Ensina-me A Ser Tua
66 Capítulo 66 - Mais uma chance...
Quinn não quis conversar mais, por mais que Rachel tenha insistido. Acabaram separadas por cômodos. A loira manteve a decisão de dormir no sofá, enquanto a morena foi para o quarto. Mas dormir foi algo que nenhuma conseguiu fazer de imediato. Precisaram pensar e pensaram muito, cada uma em sua própria solidão. No silêncio da sala, Quinn chorava tão silenciosa quanto a noite. Já Rachel não se importou em ser discreta. Seu choro podia ser ouvido pela loira, mesmo que abafado. Um abismo gigante se formou entre elas naquela noite e o medo de que fosse impossível atravessá-lo dominou as duas... Dormiram emocionalmente exaustas.
Quando Rachel acordou já eram 9 horas da manhã. Levantou-se num salto. Quinn tinha ido à aula e sequer tinha falado com ela. Não poderia ser mais um dia de silêncio. Elas não poderiam viver em guerra fria. Precisavam sentar e conversar. Ela precisava que a loira confiasse nela. Ela precisava muito!
Mas surpreendeu-se ao chegar à sala. Quinn continuava ali deitada, dormindo. Pensou logo que ela havia perdido a hora. Aproximou-se para acordá-la, mesmo sabendo que poderia ser totalmente repelida pela loira. Quente! A pele de Quinn estava ardendo em brasa numa febre assustadora. Rachel se preocupou. Não era comum a loira adoecer. Ela concluiu que deveria ser de fundo emocional.
R: Quinn?
Chamou baixinho, de forma quase inaudível, mas a loira resmungou em resposta...
R: Você está ardendo em febre. Vem pra cama!
Q: Não... [murmurou] Que horas são? [perguntou sonolenta]
R: Nove...
Q: O quê?!
O susto de Quinn só não foi maior do que sua indisposição. Ela se sentou tão rápido que sentiu a cabeça girar.
Q: Oh, Deus! [levou as mãos aos olhos]
R: Você está com muita febre...
Q: Eu tenho aula. Não posso mais faltar nenhuma!
R: Eu não vou deixar você sair de casa assim!
Q: Você não entende!
A voz de Quinn saiu mais alta do que ela pretendia. Ela sabia que não podia mais faltar aula. Estava em uma situação delicada na faculdade e precisava de toda sua dedicação para tentar recuperar o tempo perdido. Mas ela não queria ter falado daquela forma. Sentiu Rachel se retrair ao ouvir seu tom ríspido. Sentiu-se culpada, mas não se desculpou:
Q: Eu preciso ir!
Tentou se levantar, mas não conseguiu. Rachel a segurou no lugar. O olhar firme da esposa a fez perceber que a morena não tinha se deixado magoar totalmente com a forma como havia falado com ela.
R: Você não vai a nenhum lugar além da nossa cama. Eu vou te levar para o quarto e você vai deitar. Eu vou te medicar e preparar algo para comer. E tudo o que você vai fazer hoje é repousar para que amanhã esteja bem o suficiente para fazer o que quiser.
Q: Eu não posso! Eu...
Rachel levou as mãos ao rosto quente de Quinn. A loira fechou os olhos ao toque. Naquele momento não havia nada errado entre elas. Nenhum abismo mais existia. Naquele momento tudo o que Quinn sentiu foi o toque carinhoso da esposa, o toque que amava...
R: Me deixa cuidar de você, meu amor...
“Meu amor”... Quase nada a fazia tão feliz quanto ouvir Rachel chamá-la de “meu amor”. Era suave, era certo, era tudo...
O olhar de Quinn para ela foi frágil. Rachel sentiu seu coração apertar ao ver os olhos verdes tristes novamente. Talvez fosse pior vê-los tristes do que raivosos. Talvez... A única certeza que ela tinha era que preferia os olhos verdes felizes e apaixonados. Ela precisava vê-los daquela forma novamente...
R: Vem... Vem comigo!
