Ensina-me A Ser Tua

59 Capítulo 59 - Casa...


Percorreram o caminho todo em silêncio. Rachel observava a paisagem enquanto Quinn dirigia. A loira acariciava a mão da morena sempre que possível, criando uma conexão silenciosa que falava mais do que qualquer palavra falaria.

Nick havia recebido a ligação de Quinn e atendeu aos pedidos dela: guardou tudo o que lembrasse Jeremy. Ele já havia deixado tudo pronto para elas: geladeira e despensa abastecidas. Se elas quisessem o apartamento como refúgio, elas não precisariam sair dele por um bom tempo...

Assim que pararam o carro na garagem, Nick se aproximou. Ele as esperou embaixo com toda a paciência do mundo. Rachel ficou parada, sem sair do veículo:

Q: Chegamos...

R: Eu sei...

As duas tinham vozes tristes. As duas quase não tinham forças... Mas Quinn precisava ser mais forte. E ela seria...

Q: Vamos subir...

Nick abriu a porta do carro e não precisou dizer nada. Segurou Rachel para levá-la no colo:

R: Não precisa, Nick... Obrigada, mas eu posso andar!

N: Não... [segurou-a mais firme] O elevador está quebrado. Não vou deixar você subir as escadas...

Q: Obrigada! [sorriu em agradecimento]

Rachel não falou mais nada. Segurou-se em Nick e deixou que ele passasse o braço por trás de seus joelhos e a retirasse do carro. Eles subiram as escadas sem falar uma palavra sequer e as duas agradeciam mentalmente a discrição do amigo...

Nick a colocou no chão assim que chegaram diante da porta do apartamento. Quinn o abriu e Rachel logo entrou. A loira o abraçou:

Q: Obrigada por tudo! [sussurrou em seu ouvido]

N: Eu sinto muito!

Q: Eu sei...

Estavam finalmente sozinhas e Rachel se sentou no sofá. Ela aspirou o cheiro do apartamento, o cheiro daquele lugar que por tantas vezes foi o refúgio delas. O cheiro de Quinn que impregnava todo o ambiente. A loira a observou por um instante e sentiu o coração partir diante do silêncio pesado no qual a morena se colocava. Caminhou até ela e sentou no chão, acariciando as panturrilhas. Aquele gestou trouxe para Rachel uma lembrança específica. Ali mesmo e daquela mesma forma, Quinn lhe dava carinho há um tempo atrás, quando lhe presenteou com a primeira roupinha de Jeremy. Ela sentiu seu estômago embrulhar...

R: Como você conseguiu? [perguntou baixinho]

Q: Consegui o quê?

R: Beth... [murmurou] Eu sei que não é igual... Eu sei... [olhou-a triste] Mas eu também sei que foi difícil para você se despedir. Como você conseguiu?

Quinn não queria falar sobre aquilo. Era um assunto difícil. Era uma ferida aberta que ela sabia que nunca cicatrizaria. Ela já havia aprendido a conviver com aquela dor. Falar sobre ela talvez fizesse desmoronar todo o aparente controle que ela tinha sobre o assunto...

[FLASHBACK ON]

Puck estava sentado no sofá do quarto do hospital. Ele mantinha o olhar direcionado ao chão e as mãos juntas, com os braços apoiados nos joelhos. Mantinha-se em silêncio enquanto ouvia Quinn conversar com Beth no colo. Ela segurava aquele bebê lindo como se fosse o mundo inteiro. E ela era... Beth era sua vida concentrada em um pequeno corpinho. Era o recomeço que ela não poderia acompanhar...

Q: E você vai para uma casa grande, com balanço e um quarto só para guardar seus brinquedos... Sua nova mamãe é talentosa, então eu tenho certeza de que você crescerá ouvindo muita música boa. Mas eu preciso que você escute Tom Waits. Lembre-se desse nome... Se não estiver entre os discos da Shelby, peça de presente. Tenho certeza de que você vai adorar...

