Ensina-me a respirar
3 Capitulo 2 Paciência tem limite
Flora já estava trabalhando comigo há algumas semanas, devo admitir que nunca conheci alguém tão eficiente e organizada. Logo pela manhã, ela me esperava com uma boa xícara de café e ficava quieta por meia hora, só depois do cigarro vinha com alguns documentos e memorandos. Apesar de tudo isso, eu tinha uma louca vontade de demití-la por conta de seu comportamento extremamente primitivo e alegre.
Quando cheguei ao escritório, a vi em sua sala. Pude observa-la pois as paredes de sua sala eram feitas de vidro.
Flora usava um blazer vinho e salto alto, seus cabelos como de costume estavam soltos e notei uma leve maquiagem tímida em sua face.
Por um momento ela percebeu que eu a olhei e sorriu carinhosamente para mim, se levantou em direção a copa e logo depois retornou com meu café matinal.
— Bom dia, Senhor Aguilar, seu café! — Disse sorrindo e me entregando a xícara que saía uma fumaça com um aroma bem atraente.
Sentei-me a mesa e comecei a ler alguns e-mails, foi então que percebi algo errado, algo que me deixou extremamente incomodado. Sobre a mesa, no canto esquerdo, tinha uma pequena árvore de Bonsai, totalmente distorcida e perturbadoramente desalinhada com ela mesma.
— O que essa planta faz em minha mesa? — Perguntei alterando a voz.
Flora que havia se assustado, olhou para a planta e abriu um sorriso se aproximando novamente e fazendo leves carinhos na planta se pôs a dizer.
— Isso é um Bonsai, um presente para alegrar seu ambiente. Eu sou paisagista e fiz pra o senhor, gostou?
— Srta. Linda, quando for trazer algo para o escritório, por favor me comunique antes, principalmente ao que se refere a minha mesa. — falei evitando olhar para a seu rosto que ia murchando aos poucos.
— Mas, eu só queria...
— Pode sair senhorita Linda. — Falei interrompendo-a.
Mas que abusada era essa garota, quem ela achava que poderia ser? Odeio plantas e não suporto natureza, nem animais peçonhentos que só sabem sujar tudo. Meu dia começara ruim.
Logo que ela saiu, não demorou muito tempo para me livrar da planta, catei—a de cima da mesa e atirei pela rampa de lixo. Devo admitir que estava aliviado de ter tirado aquele negócio de cima da minha mesa e tive a certeza que ela iria entender o recado.
Algum tempo depois, Linda voltou do almoço e olhou diretamente para a mesa dando falta da planta, parecia que iria me perguntar algo, mas desistiu repentinamente. Ela se aproximou deixando algumas folhas sobre a mesa e se retirou para sua sala. Olhei todo aquele processo esperando que ela dissesse algo, mas simplesmente durante todo o dia ela agiu como se nada tivesse acontecido.
À tarde, depois do almoço, estava lidando com alguns contratos quando percebi que Flora se aproximava.
— Desculpe-me, Sr. Aguilar mas, estou com o Vice-Presidente da Cominato na linha, ele pede sua atenção e disse que é de grande urgência. — Falou apertando o telefone contra o seio.
— Pode passar a ligação para minha mesa e me traga o relatório da Cominato com os dados do mês passado. — Disse colocando alguns papeis de lado e me organizando para a ligação.
Após dizer isso, rapidamente ela passou a ligação e eu atendi dando um suspiro antes.
— Henrique, quanto tempo, meu amigo? — Falei levantando um sorriso apenas para melhorar o tom de voz.
— Boa tarde, Daniel, estou precisando resolver um assunto com você, amigo. — falou Henrique com pesar. — Sinto informar que nossa remessa de cristais finos não irá chegar esse mês, tivemos um aumento nas vendas e não vamos conseguir atender suas necessidades.
Fiquei furioso, já estava tudo pronto esperando aquela remessa para o lançamento das novas joias e no fim do segundo tempo ele me diz que não irá chegar!