Ela guiou a loira até o quarto e pôs deitada. Não houve mais qualquer discussão sobre isso. Quinn não tentou argumentar, não tentou fazer valer sua opinião e vontade. Quer dizer, vontade sim... Ela não tinha outra vontade além de estar ali com ela, perto dela, sentindo seu cheiro, sua presença... Era tão apaixonada que o amor gritava em seu silêncio... Gritava mais alto do que a noite anterior, do que o dia anterior, do que tantas outras coisas. Talvez tudo...
Rachel lhe deu um remédio para a febre e tentou fazê-la tomar um copo de vitamina. Esse foi o primeiro passo para se reaproximar. Quinn estava com febre e indefesa, coberta até o pescoço pelo lençol. Estava ali na cama delas, sem demonstrar qualquer intenção de sair correndo. Era a chance que ela tinha de se fazer ouvir. Deitou-se de frente para ela. Tão perto que sentia a respiração quente da loira bater contra seu rosto:
R: Eu te amo! Eu não vou a lugar nenhum sem você!
Ela falou baixo, mas alto o suficiente para se fazer ouvir. Não era uma confissão para aliviar sua consciência, era sinceridade sendo despejada. Ela queria que Quinn ouvisse. Ela queria que Quinn soubesse. Ela queria que Quinn acreditasse...
A loira abriu os olhos devagar:
Q: Podemos falar sobre isso depois?
A voz fraca demonstrava que a febre dominava:
R: Eu só não quero que a gente se distancie. Eu não quero que você duvide do que eu sinto por você.
Q: Eu entendi que você precisa ficar longe de mim por um tempo. Eu não vou pedir que você fique... [disse calma] Não quero que fique por mim...
R: Fico por mim! Foi uma ideia estúpida que não faz o menor sentido. Eu pensei que fazia e que podia ser algo realmente útil. Algo bom depois de tudo. Mas não tem como ser bom se você não estiver comigo...
Quinn sentia sinceridade no que Rachel falava. Ela não parecia hesitante. Não parecia em dúvida. Mas como essa segurança tinha aparecido tão de repente? Talvez o medo de perdê-la tenha sido a dose de consciência que a morena precisava...
Q: Falaremos sobre isso depois...
Naquele momento não havia mágoa na voz de Quinn. Não havia relutância em conversar. Era nítido para Rachel que ela não estava fugindo de uma conversa. Estava apenas febril demais para discutir qualquer coisa... A morena assentiu e parou de falar. Quinn fechou os olhos novamente, tentando dormir. Sentiu Rachel se aproximar mais até deixar um beijo delicado em seus lábios. Antes que a morena se afastasse, Quinn a segurou. Ela tinha permissão para ficar ali. Para ficar perto. E ela ficou. Sentiu-se aliviada por aquela chance e aproveitou, aconchegando-se ao corpo quente da esposa...
Foram horas observando Quinn. Horas vendo-a dormir. Admirando aquela paz provocada por uma febre muito conveniente. Uma febre que tinha aparecido na hora certa. Febre que parecia ter acalmado a fúria da loira. E velando seu sono Rachel teve ainda mais certeza de que não conseguiria ficar muito tempo longe dela. Se olhar para ela trazia lembranças de tudo o que passou, também a fazia se lembrar de toda a coragem que a loira teve para enfrentar todos os problemas com ela. Era um amor muito maior do que qualquer vontade de sair dali. Um amor muito maior do que a briga que tiveram. Muito maior do que qualquer coisa...
Quando Quinn despertou se viu sozinha na cama. Ergueu a cabeça para procurar Rachel no quarto e não a encontrou. Sentou-se na cama e ainda se sentiu fraca. A febre havia baixado, mas não acabado. Levantou-se com certa dificuldade, mas parou na porta do quarto. Ouviu a voz de Rachel e não demorou a saber que a morena falava com Shelby ao telefone. Quis voltar para a cama, mas a curiosidade a manteve ali, colada à porta, tentando ouvir o que mais aquela mulher poderia querer... “Sorbonne” foi uma das palavras ouvidas e logo Quinn soube que Shelby havia conseguido alguma coisa para Rachel naquela que era uma das universidades mais prestigiadas do mundo. Mas também ouviu a morena dizer que não queria. Ouviu Rachel dizer que não era certo ir para tão longe a deixando para trás. Não soube o que Shelby falou, mas ouviu a esposa dizer que tinha pensado melhor e que recusava o convite. Foi o suficiente. Voltou para cama. Não queria ouvir mais nada... Não precisava...