A loira tentava sorrir de verdade, mas o choro que acompanhava suas palavras era a prova da dor que ela sentia por se despedir de sua filha. Puck pediu para ela esperar um pouco mais e pensar em outras possibilidades, mas a chegada de Shelby a fez sentir que não havia outra saída além da adoção. Quinn tinha certeza de que não poderia dar à Beth uma vida decente. Ela não tinha um lar e não tinha certeza de que conseguiria se reerguer. Havia em Quinn uma tristeza profunda que ela não sabia se iria passar. Beth merecia o melhor. Beth merecia um lar, Beth merecia uma mãe capaz de dar a ela tudo e de fazê-la feliz...

Q: E peça para ver sua nova irmã. Ela se chama Rachel e ela é incrível!

Puck estranhou a forma como Quinn falava da morena. O tom era doce e não condizia com a forma com a qual ela agia diante de Rachel... Ele apenas continuou ouvindo...

Q: Um dia ela será uma estrela. Mas antes disso, ela pode te ensinar muita coisa... Você vai se encantar por ela... [respirou fundo] Seja uma boa menina. Estude! Estude bastante e não tenha medo de realizar sonhos. Respeite as pessoas e faça o bem... Não se venda por popularidade...

Ela olhou para Puck e viu que o rapaz chorava. Ele não tinha a facilidade que ela tinha em falar, mas ela sabia que ele queria conversar com Beth também... Ela voltou a olhar para a filha. A garotinha a olhava o tempo inteiro e, por um momento, ela quis acreditar que ela a entendia... Beth prendia o dedo indicador de Quinn em sua mãozinha...

Q: E eu te amo... [chorou mais] Você é um pedaço de mim que eu sempre amarei. Eu te amo tanto que estou te deixando partir... Partir de mim... Para ser feliz... Pra ser alguém com todas as oportunidades...

Shelby abriu a porta. Seu rosto era sereno. Ela mantinha uma bolsa com as coisas de Beth pendurada no ombro direito e papéis de alta nas mãos... Sentiu seu coração apertar ao ver a forma como Quinn estava. A loira estava destruída...

S: Já podemos ir... [disse calma]

Quinn assentiu lentamente. Shelby a deixou seguir com Beth nos braços. A loira entrou no carro, seguida por Puck. O destino seria a casa dele, onde Shelby os deixaria. Quinn rezava para que o caminho fosse o mais longo possível. Mas não foi... Assim que chegaram, ela apertou a garotinha um pouco mais em seu colo, aspirando seu cheiro...

S: Você precisa de mais um tempinho? [perguntou atenciosa]

Quinn ficou quieta por uns segundos. Demorou a responder...

Q: Nenhum tempo é suficiente... [sussurrou]

Ela se moveu devagar e beijou a testa da filha suavemente...

Q: Eu te amo... [sussurrava bem baixinho] Eu sempre te amarei...

Ela colocou Beth na cestinha e a cobriu com cuidado. Olhou para Shelby:

Q: Dê a ela tudo o que não posso dar... Dê a ela o meu amor...

Shelby assentiu e elas trocaram um olhar profundo. Naquele olhar era feita uma promessa que Quinn esperava que a mulher pudesse mesmo cumprir. Ela saiu do carro e correu em direção à porta da casa. Puck depositou um beijo na testa da filha e nada disse. Ele jamais conseguiria colocar em palavras o que estava sentindo...

Quinn olhou pra trás e viu o carro indo embora. Puck se aproximava dela e ela só via o carro indo embora. Era como se ela mesma estivesse partindo. Ele a levou para dentro. No quarto, ela se deitou e logo voltou a chorar. O pranto sofrido ressoava pelas quatro paredes do cômodo. Ela queria morrer naquele momento... Ele se deitou também e ficou de frente para ela. Ele também estava sofrendo, mas sabia que não era a mesma dor. Ele sabia que a conexão que ela tinha com Beth ninguém jamais teria... Ele a puxou para mais perto e a abraçou, sentindo-a se agarrar com força em sua camisa. Ela chorou por horas até perder as forças e dormir. Quando acordou ela chorou de novo... E foi assim por muito tempo...

