Ensina-me A Ser Tua

43 Capítulo 43 - "Você pode aprender..." (parte 1)


A vontade de Rachel era de voltar ao quarto correndo e se enfiar sob as cobertas, agarrando-se ao corpo macio de Quinn. Ela não queria ter uma conversa com seus pais naquela hora da manhã, com a namorada em seu quarto. Mas a expressão no rosto de Hiram indicava que ele não sairia dali antes de proferir algumas palavras que pareciam presas em sua garganta. A expressão de Leroy era preocupada...

H: Sua “namoradinha” (fez as aspas com os dedos no ar) esteve em nosso hotel para nos ameaçar. [disse irritado]

Leroy revirou os olhos. Quinn tinha sido clara quanto a não revelarem que eles voltariam a falar com Rachel sob pressão. Se a loira estivesse ali na sala, teria chamado Hiram de idiota novamente.

R: O quê? [surpreendeu-se]

H: Isso mesmo! Aquela manipuladorazinha disse que se não viéssemos pedir desculpas ela iria afastar você para sempre de nós dois. [contou ainda mais irritado]

R: Não fale assim dela! [defendeu séria]

H: Você ouviu o que eu disse? Ela nos ameaçou! [insistiu]

R: Ela me protegeu! [Rachel sabia que tudo o que Quinn fazia era para o bem dela]

H: Ela quer te colocar contra a gente! [acusou]

R: Você está fazendo esse trabalho muito bem sozinho, papai... [revidou]

H: Você nunca falou conosco dessa forma, Rachel! [elevou a voz]

R: Porque nunca precisou! [mantinha-se firme]

H: A culpa é dela! [esbravejou]

R: Que marcação ridícula é essa? [indignou-se] Por que você não pode simplesmente aceitar que nos apaixonamos e pronto?! Que nos amamos!

H: Porque você saiu de casa apaixonada pelo Finn, com sonhos gigantescos com a Broadway. De repente você aparece grávida, sem saber como vai ser seu futuro, namorando a garota que fez sua vida na escola um inferno e desprezando o pai do seu filho como se ele fosse o errado da história. Você nos decepcionou de tantas formas que eu nem sei como explicar! [desabafou]

Aquelas palavras feriram Rachel como nenhuma outra já havia feito. O olhar de Hiram era de puro desapontamento. Ele simplesmente não conseguia enxergar qualquer bondade em Quinn. Seus olhos estavam completamente fechados para ela. Mas logo a figura da loira se fez presente na sala. Sua expressão fechada demonstrava sua insatisfação em vê-los. Quando ouviu as vozes dos Berry, ainda do quarto, Quinn se apressou em se levantar. Não poderia deixar Rachel sozinha...

Q: Por favor, respeitem a situação de sua filha! [falou educada]

H: Não se meta na nossa relação! [disse áspero]

Rachel não aguentava mais aquilo. Era um inferno vê-los juntos!

Q: Eu entendo que não gostem de mim e, sinceramente, não faço questão que gostem. [disse sincera] Só peço que respeitem a Rach!

H: Ela é nossa filha! Só queremos mostrar a ela que você está manipulando os sentimentos dela. Você é uma Fabray! Geneticamente programada para ser fria, preconceituosa e cruel. [disse desdenhoso]

O olhar de Rachel para Hiram foi de pura incredulidade. Como ele podia dizer aquilo com tamanha naturalidade?!

Q: Não me confunda com meu pai! [esbravejou]

H: Você mesma fez questão de maltratar a Rachel na escola! [insistiu]

R: Isso não importa mais! Isso já não tem a menor importância! [irritou-se]

H: Para nós (apontou para Leroy) sempre vai importar! Principalmente porque vemos você tomando atitudes que não condizem com você. Engravidar, deixar o pai do seu filho de fora... É claro que ela está manipulando você! Essa vigarista!

R: Cale a boca! [gritou] Não fale assim com ela! Cale a boca! [gritou novamente, levando as mãos à cabeça]

Quinn se aproximou dela e a abraçou:

Q: Calma... Hey... Não se exalte! [sussurrou em seu ouvido]

H: Nós te criamos com todo o amor e toda a dedicação que poderíamos dar. Mas você cresceu e está agindo de forma completamente contrária ao que te ensinamos... Você tem uma escolha... [respirou fundo e amansou a voz] Continuaremos pagando por NYADA e seu estilo de vida aqui em NY, custearemos todos os gastos que você tiver com o bebê, pagaremos babá, ou até criaremos para que você possa continuar estudando em paz. Veremos uma forma de deixar o Finn participar disso também, mas não iremos nos meter na forma como você e ele convivem. Mas para isso, você vai ter que deixá-la! [apontou sério para Quinn]

Rachel, que até então estava envolvida pelo abraço da namorada, soltou-se devagar, olhando seriamente para Hiram. A presença de Leroy era totalmente ignorada. Seu silêncio o deixava completamente alheio àquela conversa...

