Entre Aurora e Crepúsculo

2 02- O que não foi dito


A chuva caía suave sobre Forks naquele fim de tarde, e a floresta parecia conter a respiração. Jacob e Renesmee caminhavam entre as árvores molhadas, os passos sincronizados como se o tempo os tivesse moldado um para o outro.

Era um costume antigo, aquele passeio pela trilha atrás da casa dos Cullen. Mas agora, cada silêncio entre eles carregava significados novos. A amizade confortável havia se transformado em algo mais — algo tênue, que se equilibrava entre o não dito e o inevitável.

— Está mais quieto do que o normal hoje — disse Renesmee, empurrando um galho úmido com os dedos.

Jacob deu de ombros, os olhos fixos no caminho à frente. — Estou só pensando.

— Sobre?

Ele hesitou. A forma como ela o olhava agora — olhos dourado-mel, sérios, atentos — fazia tudo parecer mais real. Como se dizer em voz alta fosse o mesmo que atravessar uma linha da qual não haveria volta.

— Sobre nós.

Ela parou. Ele também. A floresta, que até então parecia alheia, ficou subitamente atenta. A única coisa que se ouvia era a respiração de ambos, leve no frio da tarde.

— Achei que a gente já estivesse em um “nós” — disse ela, com um meio sorriso.

Jacob também sorriu, mas havia algo apertado em sua expressão. — Estávamos. Mas agora é diferente. Você está diferente.

Ela não respondeu de imediato. Caminhou até uma pedra coberta de musgo e sentou-se, puxando os joelhos para perto do peito. Jacob se aproximou, mas ficou de pé, de braços cruzados.

— Me lembro quando você me carregava nas costas pela floresta. Eu ria até perder o fôlego. Você era meu herói. O lobo grande e quente que nunca me deixava cair.

— E você era a menininha que me dava bronca quando eu pisava em flores — ele respondeu, rindo. Depois a voz ficou baixa. — Mas agora você olha pra mim diferente. E eu... não sei o que fazer com isso.

Renesmee o observou. Pela primeira vez, o homem diante dela parecia vulnerável. Não o lobo, o guerreiro. Apenas Jake. E ela sentiu ternura e força misturadas no mesmo instante.

— Sabe, eu pensei que o imprinting fosse uma coisa mágica que fazia tudo certo. Como se o amor viesse pronto.

— Eu também pensei — ele confessou. — Mas não é. É só o começo. É como... uma bússola. Mostra onde está o norte. Mas você ainda tem que decidir se quer ir até lá.

Renesmee se levantou, caminhou até ele devagar, com os olhos fixos nos dele.

— Eu quero ir até lá.

Jacob engoliu em seco.

— Tem certeza?

Ela assentiu.

— Nunca tive tanta.

E então, com a hesitação própria de quem atravessa uma fronteira invisível, ela tocou o rosto dele com uma das mãos. Não precisou dizer nada. O toque bastou para que ele visse — por meio do dom dela — as lembranças que ela guardava. Todos os momentos em que ele a protegeu. Todas as noites em que ela sonhou com ele. E o mais recente: a sensação de que, ao amá-lo, ela estava descobrindo quem era.

Jacob fechou os olhos. Quando os abriu, estavam brilhando.

— Nessie... — ele sussurrou.

Ela se aproximou mais, ficando na ponta dos pés. E ali, entre as árvores, com o cheiro de terra molhada e pinho ao redor, ela o beijou.

Não foi um beijo apressado. Foi lento, exploratório. O tipo de beijo que diz “a gente esperou tanto por isso”, e “finalmente”.

Quando se afastaram, os olhos dela estavam marejados. Não por tristeza. Mas porque era bom. Era certo.

— Isso muda tudo — ele disse, a voz rouca.

— Talvez. Mas não me assusta.

Jacob a envolveu em um abraço forte, como se pudesse protegê-la até do tempo.

E pela primeira vez em muito tempo, Renesmee sentiu-se completa.

No dia seguinte, a paz seria abalada por uma visita inesperada de Alice e Edward. Mas por enquanto, só havia o som da chuva, o calor de dois corações entrelaçados, e o início de uma história que ainda teria muito a enfrentar.