Ensina-me a respirar

7 Capitulo 6 O acidente


Acordei quase às dez da manhã, Júlia estava acordada sentada na cama mexendo em seu celular.

— Bom dia, Daniel, dormiu bem? – perguntou ela.

— Sim, custei um pouco para pegar no sono, mas consegui descansar bem.

— Você parece preocupado, — perguntou ela me encarando.

— Só estou pensando no que aquele bacaca vai escrever sobre eu e Flora hoje.

— Que babaca? – perguntou ela me olhando.

— Na saída encontrei com James, aquele paparazzo que tirou uma foto nossa em Angra nos beijando.

— Daniel, relaxa um pouco, você não precisa se preocupar com tudo que aquele homem diz.

— Tem razão, olha, que tal irmos para Angra hoje e passar o restante do fim de semana lá? — falei mudando meu tom de voz e rindo.

— Acho uma ótima ideia, vamos que horas? — perguntou ela se levantando e pondo seu roupão.

— Bem, eu vou agora pela manhã porque eu quero ir de carro, como você sabe, adoro pegar a estrada.

— Eu preciso mesmo passar em casa e terminar algumas coisas, Dan, mas eu posso te encontrar lá à tarde, o que acha?

— Por mim tudo bem, acho que preciso mesmo de um tempo para pensar em algumas coisas sozinho. — disse me levantando e indo ao banheiro.

— Está bem, Daniel, eu vou para o meu quarto me trocar e de lá vou correr para casa e adiantar tudo.

Júlia se aproximou de mim sorrindo e antes que eu pudesse perceber ela estava com seus lábios sob os meus.

— Eu realmente te amo, seu mala. E se um dia eu me tornar hétero, pode ter certeza que caso com você! — disse ela me abraçando

—Júlia, eu realmente não te entendo, como você pode ser lésbica e me amar ao ponto de me dar um beijo? — perguntei confuso.

— Simples, Daniel, eu te amo além do estado físico, eu quero muito que você encontre alguém que te ame como uma mulher deve amar um homem e tenho quase certeza que isso não irá demorar a acontecer. — falou rindo de uma forma estranha. — Agora deixe—me ir adiantar as coisas se não irei me atrasar e você sabe como é ruim o trânsito para Angra hoje!

— Vai lá, sua louca, e eu também te amo! — disse lhe dando um tapa na poupa da bunda — e se um dia eu me casar será com você!

Júlia realmente me intrigava, éramos muito amigos e eu sabia de sua orientação sexual, mas devo admitir que por várias vezes a desejei como mulher.

Não demorei muito a sair, tomei um rápido banho e mandei uma empregada preparar algumas coisas para eu levar em viagem.

Fui até a garagem e liguei meu Mercedes SLR fazendo o ronco do seu potente motor ecoar pelas paredes largas da garagem, realmente eu adorava aquele carro.

O tempo estava muito agradável e eu adorava fazer aquele caminho, as arvores, carros e o asfalto, tudo do jeito que eu gostava. O marcador estava apontando em 95 Km/h, estava bem abaixo do limite máximo de 120 Km/h, não tinha nenhuma pressa.

Abri a janela do meu lado e acendi um cigarro, apoiei meu cotovelo esquerdo na janela e assim continuei meu caminho.

Enquanto dirigia, me perdi pensando em Flora e em como estava linda ontem à noite, eu conseguia lembrar de cada detalhe dela, como se uma fotografia estivesse estampada em minha mente… Nesse momento tudo aconteceu muito rápido, o cigarro havia escorregado da minha mão e caído em minha perna, no instinto pulei dentro do carro e sacudi a perna batendo com a mão para tentar tirar a guimba que me queimava.

Quando me dei conta, já era muito tarde, meu carro tinha saído da faixa e na pista oposta vinha um outro carro, apenas tive tempo de me jogar no acostamento para evitar a colisão, e tudo ficou escuro.

FLORA LINDA

Mandei uma mensagem para ela dizendo que já estava em casa e que estava tudo bem.

Acontece que Kelly me conhecia bem até demais e só pela mensagem sabia que não estava nada bem.

