Ensina-me A Ser Tua

23 Capítulo 23 - Quem está com a razão?


Rachel estava parada em frente à porta do apartamento e não conseguia se mover. Os últimos minutos tinham sido aterradores para ela. Tudo ficou em segundo plano quando ela estagnou seus pensamentos na consciência de que havia batido em Quinn. Tudo o que ela deveria fazer era tentar afastar da loira os pensamentos ruins relacionados à sua relação com Finn. Ao invés disso, sua mão resolveu tomar a dianteira e agir traiçoeiramente contra ela. Não havia lucidez naquele ato. A morena se deixou dominar pela fúria destrutiva provocada por uma ofensa. Ouvir Quinn sugerindo que ela mentia foi como um soco no estômago bem dado. Talvez um chute... Rachel mentia sim, mas só para Finn. Mas isso não fazia diferença se ela precisasse defender seu caráter. Mentira é mentira, independente de para quem é direcionada.


As lágrimas que abandonavam seus olhos escorriam independentes, sem precisar de qualquer ato de consciência da morena. Ela realmente não percebeu que continuava chorando. Estava anestesiada, odiando-se, desprezando-se... Seu coração disparado, debatendo-se furiosamente contra seu peito, parecia querer fugir de seu corpo, como sinal de vergonha, de discordância por seu ato. Se ela pudesse abandonar a si mesma, ela o faria...



Dentro do apartamento, Quinn havia se colocado num estado de entorpecimento raivoso, levando a mão ao rosto e percebendo que ele estava machucado. A raiva era tanta que sequer sentiu que sangrava. De frente ao espelho percebeu o corte horizontal enfeitando sua face. O anel que Rachel usava tinha que estar do lado errado justamente naquele momento... Era uma tremenda sacanagem! A loira sentiu o sangue ferver. Por um breve momento esqueceu o motivo daquela confusão. Por um breve momento, a única coisa em que conseguiu pensar era na mão da morena acertando-a em cheio. Procurava alguma caixa de primeiros-socorros, mas não encontrava nada. Estava cega para tudo que estava em seu caminho. Precisou parar para respirar. Voltou-se novamente para o espelho e se encarou por segundos seculares. Perguntava-se se havia perdido o controle sem razão. Perguntava-se se tinha sido impulsivamente burra. Então os lábios de Finn sobre os de Rachel voltaram a ser a imagem principal de sua mente confusa. E aquilo doía... Não importava a situação, o contexto em que o beijo foi dado. Os ciúmes se configuravam pelo simples fato de ter havido um beijo. Ali, a poucos centímetros de seus olhos. Era como um imenso letreiro luminoso piscando intermitente, com os dizeres: “Veja só onde você se meteu, sua estúpida!” Era assim que se sentia, como uma estúpida. A certeza de que Rachel não terminaria com Finn passou a ser mais forte do que a crença de que ela cumpriria com a promessa. Ela se entregou demais...



Sua voz, simplesmente, não saía. Rachel abria a boca, movia os lábios, mas não saía qualquer som. A mão na maçaneta mostrou-lhe que não entraria por conta própria, pois a porta não abria por fora sem chave. Bateu algumas vezes chamando por Quinn. Sabia que não estava emitindo som, mas precisava tentar. Havia um nó quase que impossível de se desfazer em sua garganta. Esforçou-se mais. A voz apareceu fraca, mas deu sinal de vida. Encostou a testa na madeira da porta, fechando os olhos com força, emitindo o máximo de som que conseguia. Chamando pela loira repetidas vezes. “Pelo amor de Deus!” Foi dito quase que sem intervalos. Não havia qualquer sinal de que a loira cederia. Então ela saiu dali. Santana estava por perto. Precisava encontrá-la! É claro que foi um martírio tentar explicar a ela que precisava entrar no apartamento. Chorar e ficar sem voz eram duas péssimas opções para ajudá-la a se comunicar. Não conseguia explicar e, talvez, nem devesse. A latina ficou uma fera! Ela não havia levado a chave quando saiu. Então se Quinn quisesse ficar trancada para sempre, ela ficaria. Por sorte, Brit chegou, trazendo junto com sua completa inocência e ignorância dos fatos, a chave que poderia resolver tudo. Santana explicou a ela o que estava acontecendo e estranhou o fato de não ter visto qualquer surpresa no semblante da namorada ao saber que Rachel estava envolvida com Quinn. As forças da morena voltaram e ela correu de volta ao local de origem. A dificuldade em abrir a porta era tanta, que quando a latina e Britt a alcançaram em frente à porta, ela sequer havia conseguido encaixar a chave na fechadura. Aberta a porta, ela estava de volta ao campo de batalha. E que Deus a ajudasse...



