A jovem Lúcia estava, por assim dizer, anestesiada.


Em apenas dois dias, sua vida parecia ter tomado um rumo que jamais imaginara. Primeiro, tivera a oportunidade de conversar e ser ouvida; agora, encontrava-se diante da própria rainha, recebendo algo que lhe parecia ainda mais extraordinário: a liberdade de expressar aquilo que pensava sem ser imediatamente julgada ou observada.


Ou, pelo menos, era isso que Lúcia acreditava.


Após as palavras da rainha, a jovem simplesmente não soube o que dizer. Sua mente estava repleta de pensamentos, mas nenhum deles parecia adequado para aquela ocasião. Não sabia por onde começar, tampouco quais palavras poderia usar sem correr o risco de parecer insolente diante de Sua Majestade.


Por fim, abaixou discretamente os olhos e respirou fundo antes de falar.


— Perdoe-me, Vossa Majestade, mas não sei exatamente o que esperais ouvir de mim... nem o que posso dizer sem que minhas palavras soem como uma ofensa.


Fez uma pequena pausa, escolhendo cuidadosamente as palavras.


— Não possuo os estudos adequados para discorrer sobre determinados assuntos e temo acabar falando sobre aquilo que não compreendo.


A rainha percebeu imediatamente o nervosismo da jovem.


Não havia arrogância em suas palavras. Apenas o receio de ultrapassar um limite que Lúcia sequer sabia onde estava.


Com um sorriso sereno, a rainha aproximou-se dela e, delicadamente, conduziu-a até um dos sofás próximos às grandes janelas. Dali, era possível contemplar os vastos jardins do castelo, banhados pela luz suave daquele momento do dia.


A rainha sentou-se ao lado da jovem, deixando de lado, por alguns instantes, toda a formalidade que normalmente acompanhava sua posição.


— Sente-se aqui comigo, Lúcia. — Sua voz era tranquila. — Não precisais temer.


Lúcia obedeceu, ainda um pouco rígida, mantendo as mãos unidas sobre o colo.


— Não vos trouxe até aqui para julgá-la, tampouco para colocá-la à prova. Quero apenas conhecê-la melhor.


A rainha voltou os olhos para os jardins por um instante, antes de olhar novamente para a jovem.


— Quero compreender como uma jovem tão inteligente chegou a trabalhar dentro deste castelo sem estar, ao mesmo tempo, prosseguindo com os próprios estudos.


Aquelas palavras atingiram Lúcia de uma maneira diferente.


Não havia acusação.


Não havia censura.


Havia, sobretudo, interesse genuíno.


E talvez fosse justamente aquilo que tornava tudo tão difícil.


Lúcia engoliu em seco.


Com o pintor, naquela manhã, conseguira falar sobre sua vida porque acreditara estar conversando apenas com um homem interessado em conhecer sua história. Mas, diante da rainha, a sensação era completamente diferente.


Ainda assim, havia algo naquela mulher que fazia sua defesa começar a desaparecer.


Pela primeira vez, Lúcia sentiu que talvez pudesse contar a verdade.


Não apenas aquilo que julgavam conveniente ouvir.


Mas aquilo que realmente pensava.


— Vossa Majestade... — começou, hesitante.


A rainha não a interrompeu.


Apenas permaneceu em silêncio, concedendo-lhe o tempo necessário.


Lúcia respirou profundamente.


— Eu gostava muito de estudar.


Sua voz saiu baixa, quase como uma confissão.


— Na verdade... ainda gosto.


A rainha permaneceu atenta.


— Mas, quando completei doze anos, percebi que meus pais precisavam de ajuda. Havia meus irmãos mais novos, as despesas da casa... e não tínhamos muitas escolhas. Então, deixei os estudos.


A jovem desviou os olhos para os jardins.


— Não porque não quisesse aprender.


Um pequeno sorriso triste surgiu em seus lábios.


— Mas porque, naquele momento, alguém precisava ajudar minha família.


A rainha a observava em silêncio.


E, quanto mais Lúcia falava, menos parecia uma simples camareira diante de sua soberana.


Parecia apenas uma jovem contando sua história.


Uma jovem que havia aprendido cedo demais que, algumas vezes, a vida obrigava uma pessoa a escolher entre aquilo que desejava e aquilo que precisava fazer.


— E, desde então... — Lúcia continuou, com a voz um pouco mais firme — aprendi tudo o que pude sozinha.


Ela ergueu os olhos novamente.


— Livros antigos, conversas que escutei, histórias contadas por pessoas mais velhas... Tudo aquilo que pudesse me ensinar alguma coisa.


A rainha sorriu discretamente.


— Então não abandonastes os estudos, Lúcia.


A jovem franziu levemente a testa.


— Não?


— Apenas os continuastes de uma maneira diferente.


Lúcia ficou em silêncio.


Talvez aquela fosse a primeira vez que alguém enxergava sua história daquela maneira.


E, naquele instante, algo dentro dela finalmente se acalmou.


Talvez pudesse continuar falando.


