Ensina-me A Ser Tua
68 Capítulo 68 - Pecado ou salvação...
Quinn estudava em casa. Naquele dia ela só tinha aulas da matéria em que tinha alcançado boas notas. Ela precisava estudar muito e cada minuto era precioso. Até decidir se trancaria aquele ano letivo, ela precisava agir como se fosse fazer as provas. Tinha uma enorme xícara de café diante de si, rodeada de livros e o caderno cheio de anotações. O notebook aberto com várias abas da internet contendo textos e mais textos... Ela preferia chá, mas Rachel lhe disse que o café ajudaria mais, muito mais do que qualquer outra coisa. Quando preparava o café forte para Quinn, a morena percebeu que a despensa delas estava com um déficit de muita coisa. Resolveu ir às compras, deixando a loira em paz com os estudos.
Havia quase uma hora que Rachel tinha saído quando a campainha tocou. Quinn estava no meio de um texto importante e não conseguiu desgrudar os olhos do livro. Levantou-se com ele em mãos, seguindo até a porta com sua atenção totalmente voltada àquela página. Deduziu que a morena deveria estar com as mãos cheias dos pacotes. Fechou o livro e abriu a porta. Surpreendeu-se, mas não demonstrou. Sua expressão ficou imutável, apesar de estar completamente confusa por dentro. Shelby estava diante dela, como se sua presença ali fosse a coisa mais natural do mundo.
A calma de Quinn era algo quase incompreensível. Mas era real. Era visivelmente real. Estranhou o fato de Shelby estar sozinha. A necessidade quase insana de perguntar por Beth não se manifestou. Ela deixou guardada dentro de si...
Q: Rachel não está em casa...
A voz suave, como se quisesse provar que a presença da mulher não a abalava, calava a vontade de gritar com ela...
Sh: Eu posso esperar...
Shelby não esperou convite e entrou no apartamento, batendo no ombro de Quinn ao passar por ela...
Sh: É até bom, porque eu gostaria de falar com você primeiro.
A loira fechou a porta tentando não se irritar com a mulher que parecia ter a nítida intenção de provocá-la:
Q: Eu não sei o que você teria para falar comigo...
Sh: Temos muitos assuntos em comum, mas o da vez é a Rachel.
Q: Se você quer falar sobre ela, eu acho que o ideal é esperar. Na presença dela poderemos conversar.
Shelby a olhou com um sorriso estranho:
Sh: Você tem medo de falar comigo, Quinn?
Q: Eu não tenho medo de ninguém...
Sh: Então fale comigo!
Q: Eu não tenho nada para falar com você. Mas se você quiser falar, fique à vontade.
A loira caminhou até a cozinha e pegou dois copos d’água. Um deles bebeu rapidamente e o outro ofereceu à Shelby, que recusou...
Sh: Não precisa ser uma conversa longa. Eu só queria saber se você está tranquila com as privações às quais está submetendo a Rachel.
Q: Do que você está falando?
Sh: Você a afastou dos pais dela, dos amigos, de NYADA e agora está atrapalhando a chance que ela conseguiu de passar um tempo em Paris, fazendo um curso em Sorbonne. Você é uma tremenda pedra no caminho dela. Tem noção do quão egoísta está sendo prendendo Rachel a você dessa forma?
Quinn não acreditava no que estava ouvindo. Não era possível que aquela mulher estava ali falando aquelas asneiras todas:
Q: A sua versão dos fatos é bastante perturbada, não acha?!
Quinn era impetuosa. Sempre foi! E Shelby precisou vê-la de novo para lembrar disso... A relação delas ficou complicada quando Quinn quis tomar Beth dela. Mas os anos se passaram e a loira amadureceu. Ninguém podia negar. Porém, Shelby se recusava a dar a ela uma nova chance. Saber que Rachel havia se casado com ela não fez com que seus sentimentos mudassem. Talvez tenham até piorado...
Sh: E qual seria a versão correta? [provocou]
Q: Eu não vou gastar minha saliva com você...
Sh: Não seja desagradável. [irritou-se] Eu sou mãe da Rachel!
Q: Você não é... [disse fria] Você a abandonou por anos. Não quis saber quem ela era, o que queria, do que precisava... Você não se importou se ela precisava de você. Não me venha agora, depois de tantos anos, fingir que é a mamãe zelosa...
Shelby achou que seria fácil. Ela pensou que conseguiria desconstruir Quinn com tentativas de ofensas e provocação de culpa... Mas a loira era firme e aparentemente imbatível.
Sh: Você é bem petulante, não acha?!
Quinn se aproximou dela. Não percebeu, mas a morena tremeu...
Q: Você está no meu apartamento. Não pense que vai me diminuir aqui. Ninguém, absolutamente ninguém é capaz de me diminuir...
Havia uma mentira naquela frase, mas Shelby não precisava saber. Quinn era consciente de que toda sua fraqueza se concentrava em Rachel. Sua esposa era a única pessoa capaz de diminuí-la, sem muito esforço... Mas Shelby não precisava saber...
Q: Ninguém conseguiu me impedir de ter a Rachel. Ninguém conseguiu me impedir de ser por ela o que ela precisava que eu fosse. Estamos casadas, mas ela é livre. Eu não quero e nem vou impedi-la de ir aonde quiser. Apenas tente levá-la embora e veremos se ela vai!
Quinn a desafiou, mas não queria que aquele desafio fosse levado a sério. Ela tinha medo de que Rachel realmente fosse. Não era porque estavam tentando fazer dar certo que ela não tinha suas dúvidas quanto à disposição da morena com o casamento. Ela não tinha certeza de que ela não iria deixá-la para trás, mas precisava dar a ela o benefício da dúvida e confiar um pouco nela, como foi pedido...