Quinze minutos depois da mensagem ser enviada, Kelly entrou em casa como um furacão e me encontrou encolhida no sofá, usando um camiseta velha e um short de flanela.

Kelly não falou nada, apenas se juntou a mim. Ficamos vendo filmes e comendo besteira até altas horas da madrugada.

Já era por volta de umas 4 da manhã quando Kelly disse que iria se deitar.

— Você também deveria dormir — falou se levantando.

— Irei — murmurei distante.

— Flora… — começou a dizer, mas desistiu. Meu deu um beijo na testa e foi se deitar.

Kelly era minha melhor amiga e minha confidente, mas sabia que existia momentos em que eu simplesmente não falava.

Quando minha mãe morreu fiquei um mês inteiro sem falar. Quando o pai dela nos mandou para o Rio fiquei sem falar por umas duas semanas também. E quando meu pai ficou internado por causa de uma pneumonia, fiquei sem emitir qualquer som até ele ficar bom novamente.

Eu era assim, quando estava realmente triste ou chateada com algo ou alguém, me isolava de todo.

Acordei com meu estômago roncando. Tinha dormido no sofá e estava com dor por todo meu corpo. Levantei e ouvi algumas partes minhas estalarem.

Fui para a cozinha e encontrei Kelly fazendo o café.

— Bom dia! — ela disse me lançando um sorriso que não chegava aos seus olhos.

— Bom dia! — murmurei de volta.

— Fiz sanduíches para nós duas. Estava pensando em ir naquele café novo que abriu no centro. O que acha? — tagarelava minha amiga se sentando na minha frente na mesa de café.

— Vou pedir demissão, Kelly — declarei baixo.

Kelly não disse nada por um minuto inteiro — Por quê? — perguntou por fim.

Abaixei a cabeça e olhei o prato a minha frente. De repente minha fome tinha sumido.

— Era o que você queria, certo? Então pouco importa os motivos — falei ainda sem encará—la.

— É claro que importa! Passamos o dia inteiro te arrumando para a tal festa e você até então parecia feliz. Depois me manda uma mensagem dizendo que está em casa. Daí eu chego e te encontro no modo “mudo” e agora você fala que vai se demitir. E não vem com esse papo de “Era o que você queria, fique feliz” — ela fez um falsete nessa parte — Porque se esse fosse o seu motivo, você teria saído meses atrás. — Kelly havia explodido tudo de uma única vez.

Eu a entendi, Kelly sempre cuidou de mim, era normal ela se preocupar. Mas mesmo assim eu não queria falar.

Se contasse para Kelly o real motivo da minha demissão, iria ter que assumir para mim mesma também e eu não queria.

— Ele fez algo que te magoou ontem? — ela perguntou depois do meu longo silêncio. Lágrimas encheram meus olhos.

Acontece, que, mesmo em sua infinita arrogância, Daniel sempre me tratou de uma forma diferente da maioria, ele sempre mostrou que confia em mim e até o modo como ele me olhava era diferente.

— Flora! — falou Kelly se tirando dos meus devaneios — Fala comigo, por favor! — reparei que minha amiga estava a beira das lágrimas.

— EU ME APAIXONEI POR ELE! — explodi — eu me apaixonei pelo prepotente e egocêntrico Daniel Aguilar. Não sei como e nem porque, mas aconteceu! Satisfeita? —falei meredendo as lágrimas que há muito vinha reprimindo.

— Sim, — falou Kelly — Estou muito feliz por você falar comigo. — ela levantou e caminhou até mim depois me puxou para um abraço — Me desculpe por insistir tanto, mas eu não podia deixar você ir de novo — murmurou Kelly.

— Como assim? — perguntei confusa em meio as lagrimas.

— Flora, eu só fiz psicologia por sua causa. Sempre que você ficava triste parava de falar. Isso era uma tortura para mim. Eu me sentia impotente e solitária. Quando cheguei em casa ontem e te vi daquele jeito… Eu… Eu não queria me sentir assim de novo.

Foi minha vez de consolar Kelly, a abracei apertado — Desculpa — murmurei — Eu não sabia.

— Tudo bem — ela disse forçando um sorriso — Então vamos àquele café novo? Talvez você conheça algum “gatinho” que te faça… — a fala de Kelly foi interrompida pelo toque do nosso telefone residencial.

