Ensina-me A Ser Tua
63 Capítulo 63 - À beira do abismo...
Quinn não era boba. Logo percebeu que era Shelby ao telefone. Sempre que a morena recebia uma ligação dela ficava tensa. Rachel sabia que a relação entre a mãe e a esposa não era das melhores, por isso evitava falar sobre qualquer assunto que pudesse causar uma situação estranha entre elas...
A loira fez sinal para que Rachel atendesse e ficou plantada perto dela, tentando parecer distraída com o que havia ao redor.
R: Alô... Oi... Eu... É que o meu telefone quebrou e consertamos quase agora...
A conversa foi se desenvolvendo de uma forma esquisita. Quinn ouvia que Rachel tentava dar respostas curtas. Era perceptível a vontade dela de desligar logo o telefone. Ouvia frases soltas como “Não sei... Ainda não pensei nisso...” ou “É mais complicado do que parece, mas nos falamos outra hora...” Foi impossível não se preocupar...
Quando a morena desligou, Quinn esperou que ela dissesse alguma coisa sobre a conversa que pareceu confusa demais para seu gosto, mas não recebeu qualquer explicação:
R: Acho bom nos apressarmos para que possamos passear mais...
Q: Em que você precisa pensar? [perguntou sem hesitar]
R: O que disse?
Q: Eu ouvi você dizendo algo sobre pensar e que é mais complicado do que parece... A que você se referia?
Rachel engoliu seco antes de tentar responder:
R: Não é nada demais! [tentou sorrir]
Q: Mesmo assim eu gostaria de saber...
R: É só... Bom... É que a Shelby me perguntou se eu não gostaria de passar um tempo em Paris.
Quinn a olhou séria. Ela nunca havia mencionado qualquer convite feito por Shelby.
Q: E você gostaria?
R: Eu não sei... [ficou sem jeito] Eu não tive tempo de pensar nisso. Como você ouviu...
Q: Quando ela fez esse convite?
R: Como assim?
Q: O convite. Foi feito quando?
A curiosidade de Quinn ia deixando Rachel desconsertada. Ela não confiava em sua capacidade de dar as respostas certas...
R: Foi há... Algum tempo atrás. Ela... Bom... Ela pensou que, talvez, eu precisasse de outros ares. E me ofereceu passar um tempo na casa dela. Longe de tudo.
Q: Longe de mim?
O tom de voz de Quinn mudou e não foi uma boa mudança. Rachel sentiu que talvez a loira perdesse a calma que tanto vinha tentando manter.
R: Não é bem assim. Calma!
Q: Eu estou calma! [disse séria] Eu só quero entender o que a Shelby te propôs e se você pretende aceitar.
R: Não vamos fazer disso algo maior do que é. Foi só um convite e eu não aceitei, ok?! Está tudo bem.
Q: Não aceitou ainda... Você mesma disse que não teve tempo de pensar nisso. Quando pensar vai aceitar?
R: Você está me pressionando, Quinn! [disse incomodada]
Q: Estou? [olhou-a séria] Ok... Tudo bem... Vamos alcançar as meninas e continuar o passeio.
A loira voltou a caminhar. Dessa vez, sem segurar na mão da morena. Rachel sabia que não estava tudo bem...
Estavam, mais uma vez, em um restaurante. Dessa vez para jantar. Quinn assumiu uma conversa longa com Brittany, deixando Santana desconfiada. Ela percebeu que havia um pequeno abismo entre Quinn e Rachel, mas se conteve. Ela não iria se meter dessa vez...
Rachel se sentia mal por ter escondido de Quinn o convite feito por Shelby. Mas ela achou que não era algo bom de se falar diante de tudo. E ela nem mesmo queria ir. Quer dizer, não tinha certeza... Pensou que não era uma boa ideia chatear Quinn com tal assunto. Não podia imaginar que a chatearia de qualquer maneira...
Ao voltarem para casa, Quinn foi direto ao banho. O silêncio era cortante e Rachel não aguentaria por muito tempo. Esperou sentada na cama até que a loira saísse do banheiro. Quinn saiu já com o pijama, indo direto à mesinha de cabeceira para dar à Rachel os remédios que ela ainda precisava tomar.
