boate na sua vida!
–Talvez seja porque eu não tenho idade para isso. –Ágata às vezes era insuportavelmente ingênua.
–E desde quando isso é problema? Eu cuido disso. –Sofia disse entre risos.
–Não sei se é uma boa ideia, Sofia. –Ela se lembrou da última festa que fora. A música alta, as luzes alucinantes, pessoas grudadas. Ela odiava tudo aquilo.
–Então você está me dizendo que a menininha do papai não consegue se comportar numa boate? Coitadinha dela! –Sofia provocou, sabendo que tocara no ponto fraco.
Ágata odiava lugares assim. Não conseguia pensar, o cheiro de gente a deixava enjoada, e implorava para sair logo dali. Isso era apenas o que ela conhecia, porque nunca fora a uma boate, e na certa deveria ser pior. Mas ela odiava ainda mais subestimada. Isso ela não suportava de jeito nenhum.
–Está bem, Sofia. Vou mostrar para você. Diga-me o dia e eu passo na sua casa para irmos até lá. –Ela disse com convicção, e Sofia sorria extasiada. Estava adorando aquela nova Ágata.
*****
A sexta-feira chegou sem demora, e algumas coisas ainda não haviam mudado. O clima continuava ruim naquela casa, e ao que tudo indica a tempestade continuará por mais alguns capítulos. Anna ainda se mantinha afastada de tudo e de todos, e Ágata começava a ficar preocupada.
Porém, quando ela apareceu na sala vestindo uma saia incrivelmente justa azul marinho, e uma regata prata bem brilhante que criava a ilusão de seios maiores, um salto tão alto que você tem que ser um equilibrista para aguentá-lo acompanhado de um batom vermelho provocante que provavelmente ela roubara de sua irmã, tanto Kate quanto Evellyn ficaram perplexas, como se ela tivesse sido abduzida e trocada por outra pessoa.
–Como estou? –Ela se exibiu na frente de Kate, deixando assim implícito o quanto a opinião de Evellyn lhe era irrelevante.
–Quem é você e o que você fez com a doce Ágata que dorme cedo na sexta-feira? –Kate continuava boquiaberta, ainda com o jornal em suas mãos.
–A doce Ágata resolveu tirar uma folga. –Ela lhe respondeu, dando uma última checada no grande e clássico espelho da sala.
–Vou sair com Sofia e não tenho hora para voltar. Até amanhã. –Ágata disse, dirigindo-se a porta.
–Tudo bem e... Nossa! Nunca pensei que diria isso a você, mas, juízo! –Disse Kate, ainda chocada.
–Eu terei. Tchau. –E fechou a porta.
Kate e Evellyn trocaram um olhar que dizia várias coisas assim que Ágata saiu pela porta.
–Provavelmente isso não vai acabar bem. –Kate murmurou para Evellyn, que também estava boquiaberta.
–Evidente que isso não vai acabar bem. –Evellyn concordou.
–É pedir muito que você a acompanhe e fique de olho? Você tem mais experiência do que ela. –Kate parecia preocupada.
Evellyn soltou uma risada, mas não era nada engraçado.
–Kate, eu ainda tenho as marcas da unha da briga com Ágata. Ela prefere voltar para casa acompanhada de um terrorista do que comigo.
–É, você tem razão. –Kate concordou com desgosto. –Espero que ela saiba se cuidar sozinha.
*****
A facilidade com que entraram na boate assustou Ágata. Ela perguntou para Sofia se era sempre assim, mas a música alta abafou sua voz baixa. Ágata já começava a ficar confusa, como sempre ficava em lugares assim. Aquilo ia ser mais difícil do que imaginava.
–Oi gente. Vocês conhecem minha amiga Ágata? –Sofia disse, ou melhor, gritou para um grupo de jovens que estavam sentados numa poltrona.
–Oi Ágata! –Eles disseram em coro. –Você é filha daquele casal que morreu num acidente? –Uma das garotas falou.
–Sim, mas eu não sou apenas isso. –Ágata cuspiu em defesa.
–Deixa a menina em paz! Pra que falar em morte agora? Vem, senta aqui. –Um cara louro e com braços medonhamente malhados a convidou. Ágata não viu alternativa, pois Sofia já estava agarrada a outro cara na outra ponta da poltrona e ela estava sozinha.
O cara estranho enlaçou-a com seus braços e Ágata tinha impressão de ser esmagada. Estava sufocada pelos seus músculos e pelo hálito forte de bebida.