Olhei para o relógio de parede. Era pouco mais de meio—dia. Corri até o telefone para atendê—lo. “Estranho, ninguém liga para esse número” pensei pouco antes de pegar o fone.

— Olá, poderia falar com a Srta. Flora Linda? — falou uma voz feminina com certa urgência.

— Sou eu. — respondi já me preocupando.

— Ah, graças a Deus conseguimos falar com a senhora! — falou a jovem — Meu nome é Clara, estou ligando do Hospital MatCodrato Vilhena de Angra dos Reis. — ela explicou parecendo nervosa. O que estava começando a me deixar também nervosa — A senhora conhece algum Daniel Aguilar?

— Sim — falei tentando me controlar.

— Srta. Linda, estou ligando para informar que o Sr. Aguiar sofreu um acidente de carro e se encontra internado em nossas dependências — falou Clara com toda calma que era treinada para ter — ele não corre perigo de vida. Seu estado é estável, mas ele será mantido sedado. Srta. Flora, ainda está me ouvindo? — perguntou a menina perante meu longo silêncio.

— Sim, estou — falei, mas não era exatamente verdade. A frase “o Sr. Aguilar sofreu um acidente” virava em minha mente abafando todo o resto.

Clara falou algo sobre me passar o endereço do hospital e pediu que eu fosse imediatamente para lá. Finalizei o telefonema de forma mecânica e corri para o meu quarto.

Ouvi a voz de Kelly me chamando, mas parecia a um milhão de quilômetros dali. Peguei uma mala antiga em cima do guarda-roupas e comecei a jogar roupas lá dentro, depois peguei o notebook e o tablet e também joguei na mala. Estava prestes a jogar mais coisas na mala quando Kelly me agarrou pelos ombros. Eu nem havia percebi que ela tinha entrado no quarto.

— Flora! — gritou me encarando — O que houve? — exigiu.

— Daniel… Daniel sofreu… um acidente — murmurei finalmente me rendendo as lágrimas.

— Onde ele está? — perguntou Kelly calmamente.

— Angra. Preciso ir para lá.

— Tudo bem, vou arrumar algumas coisa. Saímos em 5 minutos.

— Não posso esperar. Tenho que ir agora!

— Flora, se acalma. Você já viu como está?

Levei alguns segundos para assimilar as palavras de Kelly e logo olhei em volta. Eu tinha feito uma verdadeira zona no quarto e ainda estava com a minha roupa de dormir.

Kelly tinha razão. Eu não podia sair daquele jeito.

— Tudo bem — murmurei por fim — você tem 5 minutos.

Cinco minutos depois estavámos no carro de Kelly. Ela usava uma calça jeans desbotada, uma blusa branca de alças finas e um tênis esportivo. Estava com o cabelo preso em um rabo de cavalo alto e mal feito.

— O que foi? — ela perguntou enquanto saia com o carro.

— Nada — falei desviando o olhar. Por mais que a situação fosse tensa não pude conter a vontade de rir. Nunca imaginei que veria Kelly com o cabelo desgrenhado daquela forma.

— Você não está muito melhor do que eu — retrucou Kelly como se lêsse meus pensamentos.

Era verdade. Meu cabelo também estava desgrenhado e eu tinha vestido a primeira roupa que peguei no guarda—roupas, um vestido azul que ia até um pouco abaixo do joelho.

Dei de ombros e Kelly me lançou um sorriso tranquilizante.

— Vai ficar tudo bem. — prometeu.

A viagem até o hospital foi torturante e lenta. A ansiedade e o medo me faziam tremer, mas tentei disfarçar para não deixar Kelly nervosa.

Quando finalmente chegamos ao hospital, saltei do carro antes mesmo de Kelly acabar de estacioná-lo completamente e fui a passos largos para a recepção.

— Bom dia. Posso ajudá-la? — falou uma jovem ruiva assim que entrei no hospital.

— Eu sou Flora Linda. Onde está Daniel Aguilar? — falei atropelando a fala da jovem.

— Um segundo por gentileza — ela falou calmamente enquanto se voltava para o computador. Olhou para a tela por alguns segundo e depois pegou o telefone, falou algo e desligou.

