Ensina-me a respirar
12 Capitulo 11 A consulta com Kelly
Assim que cheguei em casa, fui direto tomar um banho, Flora já não precisava mais me ajudar e confesso que meus banhos ficaram mais chatos.
Coloquei uma camiseta bem solta e uma bermuda larga de elástico. Fazia muito calor em Angra nessa época, então tínhamos que ficar mais à vontade mesmo a casa tendo um ar condicionado central.
Deitei um pouco para esperar a hora do jantar e relaxar, minha perna estava queimando devido ao esforço do dia e sentia uma vontade incontrolável de fumar, comecei então a pensar em coisas aleatórias para ignorar esses sintomas.
Não demorou muito para eu começar a suar e sentir com falta de ar, nunca tinha ficado tanto tempo sem fumar desde que comecei, logo após a morte de meu pai. Só me restava fazer uma coisa para não quebrar minha promessa.
Peguei o telefone e liguei para a cozinha.
— Pois não, Sr Aguilar, o que deseja? — Disse a empregada ao atender.
— Preciso de café, agora! — gritei meio alterado desligando o telefone antes mesmo dela me dizer a resposta.
Não demorou muito e ela entrou no quarto com uma xícara de café, peguei sem cerimônias e praticamente engoli mesmo estando quente demais. Sentia-me muito melhor e a vontade do cigarro diminuiu um pouco, mas ainda estava presente.
O resto do meu tempo passei trabalhando no notebook e logo depois fui jantar com Flora, nós tivemos uma pequena discussão sobre algo relacionado a minha consulta com Kelly, só não entrarei em detalhes porque sinceramente não prestei a mínima atenção no que ela dizia e respondia apenas por instinto.
Quando deu aproximadamente vinte e duas horas, eu já estava no quarto pronto para dormir, tinha praticamente esquecido da aposta com Flora quando ela entrou no quarto.
— Daniel? — Chamou-me.
— Estou acordado, pode entrar!
— Como prometido, hoje dormiremos juntos, — disse ela sorrindo. — fiquei muito orgulhosa de você hoje, mostrou que controla seus vícios e que tem uma força de vontade incrível! — Terminou ela se deitando e me abraçando.
— Eu disse a você, não foi? Eu fumo porque quero e não porque sou viciado.
Olhei para Flora e vi que ela usava uma camisola verde mar semitransparente e seus cabelos estavam soltos caídos sob os ombros chegando com suas pontas ao decote do seio.
— Que foi, Daniel? — perguntou ela rindo levemente de canto de boca.
— Nada, só que você está... sabe, linda. — falei a olhando deitada com a cabeça em meu peito.
— Obrigada, essa camisola foi presente de Júlia, antes de voltar ao Rio, ela me deu e disse que eu saberia a hora perfeita de usar! — falou ela corando.
— Bom, ela sempre teve bom gosto para essas coisas — acentuei. — Realmente ficou linda em você!
Olhei para Flora e percebi que ela estava um pouco corada com a situação, passei a mão pelo seu rosto e beijei sua boca de uma forma calma e lenta. Flora retribuiu e entrelaçamos nossos corpos que se atraiam como imãs.
Passei a mão levemente pela sua cintura fazendo carícias em sua lateral. Flora beijava meu pescoço até a altura da minha orelha me fazendo sentir fortes arrepios na espinha.
Aos poucos Flora me ajudou a me despir, calmamente e com muita sensualidade ela retirou a minha blusa, logo em seguida, minha calça deixando apenas a cueca. Minhas mãos navegavam por todo o seu corpo, sua pele era macia assim como seus lábios.
Tendei me inclinar para cima dela mas a perna machucada não deixou.
— Apenas relaxe, Dan, deixa eu cuidar de você! – sussurrou Flora em meu ouvido me fazendo deitar de peito para cima.
Não disse nada, a sensação era incrível, eu estava pronto para explodir de desejo.
Flora montou em cima de mim com cuidado ainda me beijando, toquei as bordas da camisola e comecei a levantá-la vagarosamente até que ela levantou os braços e pude despí-la.