–Você é muito gata, sabia? –Ele começou a sussurrar em seu ouvido. –Devia acompanhar mais a Sofia.
–E você é muito inconveniente, sabia? –Ela afastou-se um pouco dele.
Agora ele beijava o seu pescoço cada vez mais forte, e ao que tudo indicava, ele iria lhe dar um chupão.
–Licença, eu vou buscar algo para beber. –Foi a única desculpa que arrumou para sair dali.
–Deixa eu te acompanhar. –Ele começou a levantar também.
–Não, eu quero ir sozinha. –Ela saiu rapidamente e sumiu no meio da multidão.
O cara estranho ficou observando-a sumir sem entender nada.
–Deixe-a em paz. Ela não está acostumada. –Sofia a defendeu.
–Tanto faz. Não estou a fim de aguentar crises de uma garota mimada. –Ele disse, voltando para o seu lugar.
Ágata demorou a achar o bar no meio de tanta gente, e aquelas luzes a deixavam sem coordenação. Mas enfim sentou-se e por um momento se sentiu bem ao estar sozinha.
–O que posso servir a você? –O barman perguntou, secando um copo com uma toalha.
Ágata ficou olhando os diferentes tipos de coquetéis sem fazer ideia do que pedir.
–Quer alguma sugestão? –Ele disse educadamente.
–Eu posso pedir uma bebida sozinha! –Ela sentiu-se ofendida.
–Tudo bem... Diga-me quando escolher o que quiser. –Ele disse e saiu para atender outro cliente, ciente de que ela deveria estar ‘naqueles dias’.
Ágata olhou de vislumbre para outra direção e ficou surpresa ao encontrar Madison trabalhando como dançarina. Evellyn sabia que ela estava ali? Por que ela estava fazendo isso? Pensou em ir até ela e perguntar, mas tinha vergonha. Madison parecia olhar para ela também, assustada. Ela sabia que era ela, e não Evellyn.
Ela reconheceu outro rosto também, porém não lhe recordava o nome. Talvez tivesse conhecido-o há algum tempo. Mas o rapaz parecia saber muito bem quem ela era. Ele não tirava os olhos dela, nem mesmo para bebericar o seu drinque. Ágata talvez devesse pedir o mesmo. Parecia ser gostoso. O drinque, não o cara.
Ele enfim resolveu se aproximar dela. Ágata sentiu-se constrangida, mas não havia para onde fugir.
–Ágata? Que surpresa você por aqui. Tá lembrada de mim? Sou o Alex. –Ele disse, estendendo a mão para cumprimentá-la.
–Ah, Alex. Você é amigo de Evellyn, não é? –Alex não se conteve e teve de rir ao ouvir aquela ideia absurda.
–É, talvez. –Ele disse, a fim de se aproximar dela.
Madison agora a fuzilava. Ágata logo se lembrou de que ela havia fugido com Alex. Talvez ela estivesse com ciúmes. Pobre Ágata, Madison não estava com ciúmes. Ela queria impedir que Alex se aproximasse dela por medo. Ela já havia passado por isso e não queria o mesmo para Ágata.
–Posso pagar uma bebida para você? –Ele disse, com os olhos centrados nela.
–Ah, obrigada. Eu estava mesmo indecisa sobre o que pedir. –Ela disse com a voz nervosa.
–Entendo... Primeira vez, não é? –Ela afirmou com a cabeça.
–Ei, cara, faz um desse para a mocinha aqui. Capricha, hein? –Ele disse, mostrando o seu drinque. Ágata teve a leve impressão de ver o barman olhar para Alex com reprovação, mas não levou a sério. Ela estava meio sonsa mesmo.
–Eu tenho que dizer isso, mas você é bem mais simpática que a sua irmã. –Ele sussurrou em seu ouvido, passando a mão na sua coxa.
–Minha irmã tem um gênio difícil mesmo. -Assim como Erick, ela pensou, tirando a sua mão de sua coxa.
–Eu sei. Conheço a peça. Ainda bem que vocês são muito diferentes. –Ele continuava sussurrando em seu ouvido, agora mexendo numa mecha dourada de seu cabelo. –Sinceramente, gosto mais de você.
–Que bom que pelo menos você pensa assim. –Ela soltou, ainda com a ideia de Erick manter certa preferência por Evellyn.
–O que aconteceu? –Ele disse, sem dar a mínima.
–Não quero falar sobre isso. –Ela fechou o assunto.
–Entendo... Não falaremos então. Seu desejo é uma ordem, princesa. –Ele disse, pegando a sua bebida. Ela já ia beber, mas Alex impediu.