— O doutor já está vindo — ela falou sorrindo antes de voltar a seus afazeres.

Olhei para Kelly com uma expressão de “dá para acreditar nessa garota?”. Ela simplesmente me encarou de volta.

— Calma — falou sem som.

Antes mesmo que eu pudesse pensar em retrucar, um médico de meia idade se aproximou de nós. Ele parecia cansado, mas ainda assim transmitia paz e tranquilidade.

— Boa tarde, eu sou o Dr. Andrade, qual das duas é a Srta. Linda? — perguntou.

— Sou eu — falei estendendo a mão ao médico que a apertou — é um prazer conhecê-lo, doutor. Essa é minha amiga, a doutora Kelly Gomez, como está Daniel? — falei tudo num fôlego só.

O médico apertou a mão de Kelly também. — Acalme-se, Srta. Linda. O Sr. Aguilar já está fora de perigo, ele está sendo mantido sedado para que não sinta dor, apenas isso. Venham comigo até o meu consutório.

O homem nos guiou até um consultório grande e luxuoso, Todo decorado com móveis de madeira polida.

— Qual a sua formação Srta. Gomez? — perguntou o doutor assim que nos acomodamos em seu consultório.

— Psicologia — respondeu Kelly abrindo seu sorriso de orgulho.

Percebi que os dois estavam tentando aliviar a tensão. Respirei fundo. Daniel estava bem, eu não precisava ficar nervosa.

A porta do consultório se abriu e um jovem entrou trazendo uma bandeja com três xícaras, uma chaleira e uma jarra de água. Não sei quando o doutor tinha pedido aquilo, mas não importava. O jovem colocou a bandeja sobre uma pequena mesa no canto da sala e saiu.

— Sei que está ansiosa por informações, Srta. Linda, mas percebi que sua mão estava fria e trêmula, então pensei que talvez fosse melhor que a senhorita tomasse um gole de água. Afinal, como já informei, Daniel não está mais em perigo.

Mais uma vez respirei fundo e fui até a mesa para pegar um copo de água. Depois voltei a me sentar.

— Bem melhor, não? — falou o médico sorrindo — Continuando. Não sei até onde você foi informada, mas Daniel bateu o carro depois de invadir a pista do sentido oposto. Aparentemente ele jogou o carro contra a mureta para evitar uma colisão com outro carro. Foi feito um exame toxicológico, para saber que Daniel estava sobre efeito de álcool ou outras drogas na hora do acidente, mas tirando o alto nível de nicotina, nada foi encontrado, o que torna as causas do acidente desconhecida. — Estava pregada em cada palavra que saída da boca do doutor, mas nada daquilo me importava. — Bem, como já disse antes, Daniel não está mais em perigo de vida. Ele sofreu alguns cortes e esfoliações por todo o corpo, bateu a cabeça com força e ficou com um pequeno coagulo no Lóbulo Temporal, não é nada grave. Talvez ele não lembre do que aconteceu na hora do acidente e no dia anterior, mas fora isso sua memória continuará perfeita.

— Isso é tudo? Então logo ele poderá ir embora, não é? — perguntei esperançosa sabendo que Daniel não iria querer ficar muito tempo no hospital.

O Dr. Andrade pareceu um pouco apreensivo, mas eu não pude ter certeza, pois ele disfarçava bem.

— Quanto a alta de Daniel, entenda, o corpo de Daniel absorveu um grande impacto, o que significa que boa parte de seus músculos e tendões estão inchados e doloridos, ele tem sido mantido sedado para não sentir isso. Mas o grande problema está em sua perna esquerda que foi quebrada em diversas. Um dos ligamentos do joelho rompeu, Daniel passou por uma longa cirurgia para a correção do problema e alguns pinos foram colocados, mas ainda assim ele terá que usar um bengala pelo resto da vida. E bem conhecendo Daniel, sei que ele não vai ficar satisfeito com a notícia.

— O senhor já conhecia Daniel? — perguntei pois aquela era a informação mais fácil de processar no momento.

— Sim conheço. Cuido da família Aguilar desde o início da minha carreira.

