Entre Anjos

5 Conversa no templo com um anjo


A manhã era fria e uma leve névoa encobria o horizonte acinzentado de Amsterdã. Ainda eram seis da manhã e Samuel, acompanhado de sua inesperada hóspede, caminhava a passos rápidos em direção à uma igreja presbiteriana que era o templo mais próximo dali que ele conhecia.

Ele usava um casaco verde musgo sobre uma camisa branca, um cachecol preto para aplacar o frio, calças jeans surrada, um boné e um par de tênis bem gastos. A bela moça que caminhava ao seu lado utilizava-se de um sobretudo emprestado por ele para se proteger do frio, luvas e cachecol todos da cor preta. Os dois caminhavam rapidamente pela rua, ele ligeiramente à frente guiando sua acompanhante.

Durante o período em que ela ficara desacordada, Samuel não se atreveu a tocá-la, mesmo que se sentisse tentado a fazê-lo, pois ela o atraía intensamente. Limitou-se a colocar e a retirar suas cobertas de acordo com o aumento e a queda da temperatura. Ele não sabia o porquê, mas, mesmo ela sendo a garota mais linda que já vira em toda a sua vida e tendo o poder de exercer sobre ele um magnetismo impressionante, não se atrevia a encostar nem um dedo que fosse nela. Ele comportava-se como um cavalheiro, mas Ariel o perturbava, o fazia querer partir ao seu encontro com o único intuito de beijá-la. Era estranho que, mesmo com toda aquela atração, ele também possuísse por ela um respeito e até mesmo um temor igualmente intensos. Eram sentimentos muito conflitantes lutando em seu interior em meio à tantos outros acontecimentos estranhos de forma que ele não se atrevia e nem tinha a paz necessária para buscar construir um entendimento do que se passava em seu coração.

Ele ainda não estava totalmente convencido de que aquela história contada por Ariel era verdade. Sua mente era excessivamente materialista para deixá-lo crer facilmente em coisas que ele não conseguia compreender utilizando seu conhecimento científico e a lógica. Samuel era uma pessoa marcada por experiências metafísicas, mas tais experiências, ao invés de torná-lo alguém espiritualizado, guiaram-no ao caminho oposto. Como desde criança as pessoas caçoavam dele, nasceu em seu coração uma vontade de negar aquilo que sentia e que ninguém acreditava, tornando-o uma pessoa incapaz de possuir uma mínima centelha de fé. Por isso buscara com tanta intensidade o caminho da ciência. Definitivamente ele não era o tipo de pessoa que acreditava em anjos e tampouco que seguiria cegamente as orientações de Ariel.

Já haviam caminhado dois quarteirões inteiros e ela logo começou a impacientar-se:

– Mas você havia dito que o templo era bem próximo. Como ainda não chegamos?

– Para alguém que se diz ser como uma deusa você é bem esquentadinha, hein?! — apesar da atração física, seus temperamentos eram conflitantes. — Eu falei que era relativamente próximo e que daria para ir a pé. Agora por favor, eu estou te fazendo um favor, não venha me encher agora!

– Mas que humano atrevido! Você ainda não se deu conta que se perdermos essa guerra esse planeta e toda a humanidade serão exterminados? Por favor falo eu! Não me diga para ficar calma diante de uma situação dessas! Você parece uma criança diante de uma serpente que sorri porque não conhece o perigo, só que a criança sorri por ignorância, já você ignora por pura burrice!

– Olha aqui, eu estou te ajudando, não estou? Então pega leve e não me estressa com esse teu papo de destruição em massa e blá-blá-blá! Eu estou custando a te dar crédito sobre essa história sem pé nem cabeça de Izacael. Sem falar que você, com esse gênio difícil, não tem nada de angelical pro meu gosto.

– Percebo que você ainda não acredita no que te falei. Pois bem, é até melhor que seja assim. Deste modo poderei retornar sem ter que me preocupar contigo.

