Ensine-me a Amar
1 Enrascada
Notas iniciais
Eu realmente preciso melhorar essa sinopse, minha nossa.
Espero que gostem!!
Boa leitura o/
Não foi minha intenção mudar.
Nem me apaixonar.
Não foi minha culpa tornar tudo em confusão.
Assim como não foi de ninguém.
~~~ EaA~~~
O trem começou a se locomover. Assustei-me ao ouvir as engrenagens se mexendo e vi minha família acenando, cada vez mais distante, até desaparecer completamente. Meu ouvido doía pelos gritos de tia Constantina, que foi uma das últimas pessoas a me abraçar. Ela tinha dito para que eu voltasse ainda naquele ano, e que não voltasse grávida. Como bônus, ela provavelmente estourara um dos meus tímpanos.
O reflexo do vidro da janela exibia uma garota de pele pálida que fazia uma careta azeda. Os olhos castanhos escuros estavam abertos de maneira assustadora, com olheiras. Não devia ter lido até tarde na noite anterior.
Olhei para a capa dura do livro que meu pai comprou de presente de despedida e senti meus lábios curvarem. Ele nunca foi a favor de comprar livros, mas gostava que eu lesse, e algumas vezes, quando a chuva era tão forte que nos impedia de trabalhar, ele pedia para que eu lesse fábulas em voz alta. Coincidência ou não, o livro que pousava em meu colo era um chamado “As Melhores Fábulas”.
Minha atenção voltou para a paisagem. Minha minúscula cidade sumira inteiramente, como se nunca houvesse existido ali um lugar pequeno chamado Starkstrobe. Um nome excêntrico para um lugar voltado a pessoas simples e humildes. Não havia lugar melhor do que Starkstrobe, pelo menos era o que eu sempre dizia. Não pela feirinha às quintas, pelos doces de dona Maricota, ou pela hospitalidade de todos, sempre sorridentes. Mas porque ali eu tinha uma família.
Escorei a cabeça no vidro e quis fechar os olhos. Queria que fosse um sonho, que eu não estivesse deixando tudo o que um dia tive para tentar alcançar o desconhecido. Queria poder alimentar os animais de novo, ir até a cidade de trator, ajudar mamãe a fazer pães. Mas algo me fez ficar de olhos abertos e aceitar a minha decisão. Meus pais, meus irmãos, meus tios e avós, todos depositaram sua confiança em mim. Eles acreditavam que se eu consegui aquela bolsa, com toda certeza conseguiria me virar em uma cidade grande, por mais assustadora que ela parecesse.
– ‘Dia – disse alguém. Voltei o foco para o vagão onde eu estava. Duas outras dormiam no banco em frente ao meu, e uma terceira chegara. Ela me olhava à espera de uma resposta. Lembrei dos bons modos.
– Bom dia. – Porém, era de tarde. Onde essa senhora andava com a cabeça? Aliás, quem era eu para falar alguma coisa?
A mulher aparentava ter cerca de sessenta anos, seus cabelos castanhos tingidos apresentavam tons grisalhos. Entretanto, seus olhos ônix eram vivos demais. Ela sentou ao meu lado e demonstrou interesse em meu livro. Fiquei instantaneamente animada. Ninguém nunca parecia se importar com livros onde eu morava. Talvez as pessoas da cidade grande não fossem tão ruins.
– Você gosta de ler? – perguntei em voz baixa e um pouco envergonhada, afinal de contas ela era uma estranha.
– Ah! – exclamou surpresa ao perceber que eu havia a flagrado na cena do crime. – Um pouco. Eu leio quando não tenho o que tricotar. – Sorriu e abriu a bolsa, procurando por algo. Logo depois me mostrou um novelo de lã cor-de-rosa e agulhas de tricô vermelhas, e estendeu seus pertences para que eu pegasse. – Estou fazendo um par de meias para minha neta que mora na cidade.
Não quis demonstrar irritação, mas detestava quando habitantes da cidade grande diziam que Starkstrobe não era uma “cidade”. Evitei seu olhar.
Devolvi a ela as agulhas e o novelo.
– Você mora na cidade? – murmurei. A senhora que havia se entretido em tricotar o par de meias olhou para mim. Seus olhos realmente davam medo.
Quis brigar comigo mesma. Não devia ter lido um livro do Stephen King na noite anterior! Se eu pudesse voltar no tempo, nunca teria aberto a brochura, mesmo que significasse que eu não teria nada para fazer já que estava completamente acordada.
Depois de alguns segundos me encarando, ela piscou os grandes olhos e gargalhou.
– Sou de Starkstrobe também. – Ela deu soquinhos de leve em minha cabeça. – Estou indo visitar minhas netas.
Senti-me ainda mais ofendida. Uma coisa era pessoas da cidade grande falarem mal de Starkstrobe, ou fingirem que ela não é uma cidade; outra é os próprios moradores dizerem absurdos como este. Starkstrobe não era um “lugarzinho” qualquer. Segurei-me para não começar com meu discurso de “você não pode falar mal de Starkstrobe, até porque...”, senão o clima no vagão ficaria pesado.
