Ensanguentados: Rainha-sangue
3 A rainha-sangue.
Notas iniciais
18/08/2005 – A rainha-sangue.
Depois de tanto tempo satisfazendo as minhas vontades, resolvi trabalhar em um Parque de diversões. Antes de vir parar aqui, fui obrigada a matar quem poderia abrir a boca: meu pai, alguns amigos dele, alguns ajudantes meus... A babá.
Tudo aquilo já não importa mais. Aqui estou eu, sendo um palhaço assustador. Além de gostar de Parques e circos, sempre amei essas casas de horror. Agora tudo que espero é que minhas vontades fiquem para trás.
— Vamos Tiago, entre logo! — disse uma mãe qualquer. Ela estava empurrando o suposto filho, ou melhor, o filho e a filha. “Isso, mande eles aqui para dentro, assim poderei deixar-te traumatizada!” — pensei . Fico bem no começo da ‘Horror Intenso’, o que permite que eu possa ver quem vai entrar através de algumas câmeras, o que facilita muito na hora do susto.
Todo serial-killer tem seus motivos para matar. Alguns matam apenas crianças, outros matam as pessoas por serem ruivas, feias, gordas, bonitas demais, felizes demais, tristes demais, ricos, pobres. Eu mato filhos de casais, sempre dois filhos, mas não é só isso. Mato, pois estou os ajudando.
Alguns pais não sabem serem pais e merecem o sofrimento para a vida toda, então mato os filhos numa tentativa de, assim, ajudá-los a ter um descanso da provável vida horrível e maçante que eles levariam e faço, ao mesmo tempo, com que os pais deles sofram pelo resto da vida o que estavam pretendendo fazer os filhos sofrerem. Alguns até se matam, mas realmente não me importo.
Eu tive uma ótima infância com ótimos pais. Sim, eu matei meu pai e ajudei a matar minha mãe, mas porque foi realmente preciso. Sabe, tem coisas que te faz crescer, mas essas coisas não são as mesmas para todas as pessoas. O que me fez crescer foi àquela dor de ter “perdido” os pais, que hoje me fez forte.
O portão de entrada foi aberto e mal sabia essa mãe que seria a única a chegar ao fim deste labirinto.
Fiquei quieta, parada enquanto as olhava. Cerca de 12 pessoas entram por vez no brinquedo e normalmente as 12 chegam ao fim do labirinto, mas dessa vez, só 10 iram voltar a ver a luz do sol pela manhã, como você provavelmente deduziu. Tenho que dizer que não é a primeira vez que faço isso, vim aqui para tentar parar de matar as pessoas, mas é algo que não posso controlar e, na verdade, nem quero fazê-lo.
Com tudo isso, já tenho uma fã. Isso mesmo, aquela detetive alta de cabelo curto que está sempre pegando no meu pé. Não tenho culpa de estar sempre próxima ao local do assassinato, tenho? Estou precisando mesmo é parar de ser descuidada, mas isso sinceramente está um pouco difícil. Gosto mesmo é de atenção e da plateia cheia.
— HAHAHAHAHA! — Uma risada grossa e amaldiçoada sai de minha voz. Como eu viveria sem esses moduladores de voz? Nessa mesma risada, um salto meu em cima dos “corajosos”. Acho engraçado o modo como eles correm, um passando por cima do outro, empurrando até não dar mais.
— “CORAJOSOS” — pensei eu.
Gritos insanos e desesperadores puderam ser ouvidos, o que agradava a mim, mas não posso perder tempo para apreciar o espetáculo. Corro atrás das duas criancinhas, parece que mãe é a mais valente, pois ela já está em mais da metade do labirinto.
Como sei disso? Nem vejo sinal dela. Isso será mais fácil do que pensei.
Não perdi tempo, as duas crianças tinham caído com a ferocidade do primeiro susto. Cortei seus pescoços rapidamente, cortes limpos. Continuei a correr atrás dos divertidos do momento: os que adoram a adrenalina e claro, os mesmos que continuam vivos. Dessa vez a detetive ficara sem o seu espetáculo, afinal, se ela perguntar, todos iram dizer que estive correndo atrás deles.
Eu quero mesmo este confronto. Já faz um tempo que descobri que ela é mãe, mas mãe solteira. De qualquer modo era uma péssima mãe. Ela está sempre trabalhando, deixando, desse jeito, os filhos sempre sozinhos e com falta de atenção.