— Henrique, você não pode fazer isso comigo. — exclamei em alto. — Tenho milhões de dólares presos esperando esses cristais.
— Sinto muito Daniel, mas essa é minha posição final!
Discuti feio com Henrique por quase uma hora, o que me garantiu três coisas: Uma chata dor de cabeça, menos uma carteira de cigarros e um extenso uso do meu acervo de palavrões.
Terminei a ligação batendo forte o telefone no gancho, se tinha uma coisa que eu odiava era um mau planejamento e falta de comprometimento. Logo que desliguei Flora se aproximou com certa cautela como se eu fosse um bicho faminto pronto para ataca-la.
— Desculpe, Senhor Aguilar, não pude deixar de ouvir sua discussão e tenho algo importante a dizer se me permite.
A olhei com cautela, não sabia o que essa hippie maluca iria dizer, mas meus instintos diziam para escutar a moça e foi o que eu fiz.
— Claro, Srta. Linda, pode falar. — disse acendendo outro cigarro e me dando conta que só me restara mais um.
— Senhor, há uma semana que estou cotando os valores de algumas companhias em crescimento aqui no Brasil. — disse-me mostrando alguns gráfico que até estavam bem interessantes. — São empresas pequenas, mas todas elas garantem o preço e a entrega que cabem dentro de nosso prazo. Fazendo isso além de ajuda-las, lucramos 6,2% a mais em cima do material.
Analisei tudo o que ela estava me mostrando e, por mais que não quisesse dar o braço a torcer, realmente ela estava correta.
— Vamos fazer assim, mas se algo der errado, a culpa será sua e estará demitida, tudo bem, Srta. Linda? — disse encarando-a para ver sua reação.
— Como quiser Dan, quero dizer, Sr. Aguilar! — falou ela um pouco desorientada enquanto eu franzia a sobrancelha e a olhava freneticamente por conta de sua petulância.
Como isso era possível? Ela simplesmente criou uma intimidade imaginária, pensei. Quem ela acha que é para me chamar dessa forma, algum parente? Fiquei furioso e resolvi que talvez eu estivesse dando muita brecha para meus empregados.
— Srta. Linda, quero o relatório anual da Diamonds Interprise, revisado e atualizado para a reunião de agora à tarde e também mande o restaurante reservar meu prato de frutos do mar. Ah, leve meu carro a revisão, vou sair com ele hoje e não quero problemas.
Ela me encarou por um tempo e pareceu que iria dizer algo, mas como de costume se virou e correu para sua sala meia desengonçada.
Aquela foi uma semana muito puxada, tivemos inúmeras reuniões e quase sempre dormirmos na empresa.
Era sexta-feira, pelo que me lembro, eram quase três da manhã e só estavam ali Flora e eu. Ambos estávamos cansados e no limite do estresse. Até Flora que possuía uma face calma e serena, era notável que também já estava no limite para explodir a qualquer momento.
— Srta. Linda, mande o e-mail para o financeiro e passe os custos dos novos fornecedores. — falei acendendo um cigarro. — Precisamos terminar isso antes das cinco horas porque temos que dar a resposta para o Sr. Takinawa em Tóquio.
— Senhor, posso dizer uma coisa? — disse ela cautelosa — Por que o senhor fica fumando sem parar, não sabe que isso faz mal à sua saúde?
Eu a olhei fixamente e ela desviou o olhar, mas ainda assim ficou esperando uma resposta.
— Meu cigarro lhe incomoda, Srta. Linda? — perguntei a fitando.
— Não é uma questão de me incomodar, Sr. Aguilar, mas eu temo pela sua saúde. — disse balançando a caneta. — O senhor é tão jovem e quase não o vejo se divertindo, e só achei que… sabe, o senhor poderia de repente diminuir um pouco com o cigarro, para o seu bem.