O pior era que nunca tinha visto aquela mulher em nenhuma das festas locais. Não saberia dizer nada sobre aquele comportamento. Senti mãos geladas em meu pescoço e virei para a senhora. Ela sorria docilmente.
– Não se sinta ofendida, querida. – A mulher me soltou e voltou à atenção para o tricô. – Starkstrobe é uma cidade muito boa, sim. Melhor que qualquer outra cidade grande. – Que mulher bipolar. – O problema é que pessoas como meu filho e minha querida nora não conseguem se dar bem com todo mundo, e em um lugar pequeno como lá – Ela apontou para trás. – Não é uma opção não se dar bem, não é?
Repentinamente a senhora começou a ter interesse em minha opinião sobre minha terra natal. Quando comecei a dizer os pontos negativos e compará-los a quantidade de pontos positivos que a pequena cidade possuía, ela reverteu a situação e começou a falar de si mesma.
Escutei-a reclamar de dor nas costas, e em como antigamente não havia crianças maldosas, eram todos santinhos. E como no seu tempo, os trens eram muito bons, e que ainda hoje eram melhores que qualquer “carro, ou automóvel de duas rodas”, referindo-se igualmente a aviões.
Após concordar sempre com ela, a senhora realmente teve inspiração. Contou-me que seu neto era esplêndido, e que os mais novos deveriam ser também. Falou sobre o doce de abóbora que a nora fazia, mais porque o marido mandava do que para agradá-la, mas o que importava era encher o estômago com aquele doce.
Eu ria nos momentos certos, e aos poucos fui me acostumando com a faladeira senhora que se mostrava cada vez mais interessante. As outras duas acordaram, e logo nós três ríamos das aventuras malucas da mulher com agulhas de tricô vermelhas e novelo de lã cor-de-rosa.
O trem parou e todos se apressaram a sair. Enquanto duas delas saíram dando tchauzinhos com as mãos, eu levantei e esperei a senhora sair. Ela terminou de guardar seus pertences e me encarou novamente. Eu só via doçura em seus olhos agora.
– O que está esperando? – perguntou.
Eu não tinha resposta. Não queria sair e confirmar que eu viveria em outro lugar, com outras pessoas. Respirei fundo.
– Vamos – chamei.
Ajudei-a carregar suas duas malinhas, enquanto levava as minhas. Ao sairmos, ela pegou suas malas e deu um sorriso.
– Você é muito boa, querida. – Ela deu tapinhas leves em minha cabeça. – Eu queria que meus netos arranjassem garotas tão gentis como você. – Corei, e enquanto tentava achar algum argumento para contrariá-la, ela procurou algo na bolsa. Tirou algumas moedas de lá e me estendeu. Olhei para as moedas e depois para ela.
– O que é isso? – perguntei.
A mulher riu.
– É dinheiro para você comprar uns doces. – Ela colocou as moedas em minhas mãos, e olhou para as pessoas, provavelmente procurando sua família. Coloquei o dinheiro no bolso, e quando virei para agradecê-la, ela havia sumido. Nem tive tempo de perguntar seu nome.
Procurei o celular que meu tio, o que viria me buscar, tinha me dado e procurei seu número. Eu também precisava ir para casa.
~~~ EaA ~~~
Meus ombros estavam doloridos. Sentia minha cabeça girar e deitei no banco do ponto de ônibus. Como faria para achar a casa de meu tio? Estava extremamente apavorada com a simples ideia de ficar mais do que dez minutos naquele lugar. Eu sabia que deveria ter ficado em minha pequena cidade.
Afinal, quem precisava de uma bolsa de estudos quando se podia ordenhar vacas?
Suspirei. Cidades grandes são assustadoras assim como narradas em livros. Há pessoas esquisitas, grosseiras, que não prestam atenção em nada além de celulares. Há carros e motos passando com uma velocidade absurda. E velhinhas que podem roubar.
Não basta desembarcar do trem na estação errada porque você se confundiu você ainda é assaltada. Foi apenas abrir o celular que tinha pegado emprestado, que uma velhinha o pegou. Não soube o que fazer. Apenas a vi correr, levando uma de minhas malas. O que raios eu estava fazendo lá mesmo?
– Hum – disse alguém. – Posso me sentar?
Envergonhada e desconfiada, lembrei que não estava em Starkstrobe e me sentei devidamente. Assenti insegura.
E se essa pessoa quisesse me roubar também? Eu só tinha uma mala, a qual eu havia enchido com poucas peças de roupa e livros.
Ele não podia pegar meus livros.
Abracei a pequena mala. Sutilmente, dei uma olhada rápida para a pessoa sentada no banco. Era um rapaz. Cabelos negros, pele muito branca, vestia uma roupa normal para as pessoas da cidade. E usava uns óculos grande de armação azul escura. Ele olhava a enorme rua movimentada.
