Entre Amor e Dever

2 Entre Mapas e Confissões Silenciosas


O salão de mapas de Lindon era um templo do conhecimento: vastas mesas de carvalho élfico, rolos de pergaminhos dourados pelo tempo, cristais suspensos que refletiam o brilho das estrelas.

Lá dentro, o silêncio tinha peso e muita verdade.

E naquele silêncio, Anisha esperava sentada. Estava lá há algumas poucas horas após a noite inquietante. Ao amanhecer, se vestiu rapidamente com o uniforme da patrulha, mas sem a capa e fez um leve desjejum. Algo a tensionava e o nervosismo já apresentava alguns sinais.

Ela estava diante do grande mapa das Terras Ocidentais, os dedos percorrendo as linhas que marcavam antigas rotas marítimas. Desde criança, sempre foi atraída por estudar curiosidades sobre toda a composição geográfica da Terra Média.

Quando o rei entrou, levemente se surpreendeu com sua presença.

Está aqui desde o nascer do sol? — perguntou ele, aproximando-se.

Ela suspirou levemente e virou-se, o encarando com um breve sorriso.

— As rotas élficas são belas, mas há trechos que não seguem a lógica do vento, nem do relevo. Posso sugerir a correção de algumas projeções, se me permitir, Alto-Rei,

Gil-galad ergueu uma sobrancelha.

A ousadia o surpreendeu.

Correção, diz? — murmurou, e aproximou-se da mesa, olhando o mapa.

Ela aponta para alguns caminhos, propondo alterações — curvas mais suaves, trajetos mais curtos, aproveitando correntes marítimas que os elfos pareciam ter ignorado.

Ele observa a destreza e conhecimento que flui dela.

— Isso foi feito por navegadores de Valinor. — Disse, sem dureza, mas com curiosidade.

— E ainda assim, os ventos de Endor não obedecem aos de Valinor. — respondeu ela, tranquila. — Aqui, as águas têm vontade própria.

Gil-galad fitou-a demoradamente.

Havia sabedoria ali — mas também coragem. Uma coragem que nem mesmo muitos de seus conselheiros ousariam demonstrar.

— Você fala como alguém que estudou os caminhos do mar. — observou ele. — Contudo, Harlond não é um porto de grandes mestres da navegação.

— Aprendi observando, meu senhor. — respondeu, sem hesitar. — E ouvindo. Às vezes, o vento ensina mais do que os livros.

O rei sorriu — não por ironia, mas por genuína admiração.

— Palavras raras...para uma jovem treinada para o combate.

Ela sorriu levemente e abaixou a cabeça, andando para o lado oposto, o olhar de Gil-galad a acompanhando.

— A sabedoria é um dom. Mas também é um risco, quando a verdade incomoda.

O olhar dele se suavizou.

Por um momento, o tempo pareceu cessar.

— Diga-me, Anisha — disse o rei, quebrando o silêncio. — De onde vem essa franqueza?

— De quem nunca teve o privilégio de ser ouvido, meu rei.

As palavras pairaram entre eles.

Gil-galad respirou fundo, sentindo o peso e a verdade daquela resposta.

Então, num gesto inesperado, retirou uma pequena folha prateada de seu manto e a pousou sobre a mesa próxima.

— Este é o selo de consulta da coroa. Dá-lhe acesso à biblioteca de marés e rotas antigas. — Seus olhos a prenderam por um instante. — Use-o bem. Poucos têm permissão para manusear tais registros.

Anisha assentiu, em silêncio.

Mas quando ele se afastou, o olhar dela o seguiu — e o rei sentiu, mesmo sem vê-la, que algo havia mudado entre eles.

Não era paixão, ainda.

Mas o início de um reconhecimento.

Duas almas distintas, separadas por séculos de diferença, mas unidas pela curiosidade e pela mesma fome silenciosa por compreender o mundo.


Ao fim daquele dia...🍂


Os jardins élficos cintilavam sob a luz das lanternas lunares.

A música das flautas ecoava suave entre os salgueiros prateados, e o perfume das flores de niphredil flutuava no ar, tornando a noite quase etérea.