Eles não merecem sofrer tanto. Está tudo planejado, mal ela sabe que os filhos dela estão em um galpão perto do contêiner de BLOODLAND. “Bloodland” é como chamo o lugar onde vivemos, o que combina muito, não? Uma que Blood é sangue.
— Sunny, não é mesmo? Estranho você está sempre perto dos assassinatos, sempre. O mais estranho foi eu perguntar o que eles viram e todos confirmaram que você estava correndo atrás deles o tempo todo. — disse a detetive.
— Não tenho culpa de estar no lugar certo, mas na hora errada. – frisei bem a frase.
— Bem, dessa vez você vai presa por ser suspeita de 78 assassinatos. Você sabe que quando você for condenada será sentenciada a morte, certo? – disse com tanta certeza de que era mesmo eu. Esse era um ótimo espetáculo, mas é pequeno comparado ao o que tenho em mente.
— Não, isso seria um pequeno público, não acha? Seus filhos estão seguros? Sabe... Em casa, sozinhos, com a babá. Ela é ruiva, certo? Sempre gostei de pessoas ruivas. Melhore me liberar, ou nunca vera eles.
Ela não disse uma palavra sequer, colocou-me dentro do carro e começou a dirigir.
— Onde? – a detetive perguntou.
Eu tinha certeza que ela faria a coisa certa. Como? São os filhos dela e eu conheço bem minhas vitimas.
— Galpão 705, perto dos contêineres. Você sabia que tinha moradias por lá, não é mesmo? Você lembra-se do seu primeiro caso?
—Pare com seus joguinhos mentais e cale a boca! – disse a guarda amedrontada, percebi pela entonação da voz.
— Você ainda não entendeu! Eu estou no comando. A plateia está a minha espera. Pare o carro, eu continuo daqui.
Tudo esta acontecendo como deve ser. O caminho é longo, mas logo estaremos lá.
— Vamos, entre.
— O que você pretende fazer? O que está em sua mente?
— Nem mesmo eu consigo saber o que está na minha mente. Quero te jogar no chão e te derramar em prantos, quem sabe eu acenda um isqueiro e deixo as suas lágrimas queimarem.
Seus filhos estavam presos em gaiolas, suspensos por 15 metros. Lá estava ela, sem reação alguma.
Existe uma plateia melhor do que o mundo inteiro? Logo você vai entender. Antes que você saiba o que está em minha mente, fique sabendo que algumas coisas nunca são explicadas quando se trata de palhaços. Descobri que existem pessoas fieis, mas essas pessoas nunca vão aprender que não se deve confiar em um palhaço.
— Está tudo pronto Rafael? — perguntei ao melhor hacker que já ousou existir.
— Está sim! Só preciso fazer alguns ajustes e... Pronto.
— Afinal, o que pretende fazer com todas essas câmeras? – perguntou a detetive irritante.
— Essas câmeras estão conectadas a esse computador. Não vou ficar te explicando meus planos.
Quando as câmeras forem ligadas vou quebrar o meu padrão.
— Deixe-me adivinhar. Você irá me obrigar fazer algo, caso não faça meu filhos caírem, um por um. — disse tão calma. Eu até estava impressionada. Ela sempre foi uma boa detetive, de fato.
— A amarre — disse. Rafael pegou correntes que estavam ligadas a um dispositivo e prendeu a detetive.
As câmeras foram ligas e, todas as conexões e redes foram interferidas com o nosso sinal. Desse modo o público poderia assistir nosso espetáculo. Ninguém desligaria a televisão ou, sairia do computador. As pessoas não admitem, mas gostam de ver sofrimento, violência e sangue.
O carro da detetive tem um rastreador, ela acha que não sei disso. Bem, agora o jogo já começou, de qualquer modo eles viriam até mim, e eu quero que eles venham.
— Este dispositivo irá fazer você sentir dor. Assim que o botão for pressionado, as duas agulhas de 15 milímetros perfurarão seu abdome. Você tem 15 minutos para apertar o botão, tem que perfurar três centímetros, deste modo seu filho não irar cair da altura de 15 metros. — Agora ela estava em um empasse. — Que o espetáculo comece!
Passaram-se dez minutos e a detetive estava lá.
