Entre Aurora e Crepúsculo
3 03- A visão de Alice
O céu sobre Forks amanheceu pálido. Na casa dos Cullen, o ar estava carregado, como se o próprio mundo soubesse que algo estava prestes a acontecer.
Alice estava parada no centro da sala, imóvel como uma estátua. Seus olhos, geralmente brilhantes e vivos, estavam fixos em algo que só ela podia ver.
Edward foi o primeiro a se aproximar.
— O que foi? — perguntou, a voz calma, mas tensa.
Alice piscou. Uma vez. Depois outra. E então falou, devagar, como quem mede cada sílaba.
— Eu vi sangue. Não o nosso. Alheio. Sangue híbrido.
Bella, que ouvia da escada, desceu com passos firmes.
— Renesmee?
Alice balançou a cabeça.
— Não sei. Foi tudo confuso. Fragmentado. Mas alguém está vindo. Alguém que procura por ela. E não com boas intenções.
Carlisle apareceu na sala, o semblante grave.
— Volturi?
Alice fez que não com a cabeça.
— Não. Essa energia é... diferente. Mais antiga, talvez. Menos política. Mais fanática.
Edward e Bella trocaram um olhar.
— Precisamos falar com Renesmee — disse Edward.
Jacob e Renesmee estavam na varanda da cabana, onde haviam passado a noite juntos — ainda castamente, mas com uma intimidade nova que os fazia parecer dois planetas se orbitando.
Ela ria de algo que ele dissera, a cabeça encostada no ombro dele. E por um breve momento, o mundo parecia longe. Seguro.
— Eu nunca imaginei que fosse me sentir assim — ela disse. — Como se o chão sob meus pés tivesse mudado, mas eu ainda soubesse onde pisar.
Jacob sorriu, beijando o topo da cabeça dela.
— Talvez a gente só precise caminhar devagar. Um passo por vez.
Ela olhou para ele, os olhos dourados brilhando.
— E se o mundo não deixar?
Antes que ele pudesse responder, o som de passos rápidos sobre a grama fez os dois se virarem.
Edward, Bella e Alice surgiram entre as árvores. O rosto do pai de Renesmee estava tenso, mas havia gentileza em seu olhar.
— Podemos conversar?
Dentro da casa principal, Alice repetiu o que havia visto, com mais detalhes. Disse que a sensação era de ódio antigo, de alguém que desprezava o nascimento de seres como Renesmee — nem humanos, nem vampiros. Uma quebra das "leis naturais".
— Eles se autodenominam Os Puristas — disse Carlisle, que já começava a organizar fragmentos de informação. — Um grupo europeu, pequeno, mas brutal. Raramente se envolvem com outros clãs. Extremamente secretos.
Jacob rosnou baixo, ainda em forma humana.
— Se eles ousarem se aproximar dela...
— É por isso que precisamos nos preparar — disse Edward, olhando diretamente para ele. — E precisamos tomar decisões em conjunto.
Renesmee apertou o braço de Jacob, sentindo a tensão vibrando sob a pele dele.
— O que isso significa, exatamente? — perguntou ela.
Bella foi quem respondeu. — Que talvez vocês tenham que ir embora por um tempo. Para longe de Forks. Longe da família. Até descobrirmos mais.
Renesmee sentiu o coração acelerar. Deixar seus pais? Seu lar? Jacob apertou sua mão, como se dissesse: Se você for, eu vou com você.
— Eles querem me caçar por existir — murmurou. — Mas eu não tenho culpa de ser quem sou.
— Não — disse Alice. — Mas tem culpa se não lutar por si mesma. E por todos que podem vir depois de você.
O silêncio que se seguiu foi espesso, quase físico.
Então Jacob falou, sua voz baixa, firme, como rocha.
— Se ela for, eu vou. Se ela ficar, eu fico. E se eles vierem, vão ter que passar por mim.
Edward não discutiu. Pela primeira vez, ele olhou para o homem que outrora desprezara, e assentiu.
— Proteja a nossa filha, Jacob.
Foi a primeira vez que aquelas palavras foram ditas. E nenhuma delas soou como uma concessão.
Soaram como confiança.
Naquela noite, Renesmee não conseguiu dormir. Sentia o corpo tenso, a cabeça cheia de imagens que Alice havia descrito. Homens com olhos ardentes de ódio. Garras. Farpas de gelo. Uma névoa vermelha.
Jacob estava deitado ao lado dela, apoiado de lado, observando-a em silêncio.
— Está com medo? — ele perguntou.
Ela balançou a cabeça devagar.
— Não por mim. Por nós. Por tudo que poderia ter sido simples.
Ele a puxou para perto, enlaçando-a com o braço quente.
— O amor nunca é simples. Mas se for verdadeiro, vale tudo.
Ela virou o rosto, colando a testa na dele.
— Vai ficar comigo? Mesmo se tudo der errado?
— Eu já fiquei contigo quando tudo estava errado — ele sussurrou. — Agora que tudo está começando a dar certo, não vou a lugar nenhum.
E ela o beijou. Um beijo mais urgente que o primeiro. Não pelo desejo físico, mas por medo de não haver tempo. Por amor e proteção e pertencimento. Um beijo que dizia: se o mundo quebrar, que a gente quebre também, mas juntos.
Do lado de fora, a primeira folha de outono caiu.
E o conflito, ainda invisível, começou a se aproximar.
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