Ensina-me a respirar

4 Capitulo 3 A proposta de um velho sábio


Mais alguns dias se passaram numa velocidade incrível, tivemos tantas reuniões e projetos que às vezes chegava até a ser confuso, Flora porém era muito bem organizada e facilitou minha vida ao máximo.

Como de costume, estávamos na hora do almoço no De la Mansion, um restaurante com uma ótima comida e bastante chamativo pelo seu alto nível de higiene, Flora estava com seu Ipad aberto olhando alguma coisa e eu estava comento lagosta e frutos do mar.

— Senhor Aguilar, desculpe lhe atrapalhar mas devo adiar a reunião das quinze horas com o Dr. Charles das joalherias Tiffany Brasil?

Respirei por um momento calculando mentalmente meus afazeres — Acho melhor colocarmos para as dezesseis horas. — falei.

— Acho um ótimo horário senhor — falou Flora sorrindo.

Reparei que todas as vezes que eu almoçava Flora apenas ficava olhando ou mexendo no Ipad, pensando bem eu nunca à tinha visto comendo perto de mim.

— Senhorita Linda, já que temos tempo por que não pede algo para comer? — fique a vontade, é por minha conta. — disse lhe dando o menu.

Ela me analisou por um tempo e pensando bem acho que nessa hora ela achou que fosse algum tipo de pegadinha.

Tudo bem, — disse para ela — não fique acanhada, geralmente eu só como com Júlia, mas como ela está atolada de projetos faz um bom tempo que não almoço ou janto com alguém, mas não quero que se sinta desconfortável.

— Não senhor, de maneira nenhuma — disse ela rápido demais — só que não esperava por esse convite.

Flora pegou o menu que eu havia lhe entregue e começou a folhear, por fim fez um sinal ao garçom que rapidamente veio em seu auxilio.

— O que deseja, Madame? — Perguntou ele a olhando com seu pequeno caderno.

— Eu acho que vou querer esse cozido de brócolis ao molho de milho com uma porção de arroz e soja. — disse com toda a simplicidade possível.

Rapidamente o garçom anotou seu pedido e saiu, alguns minutos depois ele voltou trazendo o pedido dela.

— Nossa, como sua comida é... — dei uma pausa procurando as palavras certas — verde.

— Isso é porque sou vegetariana senhor — ela sorria — como eu disse antes, sou budista e não como nada que não tenha saído da terra.

Era estranho, não me lembro de ouvi-la dizer ser Budista, porém apenas confirmei com a cabeça.

— Quer dizer que não come carne? — Sinceramente era inacreditável para mim existir alguém que não comesse carne.

Flora riu da minha expressão e mexeu em seus cabelos, colocando os para trás de sua orelha. Eu gostava quando ela fazia isso, apenas não gostava de gostar.

— Sim, eu não como nenhum tipo de carne, Sr. Aguilar.

— Bom, eu gosto bastante — falei pegando um pedaço da lagosta e comendo devagar.

Observei que ela me olhava de uma forma diferente, mas rapidamente quando eu a olhava, ela desviava o olhar.

— Sr. Aguilar, posso tratar de um assunto importante com o senhor agora? — ela parecia meio receosa com sua pergunta — Claro, se isso não for lhe incomodar.

— Pode falar, Srta. Linda, algum problema? — perguntei curioso.

— Bom, eu passei essa última semana analisando toda a parte financeira da empresa e percebi alguns erros, — nesse momento ela deixou seu prato de lado e começou a procurar por algo no seu Ipad — olhe esses gráficos que eu fiz há pouco. — disse me entregando o aparelho com uma planilha bastante detalhada aberta.

Olhei toda a planilha minuciosamente e percebi onde ela queria chegar, algum dados de contas estavam superfaturadas de forma crescente nos últimos seis meses.

— Isso está correto mesmo? — a questionei sério — Porque se estiver mesmo correto, teremos muita dor de cabeça hoje.

— Bom, eu analisei três vezes e refiz os cálculos mais algumas, devo admitir que no começo achava que estava errada mas agora eu tenho total certeza de que isto está mesmo correto, senhor.

Meus olhos iam da planilha para ela, como essa mulher poderia ter chegado a esta conclusão, era o que eu me perguntava. Olhei mais uma vez e realmente não tinha mais dúvidas, eu estava sendo roubado.