Com o tempo se passando ela foi se furando, cada vez mais. Como consegue ser tão tola, estão aceitando qualquer um no mercado de trabalho hoje em dia. Cada vez que ela tenta se furar o buraco ficar maior e o ela sangra mais.
Toda a Terra estava assistindo e já havia se passado 15 minutos.
— Como eu imaginei você não está disposta a se sacrificar por um filho. — E a primeira gaiola foi aberta, seu filho sofre uma queda de 15 metros, mas ainda parecia respirar. Irá morrer de qualquer maneira, não tenho por que me preocupar.
— Deixe a minha filha em paz! Ela não te fez nada. —disse a detetive enquanto chorava.
— Falei que você iria se derramar em prantos. Agora vamos deixar a coisa mais emocionante: temos três cordas aqui. Uma está sustentando a detetive, a outra um elemento surpresa e, a última, a gaiola vazia. Você de casa vai votar na corda um, dois ou três. Duas tira a vida e a outra salva uma. O trabalho da detetive será bem vindo.
— Demente. Você precisa de tratamento, me solta!
— Claro que irei soltar, mas espere sua vez. A detetive terá que ficar com as agulhas fixadas em seu corpo, por no mínimo 5 minutos. Fácil!
— Eu não aguento mais, me solte! – chorava e lamentava a detetive.
— Caso contrário, sua filha irá morrer e, claro, o elemento surpresa também conhecerá o outro lado.
— Do que está falando?
— Que comece a votação.
Fez o que deveria fazer. As agulhas estão em seu corpo, penetrando lentamente. Cinco minutos e será o suficiente para poupar duas vidas, ou não, ainda veremos o que a plateia irar querer.
Meu pai ficaria tão orgulhoso, olha todo esse palco. Eu consigo sentir a vibração, boas e ruins. Continuem a aplaudir, isso, mais palmas! “Que entre o elefante!” — gritei anunciando a entrada, mas apenas em mente. “Estão prontos?” — a plateia vibrava a cada palavra dita. Eu não conseguia ver a hora da minha vez chegar: “Que venha os palhaços”.
— Me parece que você aguentou os cinco minutos. Vocês irão viver.
— Eles estão lá fora! — disse o hacker. Hoje em dia muitos prodígios da tecnologia, ciência, escrita e afins nascem. Infelizmente não nascem completos.
— Você não precisava atrapalhar meu espetáculo. Já disse o que você deve fazer! Não me atrapalhe mais.
Algumas coisas eu acertei com Rafael: sempre use sua máscara, é importante que sua identidade continue oculta. Se os reforços da detetive aparecerem, jogue gás de efeito em volta do galpão. Sempre pensamos em tudo, o gás se alastraria por 2 km.
— Visitantes indesejáveis foram dispensados. Continuando com o espetáculo.
— MAMÃE! SOCORRO, SOCORRO! — gritou a garota. Ela estava vendada e com a boca selada, com o auxilio de uma fita adesiva, aquelas cinza.
— Não sei como você se soltou, mas é melhor calar essa boca. — depois disso as duas ficaram de nhenhenhém, falando, falando. — CHEGA!!! — gritei com uma voz grossa. Novamente, “como eu poderia viver sem aqueles modeladores de voz?”.
— Aqui está o envelope com o resultado. — Rafael me entregou.
Fui puxando o envelope vagarosamente, mostrando para as câmeras e lá estava o numero um.
— Temos um vencedor. Esta argola é feita totalmente de lâmina, o que acham? — A mesma tinha fogo em volta. Peguei-a e cortei a corda um. Consegui sentir os gritos e novamente a energia. — Que pena, foi apenas um susto. — a gaiola vazia estava ao chão.
— Estou realmente triste. Chegou a hora de revelar o elemento suspresa. — a cortina que estava sobre uma gaiola caiu.
A surpresa era o pai da detetive. Já estava quebrando com todos os meus padrões, a pergunta é: Por que não acabar logo com esse padrão? Eu estava pensando mesmo em começar um novo.
— Papai... — sussurrou.
— Você está muito velha para ter um pai, não acha?
— O solte, solte! — gritou a detetive.
— Vou soltar, basta não aguentar 15 minutos. Desta vez alguém tem que morrer, vote em uma das cordas, caso ninguém vote os dois morreram. Vocês têm 15 minutos. E você, talvez tenha menos. — disse para o pai, fitando-o.
Os números da votação começaram a subir. Incrível como o sistema não travou e nada aconteceu. