Notas iniciais
Mais um capitulo fresquinho

O dia chegava ao fim, mas as descobertas daquela jornada estavam apenas começando.


Para a jovem Lúcia, aquele havia sido um dia diferente de todos os outros. Ao lado de seu padrinho, aprendera mais do que esperava e, entre ensinamentos e conversas, encontrara dentro de si um desejo que, até então, não ousara confessar nem mesmo ao próprio coração.


Ela queria ser a voz daqueles que não eram ouvidos.


Queria conhecer o povo, compreender suas necessidades, suas esperanças e suas dores. E, mais do que isso, desejava conhecer aqueles que governavam o reino. Queria entender como decisões tomadas entre os grandes salões do castelo podiam mudar a vida daqueles que jamais seriam convidados a atravessar seus portões.


Talvez ainda não soubesse, mas aquele desejo haveria de conduzi-la por caminhos que jamais imaginara percorrer.


Enquanto isso, para Lucian, aquele dia havia sido ainda mais transformador.


Pela primeira vez, o jovem príncipe enxergara o mundo que existia além dos muros que o haviam protegido durante toda a sua vida. Escutara vozes que nunca haviam chegado aos seus aposentos. Vira rostos que não conheciam os luxuosos salões do palácio. Conhecera histórias que nenhum livro, mestre ou conselheiro poderia lhe ensinar.


E então compreendeu.


Governar não era apenas aprender a sentar-se corretamente diante de uma mesa, memorizar tratados, estudar mapas ou cumprir uma agenda tão rígida que mal lhe permitia respirar.


Governar era ouvir.


Era olhar.


Era compreender.


Era conhecer o povo que, um dia, depositaria nele suas esperanças.


Naquela noite, quando os dois retornaram ao castelo, carregavam consigo muito mais do que as lembranças daquele dia.


Lúcia carregava um sonho.


Lucian carregava uma responsabilidade.


E nenhum dos dois poderia imaginar que aquele simples passeio pelos caminhos do reino seria apenas o primeiro passo de algo muito maior.


Porque, às vezes, são os dias mais simples que mudam para sempre o rumo de uma vida.


E, enquanto o sol desaparecia atrás das muralhas do castelo, dois jovens seguiam para destinos diferentes...


sem saber que, de alguma forma, seus caminhos ainda haveriam de se encontrar.


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LÚCIA


O dia amanhecera, e a jovem Lúcia já se preparava para mais uma jornada no castelo. Naquele dia, voltaria à sua rotina habitual e, após auxiliar seus pais com os afazeres da manhã, despediu-se deles e tomou o caminho que tão bem conhecia.


Assim que atravessou os portões do castelo, encontrou Amélia, que já se ocupava com os trabalhos daquele início de manhã.


Lúcia abriu um sorriso ao vê-la e aproximou-se.


— Bom dia, Amélia. Sentiste minha falta?


A mulher ergueu os olhos para a jovem e deixou escapar uma pequena risada.


— É claro que senti sua falta, jovem Lúcia. Ontem não precisei correr pelos corredores atrás de ti para lembrar-te da hora do almoço.


Amélia riu ao perceber a expressão contrariada da jovem, que logo cruzou os braços diante do comentário.


— Não fizeste isso tantas vezes assim...


— Ah, não? — respondeu Amélia, divertindo-se. — Pois minha memória parece recordar muito bem.


Lúcia apenas balançou a cabeça, contendo o próprio sorriso.


— Está bem, está bem. Já compreendi.


Amélia então fez um gesto para que ela seguisse adiante.


— Agora vá. Há muito trabalho esperando por ti.


— Sim, senhora.


Com um último sorriso, Lúcia seguiu pelos corredores do castelo, em direção ao andar onde cumpriria seus afazeres naquele dia.


Mal sabia ela que aquela manhã, aparentemente tão comum, estava prestes a conduzi-la novamente para acontecimentos que mudariam o rumo de sua vida.


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LUCIAN


Os primeiros raios da manhã ainda não haviam tocado as janelas dos aposentos reais quando Lucian já se encontrava desperto. Inquieto, levantara-se antes mesmo que o castelo despertasse por completo.


Quando Pierre adentrou o dormitório, preparado para conduzir mais uma manhã da rigorosa rotina do jovem príncipe, encontrou uma cena que jamais esperaria.


Lucian já estava vestido, com a higiene pessoal devidamente feita, sentado junto à janela e profundamente absorto nas páginas de um livro sobre guerras que havia retirado da biblioteca alguns dias antes.


— Bom dia, Vossa Alteza. Vejo que, depois da aventura de ontem com Vossa Majestade, amanhecestes com grande disposição.


O príncipe ergueu os olhos do livro e fitou o conselheiro com certa confusão. Por um breve instante, pareceu não compreender como Pierre havia reconhecido que era ele.


Pierre, percebendo a expressão do jovem, arqueou uma sobrancelha e deixou escapar um breve riso.


— Ora, príncipe... pensais mesmo que eu não vos reconheceria? Não vos esqueçais de que sou eu quem vos conduz todos os dias. Conheço vossos passos, vossos hábitos e até mesmo o modo como segurais um livro.


A tensão que havia surgido por um instante se desfez, e Pierre baixou a guarda, divertido com a expressão que o jovem herdeiro fazia.


Lucian fechou parcialmente o livro e sorriu.


— Bom dia, Pierre. É claro que eu não passaria despercebido por vós. Contudo, devo admitir que também pude conhecer uma versão vossa que até então desconhecia. Uma versão mais leve... menos fria.


O sorriso de Pierre desapareceu pouco a pouco. Ele soltou um discreto suspiro e caminhou até o príncipe.


— Temos obrigações a cumprir, futuro herdeiro.


Sua voz voltou a carregar a firmeza habitual, embora já não houvesse nela a mesma rigidez de outrora.


— Não posso simplesmente baixar a guarda diante de nossa rotina. Vós sereis rei um dia e precisais estar preparado para tudo aquilo que vos aguarda. Por isso, não me posso permitir falhas.


Lucian permaneceu em silêncio por alguns instantes, observando-o.


— Talvez não seja uma falha, Pierre.


O conselheiro ergueu os olhos para o príncipe.


— Talvez seja apenas uma lembrança de que, antes de ser meu conselheiro... também sois alguém que pode sorrir.


Pierre, porém, não respondeu. Preferiu manter intactos os muros que havia erguido ao redor de suas emoções e, sem prolongar aquela conversa, aproximou-se do jovem herdeiro, conduzindo-o para dar início à rotina diária.


O dia de Lucian seria longo e repleto de compromissos. Entre estudos, treinamentos e lições de conduta, cada hora já estava devidamente planejada, como de costume.


Entretanto, naquela manhã havia ainda um compromisso que exigia especial atenção.


Em meio à rotina do príncipe, Pierre reservara um horário para comparecer diante de Vossas Majestades. O rei e a rainha haviam solicitado sua presença em uma reunião.


Ainda assim, como sempre, não permitiu que a preocupação transparecesse em seu semblante.


— Vamos, Vossa Alteza. Vossa primeira lição desta manhã já vos aguarda.


Lucian fechou o livro que segurava e levantou-se, acompanhando Pierre pelos aposentos.


Mais uma vez, o conselheiro vestia a mesma postura firme de sempre.


Mas, por detrás daquela expressão impenetrável, as palavras do príncipe permaneciam ecoando em sua mente.


Uma versão mais leve... menos fria.


E, embora jamais admitisse em voz alta, talvez Lucian tivesse enxergado algo que Pierre passara anos tentando esconder.

Notas finais
Espero que gostem Kizlar