[FLASHBACK OFF]

Rachel esperava que Quinn explicasse como conseguiu, mas Quinn sabia que ainda não tinha conseguido de verdade. Ela não tinha coragem de contar sobre aquele momento do passado. Ela doloroso revivê-lo... Ela nunca deixaria de sentir falta de Beth, mesmo sabendo que ela estava feliz com Shelby, sendo criada da melhor maneira possível. Como ela explicaria isso à Rachel naquela situação? A morena sabia que era diferente, mas ela estava traçando uma inevitável comparação. Mas como Quinn poderia dizer qualquer coisa que fizesse sentido se Rachel jamais tomaria conhecimento de que Jeremy estaria feliz? A loira a olhou de forma carinhosa:

Q: É difícil explicar... Os dias vão passando e a gente tem que seguir...

R: Não fale de forma impessoal. Fale “eu”. Eu quero saber de você!

O tom de voz de Rachel não foi doce. Foi imperativo. Ela precisava ouvir e ela queria ouvir. Ela queria ter certeza de que se Quinn tinha conseguido, ela conseguiria também.

Q: Eu ainda não consegui...

Quinn se deu conta de que não poderia mentir. Ela jamais mentiria para Rachel...

R: Não? [perguntou chorosa]

A loira se levantou e sentou ao lado dela. Pegou as mãos da morena e as segurou entre as dela. Olhou-a de forma terna:

Q: Cada pessoa tem uma forma diferente de lidar com a dor. A minha dor vem se transformando com o passar do tempo, mas ela está aqui. Diferente, mas viva... [respirou fundo] Eu não posso mentir para você e dizer que será fácil superar esse momento. Eu não posso falar sobre a sua dor. Eu posso falar sobre o meu amor. Eu te amo e estarei com você em cada segundo. Para chorar junto, para procurar alternativas de fazer diminuir a dor que você sente, que eu sinto... Vai passar esse peso enorme, essa falta de ar. Vai passar essa intensidade de agora. Isso eu posso te garantir... Mas, com o tempo, você vai sentir tudo de uma outra forma. Vai ser memória triste, mas vai doer diferente...

R: Eu não sei se consigo... [choramingou]

Q: Consegue sim! Vai conseguir!

Rachel a abraçou forte e Quinn a recebeu de corpo inteiro. Elas ficaram naquele abraço por muito tempo até perderem completamente a noção de tudo...

Quinn teve a ideia de tomarem banho e a levou à banheira. Rachel se recostou no corpo da loira e sentia o carinho com que ela acariciava seus braços delicadamente:

R: Eu me sinto vazia... [confessou de repente] Até meu corpo voltar ao normal, de todas as formas, ainda me lembrará que ele estava aqui até pouco tempo... Eu me sinto vazia, mas ainda o sinto... Faz sentido?

Q: Faz! Claro que faz...

R: Como eu posso sentir tanta falta de alguém que eu nem cheguei a conhecer? [choramingou]

Q: Hey... [fez com que ela virasse em seu colo e olhou-a com carinho] Uma mãe conhece o filho desde o primeiro momento em que ela o sente dentro dela. Você não o conheceu da forma que imaginou que seria, mas o conheceu da forma que deu para ser... Ele foi seu a ponto de te transformar de alguma forma...

R: Eu o amei. Eu amei a ideia de tê-lo. E eu aprendi esse amor com você. Você me fez me abrir para amá-lo. Eu amei a ideia de tê-lo com você. Você me fez amá-lo... [voltou a chorar forte]

Quinn a puxou para um abraço e passou a acariciar as costas dela com extremo carinho...

Q: Eu não fiz você o amar. Esse amor foi natural, meu amor... Era uma ligação entre vocês. Você não precisava de mim para isso...