Quando Rachel voltou ao quarto Quinn estava sentada, encostada à cabeceira. Parecia calma...
R: Você acordou! [sorriu carinhosa]
Carinho era tudo o que a morena podia dar naquele momento. Sabia que elas estavam caminhando sobre solo frágil e não queria despertar na loira a vontade de discutir novamente. Mas o que ela não sabia era que não podia evitar...
Q: Ninguém em sã consciência recusa Sorbonne...
Rachel fechou os olhos e respirou fundo. Pensou que precisava aprender a falar mais baixo.
R: Você não sabe...
Q: Não sei! [interrompeu] Não sei exatamente o que ela te ofereceu, mas tem a ver com Sorbonne. E eu tenho certeza de que não posso te oferecer nada melhor do que isso...
A fala de Quinn era calma, mas triste. Rachel a olhou confusa. De onde vinha tamanha insegurança? Claro que elas tinham brigado e a loira estava sem confiar muito em seus sentimentos, mas ela não era frágil daquele jeito. Não! Quinn Fabray era forte e decidida. Só então Rachel se deu conta do estrago que fez na vida dela. De como o amor da loira por ela era avassalador... Rachel tinha feito uma bagunça imensa no coração e na mente daquela que sempre foi a maior fortaleza que ela um dia conheceu. E ali, na cama delas, Quinn não se achava o suficiente para ela...
Rachel caminhou até a cama e sentou diante dela. Sua postura era reta, de quem tinha algo muito importante a falar:
R: Nada, absolutamente nada pode me oferecer algo que seja melhor do que você. Do que estar com você. Do que viver com você. NYADA, Sorbonne... Nada disso tem a menor importância diante do amor que você me dá. Diante do amor que sinto por você... [começou a chorar] Por favor, não deixe que a minha estupidez faça você desacreditar na sua importância para mim. No quanto você é importante na minha vida. Eu me afastei dos meus pais porque eles não te aceitavam. Eu escolhi você! Em menos de um segundo, sem pestanejar... Eu escolhi você para ser mãe do filho que eu perdi, mas que foi nosso durante todo o tempo em que ele existiu. Eu te escolhi para carregar meu sobrenome e agora eu carrego o seu. [chorava mais] Estamos casadas! Eu sou sua mulher. E você precisa me perdoar quando eu for estúpida! Porque eu fui muito estúpida ao pensar que eu poderia atravessar um oceano e ficar longe de você. Porque eu não posso. Eu não quero! E eu não vou! Então me perdoe! Pelo amor de Deus, me perdoe! [implorava] Bastou uma noite com você naquele sofá para que eu sentisse o pavor de perder você pra sempre! Então não tente me dar asas, não tente me libertar para uma vida longe de você, porque isso não faz sentido para mim. Não é o certo!
Q: Mas você quis...
R: Não quero! [interrompeu] O que importa agora é que não quero! Não quero nada que não tenha você comigo. Não vou a lugar nenhum se você não me acompanhar. Ficarei aqui para brigarmos, para construirmos uma vida juntas e para enfrentar os percalços que aparecerem. Eu não vou te deixar não só porque você não me deixou, mas porque eu preciso de você comigo mais do que preciso ficar longe de você. Será que você consegue entender isso e me perdoar?
Rachel chorava muito e esperava uma resposta de Quinn. Uma resposta que não veio... Não em palavras. A loira se jogou sobre ela e a beijou como há tempos não beijava. Um beijo cheio de necessidade e saudade...
Talvez fosse possível... Talvez elas tivessem mais uma chance de dar certo...
[CONTINUA...]
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