Enterrando Nina
1 O Enterro
Essa coisa de funerais está ficando constante, ou será que é só impressão minha? Mas eu não posso reclamar, enterros são os únicos momentos em que eu posso usar preto sem ser chamada de gótica ou criticada por alguém da família. Quase sempre minha mãe.
O último velório comemorado... Não, comemorado não é a palavra certa. Ninguém comemora a morte de outra pessoa, ou pelo menos não deveria. Vamos dizer então que o último velório da família foi o do meu tio, Andy, há alguns meses. Só que dessa vez as circunstâncias são completamente diferentes. Meu tio Andy, embora não fosse tão velho assim, tinha problemas do coração. Sua morte já era previsível, quase como um alívio, embora minha tia Alice tenha fica desolada. E com razão... Vinte e cinco anos de casamento esfriando no corpo do tio Andy, que estava deitado inerte no quarto de cima. Dessa vez estávamos reunidos em homenagem ao meu primo Billy. Eu nunca conheci Billy Boy direito, ele era alguns vários anos mais velho que eu, mas todos diziam o quanto ele era um bom rapaz. Uma pena que tenha se ido tão cedo e de forma tão trágica. Não tinha nem corpo para ser enterrado. E a mina dela, a Sharon, estava grávida. Pelo menos ele tinha morrido como um herói, ou foi isso que ouvi meu pai comentar com o meu tio.
Só que comigo praticamente nada tinha mudado. Eu ainda era a mesma Nina do último enterro. A Nina que só usava preto, a Nina dos cabelos compridos, a Nina que tinha que aturar os comentários idiotas do tio Bob. Eu ainda era solteira, ainda era virgem, ainda era ninguém.
Como sempre, eu tentava me manter neutra àquele ambiente de luto e sofrimento que todos fazem questão de cultivar quando acontece alguma tragédia. Tenho que admitir que quando vi a tia Cathy foi difícil não chorar junto com ela. Cathy é minha tia predileta, ela me vê como eu realmente sou... Uma mulher, não uma menina. O tio Davie também parece muito mal. E quem não estaria. Há alguns anos eles enterraram o filho mais novo. Ele nem chegou a viver muito tempo, o coitado era retardado e passou a vida inteira babando e olhando para o teto. Sua morte não foi um choque, mas eu sei que eles devem ter sofrido muito. Agora o Billy, o filho mais velho, o orgulho deles. Nunca tive muito contato com o Billy, mas tia Cathy estava sempre comentando de como ele estava no exército servindo o país.
Eles têm outro filho, o Mark. Acho que ele deve ter em torno de vinte e cinco anos. A última vez que o vi ele era um adolescente ruivo e espinhento. Continua ruivo, mas sem as espinhas. Sei que ele é meu primo e eu não deveria nem pensar nisso, mas ele tem estilo. Eu sei que ele está pensando a mesma coisa de mim porque não para de olhar lá do outro canto da sala. Ele já estava me encarando lá no enterro, mas pelo menos estava sendo mais discreto. Aposto que ele vai chegar em mim a qualquer segundo agora. Acho que eu até gosto desse assédio. Mas que coisa doentia, Nina, que coisa doentia. E além do mais ele provavelmente é HIV positivo ou algo assim.
Todo mundo sabe que ele está envolvido com drogas, até a tia Cathy sabe. Eu ouvi ela comentando sobre isso com a minha mãe, parece que o garoto teve uma overdose certa vez, acho que nem faz tanto tempo assim. Mas ele tem estilo, eu tenho que admitir. Coitada da tia Cathy. Não vai demorar muito para ela perder outro filho. Imagina só. Um dia você tem três, aí menos de um ano se passa e você só tem um. Não sei o que ela faria se o Mark se fosse também. Talvez ela me adotasse, eu não me importaria, minha mãe está passando por um período complicado que ela chama de menopausa.
Estava certa quando pensei que o Mark viria falar comigo. Só não esperava que ele estivesse tão bêbado.