— Daniel não vai gostar nenhum pouco de saber sobre a bengala.

— Acredito que não.

— Talvez ele precise de acompanhamento psicológico para superar esse trauma — ironizou Kelly.

— Daniel precisa de acompanhamento psicológico por uma série de fatores — falou o Dr. Andrade sério — Minha formação não permite diagnosticá—lo nesse campo, mas acredito que Daniel tenha TOC e sofra de algum tipo de transtorno emocional.

— E por que o senhor acha isso? — perguntou Kelly assumindo o seu ar profissional.

— Basta ver a notável mudança em seu comportamento depois da morte do pai.

— Pode esclarecer melhor isso?

— Infelizmente, Dra. Gomez, a senhora deve saber que não tenho autorização para entrar em detalhes sobre a vida pessoal de meus pacientes. Mas como informação extra—oficial, digamos apenas que Daniel nem sempre foi esse jovem amargo e frio que é hoje. — Kelly assentiu de leve e não comentou — Bom, acho que as senhoras gostariam de ver o Sr. Aguilar agora.

Assim que ele falou levantei em um pulo, fazendo Kelly rir por deixar minha ansiedade tão evidente, lembrei do que eu havia dito para ela naquela manhã… Corei.

O quarto de Daniel era como qualquer outro quarto de hospital. Branco, claro e com um penetrante cheiro de limpeza. Ele estava sozinho no quarto, notei com desaprovação.

— Ele paga uma taxa extra para ter exclusividade no quarto — explicou o médico como se pudesse ler minha mente.

— Imaginei — murmurei torcendo os lábios.

Ver Daniel dormindo era fascinante. Seu rosto sereno deixava clara sua real idade e suas preocupações pareciam a quilômetros de distância.

Puxei uma cadeira para perto da cama dele e sentei.

— Vou ligar para Júlia — falou Kelly ainda da porta. Sorri culpada para ela.

— Obrigada — murmurei me recriminando por ter esquecido disso.

Kelly sorriu para mim e saiu junto com o médico. Aproveitando que estava sozinha com Daniel, peguei sua mão entre as minhas e apoiei minha cabeça na cama..

— Se você sair bem dessa, te falo a verdade — prometi beijando os nós de seus dedos, acabei ficando alí até que por fim adormeci.

Escutei uma voz gentil me chamar ao longe e pude sentir uma mão em minhas costas. Abri os olhos e pisquei algumas vezes por causa da luz forte. Senti uma leve dor no pescoço.

Olhei ao redor tentando me situar e vi Júlia me encarando com um sorriso tímido. Tudo voltou como um turbilhão. Percebi que ainda estava segurando a mão de Daniel e a soltei rápido enquanto corava.

— Desculpe… ahn— falei tentando, desesperadamente, encontrar algo para dizer.

— Tudo bem. Não precisa de desculpar. Na verdade pelo que você está se desculpando mesmo? — falou Júlia. Corei ainda mais.

Notei que os olhos de Júlia estavam inchados.

— Quando Kelly me ligou, eu já estava em Angra. Ela disse que ele estava bem, mas mesmo assim vim chorando de lá até chegar aqui e o médico me explicar tudo.

— Sinto muito por não ter ligado antes, — consegui dizer — eu estava tão nervosa. Sinto muito mesmo.

—Tudo bem. Imagino o que você passou, mas o nosso menino está bem e isso que importa — Júlia sorriu e eu me deixei contagiar pelo sorriso.

“Daniel estava bem. Dormindo, mas bem” repeti isso para mim mesma como um mantra.

Meu telefone tocou me tirando dos meus devaneios.

— Flora — falou alguém do outro lado da linha antes mesmo do meu “alô”.

— Sim? — falei em dúvida.

— É a Patrícia, estou ligando para o Daniel hà horas! Onde ele está? Onde você está? Estamos um problema sério na empresa! — falou ela num só fôlego.

Coloquei a mão sobre o bocal e murmurei um “licença” para Júlia antes de sair do quarto.

— Patrícia, não é uma boa hora — falei assim que cheguei ao corredor.

— Sinto muito, Flora, mas estamos mesmo com um problema sério — ela falou.

