Notas iniciais
Mais um fresquinho

Lucian


— Vamos, Pierre... Não irá mesmo me contar o que os reis desejavam tratar convosco?


Pierre permaneceu em silêncio por alguns instantes, enquanto o príncipe o acompanhava pelo salão de estudos. Desde que o conselheiro retornara da reunião, Lucian não cessara de questioná-lo. Sua curiosidade era evidente e, quanto mais Pierre se esquivava, mais o jovem príncipe parecia determinado a descobrir o teor daquela conversa.


— Vossa Alteza, postura — advertiu Pierre, sem sequer voltar-se para ele. — Está permitindo que sua atenção se desvie novamente de suas lições. E, considerando o evento que se aproxima, receio que ainda tenha muito a aprender.


Lucian ergueu uma sobrancelha.


— Aprender o quê?


Pierre finalmente se virou, observando-o com a costumeira expressão séria.


— Os passos de dança, naturalmente. Terá de dançar com diversas princesas durante o baile.


Como era de se esperar, o príncipe soltou um longo suspiro e deixou os ombros penderem por um instante.


Apenas a menção ao baile já lhe causava verdadeiro desalento. Sabia muito bem o que o aguardava: seus pais fariam questão de apresentá-lo a cada uma das jovens nobres que chegariam ao castelo e, para seu absoluto infortúnio, esperariam que ele dançasse com todas elas.


— Preferiria enfrentar um exército inteiro — resmungou Lucian — a passar uma noite inteira dançando com princesas que atravessam o reino apenas para descobrir qual delas será a próxima rainha.


Pierre conteve um discreto sorriso diante da reclamação.


— Cuidado, Vossa Alteza. Um futuro rei deve saber enfrentar tanto um exército quanto uma sala repleta de princesas.


Lucian lançou-lhe um olhar desconfiado.


— Não vejo como uma sala cheia de princesas possa ser mais fácil de enfrentar.


— Justamente por isso ainda precisa de treinamento.


Pierre arqueou uma das sobrancelhas, claramente divertido com a indignação do príncipe.


— Curioso... — murmurou. — Fala como se todas fossem insuportáveis antes mesmo de conhecê-las.


Lucian lançou-lhe outro olhar desconfiado.


— E o que há de tão curioso nisso?


— Nada, Vossa Alteza. Apenas me pergunto se manterá esse mesmo discurso quando alguma delas conseguir prender sua atenção.


O príncipe franziu o cenho.


— Isso jamais acontecerá.


— Jamais? — Pierre repetiu, contendo um sorriso. — Uma afirmação bastante ousada para alguém que sequer sabe quem estará presente no baile.


— Sei o suficiente.


— Então já decidiu que nenhuma lhe agradará?


— Exatamente.


Pierre voltou a caminhar, deixando escapar um discreto sorriso.


— Veremos.


Lucian estreitou os olhos.


— O que pretende dizer com isso?


— Apenas que, talvez, Vossa Alteza descubra que nem todas as princesas são tão interessadas em tornar-se rainhas quanto imagina.


Aquelas palavras fizeram Lucian permanecer em silêncio por alguns instantes.


— E se houver alguma que não esteja interessada nisso?


Pierre olhou para ele de soslaio.


— Nesse caso, talvez seja justamente essa quem desperte sua curiosidade.


Lucian imediatamente desviou o olhar.


— Está imaginando coisas, Pierre.


— Naturalmente, Vossa Alteza.


— E pare de sorrir.


— Não estou sorrindo.


— Está, sim.


— Então talvez seja porque, pela primeira vez, Vossa Alteza pareceu interessado em uma princesa antes mesmo de conhecê-la.


E, deixando as conversas fiadas para depois, uma das criadas do castelo adentrou o salão para auxiliar o conselheiro nas lições de dança. Caberia a ela acompanhar o príncipe durante os exercícios, enquanto Pierre observava atentamente cada movimento.


A preparação para o baile não seria simples. Lucian deveria aprender diferentes passos e ritmos, pois, durante a celebração, esperava-se que soubesse conduzir cada dança com elegância e segurança, especialmente diante das inúmeras damas que estariam presentes.


— Outra vez, Vossa Alteza — ordenou Pierre, ao perceber um pequeno erro em seus movimentos.


