Ensina-me A Ser Tua

65 Capítulo 65 - Asas...


O silêncio era absoluto. Ou quase... Em alguns momentos ela conseguia ouvir sua respiração. A pouca iluminação do quarto combinava com seu estado de espírito. Ela estava sentada à beira da cama, abraçando as próprias pernas. Seus olhos estavam vidrados em Quinn. Na loira inerte. Na loira dormindo profundamente. Sentia-se sozinha...

Não foram horas fáceis. Desde o momento em que Quinn saiu de casa até aquele minuto. Durante aquele intervalo a loira vomitou algumas vezes e Rachel limpou a sujeira. Rachel limpou Quinn. Rachel a levou para casa com a ajuda de Nick, Brittany e Santana. Por mais que a latina quisesse entender o que tinha acontecido, sua namorada a impediu, mais uma vez, de se intrometer. A compreensão de que as amigas precisavam de privacidade foi maior do que a necessidade de continuar ali na tentativa vã de animá-las. Quinn e Rachel tinham problemas que elas não poderiam resolver, mesmo que não soubessem quais eram... Foram embora pela manhã...

Quando Shelby sugeriu que ela fosse à Paris, Rachel não pensou que aquilo seria algo tão sério. Ela sabia que Quinn não gostaria da ideia, mas esperava que elas pudessem conversar. Ela nunca pensou em ficar longe da loira, até que a oferta lhe foi feita. Era tão errado assim sair um pouco daquela realidade com a qual ela não estava sabendo lidar? Era tão cruel com Quinn ficar um período longe dela para voltar bem e ser capaz de fazê-la feliz? Ela não saberia dizer quando começou a chorar. Só sentiu seu rosto molhado... Quinn dormindo era pura paz. Uma paz dolorida... Quinn dormindo era um silêncio pesado. Pesado demais para suportar... O convite de Shelby a fez acordar para o que ela não conseguia admitir antes: Quinn era mesmo a materialização de tudo o que viveu. Desde o dia em que fizeram amor pela primeira vez, até o dia em que perdeu Jeremy. Jeremy... O nome que a loira escolheu. O nome perfeito que ela sentiu ser o nome certo. Jeremy era delas. Quinn fez isso acontecer. E agora Quinn era a lembrança diária de tudo o que ela sofreu... Não... A culpa não era da loira. Claro que não! Mas Rachel não sabia como não se sentir daquela forma. Não mais... O convite de Shelby despertou nela algo que ela não sentia. Ou que não sabia que sentia. Mas desde então ela não sabia se sentir diferente... Paris parecia um refúgio, um mundo novo onde ela encontraria uma nova paz e voltaria renovada, pronta para ser a esposa que Quinn precisava que ela fosse... Ela já não era mais inteira. Ela não se sentia nem uma metade do que um dia foi...

Mas Quinn estava apagada, dormindo há horas depois de beber como nunca bebeu. Ela era o motivo daquela embriaguez. Ela causou aquele comportamento completamente fora do normal. Ela deixou a loira fora de si. Ela. Sim! Era sua culpa. Ela se sentia culpada. Culpada por permitir que Quinn se magoasse. Culpada por não ter tido coragem de sentar com ela para conversar. Culpada por cogitar a hipótese de se afastar dela. E a culpa era um fardo difícil de carregar...

Já era noite quando a loira despertou. Rachel ainda estava à beira da cama a olhá-la. Quinn a encarou. Nada disse. Sentou-se devagar e fechou os olhos. A ressaca ainda incomodava. A morena se levantou e pegou o copo d’água que deixou à espera de Quinn. Pegou também uma aspirina e se aproximou dela.

R: Toma... [disse suavemente] Você vai se sentir melhor...

Quinn aceitou o copo e o comprimido. Nenhuma palavra disse em resposta. Levantou-se em silêncio e foi ao banheiro. Fechou a porta à chave. Nenhuma palavra. Tudo o que Rachel ouviu foi o som do chuveiro sendo ligado. Não tinha certeza se Quinn estava bem para ficar sozinha, mas preferiu não pressionar. Durante vários minutos eternos Quinn ficou parada debaixo do chuveiro, olhando fixamente para a parede. Ela procurava uma resposta. Ela procurava uma forma de voltar no tempo... Ela tinha muito amor. Muito amor para dar e dava. Ela deu todo seu amor à Rachel. Ela se negou o próprio amor. Ela talvez tenha se amado pouco. Ela chorou...

Rachel esperou ansiosa até que a porta do banheiro se abriu, revelando a loira já de banho tomado, com os olhos vermelhos e completamente apática. Observou-a trocar de roupa em silêncio. Aquele silêncio sufocante que a estava enlouquecendo...

R: Você precisa comer. Eu vou preparar alguma coisa. Eu...

A frase não se completou. Rachel ficou confusa com a cena que via: Quinn pegando o travesseiro e um cobertor.

R: O que você está fazendo?

Pela primeira vez naquele dia a loira ia falar alguma coisa com ela:

Q: Eu vou dormir na sala. Hoje, amanhã e em todos os dias em que você ainda estiver aqui.