— Temos que olhar isso afinco, abra uma auditoria junto a Srta. França e quero que as duas tirem essa história a limpo, se for mesmo isso, quero que demita o contador no ato.

— Tudo bem, senhor Aguilar, como quiser — disse ela com um pouco de pesar na voz.

— Flora, enquanto isso quero que você assuma a contabilidade. — respirei antes de dizer — não confio em mais ninguém para essa função.

Flora me olhou meio incrédula, não sei se por causa do elogio que a fiz ou por eu ter dado mais trabalho a ela. Se eu fosse hoje analisar essa situação diria que as duas coisas.

— Bom, vamos andando, o Tio Albert detesta atrasos e como ele não lhe conhece ainda te fará mil perguntas. — falei já levantando.

— Sim, senhor Aguilar, irei pedir ao motorista para estacionar na porta do restaurante imediatamente.

Como de costume observei que Flora enviava uma mensagem avisando de nossa saída ao motorista. Ainda estava meio chocado com tudo que Flora me disse no almoço, eu tinha os melhores contadores do Estado e os pagava muito bem.

Se tinha uma coisa que me irritava profundamente era roubo na minha empresa e, se dependesse de mim, eles pagariam muito caro por esse erro.

Após a saída do restaurante, fomos direto para o bairro de Ipanema onde o Tio Albert nos aguardava.

Ele era um homem gentil e de muita idade, trabalhava no ramo bem antes do meu pai e tínhamos boas relações comerciais e pessoais.

Seus cabelos iam somente até a metade da cabeça e sua coluna era bastante curvada, seus óculos de lentes grossas lhe davam mais idade, possuía também um ar de paciência e sabedoria e quase sempre estava com sua secretaria de igual idade, exceto hoje.

— Tio Albert, como vai o senhor? — Perguntei cordialmente — Onde está a Tia Vera, doente?

— Meu filho, a idade não a permite mais esforços, então resolveu se aposentar depois de grandes serviços prestados a empresa. — falou com uma voz de saudade e nostalgia.

— Bom, agora o senhor pode me falar, — dei uma risada de leve — o senhor tinha um caso com ela não é?

— Pequeno Daniel, assuntos confidenciais não podem ser revelados ao público. — falou rindo do próprio comentário.

— Sei, Tio, entendo. Bom, então vamos falar de negócios?

Ele olhou em volta e apertou os olhos para ver Flora que o olhava com simpatia.

— Quem é essa jovem bonita, pequeno Daniel? — perguntou o tio a olhando fixamente.

— Essa é minha mais nova secretária, Tio — respondi olhando para Flora — já está comigo a pouco mais de um mês.

— Nossa, Daniel, acho que esse é um novo recorde meu filho. — disse ele rindo e pegando a mão de Flora para beijar.

— Muito prazer, pode me chamar de Tio Albert mesmo, minha querida, qual é sua graça? — perguntou cordialmente.

— Meu nome é Flora Linda senhor. Como o senhor Aguilar disse estou atuando de secretária particular. — falou ela rindo timidamente para o Tio Albert.

— Bom, Tio, podemos falar de negócios agora? — perguntei cortando das formalidades com Flora.

— Como sempre correndo antes mesmo de andar, não é, pequeno Daniel? Parece que estou velho demais para esse seu ritmo, — falou pegando seu charuto — Bom, quando tiver a minha idade verá que deveria ter perdido menos tempo com negócios. Não é, minha pequena jovem? — falou olhando para flora.

— Palavras sábias, Sr. Albert — disse ela rindo para o idoso.

— Está bem, seguirei seu conselho Tio, mas nesse momento preciso saber sobre a nova mina de ouro que encontrou. — falei às pressas para interromper a melação dos dois. — Eu quero exclusividade nas vendas das pepitas mais puras que o senhor encontrar e claro, um bom preço.

— Não posso lhe oferecer exclusividade, Daniel, visando que outras empresas de grande porte me fizeram boas ofertas. — disse ao dar uma tragada no charuto — O que tem a me oferecer pela exclusividade?

Flora se levantou e foi até o quadro projetor onde começou a mostrar alguns gráficos.