R: A gente não vai conversar? [perguntou preocupada]
Q: Não quero pressionar você... [respondeu fria]
R: Pergunte logo o que você quer perguntar!
Quinn ficou alguns segundos segurando a caixa de um dos remédios, até colocá-la de volta ao local onde estava. Respirou fundo antes de olhar para Rachel novamente:
Q: Você quer ir à Paris?
R: Como eu disse... Eu não pensei nisso ainda! [respondeu sincera]
Q: Então existe a possibilidade de você querer?
Rachel desviou o olhar:
R: Eu sinto que qualquer resposta que eu der vai magoar você.
Q: Está enganada. Um “Não quero” não me magoaria...
Rachel nada disse...
Q: Mas você não consegue me dizer que não quer, não é?!
R: Eu não pensei em nada disso ainda...
Q: AINDA! [gritou] A minha companhia sequer foi cogitada! Ou seja, é uma viagem sem mim mesmo!
R: O convite foi para que eu pudesse me afastar disso tudo. E você estuda e...
Q: “Isso tudo”? [sorriu triste] Eu estou inclusa “nisso tudo”?
R: Talvez eu tenha me expressado mal... [tentava se explicar]
Q: Estou fora “disso tudo”? Porque se não estou fora, estou inclusa!
R: Tenha calma, ok?!
Q: Eu estou calma! Só estou um pouco confusa... Do que Shelby quer te salvar?
R: Dos meus pais... Do Finn... Da lembrança do Jeremy... [disse desanimada]
Q: E de mim! [completou]
R: Não! Não é isso! [garantiu]
Q: Ela ao menos sabe que você casou comigo?
R: Claro que sabe! Você sabe que ela sabe! [irritou-se]
Q: E ela respeita nosso casamento?
R: Que espécie de pergunta é essa, Quinn?
Q: Eu só quero entender como uma pessoa que respeita o nosso casamento é capaz de convidar você a se afastar de mim. Isso me parece bem complicado de entender, não acha?!
Quinn começava a perder o controle. Ela estava irritada, como Rachel há muito tempo não a via se irritar...
R: Você não pode me culpar pelo convite dela.
Q: Não... Mas posso te culpar por cogitar aceitar...
R: Eu não aceitei!
Q: Mas não negou!
R: Quinn, você está deturpando tudo!
Q: Agora eu entendo... Agora eu entendo seus questionamentos mais cedo. Você realmente não está tão disposta a fazer tudo pela nossa relação como eu faço e, por isso, você enxerga como se fosse sacrifício.
R: Agora você está me ofendendo! [irritou-se mais] Você não pode jogar na minha cara simples perguntas que lhe fiz!
Q: Posso sim! Quando elas servem para me mostrar que eu não estou enxergando nossa relação da forma correta.
R: Meu Deus! [levantou-se] O que eu posso fazer para acabar com essa discussão? Me diga e eu faço!
Q: Diga que não vai! [disse séria]
R: Ok... Não vou!
Quinn deu um sorriso fraco que não expressava exatamente algum tipo de felicidade. Caminhou até seu lado da cama e começou a retirar o edredom:
Q: Precisa ser mais convincente se pretende ganhar um Tony um dia...
R: O que você quer que eu diga? [ergueu a voz]
Q: A verdade! [retribuiu] Seja sincera comigo e pare de ficar dando rodeios!
R: Certo! [olhou-a firme] Eu não pensei ainda sobre ir para Paris porque eu não queria te magoar. Você tem feito de tudo para tornar minha vida mais fácil. De tudo! E eu não sinto que tenha o direito de colocar minhas vontades acima de você. Mas a ideia de Paris é tentadora. Afinal, eu poderia, talvez, me livrar dos pesadelos e do peso enorme que sinto que carrego todos os dias. Talvez um novo lugar me fizesse bem. E não seria para sempre. Seria por um tempo só... Um tempinho...
Q: Não parece que você não pensou nisso...
R: Você me pediu a verdade...
Q: E agradeço por ter me dado! [disse fria] Boa noite!