Lucian soltou um suspiro, retornando à posição.


— Já fiz esse passo três vezes.


— E fará uma quarta, até que o faça corretamente.


A criada tentou esconder um sorriso diante da expressão contrariada do príncipe.


— Não vejo graça alguma — resmungou Lucian.


— Perdoai-me, Vossa Alteza — respondeu ela, abaixando discretamente o olhar.


Pierre, porém, permaneceu impassível.


— Um futuro rei não pode demonstrar cansaço diante de uma simples dança.


— Prefiro demonstrar cansaço agora do que durante o baile.


— Então trate de aprender agora, para que ninguém perceba depois.


Lucian respirou fundo e estendeu novamente a mão à criada.


A música recomeçou.


E, embora estivesse longe de admitir, o príncipe começava a perceber que aquela noite seria muito mais difícil do que qualquer batalha que já imaginara enfrentar.


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Poderiam ter se passado horas ou apenas alguns minutos; Lucian já havia perdido completamente a noção do tempo. O jovem príncipe encontrava-se exausto, os pés começavam a reclamar de tantos passos e sua paciência estava perigosamente próxima do fim.


Foi então que as grandes portas do salão se abriram.


Os reis adentraram o recinto com toda a pompa e majestade que lhes eram próprias. Por alguns instantes, todos os olhares se voltaram para o casal real.


Sem que fosse necessário qualquer anúncio, a música começou.


O rei tomou a mão da rainha, conduzindo-a pelo salão com uma elegância impecável. Seus movimentos eram firmes, precisos e perfeitamente sincronizados, enquanto a rainha acompanhava cada passo com graça e leveza.


Pierre observava atentamente.


Não era apenas uma dança. Havia postura, equilíbrio, domínio e, sobretudo, a segurança de dois soberanos acostumados a serem observados por todo um reino.


Lucian, por sua vez, gravava cada movimento dos pais em sua memória.


Depois de alguns instantes, voltou sua atenção para Safira e retomou a dança com ela, tentando reproduzir os mesmos passos que acabara de observar.


— Mais devagar, Vossa Alteza — orientou Safira, percebendo a pressa do príncipe.


— Estou tentando acompanhar.


— Então não olhe para os pés. Observe os movimentos.


Lucian respirou fundo e tentou novamente.


Quando a música finalmente chegou ao fim, a rainha aproximou-se de Safira e observou discretamente o vestido que a jovem usava.


— Safira, querida, poderia trocar sua saia por uma um pouco mais volumosa?


A jovem piscou, surpresa.


— Mais volumosa, Vossa Majestade?


— Sim. Tenho a impressão de que Pierre ainda está sendo indulgente demais com meu primogênito.


Lucian arregalou os olhos.


Pierre, que ouvira a observação, permaneceu em silêncio.


— Ele precisará aprender a dançar com as princesas durante o baile — continuou a rainha. — E muitas delas certamente estarão usando vestidos muito mais volumosos que esse.


Lucian imediatamente se virou para a mãe.


— Mãe... quero dizer, Vossa Majestade! Esse carcereiro não me deixa sequer respirar, quanto mais está pegando leve comigo!


Pierre arqueou uma sobrancelha diante do título nada honroso que acabara de receber.


— Carcereiro?


— Foi apenas uma maneira de dizer.


Safira afastou-se para cumprir a ordem da rainha.


Alguns minutos depois, retornou ao salão.


Lucian ficou imóvel.


A saia de Safira agora era consideravelmente mais volumosa, ocupando quase o dobro do espaço da anterior.


Pierre precisou tossir discretamente para esconder o sorriso.


Lucian, por outro lado, parecia ter acabado de receber uma sentença.


— Isso não é justo...


A rainha cruzou os braços.


— O quê, meu filho?


— Esses bailes... essas danças... esses vestidos enormes...


Olhou para Safira e depois para Pierre.


— Eu realmente preferiria enfrentar um exército.


Pierre finalmente deixou escapar um pequeno sorriso.


— Ao menos, Vossa Alteza, um exército não exigem que saibais conduzir uma dança.


Lucian lançou-lhe um olhar indignado.


— Não ajude, Pierre.


E, antes que pudesse reclamar novamente, a música começou outra vez.