R: Quinn! [chamou chorando] Quinn, por favor, me perdoa! [chamava por ela, sem saber onde ela estava]



Não precisou de muito tempo para que a loira aparecesse na sala com a expressão de confusão. Ela não entendia o que Rachel estava fazendo ali de novo depois da forma como a conversa havia acabado. A raiva em seus olhos era cristalina como água. Ardente como fogo! Seu olhar sequer bateu em qualquer outra coisa. Foi direto para a morena.



O corpo de Rachel enrijeceu e seus olhos arregalaram ao ver o corte no rosto de Quinn. Claro que ela não precisava perguntar como aquilo havia acontecido. Se houvesse um buraco à sua frente, ela teria se atirado sem a menor sombra de dúvidas. Seu coração se partiu em infinitos fragmentos, possivelmente impossíveis de serem colados novamente. Saber que tinha feito aquilo no rosto perfeito de Quinn soava para ela como uma atrocidade a uma das coisas mais perfeitas que Deus já havia feito. Tremia e não sabia como evitar. Quinn a olhava inerte, sem emanar qualquer impressão, qualquer pista do que faria, do que queria. Mantinha distância. Não queria mesmo se aproximar dela. Rachel não sabia se poderia se aproximar. Ficou parada. Não sabia mais o que dizer...



Mas Santana não ficaria calada. Ao ver o rosto da amiga, sua primeira reação foi se apressar até ela:



S: Que merda foi essa, Fabray? O que houve com você? [perguntava agitada, preocupada]


R: Por favor, me desculpa! Eu não queria fazer isso! [finalmente falou, acompanhada pelo retorno do choro intenso]

S: Você fez isso?! [virou-se para ela furiosa]


Não foi preciso que ninguém respondesse. A latina praticamente voou em direção à Rachel com a única e exclusiva intenção de quebrar a cara dela. Não havia qualquer outro interesse. Finalmente, Santana iria cumprir com um de seus maiores desejos na época da escola quando a morena a tirava do sério. Rachel só se deu conta dos vários passos que deu para trás quando perdeu o equilíbrio e se chocou com a parede em suas costas. A dor latejante da pancada na cabeça parecia um breve carinho se comparada com o estrago que Santana faria com ela. E ela podia jurar que sentiu o soco da latina a milímetros de seu rosto. Mas nunca saberia se aquela sensação condizia com a realidade. Com os olhos fechados, apenas esperava o exato momento em que seria acertada. Mas o soco não veio. Ao invés disso, sentiu o perfume inconfundível de Quinn muito perto. Abriu os olhos assustada até que se deu conta de que a loira havia se colocado entre ela e Santana. Em que momento isso aconteceu? Quinn foi mais rápida do que se poderia esperar. A percepção de que Rachel se machucaria, ativou todas as suas defesas em favor dela. Ela jamais permitiria que alguém a agredisse. Não importava em que situação fosse.



Q: Não toque nela, Santana! [disse decidida]


S: Eu estou te defendendo! [disse irritada por causa do empurrão que levou da loira]

Q: Eu agradeço e me desculpe! Mas você não vai tocar nela!

S: Você é idiota, Fabray?! Ela rasgou sua cara!

B: Não se meta, Santana! [repreendeu nervosa]

S: O quê?! [surpreendeu-se]

B: Isso não é assunto seu! [continuou nervosa]

S: Mas, Britt...

B: Apenas não se meta! [ordenou]

S: Ela está sendo sacana com a Q! Ela está sendo uma baita de uma vadia com a Q e você quer que eu não faça nada? [indignava-se]


Quinn nem precisou se pronunciar, Britt tomou as rédeas da situação como ninguém imaginou que ela fosse capaz de fazer:



B: Se a Rachel é vadia, então eu também sou! [disse firme]


S: O quê? [surpreendeu-se]

B: Eu traí o Artie com você. Eu transava com você enquanto namorava com ele. Porque eu já te amava! Eu fazia por amor. Amor a você... Mas era traição mesmo assim! Então se ela for uma vadia, eu também sou.

S: Meu amor, é diferente! Veja o rosto da Quinn! Ela bateu nela. [tentava argumentar]

B: E daí? A Quinn bateu na Rachel por causa de uma porcaria de uma coroa de plástico e de popularidade na escola. E pelo que eu sei a Rachel não passou nem um minuto sequer com raiva dela. O perdão foi imediato.

S: Mas... [os argumentos de Santana iam se desfazendo como pó]


Durante essa pequena discussão entre elas, Quinn e Rachel estavam completamente caladas, absorvendo cada palavra de Brittany. No meio de todo o calor da briga, dos ânimos alterados, a loira mais inocente se mostrou a pessoa mais centrada do grupo. E ela estava coberta de razão...