Quinn se deitou e virou de costas para ela. Não queria mais conversar sobre aquilo. Não naquela noite...
R: Eu te amo! [choramingou] Não pense que é fácil me sentir dessa forma sabendo o quanto eu te amo...
A loira se moveu e se sentou, encarando-a:
Q: De que forma?
R: Assim... Precisando de uma fuga. De uma nova rotina, talvez... [chorava]
Q: Mas podemos procurar um novo lugar. Podemos trocar de apartamento. Podemos mudar nossa rotina. Podemos fazer isso juntas. Você não precisa de Paris para isso.
R: Um apartamento novo e uma nova rotina aqui... Talvez não ajudasse.
Q: Por que não? Podemos tentar... [dizia mais calma] Podemos pensar em diversas formas de mudar nosso cotidiano...
Rachel se levantou agoniada. Parecia que havia algo preso em sua garganta além das lágrimas que tentava conter:
Q: Nós podemos pensar em algo para você fazer até que tenha vontade de voltar à NYADA. Procurar cursos, talvez algo em Yale e...
R: Ainda haverá você! [disse de repente, interrompendo-a]
Q: Como assim?
R: Podemos mudar qualquer coisa. Podemos mudar tudo. Mas ainda haverá você para me lembrar de tudo o que passei. [continuava a chorar] Para me lembrar do Jeremy... Você é a lembrança viva dele para mim. E às vezes dói quando eu olho pra você... Você é onde encontro minhas forças, mas também é onde elas vão embora... [soluçava]
Quinn nunca a havia olhado daquela forma. Uma mistura entre espanto e frieza glacial... Mas Quinn também nunca havia lidado com uma Rachel tão sincera... Por quanto tempo ela estava sufocando aquele sentimento? A loira baixou o olhar, que se perdeu por um tempo nas linhas do lençol que a cobria... Só o soluço de Rachel era ouvido e nada mais. Talvez conseguisse ouvir seu coração que parecia estar indeciso entre acelerar e parar de vez...
Levantou-se um pouco atordoada, procurando por algo:
R: O que você está fazendo?
Rachel percebeu que Quinn procurava por alguma roupa enquanto arrancava o pijama com pressa:
R: O que você está fazendo? [repetiu]
Q: Eu preciso sair daqui! Eu preciso de ar...
R: Você não pode sair! Não pode! Me desculpe! Eu não devia ter dito essas coisas! Mas você me pressionou! Você... [chorava ainda mais] Você não pode sair daqui assim!
Quinn se vestia rapidamente. Não estava sequer prestando atenção nas peças de roupa que encontrava. Ela precisava sair dali. Precisava! As palavras de Rachel caíram em sua cabeça como uma bomba. Ela quase não conseguia respirar...
Antes que a loira saísse do quarto, Rachel tentou impedi-la, segurando em seu braço:
R: Pare com isso! Você não vai sair!
Quinn se desvencilhou rapidamente e sequer conseguiu olhá-la. Os olhos verdes estavam vermelhos a ponto de extravasarem as lágrimas que ainda guardava:
Q: Eu preciso sair! [disse agoniada] Aproveite para não me ver essa noite. Talvez assim, pelo menos hoje, você não sinta nenhuma dor...
Quinn passou pela sala feito um furacão, assustando Brittany e Santana. A latina tentou alcançá-la, mas ela atravessou as escadas tão rápido que só deu tempo de ver o carro saindo da garagem. Brittany correu para o quarto, encontrando Rachel completamente desolada. Pegou-a nos braços e começou a acalentá-la. Não fez qualquer pergunta...
Alguns quarteirões depois, Quinn parou o carro bruscamente. Ela não conseguia respirar. As palavras de Rachel martelavam em sua consciência. Ela fazia de tudo para fazê-la feliz e, mesmo assim, de alguma forma, ela a fazia sofrer. Nunca imaginaria isso! Nunca! A dificuldade em respirar se transformou em pranto. E ela já não sabia mais como parar de chorar. Doía como quase nada em sua vida já havia doído. Ela se sentia à beira do abismo, sem Rachel por perto para segurá-la... Sem ninguém...
[CONTINUA...]
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