A celebração pelas vitórias de fronteira estava em pleno esplendor — risos, taças erguidas, danças que pareciam desafiar o tempo.

Mas o Alto Rei não compartilhava daquela alegria.

Sentado à sombra de um carvalho ancestral, observava de longe os festejos. A mente, porém, vagava.

Elrond o encontrou ali, solitário, o olhar fixo na distância.

Meu senhor, — disse com um meio sorriso — é raro vê-lo ausente de espírito numa noite de glória.

Gil-galad desviou o olhar lentamente, com aquele semblante sereno que escondia pensamentos profundos.

— A glória, meu caro Elrond, é uma visitante barulhenta. Hoje, prefiro o silêncio.

— Silêncio? Em Lindon? — Elrond riu, mas logo baixou o tom. — Ou é outra coisa que lhe tira o ânimo?

O rei o fitou por um instante, quase em desafio.

Depois, apenas sorriu, breve.

— Nada que mereça nomear.

Elrond entendeu o aviso, mas, em seu íntimo, suspeitou que havia algo mais — ou alguém.

Gil-galad então se ergueu, deixando o manto deslizar sobre os degraus.

— Irei à biblioteca. As estrelas estão belas demais para serem desperdiçadas em danças.

A biblioteca de Lindon repousava em silêncio, iluminada por luzes azuis e douradas que pendiam das vigas altas. O aroma dos pergaminhos antigos misturava-se ao das flores noturnas vindas das varandas abertas para o mar.

Foi ali que ele a viu.

Anisha, diante de uma mesa circular, o selo prateado em mãos.

O cabelo — antes preso em tranças simples — caía agora em ondas leves sobre os ombros. As vestes eram mais femininas, de um tecido esverdeado que refletia a luz como o musgo sob o orvalho.

Nada extravagante. Apenas...diferente.

Ela não o havia notado ainda. Estava concentrada num manuscrito, os lábios se movendo em silêncio enquanto lia uma antiga inscrição em élfico.

Gil-galad aproximou-se, lento, como quem teme quebrar um encanto.

— Pensei que estaria celebrando, — disse ele, a voz baixa, suave.

Ela ergueu os olhos, surpresa, mas entregando um breve sorriso.

— E eu pensei que um rei jamais teria tempo para bibliotecas.

Ele esboçou um sorriso.

— E no entanto, aqui estamos.

Ela assentiu.

— Aqui estamos. Há sabedorias que se perdem nas canções. Prefiro encontrá-las no silêncio.

Gil-galad a observou.

Não era mais apenas a guerreira corajosa, nem a estrategista de olhar firme — havia ali uma graça serena, um brilho que não vinha da imortalidade, mas de algo mais raro: vida.

— Diga-me — perguntou, baixando o tom —, não sente falta de descanso?

— Descanso é o que buscam os que se sentem em casa. — respondeu, tocando a borda do pergaminho com a ponta do dedos — E eu...ainda não encontrei o meu lugar.

As palavras ecoaram fundo nele.

Por um instante, o rei esqueceu sua linhagem, seu dever, as eras que o separavam daquela mulher.

Viu nela um reflexo inesperado — a mesma inquietude que, às vezes, o fazia duvidar se a eternidade era bênção ou fardo.

O silêncio entre os dois se prolongou, cheio de sentidos não ditos.

Por fim, Gil-galad inclinou levemente a cabeça, como quem concede algo precioso.

— Quando o encontrar, espero que Lindon esteja entre suas lembranças mais serenas.

Anisha o fitou, surpresa pela delicadeza do gesto.

— E eu espero que o vento lhe traga paz, meu rei. Mesmo que ele tenha de soprar longe de mim.

Ele quase respondeu — mas conteve-se. Anisha, temendo dizer algo mais que a entregasse, recolhendo o pergaminho e o guardando na prateleira, se afastando de forma rápida e silenciosa.

Enquanto a porta se fechava, Gil-galad permanecia imóvel. Pela primeira vez em eras, o coração do Alto Rei pulsava com algo que nem mesmo a sabedoria dos elfos poderia nomear.