Sh: Uma palhaçada! [criticou] Vocês mal saíram da adolescência e já pensam que brincar de morar juntas faz disso um casamento...
A loira se aproximou ainda mais, quase bufando no rosto de Shelby:
Q: Foda-se o que você pensa sobre mim, a minha vida e o meu casamento! Foda-se você e todo o resto!
Antes que a loira ouvisse uma resposta, Rachel abriu a porta e congelou. A cena era surreal demais! Shelby não tinha avisado que sairia de Paris para ir até ela. Em nenhum momento deu a entender que aquilo aconteceria. Seu olhar assustado foi direto para Quinn e não entendeu a calma que ela demonstrava, mas se sentiu aliviada. Não tinha certeza se deveria mesmo se sentir daquela forma...
A primeira pergunta que saiu de sua boca foi totalmente avulsa:
R: Onde está Beth?
Sua voz saiu trêmula, mas ninguém disse nada sobre isso:
Sh: Em NY, com seus pais e a babá...
Quinn sentiu o coração acelerar ao saber que a filha estava tão mais perto. Não havia mais um oceano entre elas. Não... Mas havia Shelby e os Berry...
R: O que está acontecendo aqui? Você não avisou que viria!
Rachel soltou as sacolas de compras na sala e fechou a porta:
Sh: Eu vim tentar ajudar, mas a Quinn não está sendo muito receptiva...
A loira a olhou com a mesma frieza de antes e nada disse. Rachel a olhou de forma interrogativa. Enfim ela falou alguma coisa:
Q: Eu espero não precisar tentar te convencer sobre quem está certa aqui...
A frieza na voz de Quinn fez Rachel sentir medo de vê-la se afastar. Ela não queria aquilo. Olhou para Shelby e se esforçou para falar de forma calma:
R: Seja o que for que você veio fazer aqui, eu espero que você respeite a Quinn.
Sh: Como assim?
R: Fale comigo. O que você quiser falar, você fala comigo. Não envolva a Quinn.
Sh: Mas vocês não vivem um casamento?
Rachel sentiu um novo tipo e raiva dominá-la ao ver Shelby desenhar aspas com os dedos ao falar a palavra casamento. Quinn se manteve em silêncio. Ela não queria usar palavras mais. Se ela pudesse optar, ela jogaria Shelby fora dali...
R: Eu serei obrigada a pedir desculpas a você, Shelby...
Quinn sentiu o coração apertar. Rachel estava assumindo o lado contrário ao dela?
Sh: Prossiga...
Um sorriso presunçoso surgiu nos lábios da morena mais velha. Ela se sentiu vitoriosa diante de Quinn...
Rachel virou as costas para ela e caminhou em direção à porta, abrindo-a:
R: Desculpe, mas eu preciso que você vá embora...
Quinn se surpreendeu, mas não mais do que Shelby:
Sh: Você está louca? Eu atravessei o oceano para vir te ajudar! [disse irritada]
R: Eu não te chamei! E não preciso da sua ajuda! [respondeu igualmente irritada]
Sh: Você não parecia não precisar de mim quando eu te ofereci ir à Paris e ficar um tempo comigo e Beth. Você pareceu gostar da ideia.
R: Uma ideia que não faz mais sentido para mim.
Sh: Seus pais bem que disseram que sua cabeça estava virada! Você não percebe que a Quinn está destruindo a sua vida?
R: Eu vou precisar empurrar você porta afora?
Havia raiva na voz de Rachel. Shelby estava indo longe demais!
Sh: Você tem certeza disso?
Rachel deixou a porta aberta para trás e caminhou até Shelby com firmeza:
R: Este aqui é o meu lar com a Quinn e eu não vou permitir que você, nem ninguém venha aqui e a desrespeite. Eu não vou aceitar que você fale o que quer. Eu não quero ouvir. Não quero saber o que vocês pensam sobre o meu casamento...
Sh: Rachel! Você está cega! Depois de tudo o que você passou, essa é uma nova chance de você acertar. Pare de ser teimosa!
Rachel caminhou novamente até a porta e sinalizou:
R: Anda! Pode sair!
Sh: Se eu sair eu não volto! Entenda... Eu não te darei outra chance de reconstruir sua vida em Paris...
R: Por favor, saia do meu apartamento e da Quinn. Saia do meu lar!
Sh: Eu só...
R: SAIA! [gritou] Quantas vezes mais eu vou ter que dizer que é para você sair daqui?
Contrariada e extremamente ofendida, Shelby saiu dali, não sem antes disparar um olhar de ódio para Quinn...
Sh: Você ainda vai se arrepender! [disse à Rachel]
A morena bateu a porta com força. Levou as mãos aos cabelos em um claro sinal de agonia. Buscou olhar para Quinn e viu a loira ali, quieta, sem querer se intrometer. Mas ela deveria se intrometer. Era direito dela. Rachel logo entendeu: Quinn ainda estava magoada, ainda estava ferida pelas dúvidas que ela causou.
Q: Você tem certeza do que fez?
Era a voz rouca que ela tanto amava, mas havia incerteza, havia certo medo...
Rachel acelerou o passo e avançou sobre Quinn, beijando-a apaixonadamente:
R: Você é meu lar. Você é minha família. E eu estou com você porque eu te amo! Então eu tenho certeza. Eu tenho toda a certeza do mundo de que meu lugar é com você.
Quinn a abraçou forte! Rachel a havia surpreendido de uma forma maravilhosa. Ela tinha sido firme e madura diante de uma situação que poderia ter sido completamente diferente. Ela poderia ter concordado com as todas as palavras de Shelby. Mas não concordou...
R: E eu não vou deixar que ninguém tente transformar você no meu pecado. [olhou-a firme] Você foi, é e sempre vai ser a minha salvação...
[CONTINUA...]
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