Rachel continuava encostada na parede, enquanto Quinn estava à sua frente, muito próxima, com os corpos quase se tocando, de costas, assistindo a interação entre Brittany e Santana. Senti-la tão perto e não tocá-la era uma verdadeira tortura. Estava acuada, amedrontada com o que viria depois.



A latina se calou. Sua raiva continuava intensa e visível, mas não ousaria levantar um dedo sequer para bater em Rachel. Nem diria mais nada de ofensivo a ela. Brittany domou sua fera. Rachel não sabia se conseguiria domar a dela...



A mão direita de Quinn encontrou a esquerda de Rachel. Sem dizer nada a loira a puxou devagar, caminhando sem olhar para trás, levando-a para o quarto. A morena se surpreendeu e estremeceu violentamente. Não esperava isso. Quando Santana pensou em protestar, o olhar severo de Brittany a fez permanecer calada.



A porta se fechou e Quinn continuava sem olhar para ela. Parecia lutar contra suas vontades. A loira permanecia de costas e Rachel não sabia como se manifestar. Assustou-se quando Quinn se virou rapidamente e foi em direção a ela, parando abruptamente a uns dois passos diante dela.



Q: Você está bem? [referia-se à pancada na cabeça]


R: Si... sim... [gaguejava nervosa]

Q: Viu a merda ridícula em que nos metemos? Agressões, Rachel! Agressões! [voltou a se irritar]

R: Desculpa! [pedia sofrida]

Q: Por que você está se desculpando? Por qual dos erros? [provocou]

R: Por todos! [tentou tocar o rosto de Quinn, mas a loira se afastou mais] Você devia ter deixado que ela me batesse...

Q: O quê? Que bobagem é essa?

R: Eu bati em você. Eu merecia apanhar também!

Q: Cala a boca! [elevou a voz] Não fala bobagem!

R: Por favor, me desculpa! [suplicava]

Q: Pare com isso! Estou cansada de ouvir você se desculpando. Pare... [diminuía o tom, tentando alcançar a calma]

R: Então o que eu devo fazer? Me diga o que eu posso fazer... [passava as mãos no rosto, enxugando as lágrimas]

Q: Você realmente pensou em acabar com ele? [encarou-a]

R: Claro! Eu vou acabar! [disse decidida]

Q: Não minta pra mim... [pediu]

R: Eu não estou mentindo! [defendeu-se]

Q: Por que ainda não acabou? [questionou agoniada]

R: Ele tem um jogo importante e vamos ser padrinhos do casamento do professor Schuester e da Emma. Eu pensei que seria cruel terminar antes disso. Ele vai ficar arrasado! [tentou explicar]

Q: Isso é ridículo! Esses sãos os seus motivos? [criticou irritada] Então você está mais preocupada com ele do que comigo?

R: NÃO! [negou alto]

Q: Porque eu vou te dizer o que é crueldade... [aproximou-se dela, ficando muito perto] Crueldade é aparecer na minha porta e passar quatro dias na minha casa, dormindo comigo, prometendo ficar comigo, enviando mensagens todos os dias, me provocando pelo telefone, me dando esperanças... Crueldade é se permitir ser beijada por ele na minha frente. Crueldade é se importar tanto com ele que esquece que eu estou feito uma idiota esperando você se decidir. [sua voz saía quebrada]

R: Mas eu já me decidi! [insistiu]

Q: Não! Você ainda está com ele e eu não sou nada pra você!

R: Você é...

Q: Não minta! [interrompeu] Não me iluda mais! Eu fui uma idiota por acreditar que Rachel Berry se separaria de Finn Hudson. Todo mundo sabe que vocês são “end game”. Eu não poderia ter sido mais estúpida! [fechou os olhos com força]

R: Você está viajando! [disse incrédula]

Q: Por que, Rachel? Por que você me pressionou naquele dia? Por que você insistiu tanto para que eu cedesse? Por que você me provocou a voltar à sua casa? Por que você transou comigo tantas vezes se não pretendia assumir as consequências disso?


Quinn se sentia impotente diante dos ciúmes. Tudo parecia frágil e sem verdade. Não havia mais espaço para segredos. Não havia mais espaço para temor. O que tinha que ser dito deveria ser dito. E Rachel foi a primeira a realizar isso:



R: Por amor... [disse calma]


Q: Hum? [surpreendeu-se com o que ouviu]

R: A resposta para todas essas suas perguntas é essa: Por amor! Foi por amor que eu te pressionei. Por amor eu insisti que você cedesse. Por amor eu te provoquei a voltar à minha casa. E por amor eu tenho transado com você... Eu sei que estou errada, mas eu não entendo como você não consegue enxergar o que é tão óbvio... Eu te amo!


O coração de Quinn nunca bateu tão rápido...



[CONTINUA...]


Notas finais
Comentem! ;)

Beijos!