Entre Amor e Dever
1 Céus Sem Estrelas Também São Admiráveis ✨
Os sinos de Lindon soaram com um eco puro, atravessando os jardins suspensos e as colunas douradas do palácio. A cerimônia de condecoração reunia guerreiros élficos de toda a costa — arqueiros, marechais, curandeiros e guardiões — todos alinhados diante do Alto Rei Gil-galad que observava aquele momento com uma serenidade quase divina.
A luz do sol ao entardecer refletia-se na sua coroa, e o salão parecia respirar em silêncio ao seu redor. Cada olhar se curvava diante dele, até que seu arauto, Elrond anunciou o grupo de honra da noite — a Patrulha de Ossíriand, cujas manobras haviam repelido incursões orcs nas fronteiras de Forlond.
Entre eles, ela.
Seu nome registrado nos pergaminhos era Anisha, arqueira recém integrada à Guarda Real. Tinha o porte e a postura de uma elfa — graciosa, atenta, os longos cabelos negros presos num laço simples, o olhar firme e controlado. Mas havia algo… diferente.
Gil-galad percebeu isso de imediato.
Não era apenas o modo como ela mantinha os olhos erguidos diante dele — sem medo, sem veneração — mas a forma como o brilho da luz não refletia da mesma maneira em sua pele, a ausência daquele fino halo prateado que envolvia os filhos de Valinor, denunciando sua origem humana.

Quando ela ajoelhou para receber a insígnia de prata, o rei estendeu a mão, e por um breve instante, seus dedos roçaram os dela.
Uma corrente de calor percorreu o ar.
Não mágica — humana.
Gil-galad franziu o cenho, compreendendo finalmente o porque de achar seus traços diferentes, mas a voz do arauto ecoou no salão, e a cerimônia foi encerrada.
Mas o rei ainda a observava.
Enquanto os demais guerreiros deixavam o grande salão, ele murmurou para Elrond, que permanecia ao seu lado:
— Aquela arqueira… de onde veio?
Elrond inclinou a cabeça, surpreso pela pergunta.
— Dos portos de Harlond, meu senhor. Chegou há poucos ciclos lunares. Por que a pergunta?
Gil-galad fitou o vazio, a mente distante, como se escutasse algo que os outros não podiam ouvir.
— Porque há algo nela que não pertence a este reino...
O entardecer já deixava suas belas cores dissipadas no céu, anunciando a chegada do anoitecer sobre Lindon, e o vento trazia o perfume do mar.
Mas o rei sabia — aquele encontro, tão breve, havia mudado algo que nem mesmo ele compreendia.
Instantes depois...🍂
A cerimônia terminara, mas a mente do rei permanecia presa à imagem dela.
Enquanto os guerreiros se dispersavam pelos corredores, Gil-galad desceu os degraus de mármore e atravessou o ambiente, ignorando os olhares curiosos. Queria ver com seus próprios olhos se o que sentira era real — ou apenas um engano dos sentidos.
Encontrou-a um pouco distante, desmontando a armadura cerimonial em um quase ritual.
Ela se sobressaltou ao notar a presença real, e curvou-se apressadamente.
— Alto-Rei. — Sua voz era firme, mas o coração batia rápido demais, o olhar assustado. — Algo fiz?
— Não. — Ele a encarou firme porém com leveza. — Algo sobre a senhorita chamou minha atenção.
Anisha hesitou, sem saber como reagir ao certo — Espero que tenha sido por mérito, não por erro.
— Mérito, certamente. — Gil-galad se aproximou, e a distância entre ambos pareceu diminuir mais do que a prudência permitiria. — Suas manobras nas fronteiras são descritas como impecáveis. Mas...há algo em você que não sei nomear.
Ela desviou o olhar, apertando os dedos no arco.
— Talvez o senhor esteja apenas cansado das formalidades da corte.
Ele riu suavemente, e o som ecoou como prata líquida.
— Cansado, sim. Mas meus olhos raramente se enganam.
O vento soprou entre eles, agitando uma mecha do cabelo dela. Gil-galad, num impulso que nem ele entendeu, ergueu a mão mas se conteve, como se aquilo denunciasse aquele toque se prolongasse, jamais teria como ser desfeito.
Anisha o encarou com receio.
Por um instante, os segredos que ela guardava pareceram pesar mais que sua própria armadura.
Os olhos dele se fixaram nos dela, e algo mudou — uma chama tênue, mas antiga, despertando onde só havia dever e silêncio.
Ele recuou lentamente, recompondo-se.
— Anisha de Harlond... — disse, retomando o tom régio. — Amanhã, venha ao salão de mapas. Tenho interesse em conhecer melhor suas táticas.
Ela assentiu, sem ousar sorrir.
E quando ele se afastou, percebeu que o ar parecia mais denso, o coração mais inquieto.
Naquela noite, ambos dormiram mal.
Ele, tentando compreender por que uma simples guerreira humana poderia abalar o equilíbrio de eras.
Ela, tentando não se deixar levar por algo que sabia que jamais poderia possuir.
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