Notas iniciais
Mais um fresquinho

LUCIAN


Apesar do dia cansativo que tivera, o príncipe Lucian sentia-se estranhamente leve. Pela primeira vez, começava a perceber que seus pais realmente levavam a sério o propósito de fazê-lo viver como um jovem antes que assumisse a coroa.


Não queriam apenas prepará-lo para ser rei. Queriam que conhecesse aquilo que existia além dos deveres da realeza, que tivesse experiências próprias e aprendesse a desfrutar da juventude que, por tantos anos, lhe fora cobrada em nome de seu futuro.


Por isso, Lucian sabia que deveria ser rígido consigo mesmo. Não queria decepcionar os pais, muito menos fazê-los acreditar que todo aquele esforço estava sendo em vão.


Entretanto, naquele momento, seus pés doloridos pareciam discordar completamente de seus pensamentos.


O que deveria ter sido apenas uma hora de aula de dança havia se transformado em quase três.


Segundo a rainha, ele deveria ser capaz de permanecer por mais de duas horas dançando sem demonstrar cansaço, principalmente quando estivesse diante de outras famílias nobres e de suas respectivas princesas.


Lucian ainda não conseguia compreender por que aquele protocolo era tão importante.


Havia passado horas aprendendo passos, corrigindo a postura, repetindo movimentos e, para seu completo desagrado, trocando de parceira diversas vezes.


E, embora jamais admitisse em voz alta, começava a suspeitar de que sua mãe estava se divertindo um pouco demais com seu sofrimento.


— Duas horas... — murmurou para si mesmo, enquanto caminhava pelos corredores do castelo. — Quem foi o nobre insensato que decidiu que um futuro rei deveria aprender a dançar até não sentir os próprios pés?


Por mais que reclamasse, porém, um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.


Talvez seus pais estivessem certos.


Talvez, antes de aprender a governar um reino, ele precisasse aprender a viver.


Com esse pensamento, o príncipe retirou-se para seus aposentos. Assim que se deitou, o cansaço tomou conta de seu corpo, e não demorou mais que alguns instantes para que adormecesse profundamente.


O que lhe parecera ter sido apenas alguns minutos, contudo, transformara-se em horas.


Antes que pudesse sequer perceber o amanhecer, a voz de seu conselheiro já ecoava pelo quarto.


— Bom dia, Vossa Alteza. Sei que deve estar cansado, porém um novo dia começa. Hoje teremos uma jornada um pouco mais tranquila. Não será necessário passarmos tantas horas no salão de dança.


Lucian abriu os olhos lentamente, ainda tomado pelo sono.


— Graças aos céus... — murmurou, levando a mão ao rosto.


Pierre conteve um sorriso antes de continuar:


— Teremos mais estudos teóricos e, por ordem de Vossa Majestade, haverá uma novidade em suas aulas.


A palavra pareceu ser suficiente para despertar completamente o príncipe.


Lucian ergueu-se de imediato, apoiando-se na cabeceira enquanto encarava o conselheiro.


— Uma novidade? Que novidade, Pierre? Diga-me.


O conselheiro, entretanto, limitou-se a lançar-lhe um olhar enigmático.


— Descobrirá no momento oportuno, Vossa Alteza.


— Pierre...


— Não adianta insistir.


— É uma ordem de seu futuro rei.


Pierre arqueou uma das sobrancelhas, divertido.


— E eu lhe recordaria, Vossa Alteza, que ainda não sois rei.


Lucian estreitou os olhos, claramente contrariado com a resposta.


— Um dia serei.


— E nesse dia, talvez, eu me arrependa de ter aprendido a contrariá-lo.


Um breve sorriso surgiu nos lábios do príncipe, mas Pierre logo se afastou em direção à porta.


— Agora, se me permite, deixarei que faça sua higiene pessoal. Dentro de pouco tempo, seguiremos para a Biblioteca Real. Teremos sua aula de etiqueta antes do desjejum com Vossa Majestade e a rainha.


Lucian soltou um suspiro e deixou-se cair novamente sobre os travesseiros por alguns segundos.


— Etiqueta pela manhã...


Pierre já estava junto à porta quando respondeu:


— Um futuro rei precisa estar preparado para todas as ocasiões.


— Inclusive para acordar antes do sol?


— Principalmente para isso.


E, sem esperar pela resposta, o conselheiro deixou os aposentos.


Lucian permaneceu em silêncio por alguns instantes, olhando para a porta por onde Pierre havia desaparecido.


Aquela tal novidade começava a despertar sua curiosidade mais do que gostaria de admitir.


E, conhecendo bem seus pais, tinha a desagradável sensação de que não seria algo simples.


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No desjejum com seus pais, Lucian tentou, mais uma vez, arrancar deles alguma pista que pudesse revelar a tão misteriosa novidade. Entretanto, recebeu apenas sorrisos discretos e o mais absoluto silêncio.


Pierre, por sua vez, parecia divertir-se com a situação.