— Senhor, se me permite dizer, estes são os gráficos de suas minas espalhadas pelo país. Se olhar com atenção, poderá perceber que até quando elas estiveram em baixa, mantivemos e honramos os contratos enquanto as outras empresas o deixaram e foram procurar outros fornecedores. — explicou flora com bastante segurança como se ela tivesse estudado isso por bastante tempo — Por isso acho que para o senhor é interessante manter essa parceria conosco.

Olhei para Flora e capitei imediatamente onde ela queria chegar, ela realmente estava fazendo uma ótima estratégia com base em bons argumentos.

— É isso, Tio Albert, acho que o senhor iria gostar que mantivéssemos todos os contratos de pé, não estou certo? — falei dando o xeque-mate — Então, qual é sua resposta?

Ele olhava para Flora com cautela e admiração e depois olhou para mim.

— Está bem, jovem Daniel, lhe darei exclusividade nas vendas e manterei o valor, porém para isso acontecer gostaria de fazer uma oferta à menina Flora. — olhou diretamente para ela ao dizer isso.

— Srta. Linda, como disse no começo da reunião, minha secretária se aposentou e necessito de alguém assim como você. — olhou para mim por um momento, tentei ficar com indiferença mais sabia que ela aceitaria a proposta na hora caso ele o fizesse. — Não me leve a mal, jovem Daniel, mas sua rotatividade de secretárias é enorme e sei que a Srta. Linda terá ótimas chances trabalhando comigo, por este motivo eu lhe ofereço cinquenta por cento a mais do que você a paga, claro se assim for da vontade dela.

Flora olhava para mim e eu procurei mesmo mostrar indiferença, ela deu uma respirada seguida de um sorrido e foi onde eu tive a certeza de sua partida.

— Muito obrigada pela oferta Sr. Albert, mas estou feliz com o meu trabalho e também não seria justo eu abandonar o Sr. Daniel diante de tantas coisas a serem feitas. — falou sorrindo para mim.

O velho a olhou e logo em seguida olhou para mim com um sorriso.

— Você tem uma pessoa muito leal ao seu lado, Daniel, espero que a trate muito bem e com bastante respeito.

Ainda estava pasmo, como assim ela recusou uma oportunidade dessa?

De uma coisa eu tinha ciência, todas as pessoas que trabalhavam para mim apenas estavam interessadas no valor alto que pago a elas, então por que ela recusou, realmente ela teria ótimas oportunidades e também boa flexibilidade de horário.

Isso ficou matutando na minha cabeça por todo aquele pequeno momento.

— Você realmente é um homem de sorte! — disse o Tio Albert me retirando dos pensamentos — só espero que tenha noção disso, jovem Daniel. No meu tempo, eu era igual a você, todo atarefado e somente pensava em números e lucros. Hoje me tornei um velho cheio de arrependimentos e só espero que não acabe assim como eu.

— Obrigado pelo ótimo negócio, Tio Albert, e agradeço os conselhos, mas devo dizer que tenho um custo de vida muito caro para me dar ao luxo de respirar, ou agradar a todos como o senhor faz. Entenda, seu império já está feito enquanto eu vivo às sombras do império de meu falecido pai. Tenho a responsabilidade de fazer com que ele cresça sempre mais e mais para que quando chegar à sua idade, talvez possa também ter tempo para ser simpático e divertido. — disse assinando os contratos que Flora me passava — Espero que fique bem, gosto de verdade do senhor, mas acho que sou grande o suficiente para saber o que é bom para mim.

— Tudo bem, pequeno Daniel, espero que um dia possa entender o que eu digo do jeito que essa adorável jovem parece entender. — disse ele esmagando o charuto no cinzeiro e se levantando — Realmente foi um prazer lhe ver!

— Digo o mesmo, Tio — falei apertando sua mão — E obrigado por tudo!

Após os cumprimentos, Flora e eu descemos para voltar a empresa, ela de alguma forma parecia feliz, mas eu ainda não entendia o motivo de sua recusa. Pensei que talvez ela estivesse pensando ser algum tipo de armação para testar sua lealdade a mim.

— Isso, deve ser isso mesmo — pensei alto demais.

— Disse algo senhor? — perguntou Flora curiosa.

— Nada demais, Srta. Linda.