Entre Amor e Dever
21 Epílogo
As eras passaram, e o vento levou as histórias dos mortais como poeira sobre as pedras antigas.
Mas o nome de Anisha, a mulher que caminhou entre deuses e reis, jamais se perdeu.
Diz-se que, após seu retorno, os céus de Lindon nunca mais foram os mesmos.
O sol parecia mais vivo, o ar mais doce, e as águas dos rios cantavam canções de renascimento.
E no coração do reino, o Alto Rei Gil-galad se tornou não apenas um governante — mas um homem transformado.
Ele caminhava ao lado de Anisha, e todos viam neles o reflexo do equilíbrio entre luz e carne, entre poder e ternura.
Ela não era mais apenas guerreira, nem apenas humana.
Os deuses haviam lhe concedido o dom de permanecer entre mundos, guardiã do elo entre o divino e o terreno.
Seu olhar, antes ferido pela dor, agora irradiava compaixão.
Sua voz trazia a sabedoria dos antigos.
E quando ela tocava a terra, as flores se abriam — não porque era mágica, mas porque ela se tornara a própria essência da vida.
Naquela noite, a lua cheia coroava os céus de Lindon.
As estrelas pareciam inclinar-se para ouvir o murmúrio do vento que soprava do oeste.
O rei aguardava no terraço do palácio, envolto em um manto branco, olhando o horizonte onde o mar encontrava a noite.
Anisha aproximou-se silenciosa, vestida com um tecido translúcido dourado que cintilava à luz lunar.
Seu perfume era o mesmo — sândalo —, mas havia algo novo: uma paz impossível de descrever.
— Estás bela como o próprio amanhecer — disse ele, num sussurro. — E ainda temo que desapareças outra vez.
Ela sorriu, pousando a mão no peito dele.
— Não há mais partir, meu rei.
— Então por que o teu olhar ainda se perde nas estrelas?
— Porque meu destino é vigiar o equilíbrio entre a luz e a sombra. Mas meu coração... — ela o olhou nos olhos — meu coração pertence apenas a ti.
Gil-galad segurou as mãos dela, firmes e quentes.
— Daria todos os reinos do mundo para viver apenas como homem, não como rei, se isso me garantisse ficar contigo até o fim.
Anisha o fitou com doçura e respondeu:
— O amor não precisa de trono, Erenion. O amor é o trono sobre o qual o tempo se curva.
Ele inclinou a testa sobre a dela, os olhos marejados.
O silêncio que os envolveu não era ausência de som — era a própria música do universo, feita de respiração, alma e destino.
O vento soprou forte, e as estrelas pareceram inclinar-se em reverência.
A chama se elevou, formando um círculo ao redor deles — o Selo da Eternidade — e então se dissolveu no ar.
🍂
Nos anos seguintes, Anisha raramente foi vista pelos povos élficos.
Alguns diziam que ela caminhava entre os reinos, restaurando terras feridas. Outros afirmavam que se tornara espírito guardião, aparecendo apenas quando o mal ameaçava romper o equilíbrio.
Mas o rei — ah, o rei sabia.
Em cada manhã dourada, ele sentia o toque suave da luz sobre o rosto e sussurrava seu nome.
Pois sabia que ela jamais partira.
E quando finalmente o tempo dos elfos começou a declinar, e o mar o chamou para o Oeste, Gil-galad olhou para o pôr do sol uma última vez e viu — por um breve instante — a silhueta de uma mulher envolta em luz.
Ela o aguardava, sorrindo.
O vento murmurou uma promessa antiga:
“Nem o tempo, nem a morte, nem os deuses separam o que nasceu da mesma chama.”
E assim, conta-se que, quando o sol toca o mar ao entardecer, duas formas se encontram no horizonte — um rei coroado de luz e uma mulher feita de aurora — caminhando juntos pela eternidade.
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