Rachel sentiu a espinha congelar. Quinn estava gélida. Em menos de 24 horas ela viu uma transformação nada animadora daquela que tanto amava...

R: O que você quer dizer com isso? [perguntou tremendo]

Q: Escolha o dia. Compre sua passagem e vá pra Paris. Até lá eu vou tentar ficar fora da sua vista. Tornar seus dias comigo menos difíceis.

R: Pare com isso! Por favor! Vamos sentar e conversar.

A morena começava a se desesperar. Era como se aquela Quinn diante dela não fosse sua esposa, mas a antiga Capitã das Cheerios.

Q: Não precisamos conversar. Eu entendi muito bem o que você disse. Eu pensei que eu te fazia bem, mas... Eu não vou te pedir para não ir. Eu não vou te pedir nada. Você está livre para ir à Paris, NY, Japão. Pode ir para onde você achar que será mais feliz do que comigo. [disse firme] Não serei uma pedra no seu caminho. Na verdade, eu vou te dar asas... Vá embora. Use nosso cartão e compre sua passagem. Use nosso dinheiro e compre roupas novas. Preencha esse vazio que você está sentindo da forma que achar melhor. Eu não vou tentar te impedir.

R: Não me olha assim... [choramingou]

Q: Assim como?

R: Eu não aguento esse olhar!

Q: Qual o problema dele?

R: Você não me olha assim... [a voz saiu embargada] Esse olhar frio... Você não me olha assim... [chorou]

Q: Talvez não olhasse antes... Antes de saber como você realmente se sente... E eu não posso te pedir para se sentir de outra forma.

A voz de Quinn falhou. Ela tentou não fraquejar, mas era impossível. Fez força para conter o nó que se formou em sua garganta, mas não adiantou... Respirou fundo, mas as lágrimas já haviam deslizado por seu rosto. Tentou enxugá-las, mas foi surpreendida. Rachel avançou sobre ela e lhe tomou os lábios de forma desesperada. Era um beijo sofrido. Uma tentativa de desfazer aquele momento, aquele dia, todas as palavras ditas...

Quinn a afastou. Um beijo não resolveria nada...

R: Eu te amo! Eu não vou a lugar nenhum!

Q: Você vai! [disse firme] Você vai sim!

R: Você está me expulsando? [perguntou assustada]

Q: Não! [irritou-se] Eu estou te dando a chance de fazer o que você quiser. De decidir sem que eu te pressione. Seja pedindo para você me escolher, ou um pedido de casamento. Ou tantas outras coisas que eu devo ter feito e fizeram você se sentir sufocada.

R: Não foi bem assim. Você entendeu tudo errado... [chorava]

Q: Você vai! Vai avisar à Shelby que pode te esperar em Paris. Eu não quero você comigo se eu não sou capaz de te fazer feliz...

A loira agarrou o travesseiro e o cobertor novamente e caminhou em direção à sala. Rachel a seguiu:

R: Por favor, Quinn! Vamos conversar! Vamos conversar e nos entender! [implorava]

Q: EU ME ODEIO! [gritou] EU ODEIO QUEM EU ME TORNEI! Eu me anulei por você! Eu simplesmente esqueci de mim porque tudo o que eu enxergava era você. Eu tenho feito de tudo para tornar a sua vida melhor e nada disso adiantou. Eu odeio a minha burrice! Odeio a minha incompetência! Odeio o que eu represento para você! Odeio ter a noção de que você olha pra mim e se sente triste! Eu odeio! Odeio te amar tanto assim! [caía em prantos] Eu odeio ter que te libertar de mim!

A loira sentou no sofá sem conseguir conter o pranto forte que a dominou. Ela soluçava. Não era apenas o choro por aquela conversa. Era também o choro contido de todas as vezes em que ela precisou se segurar para que Rachel chorasse em paz... O ar começava a lhe faltar, mas ela não conseguia parar. Ela havia explodido em sinceridade e lágrimas. Ela não conseguia mais se segurar. Ela tinha se segurado por muito tempo...

Rachel se ajoelhou diante dela e segurou suas mãos, mas Quinn tentou se desvencilhar. A morena insistiu até que a loira desistiu de lutar contra ela:

R: Eu te amo mais do que tudo! Eu te amo e nada vai mudar isso! [chorava] Eu te amo, Quinn! Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo...

Rachel repetia aquela frase sem parar, na esperança de Quinn não duvidar...

R: Eu te amo! Eu te amo... Eu não conseguirei ficar longe de você... Não importa o quanto eu precise, eu não vou sair daqui... Porque eu te amo!

Quinn parou de chorar. De repente. Como se o que Rachel disse tivesse o efeito mágico de fazer as lágrimas cessarem. Ela olhou para a morena de uma forma até então inédita. Não era um olhar carinhoso...

Q: Você vai fazer o que você precisa. [levantou-se bruscamente] Escolha o dia... Escolha o voo... Vá ser feliz... Longe de mim...

[CONTINUA...]

Notas finais
Eu sei que o capítulo foi pesado, que a fic está pesada, mas peço que confiem em mim! Confiem nessa autora que seria incapaz de desapontar vocês! ;-) Comentem! Beijos!