— O que houve? — perguntei me preocupando com seu tom de voz

—Lembra daqueles desvios financeiros que você descobriu há alguns meses?

— Sim — confirmei, eu mesmo tinha assinado a demissão de todos os contadores por causa daquilo.

— Você lembra de ter me pedido para analisar as contas da empresa do último ano? Então, eu fiz isso, passei um pente fino em tudo e o que eu descobri não é nada bom.

Depois de mais de duas horas conversando com Patrícia, consegui ajudá-la a resolver parte dos problemas da empresa, mas ainda teríamos muito trabalho para colocar a empresa nos eixos. Não falei sobre o acidente de Daniel, apenas disse que ele estava com um problema pessoal e por isso se ausentaria da empresa por um tempo e eu o ajudaria. Por isso só prestaria assistência remota a Patrícia. Senti que ela ficou curiosa, mas como boa profissional que era, não fez qualquer comentário.

Voltei para o quarto e entrei sem bater, esperava encontrar Júlia velando Daniel, mas ao invés disso vi uma enfermeira fazendo a limpeza de Daniel. Quase peguei fogo de tanta vergonha com a visão de Daniel seminu.

A enfermeira, uma mulher que aparentava quarenta e poucos anos e tinha pele parda, me olhou com cara de poucos amigos.

— Já disse que não é permitido permanecer no quarto durante o banho do paciente — ela bronqueou.

— Sinto muito. Não sabia — murmurei tentando ferozmente não olhar na direção de Daniel —Pensei que Júlia estivesse aqui — me justifiquei.

— Ela disse que iria tomar um café — falou a enfermeira parecendo mais calma — eu já estou acabando, se me der licença deixo você entrar em um segundo.

Concordei com um aceno de cabeça, lancei mais um olhar na direção de Daniel e sai.

Ao olhar para Daniel com o corpo descoberto pude ver claramente os pinos em sua perna, mas o que realmente me chamou a atenção foi um pequeno curativo na outra perna dele. Era só um pedaço de gases quase imperceptível se comparado as suas outras esfoliações.

Menos de cinco minutos depois de sair, a enfermeira apareceu no corredor onde eu esperava.

—Pronto mocinha, pode entrar — ela falou visivelmente mais simpática.

— O que foi aquele machucado na outra perna dele? — disparei sem pensar.

— Uma pequena queimadura. Poder ter sido causada por algum fio do circuito elétrico. Não é nada grave.

— Obrigada — murmurei antes de entrar no quarto novamente, sabendo muito bem que a queimadura não foi causada por qualquer problema elétrico.

O ser humano pode ser extremamente mal quando quer machucar alguém, mas uma das piores torturas que existe não foi inventada pelo homem. O tempo pode ser tanto um grande inimigo quanto um terrível aliado.

Afinal a grande duvida que atormenta 99,9% da população mundial é “quanto tempo...?” por exemplo “quanto tempo posso passar com quem gosto?” “quanto tempo vou demorar para rever alguém?”, “quanto tempo ainda me resta?” e etc. Percebi isso nos dias que se passaram enquanto eu esperava Daniel acordar.

O médico sempre enfatizava que ele estava bem e que só estava “apagado” por causa dos analgésicos. Mas isso não conseguiu a aplacar minha ansiedade em vê-lo desperto.

Júlia alugou um quarto num hotel próximo ao hospital alegando que eu “não podia passar o dia inteiro naquele lugar triste”. No começo relutei em aceitar o quarto, não queria sair de perto do Dan, mas acabei vencida pelo extremo cansaço, que me impediu de continuar dormindo numa cadeira.

Kelly me ligava várias vezes por dia para saber “como iam as coisas”, Patrícia também ligava com bastante frequência graças a crise que a empresa estava enfrentando. Acabei tendo que contar a ela sobre o acidente para convencê-la a parar de ligar para o telefone de Daniel e resolver tudo comigo.

Mas mesmo com tudo isso acontecendo, os dias pareciam longos, lentos demais, tediosos demais.

Quando, ao final do terceiro dia, o médico finalmente disse que era provável que Daniel acordasse dali a algumas horas, senti como se uma tonelada tivesse sido tirada das minhas costas.