–Pelo que eu conheço de você, esse não é o seu ambiente favorito, não é? –Ele disse, notando o desconforto dela.
–Pois é. –Ela disse ciente de que qualquer um percebera o seu desconforto.
–E o que faz aqui então? –Ele queria saber.
–Estou querendo experimentar novas coisas.
Era a frase padrão para ele apresentar os seus negócios.
–Saquei. Então você iria adorar um desses aqui.
Ele sacou um envelope e Ágata sabia muito bem do que se tratava. Ia negar automaticamente, quando uma ideia diabólica lhe veio a cabeça.
–Eu não sei... –Ela fez jogo duro.
–Qual é. Pelo menos experimenta. É por conta da casa. Mas só dessa vez. –Ele riu, flertando.
–Obrigada. –Ela disse, pegando o pequeno envelope de plástico.
–Minha garota. Quer experimentar mais tarde?
–Não, não. Prefiro na minha casa. –Ela disse, mas seus planos com aquela droga eram outros, e não incluíam ela mesma digerir. Afinal, ela aspira a profissão de médica, e sabe muito bem o que acontece com pessoas que entram nesse mundo.
– Você que sabe. –Alex disse sorrindo, feliz por ver uma futura cliente bastante rica. -Olhe. O show do barman vai começar agora. –Ele apontou para a direção oposta.
Enfim uma coisa que havia gostado naquela boate, afinal. Enquanto Ágata acompanhava zonza a performance, Alex despejava um pó que a deixaria sem sentido em sua bebida. Ágata bebericou sem tirar os olhos do show, sentindo o gosto forte da bebida queimar a sua garganta enquanto descia feito fogo. Ela deveria ser bem fraca para bebida mesmo, pois se sentia cada vez mais zonza.
–Acho que é melhor eu não beber tudo... –Ela disse com a voz mole.
–Que isso... Vai fundo. O melhor fica para o final. –Ele disse, e dessa vez levou o drinque até a boca dela. Ágata tomou um grande gole e de repente perdeu o equilíbrio.
–Opa... –Ele disse, segurando-a.
As coisas começavam a girar agora. Era impressão dela ou eles estavam tocando uma música lenta? Talvez fosse ilusão, mas ela poderia jurar que escutava Slow dancing in a burning room, do John Mayer. A melodia lenta contribuía para sua mente ficar ainda mais sem sentido.
–Talvez seja melhor irmos para outro lugar. –Uma voz vinda de um vulto esboçado disse, mas ela não se recordava de quem estava falando. Agora tinha a impressão de estar sendo carregada, e aos poucos a música ficava mais distante, e tudo parecia ser visto de uma janela embaçada pela chuva. E do nada, o som da música deu lugar a um ronronar de um motor. E ela apagou.
*****
Madison não tirou os olhos de Alex, e viu a hora exata que ele a levou para fora. Ela entrou em pânico. Sabia o que ele faria depois. Ele fez a mesma coisa com ela. Ágata não era sua amiga, mas ela devia isso para Evellyn. Apesar de nunca ter sido próxima da irmã, ela odiaria ver isso acontecer.
Sem hesitar, ela desceu do palco. Já podia prever o dono da boate xingando-a de todos os nomes obscenos já existentes. Mas pouco importava. Aquele era um emprego de uma noite, afinal. Amanhã ela estaria Deus-sabe-onde fazendo Deus-sabe-o-quê. Correu para a saída e tentou seguir o carro, mas era tarde.
–Meu Deus, o que eu faço? –Ela roia as unhas, desesperada. Sem hesitar, pegou o celular e discou o número de Evellyn que ainda permanecia intacto na sua memória.
–Droga, Evellyn! Por que você tem celular, afinal? –Ela gritou, com raiva.
Mas Madison não desistia. Começou a correr em busca de ajuda. Era uma cidade pequena e possivelmente ela encontraria alguém conhecido. E quando ela estava quase perdendo as forças, Deus parecia ter ouvido suas súplicas, enviando ninguém mais ninguém menos que Charlie, no carro velho do seu pai. Ela se lembrava dele e de Ágata sempre juntos na escola. Com certeza ele a ajudaria.
Charlie freou o carro desengonçadamente, assustado ao ver Madison numa roupa que não tapava quase nada. Ela parecia assustada.
–Charlie, ainda bem que você apareceu! –Ela disse arquejando.
–Madison, o que aconteceu?