R: Quem o senhor pensa que eu sou para aceitar uma proposta cruel como essa? [perguntou ofendida]

H: Espero que seja inteligente... [respondeu desafiante]

Q: Eu já disse que ela não precisará do dinheiro de vocês! Se preciso for, eu ajudo com tudo o que ela precisar!

Rachel virou-se rapidamente para Quinn. A loira estava mesmo querendo assumir suas despesas?!

H: Com que dinheiro?

Q: Não lhe interessa!

H: Bom... Espero que não esteja contando com o dinheiro que sua mãe manda pra você. Ela não ficou muito feliz ao saber que a filhinha está namorando Rachel Berry, uma garota. [disse com um ar de superioridade] Muito menos ao saber que a filhinha pretende sustentar a namorada com o dinheiro que ela manda.

Q: Você não fez isso... [murmurou incrédula]

H: Ela ainda não te ligou?

R: Papai... Por favor, diga que você não fez isso! [precisava ter certeza de que aquilo não passava de uma piada cruel]

Como se fizesse parte de um roteiro bem escrito, o celular de Quinn começou a tocar. A loira demorou a entender de onde vinha o som, até que percebeu vir de sua bolsa sobre a mesa. Caminhava até lá sem tirar os olhos dos Berry. Hiram não poderia ter falado sério. Ou poderia? Assim que abriu a bolsa e pegou o celular, viu que era Judy ligando. Seu corpo inteiro estremeceu. Com os olhos vermelhos de ódio ela o encarou novamente:

Q: Você não tinha o direito de contar pra ela! Não tinha o direito de me tirar do armário! [exclamou nervosa, com o celular insistente tocando em sua mão]

Rachel não reconhecia seu pai. Aquele não era seu papai carinhoso... Aquele homem era vingativo e estava torturando Quinn. Aquele não era seu papai...

De repente, tudo ficou em silêncio. Rachel tentava formular uma frase que pudesse fazer sentido naquele momento. Mas nada parecia fazer sentido. O celular de Quinn voltou a tocar. Ela respirou fundo e se retirou. Preferiu a privacidade do quarto para ter aquela conversa com a mãe.

Rachel passou a mão na testa, tentando entender o que estava acontecendo...

H: Judy nos disse que vai sustar os cheques que passou para Yale. Então se Quinn realmente quiser ser médica e sustentar você, ela terá que trabalhar muito! [manteve a pose desafiante]

R: Ela não pode fazer isso! Você não podia ter feito isso! [gritou] É a vida dela! É a nossa vida! Você não tinha o direito de tentar destruir o que ela tem construído com tanto esforço! Você não a conhece, não faz ideia da pessoa maravilhosa e batalhadora que ela é! [dizia revoltada]

H: Não pense que estamos felizes por isso. Castigar você nunca foi necessário. Mas agora é preciso! Você não é mais você! Não é mais nossa estrelinha! Não há outra saída! Ou vocês se separam e vivem suas vidas com nosso apoio financeiro, ou vocês ficam juntas e se viram para trabalhar e pagarem suas faculdades e os custos desse bebê. Não esqueça que Yale é o dobro de NYADA e que cuidar de um bebê custa caro! [enfatizou]

R: Isso é mesquinho demais de sua parte, papai! [chorava]

H: Você vai deixar que Quinn se sacrifique tanto por você?

Hiram estava dando um golpe de mestre. Sabia que Rachel não deixaria Quinn espontaneamente, assim como sabia que a loira estava mais do que decidida em ficar com a morena. Alguma coisa nele não permitia que confiasse num Fabray. Tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, Quinn transformaria a vida de todos eles num inferno. Mal sabia ele que a loira não tinha nada de parecido com o pai... Havia em Hiram, também, muito orgulho ferido. Rachel havia quebrado todas as suas próprias regras e se comportava diferente de sempre. Ele não reconhecia a própria filha. Ele estava cego. Não conseguia enxergar que aquela Rachel à sua frente, apesar de ter errado, estava se tornando uma nova mulher e que parte daquilo era devido à Quinn, ao amor das duas. Ele simplesmente não queria ver. Enquanto isso, Leroy aceitava calado o atrevimento do marido e sofria em silêncio as dores da filha...

H: Um dia você vai ver que estamos fazendo isso para o seu bem.

R: Saiam daqui... [murmurou trêmula]

H: O que disse?

R: Saiam daqui! [disse mais firme]

H: Você está fazendo sua escolha?

R: Eu já fiz há muito tempo...

H: Você não terá uma segunda chance, Rachel!

R: SAIAM DAQUI! [gritou]

Não era a primeira vez que Rachel sentia aquela dor. Levou a mão ao ventre sentindo-se incrivelmente mal. Um sangramento entre suas pernas e a visão turva indicaram que ela não estava nada bem. Leroy se aproximou para pegá-la antes que ela desabasse. Tudo ficou silencioso...

Rachel abriu os olhos e observou Kurt ao seu lado.

K: Hey... Você está no hospital... [disse baixinho, acariciando a franja da amiga]

R: Hum? [piscou os olhos um pouco confusa] Hospital? [murmurou]

K: É... [assentiu tranquilo]

R: Cadê a Quinn? [perguntou baixinho]

K: Está conversando com o médico lá fora. Eu vou chamá-los...

