Notas iniciais
Vou dividir esse capitulo em dois, pois ficou muitoooo grande

Pierre terminou de ajustar os últimos detalhes com Vossas Majestades e, após pedir licença, retirou-se dos aposentos reais. Os deveres do príncipe ainda aguardavam sua supervisão, mas, pela primeira vez em muito tempo, sua atenção não estava voltada para Lucian.


Estava em Lúcia.


Mal atravessou as portas do salão, Pierre sentiu o peso da ordem que acabara de receber. Conhecia a jovem melhor do que qualquer pessoa naquela corte. Sabia de sua simplicidade, de sua espontaneidade e, sobretudo, de sua pouca experiência diante das intrigas e dos jogos silenciosos que cercavam a realeza.


E era justamente isso que mais o inquietava.


Lúcia não sabia que estava sendo observada.


Não sabia que suas palavras, seus conhecimentos e até mesmo sua maneira de se portar poderiam, nos próximos dias, ser avaliados pelo próprio rei.


Como padrinho, Pierre desejava protegê-la. Queria poupá-la de uma situação para a qual jamais fora preparada. Parte dele desejava simplesmente adverti-la, prepará-la para aquilo que estava por vir, talvez até pedir que Sua Majestade reconsiderasse.


Mas, como conselheiro real, sabia que não lhe cabia questionar uma ordem do rei.


E ali estava o conflito que o atormentava: se falasse, trairia a confiança de Sua Majestade; se permanecesse em silêncio, sentiria que estava traindo a própria afilhada.


Pierre permaneceu alguns instantes parado no corredor, em profundo silêncio, antes de finalmente seguir seu caminho.


Não havia escolha que lhe trouxesse paz.


Restava-lhe apenas cumprir seu dever e esperar que Lúcia jamais descobrisse, da pior maneira, que os olhos da Coroa já estavam sobre ela.


Narradora


Era, de fato, uma guerra interna bastante complexa para o conselheiro Pierre. E confesso que, ao observar sua situação, consigo compreender os dois lados.


De um lado, estava o dever, a lealdade à Coroa e a responsabilidade que lhe fora confiada de preparar o futuro herdeiro. Do outro, estava a família, o carinho por sua afilhada e o desejo natural de protegê-la de tudo aquilo que pudesse feri-la.


Ambos os caminhos carregavam um peso enorme.


Ainda assim, por mais difícil que fosse, Pierre estava certo em não contrariar o dever que lhe fora confiado. Afinal, se permitisse que seus sentimentos pessoais se colocassem acima de sua lealdade à Coroa, como poderia continuar sendo o homem responsável por treinar aquele que um dia ocuparia o trono?


Naquele mundo, onde uma única escolha poderia colocar em risco a confiança de um rei, Pierre sabia que sua lealdade à Coroa precisava vir em primeiro lugar.


E talvez essa fosse a parte mais dolorosa de seu dever: compreender que, algumas vezes, fazer o que era certo significava justamente não fazer aquilo que seu coração desejava.


Lúcia


A jovem Lúcia estava tão entretida com seus afazeres que, como de costume, quase perdera a hora do almoço. Não fosse pela atenção de Amélia, provavelmente teria continuado trabalhando sem sequer perceber que o horário de descanso já havia chegado.


Ambas apressaram o passo pelos corredores, pois, naquele castelo, o horário das refeições era quase sagrado. Depois de fazer sua refeição, Lúcia pediu licença às mulheres mais velhas e decidiu aproveitar os minutos que ainda lhe restavam antes do retorno aos seus deveres.


Seguiu então pelos jardins, caminhando sem pressa por entre os longos caminhos cercados por roseiras. Gostava daqueles momentos de tranquilidade, quando podia se afastar, ainda que por alguns instantes, do movimento do castelo.


Foi então que, mais adiante, avistou um homem de idade avançada, parado próximo a uma das alamedas.


Lúcia franziu discretamente o cenho.


Nunca o vira por ali.


Aproximou-se com cautela, imaginando que talvez estivesse perdido.


— Bom dia, senhor. Perdoe-me a intromissão, mas não me recordo de tê-lo visto antes por estas terras. Estais à procura de alguém ou necessitais de auxílio?