Seu corpo era lindo, passei uma mão em sua cintura e a outra fui descendo do seu pescoço até os seios, eram perfeitos, acariciei-os suavemente como se fossem feitos da mais pura ceda, conforme minha mão deslizava eu sentia a eletricidade passando pela palma de minha mão até a sua pele, enquanto Flora se encaixava suavemente em mim e por fim soltando um gemido tímido. Senti meu corpo esquentar, a sensação era muito boa, estávamos conectados como um único ser. Ela subia e descia, cavalgando em meu corpo enquanto suas unhas rasgavam meu peitoral, com suavidade e conforme nossos corpos iam se esquentando Flora aumentava o ritmo. Meus quadris me ajustavam a seus movimentos, uma hora lentos e outras horas rápidos, com voracidade. A puxei para perto lhe pegando por trás da nuca enrolando minha mão em seus cabelos castanhos colando seu corpo no meu para beijar sua boca, movimentava minha cintura para cima e para baixo mantendo um ritmo médio, porém o prazer era tanto que comecei a ir mais forte e veloz. Flora saltava gemidos em meu ouvido e isso me deixava mais louco que o normal, ficamos nessa posição por mais algum tempo e a chegada do ápice parecia inevitável apesar de tentar me conter.
Minhas pernas tremiam, meu coração estava a mil e nós dois estávamos suados. Senti o coração de Flora bater e mesmo depois do término ela ainda soltava gemidos de prazer em meu ouvido enquanto seus músculos genitais se contraiam comigo ainda dentro.
Tivemos uma noite incrível, eu realmente me sentia muito bem ao lado de Flora e sabia que ela sentia o mesmo, no começo fiquei meio apreensivo por conta da perna machucada, mas Flora soube conduzir a situação, o que me deixou tranquilo depois de um certo tempo.
Ficamos deitados abraçados por mais algum tempo até que Flora entrou num sono profundo com seu rosto em meu peito. Eu apenas a olhava e admirava seu rosto de menina inocente, sentia que queria ficar daquele jeito para sempre com Flora ao meu lado.
Mais alguns meses se passaram, minha reabilitação demorou mais do que eu esperava, porém a companhia de Flora acabou fazendo valer a pena. Flora e eu ficamos muito próximos e quase todas as noites ficávamos juntos. Apesar de me sentir bem ao seu lado, não conseguia esconder meu medo com relação ao nosso sentimento e toda aquela situação. Eu já estava conseguindo andar sozinho, no começo relutei o uso da bengala, mas com o tempo fui me acostumando. Patrícia ás vezes vinha até aqui para fazer algumas reuniões e recolher minha assinatura. No começo tentamos evitar que ela soubesse de nossa relação, porém com o passar do tempo isso ficou notável. Patrícia parecia muito irritada em suas visitas, eu disse a Flora que era por conta do trabalho mas Flora disse que achava que ela nutria algum sentimento por mim, não achei lógica em seu raciocínio.
Estávamos prontos para voltar ao Rio de Janeiro, Flora dirigia o carro e eu analisava a situação da empresa pelo notebook.
— Sabe, Dan, preciso mesmo conversar com você! — disse Flora como se estivesse escolhendo as palavras certas.
— Diga-me Linda, eu juro que estou ouvindo. – falei olhando para o notebook.
Flora parou por um tempo e respirou fundo, soltou um olhar delicado para mim e se pôs a dizer novamente.
— Sabe a minha amiga Kelly, ela está precisando de um favor nosso para concluir sua tese do mestrado. — ela deu uma pausa me olhando e eu me virei para ela a fim de ouvir. — Ela precisa descrever como funciona a mente de pessoas brilhantes e que tem uma vida bastante corrida e bem sucedida nos negócios, então eu pensei se você poderia tirar uma hora do seu dia para se consultar com ela. Kelly me ajudou muito no passado e até hoje cuida de mim, então eu queria retribuir isso de alguma forma!
— Flora, você sabe que temos muita coisa a fazer e que não teremos tempo. — respondi.
— Eu sei, Dan, mas seria legal se você pudesse fazer isso por mim. — insistiu ela.
