Entre Anjos

3 Capítulo 3 - Visitas


Na manhã seguinte Anandiel começou a sobrevoar Cloe animadíssimo com o novo mundo que estava por conhecer.

Ela acordou devagar, ficou um tempo parada, até que finalmente levantou, olhou pela janela o dia ensolarado e deitou de novo.

Era uma manhã de sábado, na qual todos os jovens, com certeza, não teriam nada para fazer.

Anandiel parou de voar e se sentou na janela enquanto Cloe se sentava na cama, ele não parava de olhá-la.

- O que foi? – ela disse

- É que você estava sonhando comigo...

- Como você sabe?

- Eu estou em você de certa forma, é complicado... Mas você não está em mim, por isso eu posso ir embora e você nem sentirá falta...

Realmente parecia ter uma presença, mas apenas uma presença na mente de Cloe que só assistia seus pensamentos, mas nunca interferia.

- Mas me diga... – ele continuou – por que você anda triste?

- Meu avô morreu...

- O Sr Arnold ou o Sr Maximiliano?

- Vovô Arnold...

- Podíamos vê-lo... – Anandiel refletiu em voz alta

- Podíamos?! Mesmo?

Os olhos de Cloe brilhavam só de pensar em ver seu avô, a idéia que ver um morto podia ser absurda nem se passou por sua mente.

- Podíamos, mas você só veria a alma dele, não ele.

- Mas seria ele de qualquer forma! Eu quero ir!

- Tem certeza? A alma de algumas pessoas pode ser bem diferente do que elas realmente eram.

- Como assim?

- Uma pessoa pode se fazer de boazinha a vida toda, mas ter uma alma perversa e sombria, e o contrario também acontece.

- Não acredito que o vovô seja assim, quero vê-lo!

- Certo... A escolha foi sua, agora durma

- Quê? – tão logo terminou de falar caiu adormecida no chão do quarto e Anandiel se dissolveu numa fumaça azulada e entrou pela boca da menina.

***

- Anadiel?

A menina perguntou confusa enquanto uma fumaça anil tomava a forma do corpo de um anjo. Estava numa planície vasta e verde, cercada de montanhas e lagos.

- Sim?

- Onde estamos?

- No refugio das almas.

- Achei que fosse o céu...

- O céu pode ser uma tola ilusão...

- Como assim? Você não mora lá?

- Não, eu moro no Concêncio Angelical. Só passei pelo céu uns instantes para poder vir para terra, mais nada.

- E Deus onde mora?

- Não sei, nunca estive com ele. Agora vamos.

Ele a pegou pela cintura e começaram a voar por cima da planície, lá em baixo havia uma nevoa constante multicolorida, pareciam conversar entre si.

Planaram por um rio, e Cloe sentiu seus pés cortarem a água límpida e limpa.

- Aqui estamos

Ele a deixou sentada num balanço de madeira e corda preso a uma arvore e esperaram.

Uma nevoa prateada tomou conta do chão e logo tomou uma forma muito conhecida de Cloe, mas sem os óculos ou a aparência de senhor experiente, apenas fumaça moldada.

- Vovô Arnold?

- Cloe! – fumaça tinha um tom de voz alegre, se aproximou com quem quer abraçar, mas quando tocou a pele da neta se dissolveu no ar – Maldita e bem-vinda morte – ele lamentou – não me deixa te tocar...

- Bem-vinda?

- Sim querida, eu morri porque já era minha hora, morri porque meu corpo precisava de descanso e minha alma de liberdade.

- Mas você me deixou...

- Deixei, mas por algo inevitável minha filha, é apenas um estagio para uma nova “vida”, apenas um caminho que somos obrigados a seguir. Mas como você chegou aqui, não parece ter morrido.

- Não morri, meu anjo me trouxe aqui.

- Anjo?

Anadiel fez uma profunda reverencia, mas não disse nada.

- Oh, sim, você também ganhou um anjo... Eu tinha um, mas ele partiu no meu 18º aniversario.

- Por quê?

- Porque eu já havia aprendido tudo o que ele pretendia me ensinar, e o mesmo acontecerá com Anandiel.

- Temo que sim – o anjo disse – é hora de irmos, o refugio das almas não é para quem vive.

Cloe se despediu do avô e Anadiel a tomou pelos baços e novamente voaram pela planície, mas antes que voltassem por onde partiram o anjo parou diante de dois demônios anões que jogavam cartas.

- Se Farreu souber disso banirá você de novo...

- Farreu não saberá... E desde quando você serve a ele? – O demônio verde falou

- Você é um anjo guardião, Anadiel, e se eu fosse anjo ainda ficaria na terra onde é seguro – o demônio azul advertiu, dando uma ultima cartada – Ganhei!

- Deus também pode puni-los!

- Deus é só o capitão do time de xadrez, brincando com as peças a espera do momento oportuno de dar xeque-mate – o demônio verde tomou a palavra

Cloe olhava toda a cena se entender uma palavra.

- Vão trabalhar! – Anandiel ordenou e os demônios começaram a ler uma lista, cada nome era de uma alma.

As almas passavam por um portal e ficavam de frente para os demônios esperando a sentença, o demônio verde falava os nomes e o azul dizia o destino.

- Sr Arnold Prilsen

“vovô...” Cloe pensou “ele deve ir para o céu...”

- Sete primaveras zelando as almas!

- Srtª Arcadna Mortez

- Vinte invernos zelando pelos pobres

- Sr Augustos Fara

- Três outonos zelando as estações.

- Hã? – Cloe se perguntou, eram as sentenças mais absurdas que ela já tinha ouvido.

Anadiel explicou:

- São como castigos, a sentença é sempre cuidar de algo que eles repudiam.

- Todas as almas?

- Você já viu alguém gostar de tudo e de todos? – Anadiel alçou as asas – vamos!

- Mas saiba Anadiel que ele irá voltar e todos deverão obedecê-lo! Até você! – o demônio verde advertiu.

***

- Ai

Cloe levantou do chão do quarto, já eram 12 da manhã. Anandiel estava sentado na soleira da janela de novo.

- Ele vai voltar? – ele sussurrava para si mesmo

- Não entendi nada! Aqueles demônios eram anjos?

- Adeptos de Moreu, eles foram exportados por desobedecerem às ordens de Deus, agora cuidam das sentenças das almas.

- Moreu? Não é Lúcifer?

- Lúcifer não causa problemas. Moreu foi banido para os confins de Andraris, a prisão dos anjos e lá está desde então. É uma história muito longa.

Um anjo feminino surgiu voando fora da janela

- Ola Anandiel.

- Kaleu? O que você quer aqui, minha amiga?

- Você!

Notas finais
No próximo capitulo:
Anadiel pode estar prestes a morrer, e uma guerra pode estar prestes a começar.
Será que Cloe terá coragem suficiente para enfrentar as pessoas que mais ama em busca da verdade?