Mal terminou de falar, seu instinto de proteção despertou. Afinal, não sabia quem era aquele homem nem como havia chegado até os jardins. Manteve-se atenta, observando cada movimento do desconhecido, pronta para buscar ajuda caso fosse necessário.


O homem, entretanto, respondeu com tranquilidade:


— Bom dia, minha jovem. Não há motivo para alarme. Confesso que estes jardins ainda me são pouco conhecidos. Vim a pedido de Vossa Majestade, pois estou a estudá-los para retratá-los em uma tela destinada à Coroa. Poderíeis, por gentileza, indicar-me o caminho até o coreto? Deixei lá meus instrumentos de trabalho.


Lúcia relaxou um pouco ao ouvir a explicação, embora a cautela ainda não a tivesse abandonado por completo.


— Então sois visitante destas terras? — perguntou, movida pela curiosidade. — Nunca vos vi pelo condado, tampouco pelo castelo. Embora, pensando bem, talvez não seja de admirar. Este castelo é tão vasto que mal conseguimos conhecer todos aqueles que por ele passam.


A jovem soltou uma risada sincera.


O homem sorriu diante de sua observação e assentiu.


— Tendes toda a razão, minha jovem. Este lugar é deveras grandioso. Já disse certa vez a Vossa Majestade que deveria solicitar um mapa do castelo, ou acabarei por passar meus dias perdido entre seus corredores e jardins.


Lúcia riu novamente.


— Talvez devêsseis mesmo pedir um. Seria uma pena que um pintor viesse a se perder antes mesmo de terminar sua obra.


— Concordo convosco — respondeu ele, divertindo-se. — Embora receie que, se me entregassem tal mapa, eu ainda assim encontraria uma maneira de me perder.


Os dois seguiram pelo caminho enquanto conversavam, até que finalmente avistaram o coreto.


Para alívio de Lúcia, havia ali telas, pincéis, tintas e demais instrumentos de pintura cuidadosamente deixados sobre uma pequena mesa.


Ela respirou discretamente, sentindo suas últimas suspeitas se dissiparem.


— Parece que vossas ferramentas realmente vos aguardavam — comentou, apontando para os materiais.


— Como podeis ver, minha jovem. Ao menos elas possuem mais senso de direção do que seu dono.


Lúcia deixou escapar outra risada.


Entretanto, enquanto observava o homem recolher seus pertences, sua curiosidade apenas aumentava.


Quem seria aquele homem?


E por que Sua Majestade havia escolhido justamente ele para retratar os jardins da Coroa?


Naquele momento, Lúcia ainda não poderia imaginar que aquele encontro, aparentemente tão casual, estava longe de ser apenas uma coincidência.


O homem terminou de organizar alguns de seus materiais e, percebendo que ainda dispunham de algum tempo antes que o sino anunciasse o fim do descanso, voltou sua atenção para a jovem.


— Dizei-me, minha jovem... creio que ainda nos resta algum tempo. Quem sois vós, afinal? Pela vossa aparência, eu diria que sois uma princesa de algum reino distante ou, quem sabe, uma jovem duquesa destas terras.


Lúcia deixou escapar uma risada sincera.


— Não, senhor. Sou apenas uma camponesa que trabalha neste castelo como camareira. Faço isso para auxiliar meus pais nas despesas da casa e para ajudar meus irmãos mais novos.


O homem a observou com maior atenção.


— E sois tão jovem e já carregais tamanha responsabilidade? Dizei-me... ainda estudais?


O sorriso de Lúcia desapareceu pouco a pouco.


— Não mais.


— E por que abandonastes os estudos?


Dessa vez, Lúcia demorou a responder.


Baixou os olhos para as próprias mãos e começou a brincar discretamente com os dedos, como se procurasse neles coragem para dizer algo que raramente permitia que escapasse de seus lábios.


— Meus pais nunca quiseram que eu deixasse a escola.


Sua voz saiu mais baixa.


— Pelo contrário... eles queriam que eu estudasse. Diziam que eu poderia ter uma vida diferente da deles.


Ela fez uma breve pausa.


— Às vezes, ainda penso que os decepcionei.


O homem não a interrompeu.


Lúcia respirou fundo antes de continuar.


— Eu era apenas uma criança quando pedi a Deus que me desse irmãos. Queria alguém com quem pudesse brincar, conversar... alguém que estivesse sempre comigo.


Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.


— E Ele me ouviu. Deu-me dois de uma só vez.


Por alguns instantes, seus olhos pareceram iluminar-se ao falar dos irmãos.


Mas logo o sorriso enfraqueceu.


— Só que, quando eles chegaram, as coisas ficaram mais difíceis em casa.


Ela engoliu em seco.


— Não me entendais mal. Eu jamais me arrependi deles. Jamais. São a melhor coisa que Deus poderia ter me dado.


Lúcia apertou as mãos uma contra a outra.


— Mas eu comecei a perceber certas coisas que antes não percebia. Passei a notar quando minha mãe escondia que estava chorando. Quando meu pai saía de casa ainda de madrugada e só voltava dias depois, porque não encontrara trabalho por perto. Passei a perceber quando minha mãe dizia que não estava com fome apenas para que houvesse comida suficiente para nós.


Sua voz vacilou.


— Eu fingia que não percebia.


O homem permaneceu em absoluto silêncio.


— Até que, certa noite, ouvi minha mãe pedindo a Deus que nos ajudasse. Ela dizia que não sabia mais como faria para colocar comida sobre a mesa.


Lúcia respirou profundamente, tentando manter a compostura.


— Naquela noite, decidi que não queria mais ficar apenas esperando que alguma coisa mudasse.


Uma lágrima ameaçou surgir, mas ela rapidamente desviou o rosto e a conteve.


— Eu tinha doze anos.


O homem franziu discretamente o semblante.


— Doze?


Lúcia assentiu.


— Eu sabia que era nova demais para trabalhar. Sabia que meus pais não queriam aquilo. Mas também sabia que eles estavam cansados.


Ela sorriu de maneira triste.


— Então comecei a procurar alguma coisa que pudesse fazer.


— E encontrastes?


— No começo, não. Ninguém queria contratar uma menina. Mas eu insistia. Aprendia rápido. Fazia o que me pediam. Até que consegui ajudar nas feiras.


Um pequeno riso escapou dela.


— Meus pais descobriram quando a escola os procurou para perguntar por que eu não estava frequentando as aulas.


O homem sorriu de leve.


— Imagino que não tenhais escapado da repreensão.


— De maneira alguma.


Lúcia riu baixinho.


— Minha mãe chorou. Meu pai ficou furioso. E os dois disseram que eu não precisava carregar problemas que pertenciam a eles.


O sorriso desapareceu novamente.


— Mas eu precisava.


Aquelas três palavras saíram quase em um sussurro.


— Talvez eles nunca tenham entendido isso... mas, quando eu via meus irmãos dormindo tranquilos, pensava que, se precisasse trabalhar para que continuassem assim, então eu trabalharia.


Lúcia ergueu os olhos para o homem.


— Eu não queria que eles crescessem ouvindo as mesmas preocupações que eu ouvi.


Houve um longo silêncio.


— Foi por isso que não voltei para a escola?


Ela hesitou.


— Foi.


Baixou novamente o olhar.


— Não porque eu não gostasse de estudar. Eu gostava muito.


A confissão pareceu custar-lhe mais do que todas as anteriores.


— Eu sinto falta.


O homem percebeu a mudança em seu semblante, mas não disse nada.


— Às vezes, quando vejo alguém estudando aqui no castelo, fico pensando em como teria sido minha vida se eu tivesse continuado. Se eu pudesse ter aprendido mais... se pudesse ter escolhido outro caminho.


Lúcia respirou fundo e tentou sorrir.


— Mas não posso ficar pensando nisso.


— Por quê?


Ela o encarou.


— Porque, se eu me permitir lamentar tudo aquilo que perdi, talvez comece a esquecer por que fiz essa escolha.


O homem permaneceu em silêncio.


Lúcia então olhou para os jardins, tentando esconder a fragilidade que havia deixado escapar.


— Eu só espero que um dia meus irmãos não precisem fazer as mesmas escolhas que eu fiz.


E foi naquele instante que o homem compreendeu que, por trás da jovem camareira que sorria com facilidade e tratava todos com gentileza, havia alguém que aprendera cedo demais a esconder os próprios sonhos para proteger os sonhos de quem amava.


E talvez fosse justamente isso que tornasse Lúcia tão diferente de todos que ele conhecera naquela corte.