Respirei fundo e analisei a situação, queria deixar Flora feliz e ela realmente merecia minha ajuda, mas devo admitir que não gostava da ideia de alguém estudando a minha mente.
— Tudo bem, vou uma vez e se de alguma forma eu me sentir coagido ou violado sairei imediatamente!
— Obrigada Dan, você é o melhor! – disse ela sorrindo e por um momento pareceu comemorar algo.
— Tá bom, agora deixa eu focar nisso aqui, okay?
— Sabe, Dan, eu tenho medo de isso tudo acabar assim que voltarmos e você se esquecer de mim. — Flora falou num tom triste quase que se as palavras tivessem saído de uma forma involuntária.
Olhei para ela novamente e vi que estava um pouco receosa pelo que disse, não fez menção em me olhar, simplesmente manteve sua atenção na estrada.
— Sabe, Flora, muita coisa vai mudar daqui pra frente, menos o que temos. Sei que para você Angra é um lugar magico, mas temos que voltar à realidade, isso não quer dizer que irei te afastar de mim, pelo contrário, agora preciso de você ao meu lado mais que nunca.
— Como secretária, né! — disse ela abaixando um pouco a cabeça.
— Não, Flora, você deixou de ser apenas minha secretária á muito tempo, mas eu ainda preciso de você nessa função!
Depois de algum tempo chegamos á casa no Rio de Janeiro. Pedi a Flora para trazer suas coisas pessoais para minha casa que ficaria melhor pra ela, mas Flora se recusou e disse que ficaria com a amiga.
Voltamos á rotina normal, Patrícia me passou todos os relatórios e pudemos voltar com as negociações. Tudo estava uma bagunça, então Flora e eu ficamos muitas vezes até tarde no trabalho, mas por fim conseguimos ajeitar tudo novamente.
Estava em casa no sábado, e aguardava Flora para irmos ao consultório de Kelly, eu realmente não queria fazer isso mas como tinha prometido, iria honrar minha palavra até por que Flora parecia bastante feliz com isso.
Fomos de carro até o bairro de Ipanema, subimos em um condomínio pequeno até o quinto andar onde Kelly nos recebeu.
Kelly trajava uma saia social preta com uma camisa amarela e um blazer feminino azul escuro quase preto. Aquilo me incomodava bastante e não pude deixar de fazer uma cara feia ao analisar suas vestes
— Sejam muito bem vindos, Daniel e Flora. — apertando minha mão e depois beijando o rosto de Flora.
— Kelly, como prometido trouxe o Sr. Aguilar para a consulta, acho que você ficará encantada com ele! — falou beijando a amiga e soltando risos.
— Pode entrar, Daniel, minha sala é naquela porta, poderia me esperar lá para que eu possa conversar com Flora um instante?
— Claro. — disse me dirigindo a sala que estava com a porta entre aberta.
Deixei as duas conversando e fui até a sala de Kelly. Não era muito grande nem extremamente confortável e muito menos simétrica. Podia ver que ela não era uma pessoa muito organizada com suas coisas e também havia um pouco de poeira em alguns móveis. As paredes eram brancas e em alguns cantos possuía um amarelão de umidade, no chão havia um carpete que pegava a sala toda e que parecia nunca ter sido lavado.
Aquela sala estava me deixando nervoso, queria sair daquela imundice desesperadamente, mas resolvi manter minha palavra e tentei não me concentrar naquilo tudo.
Depois de um tempo, que para mim se transformou em uma eternidade, Kelly entrou pela porta e passou a mão no meu ombro me dando um leve sinal de sua presença.
— Bom, vamos começar, Daniel? — perguntou ela colocando um gravador sob a mesa — Se importa de eu gravar?
— Não! — menti.
Conversamos mais ou menos por uma hora, Kelly me fez várias perguntas sobre minha vida, algumas perguntas não pareciam fazer sentido, conversamos sobre meu trabalho e também sobre o meu pai.
Tentei não entrar muito em detalhes, mas Kelly possuía uma boa lábia e quando percebia já tinha falado coisas que não queria.
Tudo aquilo me deixava muito nervoso e comecei a suar, Kelly me deixou fumar em sua sala, o que deu uma aliviada drástica no meu estado emocional.
