Notas iniciais
Mais um para vocês

Lucian


Enquanto caminhavam pelo condado, a rainha conversava com o filho sobre seus gostos, seus desejos e sobre aquilo que ele acreditava que deveriam fazer a seguir. Entre uma rua e outra, mãe e filho iam se conhecendo de uma maneira que os muros do castelo jamais lhes haviam permitido.


Ao mesmo tempo, descobriam o próprio povo, observando de perto suas rotinas, seus costumes e suas pequenas alegrias — uma vida que, por tanto tempo, lhes permanecera distante devido aos deveres que os mantinham presos à corte.


Antes, porém, que aquela pequena aventura pudesse acontecer, o rei tivera uma longa conversa com ambos.


Considerava arriscado que sua esposa e seu filho se expusessem daquela maneira. Temia que fossem reconhecidos e, pior ainda, que algum rebelde pudesse atentar contra a vida daqueles que mais amava.


Suas preocupações eram legítimas, e não foram poucas as vezes em que tentou fazê-los reconsiderar a ideia.


A rainha, contudo, manteve-se firme.


Com a serenidade que lhe era própria e a determinação de quem já havia tomado sua decisão, mostrou ao esposo que não pretendia colocar o reino ou a família em perigo. Queria apenas, por algumas horas, conhecer aquilo que existia para além dos muros que tantas vezes os separavam de seu próprio povo.


Ao fim da conversa, aproximou-se discretamente do rei e lhe murmurou algumas palavras ao ouvido.


A expressão dele mudou por um instante.


Ela lhe contara, quase como uma confidência, que em sua juventude já havia feito algo semelhante. Naquela época, longe das formalidades da corte e das obrigações impostas pela coroa, vivera uma das experiências que mais guardava com carinho de seus anos de juventude.


O rei não conseguiu conter um sorriso.


— Então é assim? — murmurou ele, olhando para a esposa com uma mistura de surpresa e divertimento. — Minha rainha possui aventuras das quais seu rei jamais ouvira falar?


Ela apenas sorriu, sem oferecer maiores explicações.


O rei suspirou, finalmente rendendo-se à determinação dos dois.


— Está bem. Mas mais tarde, em nossos aposentos, quero ouvir cada uma dessas histórias. Tanto as que viverão hoje quanto essa aventura de sua juventude que, aparentemente, decidiu esconder de mim por todos esses anos.


A rainha apenas inclinou a cabeça, contendo o sorriso.


E assim, com a permissão do rei e sob os cuidados necessários para que não fossem reconhecidos, mãe e filho finalmente deixaram para trás os muros do castelo.


Naquele dia, porém, não caminhariam como soberanos.


Caminhariam apenas como mãe e filho.


---


Já fazia algum tempo que os dois percorriam a enorme feira, encantados com tudo aquilo que encontravam pelo caminho.


Experimentavam os alimentos oferecidos pelos comerciantes, observavam tecidos, provavam algumas peças de vestuário e, vez ou outra, a rainha não conseguia conter o riso diante de alguma atitude espontânea do filho.


Em determinado momento, encontraram alguns óculos de armações curiosas e, como duas pessoas comuns em um dia de passeio, começaram a experimentá-los.


A rainha ainda carregava consigo uma antiga câmera, que trouxera justamente para registrar aqueles momentos.


Entre fotografias, risadas e pequenas descobertas, mãe e filho pareciam verdadeiros viajantes conhecendo, pela primeira vez, as ruas de seu próprio reino.


Ninguém os reconhecera.


Os criados haviam cumprido perfeitamente sua tarefa, escolhendo roupas simples, discretas e adequadas para que ambos passassem despercebidos entre os habitantes do condado.


Foi durante uma dessas caminhadas, porém, que algo chamou a atenção dos dois.


Mais adiante, entre as barracas, estava Pierre.


O conselheiro conversava com uma jovem.


À primeira vista, nada havia de extraordinário naquela cena. Ainda assim, mãe e filho enxergaram coisas completamente diferentes.


Lucian reconheceu imediatamente seu secretário.


Mas não foi apenas isso que o fez parar.


Pela primeira vez, via Pierre sem a postura rígida que sempre conhecera dentro do castelo.