E, se aquilo era um incentivo, Lúcia decidiu agarrá-lo.


Respirou profundamente e, pela primeira vez desde que entrara naquela sala, deixou de pensar em quais palavras seriam apropriadas para falar com uma rainha.


Simplesmente falou.


— Eu observo muito, Vossa Majestade.


A rainha permaneceu em silêncio, permitindo que a jovem prosseguisse.


— Observo as pessoas... e, com o tempo, aprendi a enxergar aquilo que elas não conseguem demonstrar ou que, muitas vezes, tentam esconder.


Lúcia baixou os olhos por um instante, como se buscasse organizar as próprias lembranças.


— Foi assim que percebi o quanto minha família sofria por não conseguir nos sustentar. Eu via o esforço de meus pais, mesmo quando tentavam esconder o cansaço de nós, crianças. Foi então que decidi procurar trabalho fora de casa.


Lúcia fez uma breve pausa, deixando que aquelas lembranças voltassem.


— Comecei na feira.


Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.


— No começo, eu só queria trabalhar. Precisava ajudar em casa e aprender a fazer alguma coisa que pudesse trazer dinheiro para minha família. Mas a feira acabou me ensinando muito mais do que eu esperava.


A rainha a observava atentamente.


— Era um trabalho rápido, pesado e, muitas vezes, exaustivo. Eu precisava aprender a reconhecer as pessoas, saber quem estava com pressa, quem queria conversar, quem estava apenas olhando e quem realmente pretendia comprar. Com o tempo, comecei a prestar atenção em coisas que não tinham relação alguma com o comércio.


Lúcia passou os dedos delicadamente sobre o tecido do vestido.


— Aprendi a observar.


Sua voz tornou-se mais tranquila.


— Conheci praticamente todos os que viviam no condado. E percebi que cada pessoa carregava uma história, mesmo quando nunca a contava em palavras.


Ela sorriu de leve.


— Eu sabia quando escondiam alguma dor. Sabia quando fingiam que estava tudo bem para não preocupar os outros. Sabia quando o dia tinha sido ruim...


Lúcia ergueu os olhos.


— E também sabia quando tinha sido um bom dia. Bastava olhar para o brilho nos olhos quando os turistas chegavam e gastavam bastante em suas tendas.


A rainha sorriu discretamente.


— A feira me ensinou que as pessoas falam muito mais do que imaginam, mesmo quando permanecem em silêncio.


Lúcia então olhou para os jardins através da janela.


— E foi justamente isso que trouxe comigo quando cheguei ao castelo.


Dessa vez, sua expressão mudou.


— Só que aqui descobri que observar pessoas na feira era muito diferente de observar pessoas dentro destas paredes.


A rainha permaneceu em silêncio.


— Na feira, as pessoas tinham pouco motivo para esconder quem eram. Suas preocupações apareciam no modo como trabalhavam, nas conversas, nos sorrisos... até na maneira como seguravam as moedas. Aqui, precisei aprender novamente.


Lúcia soltou uma pequena risada.


— No castelo, as pessoas sabem esconder muito melhor o que sentem. Aprendi que um sorriso pode esconder uma preocupação, que um silêncio pode significar muitas coisas e que, às vezes, a pessoa que parece mais tranquila é justamente aquela que está pensando em mais coisas.


Ela voltou os olhos para a rainha.


— Então percebi que a feira tinha sido apenas o começo.


A rainha inclinou levemente a cabeça.


— O começo de quê?


Lúcia pensou por um instante.


— De aprender a entender as pessoas.


Então acrescentou, com um pequeno sorriso:


— Só que aqui ainda estou aprendendo. Há pessoas neste castelo que são muito mais difíceis de ler.


A rainha ergueu levemente as sobrancelhas.


— É mesmo?


Lúcia assentiu.


— O único que ainda não consigo ler é meu padrinho.


A rainha arqueou uma sobrancelha.


Lúcia percebeu imediatamente o que acabara de dizer e corrigiu-se depressa:


— Quer dizer... o Conselheiro Real.


Por um breve instante, a rainha apenas a encarou.


Então, para surpresa de Lúcia, um sorriso divertido surgiu em seus lábios.


— Pierre?


Lúcia assentiu.


— Sim, Vossa Majestade.


— E por que acreditais que ele seja tão difícil de compreender?


A jovem pensou por alguns segundos.


— Porque ele parece sempre saber o que os outros estão pensando, mas nunca deixa que ninguém saiba o que ele próprio está pensando.


A rainha soltou uma pequena risada.


Lúcia, percebendo que conseguira arrancar aquele sorriso de Sua Majestade, acabou sorrindo também.


— Esse homem é um mistério até mesmo para aqueles que convivem com ele há muitos anos — admitiu a rainha.


Lúcia arregalou discretamente os olhos.


— Então não sou a única?


— De modo algum.


A resposta da rainha fez Lúcia sorrir discretamente.


— Então realmente não sou a única a ter dificuldade em compreendê-lo.