Os dois acabaram chateando-se e foram calados todo o restante do percurso sem trocarem mais nem uma palavra sequer. Ariel estava muito preocupada com a situação e um sentimento de urgência em passar as informações coletadas a consumia. Mas, mesmo estando absorta com suas atribuições, ela não conseguia ficar indiferente em relação a Samuel. Ele realmente conseguia irritá-la com suas colocações. E o fato dele tê-la visto em sua forma quase totalmente transmutada e ainda assim duvidar de sua natureza a deixava furiosa. Como poderia existir alguém tão imbecil a ponto de duvidar daquilo que presenciou tão vivamente! Ele só pode ser um completo idiota.

Andaram somente mais dois quarteirões e os dois já estavam em frente à Primeira Igreja Presbiteriana de Amsterdã. Por sorte era uma manhã de orações e o pastor abrira cedo o templo para receber os fiéis que chegavam para o culto matutino das sete e meia.

–Ótimo, enfim chegamos! — falou com alívio Ariel.

–Sim, tivemos sorte do templo já estar aberto.

–Vamos entrar logo, tenho que fazer contato o quanto antes, minha informações são importantes.

Os dois entraram no templo e Ariel foi logo em direção ao centro da igreja. Ela sentou-se em um dos bancos e fechou seus olhos. Samuel não resistiu e acabou por perguntar o que ela estava fazendo:

–O que é isso agora?! Não me diga que vinhemos até aqui para orar! — sussurrou ele indignado.

–Não, seu idiota! Estou sem forças para fazer contato direto com meus superiores. Ainda não me recuperei de meu desgaste, por enquanto estou semelhante a um humano comum, sem qualquer tipo de poder. Tenho que aproveitar a energia emanada pelos fiéis que aqui se reúnem para amplificar minhas forças e conseguir então fazer contato. Na verdade todo templo humano é um local repleto de energia que pode ser utilizada como uma espécie de amplificador das ondas mentais. Você não consegue enxergar, mas existe uma verdadeira corrente de energia circulando neste local. O que estou tentando fazer é utilizar essa corrente de energia a meu favor. Agora vê se você cala a boca e deixa eu me concentrar!

Samuel ficou calado observando-a. Não quis falar para Ariel, mas ele também conseguia enxergar aquela corrente de energia fluindo em todo o templo. Na verdade ele sempre enxergara, desde criança, mas nunca acreditaram nele e por isso acabou deixando de lado aquela habilidade. Agora ele via que não era louco. Ariel mostrava que aquele mundo que antes com tanta veemência ele tentara expulsar da sua vida na verdade era tão real quanto aquele banco onde agora ele estava sentado.

A garota com olhos de tempestade ficou imóvel em completo silêncio por mais de dez minutos. Pela demora Samuel até pensou que ela falharia em sua tentativa de contato, mas logo pôde ver que se enganara. Aos poucos, bem na sua frente, poucos metros acima de suas cabeças, as ondas de energia formaram uma espécie de tela com a imagem de um homem no centro. A imagem não era totalmente nítida, mas conseguiam-se distinguir alguns detalhes. O homem parecia ser bem branco com cabelos totalmente negros, possuía olhos cinza como os de Ariel e aparentava não ter mais que trinta anos. Tão logo a imagem se formou, o homem começou a falar:

–Enfim contato! Pensamos que talvez tivesse sido destruída no ataque dos rebeldes ao observatório. Mas que bom que está bem! Tem alguma informação que possa nos ajudar em nossa busca por Izacael? — falou o homem na tela de energia.

–Tenho a confirmação, Izacael está aqui na Terra. E nas proximidades, já que foi a alguns quilômetros daqui que ele aterrissou. Pode me dizer se nossos adversários ainda continuam suas buscas?

Era estranho, Samuel ouvia a voz de Ariel, mas seus lábios não se moviam. Parecia que ela falava apenas com a força de seu pensamento.

–Essa informação infelizmente nós não possuímos. Sabemos que eles destruíram o local para impedir que nós encontrássemos alguma informação útil. Por certo não sabiam da sua chegada antecipada no local. Ao que parece, Izacael veio à Terra fugindo da perseguição de Lúcifer. Não tenho medo que ele se alie aos nossos inimigos, mas sim que seja capturado, destruído e sua energia seja absorvida por Lúcifer e seus seguidores. Caso algo assim venha acontecer, nossas chances nessa guerra diminuirão consideravelmente.

–Quais são as novas ordens agora, mestre? O que devo fazer já que temos a confirmação que Izacael encontra-se neste planeta?