R: Espera! [segurou a mão do amigo] E meus pais?

K: Estão na sala de espera... O Finn também está lá...

Rachel soltou a mão de Kurt e levou as duas mãos aos olhos, tentando segurar a vontade de chorar.

R: Eu quero a Quinn...

K: Mas o médico vai querer te ver.

R: Eu só quero a Quinn! Mais ninguém! Eu a quero aqui agora! [disse firme]

K: Ok... Eu vou pedir que ela entre...

Rachel tinha certeza de que ninguém poderia ser mais linda do que Quinn. Quando a loira entrou no quarto, tudo o que ela era capaz de ver era aquela beleza única e perfeita que só ela tinha. Quinn era seu conforto, seu prazer, sua segurança, seu amor... Sentiu o beijo delicado sobre seus lábios e o calor da mão macia da namorada em seu rosto:

Q: Como você está? [perguntou suavemente]

R: Eu não sei... Tonta, eu acho... [fechou os olhos sentindo o carinho em seu rosto]

Q: É normal... [manteve a voz suave]

R: E o bebê? [abriu os olhos temerosa]

Q: Teimoso como a mãe! [tentou brincar] Foi só mais um susto... [assegurou]

R: O que sua mãe queria? [perguntou preocupada]

Q: Falamos sobre isso depois. Você precisa descansar agora...

R: Eu preciso saber! [insistiu]

Q: Depois...

A loira se abaixou para um beijo mais intenso, buscando a língua da namorada que, imediatamente, cedeu aos seus encantos...

Q: Eu te amo... [sussurrou sobre os lábios carnudos] Eu te amo! [repetiu mais firme]

R: Eu não quero ver os meus pais, nem o Finn. [disse chateada]

Q: Você não pode excluir o Finn assim, Rach!

R: Eu posso pensar nisso depois. Mas hoje eu não quero ver nenhum deles! [disse amargurada] O que meus pais fizeram não tem perdão! Eles tiraram você do armário sem seu consentimento. Eles se meteram na sua vida! Isso não se faz! [disse nervosa]

Quinn subiu na cama e se deitou ao lado dela, puxando-a para se aconchegar a seu corpo...

Q: Não pensa nisso, ok?! Não se preocupa com isso...

A segurança que Quinn passava era completamente contrária à bagunça em que sua mente se encontrava. Ouviu os gritos bravos de sua mãe ao telefone, dizendo que “não aceitaria uma filha gay porque era pecado. Que iria levá-la para conversar com o padre para que ela entendesse qual o caminho certo a seguir. E que não pagaria mais sua faculdade se ela permanecesse pecando com Rachel.”

Rachel não sabia, mas Quinn também tinha uma escolha a fazer...

A morena sentia o carinho singelo da loira em sua pele, deslizando os dedos por seu braço. Sentia o peito de Quinn subir e descer pela respiração e o cheiro perfeito de sua pele...

R: Eu não consigo pensar que sou capaz de fazer qualquer coisa sem você por perto... [disse sincera]

Q: Você não precisa pensar nisso...

R: Eu não consigo ver graça nas coisas sem você por perto...

Q: Você pode aprender...

A voz de Quinn saiu falha e o ar lhe faltou. Por alguns segundos, sua respiração ficou precária... Rachel sentiu o vibrar do peito da namorada ficar diferente e murmurou um “eu te amo tanto” choroso.

Nenhuma das duas estava gostando daquela conversa. Quinn ouviu o fungado de Rachel e a puxou mais para cima, aproximando seus rostos. Sem dizer nada, a loira a beijou. Sentiu o gosto salgado das lágrimas que continuavam caindo...

Rachel se agarrou ao corpo dela, tentando impedir a continuidade da ideia de tê-la longe...

Logo os beijos de Quinn se espalharam pelo rosto da morena, acariciando levemente a pele molhada com seus lábios. Ela já não sabia o que dizer. Não naquele minuto. Queria aproveitar sessenta segundos de puro toque, de sensação...

R: Eu estraguei tudo... [murmurou chorosa]

Quinn a calou com um beijo outra vez...

[CONTINUA...]



Notas finais
Quero agradecer a todos os comentários e recomendações. Desculpe não citar um a um, mas como são muitos (que maravilha!) eu tenho medo de esquecer alguém. Mas eu leio todos! E sempre espero ansiosa por cada um deles. Adoro ver caras novas e mais ainda ver caras repetidas, sabendo que vocês acompanham mesmo!Agradeço a paciência em esperar, pois sei que não tenho conseguido postar com a mesma frequência de antes. Tomei chuva e acabei pegando um forte resfriado que me deixou com quase 40º de febre e isso me impediu de postar antes.Imagino que este capítulo vai deixar muita gente triste, ou até com raiva. Só peço que tenham um pouco de paciência para acompanhar o desenrolar e ver como as coisas se desenvolvem. Só confiem em mim! ;-)Comentem! :-)Beijos!