— Você realmente desabrochou numa gracinha de menina, sabia disso?
E isso é suficiente para me fazer perder qualquer interesse. Céus, será que ele não conseguia pensar em nada melhor para me dizer? Pelo menos algo que eu já não tivesse escutado milhares de vezes antes? Mark igual a zero. Sorrio e tento ser simpática porque afinal de contas o irmão do cara morreu.
— Sinto muito pelo Billy.
Ele não desiste e deve estar formulando alguma frase de efeito na cabeça dopada de heroína dele. Eu troco peso de uma perna para a outra esperando ele abrir a boca carnuda e beijável, porque estou seriamente curiosa. Ou esperançosa de que ele diga alguma coisa no mínimo decente para que a gente possa fazer alguma coisa sem que eu me sinta mal depois por ele ser um completo idiota.
Mas é claro que ele demora demais e meu pai chega para o afastar de mim. Ele grita para o Mark coisas sobre o Billy ser dez vezes o homem que alguma vez ele será, que ele não passa de um viciado de merda que só causou sofrimento aos pais. Os dois pareciam prestes a cair na porrada. Eu não ia nem prestar atenção se não fosse a resposta do Mark:
— Se você me desse uma surra, ia estar me fazendo um favor. Depois eu ia poder bater uma punheta pensando nisso. Nós, universitários desertores viciados em heroína e metidos a espertinhos, somos assim meio pervertidos. Porque você não vale mais que isso, seu lixo de merda. Você também está dando a coisa como certa demais. Se quer ir pra rua, é só dizer.
Mark igual a dez. Não é todo mundo que enfrenta meu pai assim dessa forma, do jeito que eu queria poder fazer. Talvez eu até deixe o garoto me agarrar no banheiro só para irritar o meu velho. Só que eu demoro demais para tomar uma atitude. O Mark esbarra com a mina grávida do Billy e eles vão juntos pro banheiro. Mas que porra será que eles estão fazendo lá? Só de pensar no que está acontecendo no banheiro, me corre um arrepio pelo corpo. O Billy nem esfriou ainda! Vou ficar esperando na porta, talvez eu só tenha entendido errado. Acho que meu pai tem razão dessa vez, esses viciados não têm escrúpulos.
Eles ficam lá durante um bom tempo, e eu fico do lado de fora esperando. Não tenho nada melhor para fazer. Minha mãe nem me deixa fumar na presença dela, embora ela mesma fume que nem uma chaminé. A tia Effy bateu na porta do banheiro e o Mark mandou ela ir embora. Só que quando o meu irmão Cammy, que é policial, começa a socar a porta, os dois são obrigados a sair. Cammy não deve nem ter suspeitado de nada, deve ter achando que o Mark estava se injetando lá dentro. Dá pra perceber pela cara que ele faz quando os dois saem juntos do banheiro.
Sharon, a mina prenha do Billy, vai para um lado e o Mark me vê e vem falar comigo. Mesmo sendo repulsivo ele ainda tem estilo. Mesmo pálido, com aquelas olheiras escuras e o cabelo laranja que parece ter luz própria e estar imundo.
— Cadê seu pai, Nina?
Finjo desprezo e digo que ele foi lá para fora.
— O fiadaputa seguiu meu conselho então?
Analiso a minha situação atual. Estou no corredor que dá para o banheiro, conversando com meu primo estiloso que é viciado em drogas e pode ser parte da grande maioria de usuários de agulha da Escócia que tem AIDS. Eu sou a gótica peituda que é a única das amigas que nunca fez aquilo com um garoto. Não que eu fizesse questão de perder a virgindade. A maioria das minhas amigas disse que era uma bosta. Mas todas elas só faziam aquilo com garotos da nossa idade, por volta dos dezesseis, dezessete anos. Talvez os homens mais velhos tivessem mais experiência. Faz sentido para mim. E todas iam morrer de inveja.