— Srta. Linda, eu gosto do meu cigarro e não pretendo diminuir em nada, eu sei o que estou fazendo e você sabe muito bem que não gosto que misture o nosso profissional com o pessoal, nós não somos amigos e muito menos íntimos para se dirigir a mim dessa forma. Então, se não pode respeitar isso, não serve para trabalhar comigo.
Minha resposta a atingiu em cheio, ela olhou um minuto para a porta e em seguida olhou para mim, parecia que estava caçando um lugar para se esconder ou correr, pude notar seus olhos cheios de lágrimas e seus lábios estremecerem.
— Sr. Aguilar, me desculpe, me desculpe mesmo, mas eu acho que o senhor não precisava falar assim, afinal eu só estava preocupada com seu bem estar.
Por que o senhor insiste em tratar todos dessa forma? Eu só estava querendo ajudar! — Ao que terminou de falar, começou a chorar abraçando os seios, tentando não me olhar diretamente.
Olhei para ela e por um momento fiquei vendo seu rosto sem esboçar nenhuma reação. Percebi que ela realmente estava chateada com o que disse e parecia que eu a tinha apunhalado com uma espada. Seus olhos me chamaram a atenção mais do que tudo, porque pude ver muita sinceridade e inocência neles, coisas que não estava acostumado a ver no meu mundo caótico.
— Está bem, pare de chorar que desse jeito irá inundar o prédio inteiro. — disse apagando o cigarro. — Vamos fazer assim, eu diminuo no cigarro e você não fala mais nisso, tudo bem?
Ela abriu os olhos, parecia não acreditar no que eu havia dito e rapidamente secou as lágrimas, deu um leve sorriso. Devo admitir, era um belo sorriso.
— Tudo bem, Senhor, prometo não chorar mais feito uma boba, é porque eu, sabe… me preocupo com o senhor, afinal se cair doente, terei que adiar inúmeras reuniões e teremos prejuízo na empresa. — falou ajeitando o cabelo meio sem jeito e rindo de canto de boca.
— Bom, Srta. Linda, vamos voltar ao trabalho que eu pretendo dormir ainda hoje. — disse mudando de assunto rapidamente.
Demoramos mais uma hora no escritório, Flora ficou até o último momento ajeitando comigo algumas pendências e logo quando eu saí, ela se despediu e pediu para o motorista da empresa a levar para sua casa.
Peguei meu carro no estacionamento e comecei a dirigir para minha casa. A madrugada estava bem quieta e tranquila, soltei um sorriso de leve e quando vi estava pensando no que Flora havia dito. O jeito com que ela mexia com o cabelo e como ela tentava não olhar. Balancei a cabeça e neguei o pensamento, deveria tomar cuidado com aquela garota.
Logo quando cheguei em casa, Júlia estava na sala vendo algum programa de vida animal e com uma cerveja em mãos. Ela me olhou, sorriu e me atirou uma das latas que estavam no seu pequeno barril de gelo.
— Senta, Daniel. — disse com simplicidade.
— Desculpe, Júlia, mas estou morto. Eu e Flora ficamos todos esses dias até tarde trabalhando, minha cabeça parece que vai explodir.
— Para de ser chato, só uma cerveja vai? — dela fazia uma “cara de pidona” me puxando para o sofá.
Júlia estava de pijama, como sempre bem sensual. Ela me puxou para junto dela e passou seus braços pelas minhas costas.
— Vamos, Daniel, me conte mais de você e Flora a sós no escritório. — disse rindo levemente e olhando ainda para o programa.
— O que você quer dizer, afinal ela é só uma empregada que devo dizer, prestes a ser demitida.
— Se é só uma empregada e te dá tanta dor de cabeça porque não faz como de costume e a demite logo de vez? — disse Júlia com ironia olhando para mim.
— Muito simples, Júlia, ela apesar de tudo é bem organizada e isso tem facilitado demais no meu dia a dia. — falei abrindo um grande bocejo. — Bom, irei dormir agora, amanhã tenho um dia cheio e com longas reuniões.
Levantei-me e segui em direção ao meu quarto, onde tirei a roupa e tomei um longo banho relaxante.
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