— Vossa Alteza, se pretendeis continuar fazendo essas expressões a cada pergunta sem resposta, terei de corrigir também vossa postura enquanto as fazeis.


Lucian lançou lhe um olhar contrariado.


— Até minhas expressões agora precisam de correção?


— Se pretendeis ser rei, sim.


O príncipe bufou, mas acabou se calando.


Após o desjejum, seguiram novamente para a Biblioteca Real. Conforme Pierre havia informado, passariam boa parte daquele dia naquele salão, dedicando-se a estudos mais teóricos.


Ao entrarem, Lucian acomodou-se enquanto seu conselheiro começava a organizar a mesa.


Para sua surpresa, Pierre não trouxe livros, pergaminhos ou mapas.


Em vez disso, colocou sobre a mesa um tabuleiro de xadrez.


Lucian imediatamente se inclinou para observá-lo.


Aquilo despertou ainda mais sua curiosidade.


Sabia jogar muito bem. Na verdade, poucos no castelo conseguiam acompanhá-lo em uma partida. Contudo, havia uma exceção.


Pierre.


Por mais que se esforçasse, jamais conseguira vencer o conselheiro.


— Pretendeis novamente humilhar-me no xadrez? — perguntou Lucian, tentando esconder o sorriso.


Pierre apenas ajeitou uma das peças.


— Talvez hoje Vossa Alteza tenha aprendido o suficiente para me surpreender.


Lucian estreitou os olhos.


Havia alguma coisa por trás daquela partida.


Antes que pudesse perguntar, três batidas suaves ecoaram pela porta.


Pierre levantou o olhar.


— Entre.


A porta se abriu.


E, para a completa surpresa do príncipe, uma jovem entrou timidamente no salão.


Lucian ficou imóvel.


Ele a conhecia.


Era a mesma jovem que, dias antes, pedira para recolher as toalhas que ele derrubara no chão.


A mesma que encontrara na feira.


A mesma que, para sua surpresa, tivera coragem de discutir com ele sobre tratados e as dificuldades enfrentadas pelo reino.


Lúcia.


A jovem parou alguns passos diante deles, claramente insegura quanto ao motivo de sua presença naquele lugar. Fez uma pequena reverência ao príncipe e manteve os olhos baixos.


— Vossa Alteza.


Lucian demorou alguns instantes para responder.


— Senhorita...


Pierre observou os dois, percebendo imediatamente o reconhecimento entre eles.


Então, com a tranquilidade de quem sabia exatamente o que estava fazendo, apontou para o lugar diante do tabuleiro.


— Venha, Lúcia. Por ordem da rainha, a partir de hoje terá algumas aulas junto ao jovem herdeiro.


A jovem ergueu os olhos, surpresa.


— Com... o príncipe?


— Exatamente.


Lucian continuava em silêncio.


Ainda não conseguia compreender o que estava acontecendo.


Por que sua mãe havia chamado justamente aquela jovem?


E, principalmente, por que ela deveria participar de suas aulas?


Lúcia aproximou-se devagar e, antes de se sentar, fez outra reverência.


Lucian, ainda confuso, ocupou seu lugar diante dela.


Pierre permaneceu de pé entre os dois, observando-os por alguns instantes antes de finalmente falar:


— E nada melhor para começarmos do que o mais estratégico dos ensinamentos: o jogo de xadrez.


Lucian olhou para o tabuleiro.


Depois, para Lúcia.


Ela parecia tão perdida quanto ele.


Pierre então colocou uma das mãos sobre a mesa.


— O reino é como este jogo.


Sua voz assumiu um tom mais sério.


— Cada peça possui seu valor, sua função e seus limites. Cada movimento deve ser pensado antes de ser realizado, pois uma única decisão pode alterar todo o curso da partida.


Apontou para o tabuleiro.


— Um rei não pode simplesmente avançar sem pensar nas consequências. Uma rainha possui grande poder, mas também precisa saber quando avançar e quando recuar. Os bispos, as torres, os cavalos e até mesmo os peões possuem seu propósito.


Lucian escutava atentamente.


Lúcia também.


— Governar não significa apenas saber vencer uma batalha — continuou Pierre. — Significa compreender o tabuleiro inteiro. Saber quem está ao seu lado, reconhecer aqueles que podem representar uma ameaça e, principalmente, compreender que cada decisão tomada pelo soberano pode proteger seu reino... ou colocá-lo em perigo.


O conselheiro então afastou-se um passo.


— Hoje, vocês não aprenderão apenas a jogar xadrez.


Seu olhar passou de Lucian para Lúcia.


— Aprenderão a pensar como aqueles que precisam tomar decisões das quais outras vidas dependerão.


Lucian permaneceu em silêncio.


Pela primeira vez desde que acordara naquela manhã, compreendeu que a tal novidade não era uma simples mudança em suas aulas.


Sua mãe havia colocado Lúcia diante dele por uma razão.


E ele pretendia descobrir qual era.