— Não, querida. — A rainha sorriu. — Pierre sempre foi muito cuidadoso com aquilo que demonstra. Talvez seja justamente por isso que consiga perceber tanto nos outros.


Lúcia assentiu, pensativa.


— É curioso.


— O quê?


— Passei tantos anos aprendendo a observar as pessoas... e, mesmo assim, ele continua sendo a única pessoa que não consigo decifrar.


A rainha ergueu levemente uma sobrancelha.


— Talvez um dia consigas.


Lúcia soltou uma pequena risada.


— Duvido muito.


— Não tenhais tanta certeza.


— Tenho.


A jovem sorriu, quase desafiadora.


— Meu padrinho consegue perceber quando estou mentindo antes mesmo que eu termine uma frase. Às vezes, tenho a impressão de que ele já sabe o que vou dizer antes de mim.


— Talvez porque vos conheça bem.


— Ou porque seja impossível esconder qualquer coisa dele.


A rainha riu baixinho.


— Isso também é verdade.


Lúcia respirou fundo e voltou os olhos para os jardins.


— Mas ainda não descobri o que se passa naquela cabeça.


— Talvez devêssemos perguntar diretamente a ele.


— Ele jamais responderia.


A rainha abriu a boca para responder, mas, naquele exato instante, ouviu-se uma batida na porta.


As duas mulheres olharam na direção da entrada.


A rainha ficou em silêncio por um segundo.


Então, para surpresa de Lúcia, um sorriso lento surgiu em seus lábios.


— Talvez não seja necessário.


Lúcia franziu a testa.


— Vossa Majestade?


— Entre.


A porta se abriu.


E, como se o próprio destino tivesse decidido participar daquela conversa, Pierre entrou.


Lúcia ficou completamente imóvel.


O Conselheiro Real avançou alguns passos pelo aposento, segurando alguns documentos junto ao peito, sem fazer a menor ideia de que acabara de surgir no exato momento em que era declarado o maior mistério do castelo.


— Vossa Majestade — cumprimentou, inclinando respeitosamente a cabeça.


A rainha respondeu com toda a serenidade do mundo:


— Conselheiro Pierre.


Lúcia baixou os olhos rapidamente, tentando esconder o sorriso que ameaçava surgir.


Pierre então voltou sua atenção para ela.


— Lúcia.


— Conselheiro... — respondeu ela, fazendo uma pequena reverência.


Houve um breve silêncio.


Pierre olhou de Lúcia para a rainha.


Depois, novamente para Lúcia.


— Aconteceu alguma coisa?


— Absolutamente nada — respondeu a rainha depressa demais.


Pierre estreitou os olhos.


— Vossa Majestade...


A rainha manteve a expressão mais inocente que conseguiu.


— Estávamos apenas conversando.


— Sobre?


Lúcia sentiu o rosto aquecer.


A rainha, entretanto, não demonstrou a menor piedade.


— Sobre vós.


Pierre permaneceu imóvel.


Por um instante, nem mesmo ele pareceu encontrar uma resposta adequada.


Lúcia finalmente não conseguiu conter o sorriso.


O conselheiro percebeu.


— E posso saber o que exatamente estavam dizendo a meu respeito?


A rainha olhou para Lúcia.


— Dizei-lhe.


A jovem arregalou discretamente os olhos.


— Eu?


— Ora, não fostes vós quem afirmou que ele é um mistério?


Pierre virou lentamente o rosto para Lúcia.


— Um mistério?


Lúcia engoliu em seco.


— Eu... estava apenas comentando...


— Comentando o quê?


A rainha observava a cena com evidente diversão.


Lúcia respirou fundo.


— Que eu consigo observar praticamente todas as pessoas do castelo, mas ainda não consigo compreender o senhor.


Pierre permaneceu em silêncio.


Lúcia esperou alguma reação.


Nada.


Ele apenas a encarou por alguns segundos, com aquela expressão indecifrável que ela conhecia tão bem.


Então, finalmente, o canto de seus lábios se elevou quase imperceptivelmente.


— Interessante.


Lúcia piscou.


— O quê?


— Passei anos acreditando que era eu quem deveria observar os outros.


Fez uma pequena pausa.


— Agora descubro que também estou sendo observado.


A rainha soltou uma risada.


Lúcia, por sua vez, não sabia se deveria sorrir ou desaparecer dali.


Pierre então caminhou até a mesa, depositou os documentos e, antes de se afastar, lançou um último olhar para a jovem.


— Continuai tentando, Lúcia.


Ela o encarou, confusa.


— Tentando o quê?


O conselheiro respondeu com a maior tranquilidade:


— Decifrar-me.


E voltou-se para a rainha como se nada de extraordinário tivesse acontecido.


Lúcia ficou em silêncio.


A rainha, ao seu lado, apenas sorriu.


A jovem havia acabado de declarar que Pierre era a única pessoa que não conseguia ler.


E, em menos de um minuto, ele havia conseguido deixá-la ainda mais confusa do que antes.


Talvez, afinal, ela tivesse razão.


Pierre realmente era um mistério.

Notas finais
Espero que gostem Kizlar