— Bom, por hoje é só, Daniel, é muito cedo para fazer um diagnóstico, mas devido a minha experiência posso dizer com toda a certeza que você tem Transtorno Obsessivo Compulsivo devido a algum trauma. — disse ela esperando minha resposta.
— Você deve estar louca! — Berrei — Como você pode dizer uma coisa dessas, eu sei exatamente o que eu tenho, HIGIENE E ORGANIZAÇÃO, o que devo dizer não é seu forte!
— Daniel, tudo aqui foi colocado de uma forma desorganizada exatamente para observar sua reação. Se não quiser se tratar, tudo bem, é uma escolha sua, mas isso não vai mudar a realidade dos fatos.
Após dizer isso, Kelly fez uma pausa e em seguida respirou fundo, sua postura mudou e ela me olhava de uma forma mais agressiva que o normal.
— Olha, esquece o lado profissional e vamos para o pessoal. — continuou ela pondo as mãos sobre a mesa. — Aquela pessoa que está atrás daquela porta é muito importante para mim e, se não fosse por isso, você nunca pisaria em meu escritório, mas eu prometi que te ajudaria. Ela espera muito de você, Daniel, e realmente por algum motivo que desconheçoestá apaixonada por você, que ao meu ver não merece um pingo sequer desse amor. Flora é uma boa pessoa e não vou permitir que um babaca como você, que acha que é o rei do mundo, estrague o que ela tem de melhor!
Fiquei por um tempo sem reação e pude ver que aquela mulher não tinha nenhum medo de mim. Na verdade acho que em toda minha vida ninguém havia falado dessa forma comigo e isso me deixou catatônico.
Comecei a sentir raiva e ao mesmo tempo pensava no que ela tinha dito. Será que eu realmente sou uma má pessoa e faço tão mal assim para Flora?
Não conseguia deixar de me questionar enquanto aquela leoa berrava palavras agressivas no meu ouvido.
Ela se sentou e passou a mão nos cabelos, respirou fundo e me olhou novamente.
— Olha, Daniel, se quiser eu posso te ajudar, mas para isso acontecer você tem que realmente aceitar que está doente e ter consultas periódicas comigo. Se não quiser fazer isso por você, faça por Flora!
— Não quero fazer Flora sofrer, se ela me trouxe aqui fazendo essa armação toda é por que ela está preocupada comigo e deve ter notado algo de errado na minha conduta. Mas fique ciente que faço isso por Flora e como qualquer outro serviço vou lhe pagar por ele, na verdade gostaria que fosse minha analista particular.
— Desculpe, Daniel, mas tenho outros pacientes tão importantes quanto você e que precisam de minha ajuda e devo corrigir que não sou analista e sim Psicóloga.
Respirei fundo, aquela mulher me dava nos nervos, mas realmente Flora confiava nela e isso era o bastante para mim.
— Tudo bem, mandarei minha gerente financeira Patrícia entrar em contato com você para acertar o pagamento das consultas e pedirei a Flora para marcar um horário com você em minha agenda.
— Tudo bem, Sr. Aguilar, e agradeço demais sua cooperação – disse parecendo sarcástica, mas resolvi ignorar.
Rapidamente sai da sala indo de encontro a Flora que lia uma revista na sala de espera.
— Já acabou? — perguntou Flora levantando e me beijando.
— Sim, devo dizer que foi agradável, poderia marcar outra consulta com Kelly para mim? – disse encarando Kelly como se fosse matá-la.
Flora olhou de Kelly para mim sem acreditar em minhas palavras, abriu um sorriso e me abraçou.
— Claro, Dan, se você julga necessário!
— Kelly, como foi? — perguntou Flora à amiga.
— Muito boa mesmo, Flora, acho que posso ajudar o Sr. Aguilar com mais algumas consultas. — ela ainda me encarava.
— Que ótimo, vou ver a agenda dele e marco com você as consultas.
Saímos do escritório de Kelly e fomos direto para o carro.
— Flora! — chamei.
— Oi, Dan — disse enquanto abria a porta do carro.
— Nunca mais minta para mim.
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