–Você tem que me ajudar. Ágata está correndo perigo.
–O que aconteceu com Ágata? –Ele gritou desesperado.
–Eu não sei o que ela estava fazendo na boate, mas ela entrou com Sofia. Alex se aproximou dela, colocou algo em sua bebida e ela desmaiou. Charlie confie em mim, eu conheço Alex e ele é um monstro. Você tem que me ajudar!
–Para onde eles foram?
–Eles entraram naquela rua ali. –Ela disse, apontando. –Pelo que eu conheço do Alex, ele deve estar levando-a para o motel mais próximo.
–Motel?!- Charlie gritou, já indo em direção a rua que Madison apontara.
–Você vem comigo? –Ele perguntou.
–Não. Eu tenho que voltar para a boate. Mas vá logo! –Ela gritou, e foi só o que bastou para Charlie seguir caminho indo o mais rápido que aquela máquina anciã conseguia.
*****
Ágata ainda estava desacordada, e ficaria sim por um bom tempo mesmo. Seja lá o que o malicioso Alex pusera em sua bebida era bem forte. Ela estava desmaiada no banco traseiro, feito um anjo que caíra do céu. Alex dirigia muito rápido e parecia fazer questão de passar nos buracos.
–Ora de um pouco de privacidade, princesa. –Ele disse, mesmo sabendo que ela não poderia lhe escutar.
Alex pegou-a com um cuidado inédito vindo de um monstro feito ele. Talvez estivesse gostando mesmo dela. Sempre teve uma queda por Evellyn, mas nunca teve uma chance. Agora tinha Ágata, o que não fazia muita diferença. Era o mesmo corpo, assim pensava ele, mesmo achando Ágata um pouco patética.
Charlie chegou bem a tempo de ver Alex sair com Ágata pelos braços. Movido pelo instinto, ele fez uma baliza com violência e saiu do carro. Em momento algum ele pensou no fato de Alex ser um criminoso, e ele poderia muito bem estar armado.
–Afaste-se dela imediatamente, seu monstro! –Ele ordenou, batendo a porta do carro com força. Um ato em si estúpido, levando-se em conta a idade do carro, mas na cabeça de Charlie isso causava um pouco de temor.
–Vejam só... Até pensei que fosse mesmo um policial, quatro olhos.
–Alex, deixe-a em paz.
–Ou o quê?
–Ou eu mando uma mensagem para o meu pai que é policial agora mesmo e ele vai te perseguir até o inferno.
–E se eu te matar antes? –Alex não faria isso, mas a ameaça fora bastante convincente para Charlie, que tremia por dentro.
–Eu terei enviado a mensagem de qualquer jeito. Ela já está digitada. Apenas um botão e ele vai atrás de você. –Era mentira a parte da mensagem, mas Charlie não pensara em mais nada.
–Okay, quatro olhos. Pode levar o seu prêmio. Otário. –Ele jogou Ágata na calçada e entrou de volta no carro.
Mais do que rápido Charlie a pegou e tentou reanimá-la, ainda atônico com o que acabara de fazer.
–Ágata, Ágata, acorda. –Ele batia em seu rosto, mas nada mudava. –Ágata? Você está me ouvindo? Ágata? Acorde, por favor!
Depois de muitas tentativas ele finalmente conseguiu trazê-la de volta a consciência. A cabeça de Ágata estava um pandemônio só. Sua visão ainda turva a impedia de reconhecer os olhos de Charlie atrás daquele óculos, agora embaçado pelas lágrimas. Tremia-lhe só de pensar no que poderia ter acontecido a ela se não chegasse a tempo.
–Ágata... Você está voltando para mim... –Ele ronronou, com um grande sorriso nos lábios.
Em seu estado de completa confusão, Ágata sentia estar entre os braços de um anjo. Quase como um movimento involuntário, ela selou seus lábios aos dele. Charlie arregalou os olhos, surpreso, mas não se esquivou. Quando enfim suas bocas se separaram, ele ainda sentia a sua formigar.
–Obrigada por me ajudar. –Ela ronronou de volta, ainda com os olhos semicerrados de torpor.
Charlie estava confuso com tudo aquilo. Mas não podia se dá ao luxo de pensar com clareza sobre seus sentimentos, quando ainda precisava ajudá-la.
–Venha eu vou te levar para casa. –Ele pegou-a em seus braços feito criança e a colocou a caminho de casa. Onde estaria segura em seu sono pesado que provavelmente iria transformar aquele beijo em um mero sonho estranho.
Fale com o autor