— Posso te fazer uma pergunta, Mark?
— Chama de Rents mesmo.
— Posso?
Talvez ele goste da pergunta. É mais uma proposta indireta do que qualquer outra coisa.
— Você é positivo?
— Não, sou negativo.
— Que bom.
Será que ele sabe do que eu estava falando?
— Você quer conhecer meu apartamento, Nina? Não moro muito longe daqui.
Em uma tentativa frustrada de se aproximar de mim, ele acaba cambaleando pra frente e perdendo o equilíbrio, caindo quase em cima de mim antes de ir para o chão. Não sei até que ponto isso foi acidental, mas pelo bafo de uísque eu diria que ele só estava podre de bêbado mesmo. Meu pai vê o que se passa e se sente na necessidade de defender minha honra de novo. Acho que isso tem mais a ver com o Mark do que tem a ver comigo. Ele nunca gostou do garoto, nunca mesmo. Então ele ataca o sobrinho que está caído no chão completamente detonado e indefeso. O tio Davie clama por respeito. “Estamos aqui pelo Billy” ele nos lembra, “o Billy não ia gostar de ver isso.” A tia Cathy chora, gritando “é o meu filho, é o meu filhinho” e eu não sei se ela está falando do Mark ou do Billy Boy. Todo mundo olha, mas ninguém faz nada. Talvez eles achem que o Mark merece a surra. Bando de hipócritas egoístas.
Funerais me esgotam, estou até com vontade de vestir algo que não seja preto. Cammy, com a sua mania constante de ser policial mesmo nos dias de folga, separa a briga e eu vou até a porta de entrada. Quero ir embora, eu vou embora. E vou sair daqui a mesma Nina de sempre, ainda virgem, ainda entediada. Roubo um cigarro da bolsa da tia Effy sem ela perceber, o coloco na boca e vou até o gramado em frente à casa. Mas que idiota, eu esqueci de roubar um isqueiro também.
— Quer fogo? — me oferece uma voz que eu reconheço.
É Simon. O todo poderoso Simon, sentado nos degraus da escada na entrada. Passei por ele e nem percebi. Ele acende o meu cigarro e fica me encarando daquele jeito de quem está me despindo e imaginando se eu tenho alguma tatuagem em um ponto estratégico do corpo.
— Não queria entrar porque não sei o que vou fazer lá. Quer dizer, eu nem conhecia o Billy direito. Só vim para dar apoio moral ao Rents, mas não tomei coragem de entrar e encarar mais uma vez a morte...
— Ele está precisando, meu pai está dando uma sura nele.
— Como você cresceu, hein, Nina. Virou uma mulher e tanto.
O descaso dele com o amigo não me impressiona tanto quanto como ele falou a mesma coisa que todos os outros, mas mesmo assim pareceu tão diferente. Simon, o Sick Boy, era conhecido como a melhor foda de toda a Escócia. Infelizmente, assim como a maioria dos amigos do Mark, ele também estava envolvido com drogas. Mas se há minutos atrás eu estava disposta a tentar algo com meu primo, não seria bem melhor tentar com Simon?
Acho que o segredo de seu sucesso com as mulheres está no olhar. Ele não me olha como se estivesse babando em cima de mim, como se eu fosse algum objeto. Me olha com desejo, e eu adoro provocar essa reação nos rapazes em boates e pubs.
— Posso te fazer uma pergunta, Simon?
— Claro, Nina.
— Onde você mora?
Ele responde passa as mãos pelo cabelo louro, responde com um sorriso e vamos andando até o fim da rua, onde fica o ponto de ônibus mais próximo. Eu deixo para trás o velório deprimente, minha mãe controladora, meu pai esquentadinho, meu primo viciado comedor de cunhadas grávidas e viúvas, e a velha Nina de sempre. Pelo menos no próximo enterro eu não serei mais virgem. Pelo contrário, serei a garota mais invejada de Edimburgo.
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