–Permaneça na Terra. Enviaremos reforços. Possivelmente um dos Sete Supremos em pessoa descerá à Terra para liderar as buscas. Eu tentarei convencer meus irmão que sou o mais adequado para esta missão. Espero obter sucesso. Até lá, busque mais informações à cerca do paradeiro de Izacael. Se possível faça contato com o desertor. Tenho certeza que ele não se negará a falar com um dos nossos. Mas tenha cuidado, pois nossos adversários não desistiram completamente de sua busca. Embora não tenham a confirmação da presença dele nesse planeta, um deslocamento de parte de nossas tropas para a Terra poderá sinalizar para eles que encontramos nosso desertor. Portanto tentaremos ser discretos em nossos reforços. Mantenha contato, agente.

–Sim, senhor! Farei como me ordenou.

–Sim senhor, nada! Ela está totalmente sem forças e quase morreu da última vez que esses caras toparam o nosso caminho! Como acha que ela vai dar conta da situação no estado em que ela se encontra?! — Samuel se intrometeu na conversa sem ser convidado. Estava preocupado com a sua situação e não queria também que algo de mau acontecesse à sua nova companheira.

Ao ver que Samuel não só conseguia vê-lo como também ouvia toda a conversa, a expressão de surpresa do homem que falava através da tela de energia foi completa.

–Quem é este que te acompanha, Ariel? Como ele pode ser capaz de ouvir-nos? O que ele sabe dos acontecimentos que foram conversados aqui e da tua missão?!

–Este é Samuel Mendonça, o humano que fotografou a aterrissagem de Izacael aqui na Terra. Ele estava comigo no observatório pouco antes deu receber a informação que nossos inimigos se aproximavam. Não sei como ele pode nos ouvir, mas sinto uma estranha sensação familiar ao falar com ele. Samuel me ajudou enquanto estava inconsciente, Senhor.

–Inconsciente? Como assim? O que aconteceu, Ariel? Conte-me tudo. Você foi interpelada pelas tropas dos rebeldes?

–Não, Senhor. Tivemos que fugir do local rapidamente pois eram sete adversários que se aproximavam conforme me informaram. Tive que liberar quatro selos para ter sucesso em nossa fuga, por isso acabei me exaurindo e caindo inconsciente. O humano aqui do meu lado me guardou o período que passei me restabelecendo. Acabei falando para ele quem sou e o que faço aqui na Terra. O que ele sabe sobre Izacael é que o estamos procurando e que se trata de um dos mais poderosos entre os Malakins.

–Você errou em tê-lo envolvido nisso, Ariel! Agora somos responsáveis pela sua segurança, ou melhor, você está particularmente responsável pela segurança deste humano, entendeu?

–Hei, hei! Ninguém aqui me pergunta o que eu acho disso tudo? Se eu quero uma guarda-costas ou coisa do tipo? Minha opinião não importa?! — mais uma vez Samuel se intrometera na conversa.

–Veja como fala, seu idiota! — Ariel estava muito irritada. — Este é um dos Sete Arcanjos! Tenha mais respeito! Somente com um movimento ele pode acabar com sua existência.

–Me desculpe, senhor Arcanjo, mas também estou nervoso. Minha vida está um caos depois que essa garota apareceu na minha frente. Estou com medo pela minha vida e não sei se ela tem competência para assegurar a minha segurança. — Ariel dirigiu-lhe um olhar fulminante ao ouvir estas palavras.

–Não tema, jovem Samuel. Esta moça é uma das mais competentes agentes que nós temos. Enquanto você estiver na sua companhia, nada de mau acontecerá com você. Eu admiro sua coragem em ter ajudado minha pupila quando ela necessitava e lhe sou grato por isso. Confesso que estou admirado que tenha uma habilidade tão incomum entre os humanos. Espero que consigamos trazer sua vida de volta à normalidade o mais rápido possível.

–Muito obrigado, senhor... senhor... — ele tentava achar uma forma de tratá-lo.

–Já tive muitos nomes humanos, meu caro, e já fui adorado sob a alcunha de Hermes. Mas confesso que prefiro que me chame de Rafael.

Ao ouvir essas palavras Samuel ficou perplexo. Ele falava com ninguém menos que o Arcanjo Rafael.