Fiquei algumas horas no quarto com Júlia, nós não falávamos nada, apenas esperávamos os efeitos dos remédios passarem e Daniel finalmente despertar.

— Ele vai ficar furioso quando descobri sobre a perna — falou Júlia quebrando o silêncio.

— Não ficarei surpresa se ele decidir processar toda a equipe cirúrgica — falei rindo baixo.

— Acorda logo, bocó — pediu Júlia bem baixinho apertando a mão de Dan. Ela estava sentada em uma cadeira ao lado da cama e eu estava mais afastada, próxima a parede com o tablet em mão trocando e-mails com Patrícia.

Eu tinha avisado a ela que Daniel não podia saber dos problemas da empresa até ele estar totalmente recuperado. Ela tinha concordado e para ganrantir eu havia entrado em seu e-mail e apagados as informaçoes sobre os problemas dos ultimos dias.

Estava vendo a tabela de gastos e acabe me distraindo. Só notei que Daniel tinha acordado quando o ouvi falando o nome de Júlia, ele parecia grogue, sua voz estava rouca e pastosa pela falta de uso...

***

Olhei a minha volta e vi que estava em um quarto de hospital, alguns aparelhos mediam meus batimentos cardíacos e um soro pingava lentamente ao meu lado.

Olhei novamente, Flora estava com uma aparência bastante ruim e isso fez eu me perguntar por que ela estava ali.

Sentia muita dor pelo corpo todo, mas a dor da perna esquerda realmente superava a dor de todas as outras partes. Sentia me drogado e tudo ainda girava.

Durante um tempo fui me lembrando do que tinha acontecido, quanto mais eu forçava mais minha cabeça latejava e nesse ritmo eu apaguei novamente.

Acordei algum tempo depois e vi num piscar de olhos que Júlia estava lá e parecia estar chorando enquanto segurava minha mão.

—Júlia? — chamei.

— Daniel, — disse em espanto aos soluços — Flora o Daniel acordou, ele acordou!

— Onde estou, que aconteceu? – perguntei meio tonto ainda.

— Você sofreu um sério acidente, Daniel, não faça esforços, o Doutor já está vindo.

—Sr Aguilar, que bom que está bem, eu tive tanto medo de… o senhor sabe! — Ouvi a voz de Flora mas não consegui olhar seu rosto com clareza o que me deixou incomodado.

— Flora, o que faz aqui? — perguntei.

— Estou cuidando do senhor, fui a primeira a chegar graças ao numero que coloquei em sua agenda, infelizmente seu celular e carro foram totalmente destruídos.

— Não precisa mais se incomodar, pode ir para sua casa. — disse tentando me levantar.

— Daniel, não se levante ainda! — falou Júlia me empurrando contra a cama — Você ainda está muito machucado e sua perna…— ela travou e por um momento tive receio — Bom vai ficar boa mas você passou por uma cirurgia e está com alguns pinos.

— Sim, o senhor precisa descansar ao máximo para ficar bom logo — falou Flora rapidamente.

— Daniel, Flora está aqui cuidando de você há quase quatro dias, e a toda hora fica resolvendo problemas da empresa via telefone, a garota quase não descansa! —Júlia parecia preocupada.

— Não é nada, Srta. Júlia, apenas estou fazendo meu trabalho e eu estou bem.

De repente ouvi aporta se abrir e vi que alguém entrara no quarto.

— Daniel, como se sente? — perguntou a voz que tive que forçar para reconhecer —Lembra de mim, eu sou o Dr. Andrade, cuidei de seu falecido pai até seu óbito.

— Ah sim, estou feliz em saber que o senhor está cuidando de mim Doutor.— disse apenas por cortesia — Mas diga—me já posso ter alta?

— Daniel, você sofreu um grave acidente, além de escoriações por todo o corpo, você também sofreu uma forte pancada no lóbulo temporal e isso parece ter prejudicado um pouco sua memória do acontecido. — disse o médico — E também sua perna foi quebrada em algumas partes, tivemos que operar. Colocamos alguns pinos, voltará a andar dentro de dois meses, porém — o médico fez uma pausa — devido ao rompimento de um dos nervos no joelho, o senhor terá que usar uma bengala para o resto da vida.