R: Mas eu sonhei. Eu sonhei com a vida de nós três... [moveu-se para encará-la]

Q: Eu também... Eu também... Agora somos nós duas e nós superaremos esse momento, ok?!

R: Você não entende... Eu sonhei como se ele fosse tão seu quanto meu. Eu desejava que ele parecesse com você. Eu sei que isso não era possível, mas ele era tão nosso que não tinha mais como não ser...

Q: Eu sei, meu amor... Eu sei... Fizemos planos que agora terão que ser diferentes. Estamos juntas e vamos fazer dar certo. Tá?!

Rachel assentiu suavemente e a abraçou novamente, deitando a cabeça em seu ombro, afundando o rosto no pescoço macio da loira...

Rachel dormia. Quinn ainda não tinha conseguido fazer isso. Ela abriu uma das gavetas de sua cômoda e viu uma caixa que ainda continuava lá. Nick não tinha tirado aquela de lá porque ele não sabia que ela existia. A loira a omitiu. Ela pegou a caixa e a levou para a sala. Sentou-se no sofá e a abriu. Era a mesma caixa com a qual havia sido entregue. Ela retirou o macacãozinho branco com os dizeres “Baby Broadway” e o acariciou. Foi seu primeiro presente para Rachel e Jeremy. Ele nunca usaria... Junto com ele havia uma manta. Rachel não sabia, mas Quinn havia guardado a primeira manta de Beth e quando Jeremy nascesse ele a usaria também. A manta com a qual Beth passou a maior parte do tempo no hospital. Ela guardou junto com o macacãozinho porque queria deixá-los com o mesmo cheiro. Quando Rachel o recebeu, sentiu o perfume de Quinn nele, e realmente cheirava a ela. Mas quando a loira o deixou junto à manta, o cheiro ficou diferente. Ela tinha consciência de que com o passar do tempo, talvez o cheiro de Beth já não estivesse mais naquela manta, mas ela o sentia, ainda que pudesse ser apenas fruto de sua memória. E agora... Agora ela sentia o mesmo cheiro tanto na manta quanto no macacãozinho. Ela sentia como se Jeremy pudesse cheirar daquela forma. Ela sentia como se tivesse que sofrer por dois filhos. E era exatamente assim... Ela sentiu uma dor dilacerante rasgar sua alma. Ela ia chorar como no dia em que Shelby levou Beth, mas ela se segurou. Colocou tudo de volta na caixa e a levou ao outro quarto, guardando-a no alto do closet, longe de seus olhos. Apenas dos olhos...

Quinn preparava um verdadeiro banquete. Rachel precisava comer e ela se encarregaria disso. Cortava legumes e verduras para fazer uma sopa bem nutritiva para a morena enquanto esquentava alguns pães. Sentiu sua presença de repente. Os braços de Rachel envolveram sua cintura e os lábios carnudos pousaram em seu ombro, deixando um beijo cheio de amor:

R: Você também precisa dormir...

Quinn se virou um pouco e a beijou na testa concordando...

Q: Tem razão... [sorriu suavemente] Mas antes preciso garantir que você coma alguma coisa. E alguma coisa nutritiva... Conseguiu descansar um pouco?

R: Sim... [deu um sorriso tímido] Aquela cama é tão simbólica que eu me sinto em paz nela... Obrigada por tudo!

Q: Você não tem que agradecer por nada.

R: Tenho sim... Por tudo... Por tudo! E por me trazer pra casa...

Q: Nossa casa!

R: Toda nossa!

Q: Eu te amo... Você sabe disso, não sabe?

R: Eu sei... Tanto quanto eu te amo também...

E então parecia que elas iam mesmo superar...

[CONTINUA...]

Notas finais
O amor da Quinn é maior do que qualquer coisa... Maior que a dor dela... Precisei focar esse capítulo nelas. No próximo eu falo sobre as reações dos outros, incluindo Finn. Espero que gostem, apesar da falta do Jeremy... Comentem! Beijos!