Não havia a expressão severa, o olhar atento ou aquela voz que parecia sempre encontrar alguma falha em seus modos.


Ali, diante daquela jovem, seu conselheiro estava tranquilo.


Sorria.


Fazia comentários descontraídos e, em alguns momentos, chegava a rir.


Lucian permaneceu observando, quase incrédulo.


Também percebeu algo que jamais havia compreendido dentro dos muros do castelo. As pessoas ao redor tratavam Pierre com respeito, mas não com temor.


Aproximavam-se dele, cumprimentavam-no, ouviam suas palavras e pareciam confiar em seus conselhos. Para aquelas pessoas, ele não era apenas o homem responsável por corrigir um príncipe ou conduzir os assuntos da Coroa.


Era alguém importante para elas.


Lucian jamais havia visto aquele lado de seu conselheiro. Já a rainha quase não prestara atenção em Pierre.


Seus olhos estavam voltados para a jovem.


Ela observava a maneira como a moça respondia às perguntas do conselheiro, sempre com firmeza, inteligência e uma perspicácia que despertou imediatamente sua atenção.

Não havia hesitação em suas palavras, tampouco receio de discordar quando julgava necessário.


E havia algo mais.


A rainha percebeu o afeto de Pierre por aquela jovem. Não era difícil notar.


Havia familiaridade em seus gestos, confiança em suas palavras e uma espécie de orgulho discreto no modo como ele a escutava.


Por alguma razão, aquela jovem lhe pareceu estranhamente familiar.

Não em sua aparência.

Mas em sua maneira de pensar.


Por alguns instantes, a rainha se viu refletida naquela garota de tantos anos atrás.


Sem perceber, acabou deixando escapar em voz alta:


— Quem seria a jovem que conversa com aquele senhor?


Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, uma senhora que acabara de oferecer alguns morangos para que provassem ouviu a pergunta.


Sorriu e, como quem falava de alguém querido da própria comunidade, respondeu:


— Aquela é nossa jovem Lúcia, sobrinha do conselheiro real. Uma pena ter precisado abandonar os estudos para auxiliar os pais. Tinha um futuro brilhante pela frente.


A senhora afastou-se logo depois, retornando às suas tarefas.


A rainha, entretanto, permaneceu atenta.


Lucian, percebendo que a mãe continuava olhando naquela direção, aproximou-se discretamente.


— Mãe...


Ela voltou os olhos para o filho.


— O que foi, querido?


— Talvez devêssemos ir pelo outro lado. Se Pierre nos reconhecer...


A rainha compreendeu sua preocupação, mas ainda não estava pronta para partir.


— Só um momento, querido.


E, com discrição, aproximou-se um pouco mais.


Queria ouvir o desfecho daquela conversa.


Pierre havia feito uma pergunta à jovem, e Lúcia não demorou a responder.


Sua voz era firme, embora respeitosa.


— Porque um conselheiro que apenas concorda com seu soberano não o aconselha... apenas o acompanha. E aquele que recebe a confiança da Coroa deve compreender que seu dever maior não está em agradar ao rei, mas em servir ao reino.


Lúcia sustentou o olhar de Pierre por alguns instantes antes de completar:


— Às vezes, dizer aquilo que o soberano deseja ouvir é fácil. Difícil é ter coragem para dizer aquilo que ele precisa ouvir.


A rainha permaneceu imóvel.


Aquelas palavras haviam chegado até ela com uma força inesperada.


Por um instante, esqueceu-se completamente de que estava disfarçada em meio à feira.


Apenas observou a jovem.


E sorriu discretamente.


Talvez Lúcia tivesse muito mais a oferecer ao reino do que aquela pequena feira permitia entrever. Havia nela uma atenção rara, uma inteligência ainda cuidadosamente guardada e uma maneira de observar o mundo que não passava despercebida a olhos atentos. O que a rainha, porém, não poderia imaginar era que aquela jovem camponesa não lhe era tão desconhecida quanto parecia. Lúcia era uma das camareiras reais e, havia muito tempo, permanecia mais próxima da rainha do que ela jamais poderia supor.


Notas finais
Espero que gostem Kizlar