Apertei mais a bolsa contra o peito. Não podia me deixar enganar pelas aparências.
Eu precisava de ajuda. Tinha o número de meu tio em algum lugar de minha bolsa, mas não sabia onde encontrar um telefone. Comecei a planejar várias formas de iniciar uma conversa, terminando com um: poderia me dizer onde há um orelhão?
Como começar?
“Olá, não roube minha bolsa, eu sou faixa preta em caratê. Por gentileza, poderia me dizer aonde há um orelhão?”
“Minha bolsa é muito feia, e você saberia onde tem um orelhão?”
“Não é que eu não goste de ficar em um ponto de ônibus de noite, em uma cidade a qual nunca andei, mas você poderia me dizer onde há um orelhão?”
– Qual ônibus você vai pegar? – perguntou ele. Ter começado um assunto do nada me pegou de surpresa.
Na mesma hora conferi se estávamos a uma distância razoável. Ele olhava para mim, seus olhos verdes cintilavam.
– Ahn. – E agora? Ele me assaltaria se eu dissesse que sou nova? Não, por que eu diria isso a um estranho? Por que ele puxou o assunto, para início de conversa? E toda a minha preparação?
Ao meu lado, ele começou a rir.
Espremi os olhos, tentando censurá-lo.
– Desculpe, é que você fez várias expressões engraçadas. – Ele voltou a olhar a rua.
– Você vai para onde? – perguntei baixinho. Quis me bater. O que eu estava fazendo falando com um estranho e suspeito?
– Eu não tenho nenhum lugar para ir – respondeu.
Não soube o que dizer. Quem sabe ele tivesse sido assaltado como eu? Era melhor não arriscar.
– Poderia me dizer onde há um orelhão, por favor? – murmurei.
O rapaz voltou sua atenção para mim. Foi sua vez de me analisar, como se uma garota baixinha e de tranças pudesse estar tramando um golpe contra ele.
– Pode pegar meu celular emprestado. – Ele procurou o aparelho no bolso por algum tempo e quando o achou, estendeu.
– Você é burro? – perguntei. – E se eu fosse uma ladra? Uma mulher chique anda por aí roubando celulares de pessoas do interior. E se eu fosse como ela?
– Mas eu não sou do interior. – Ele ergueu as sobrancelhas.
Bem, eu não deveria ter perdido a paciência porque ele fez o mesmo erro que eu.
Peguei o celular ainda desconfiada. Deixei o aparelho do meu lado no banco e vasculhei o caderno. Disquei o número de meu tio e esperei que ele atendesse.
– Alô? – falou a voz grossa do outro lado da linha, em um tom desesperado.
– Tio? – chamei.
Escutei meu tio gritar “ela está bem” para alguém, depois retornou.
– Diana, graças a Deus. Onde você estava? Estávamos te procurando aqui na estação. Sua tia está desesperada. – Parecia que meu tio iria demorar. E eu estava com o celular de um estranho, gastando os créditos dele. Droga, eu precisava agilizar.
– É uma longa história. Tio, o senhor pode vir me buscar? – pedi.
– É claro. Onde você está? – perguntou.
– Hum... em um ponto de ônibus. – tentei.
– Diana! – reclamou. O que eu poderia fazer? Eu queria não ter saído na estação com aquela senhora amiga que me deu dinheiro para doces. Eu queria não ser tão ingênua, e definitivamente queria um mapa. Estava com medo. Como explicaria onde estava? Como iria para casa, para a minha nova casa?
Levantei com a bolsa e tentei achar alguma placa dizendo onde eu estava. Não vi nenhuma.
– Diga a ele que está a dez quadras da estação, perto da U.R. – avisou o rapaz.
– Dez quadras da estação. Perto da U.R. – disparei.
– Estou indo. – Desliguei o celular e entreguei ao rapaz. Ele estava desatento.
– Muito obrigada. – murmurei. Ele sorriu.
– De nada.
Poucos minutos depois, um carro pequeno encostou. Meu tio abriu a janela. Sua barba continuava mal feita, seus cabelos pretos estavam bagunçados e ele ainda cheirava sua mesma colônia. O tempo parecia ter parado para ele. Quis abraçá-lo. Depois de um dia turbulento, só queria sair dali.
– Vamos, Diana – chamou, aliviado. Ainda bem que ele também se lembrava de mim. Sua voz suave era um calmante.
Eu olhei para o rapaz, que tinha a atenção voltada para meu tio.
–Meu tio pode te levar para a sua casa – sugeri. O rapaz negou com a cabeça.
– Não, obrigado. Eu estou indo. – Ele começou a se afastar. Assustei com o tamanho dele.
– Ei! – gritei. Meu peito batia rápido. Eu nunca havia falado tanto com um estranho em um ponto de ônibus. – Eu prometo te recompensar pela ligação.
Ele apenas levantou um braço e acenou.
Entrei no carro preocupada. Diana Lancaster nunca deve favores. E não começaria a fazê-lo agora.
Fale com o autor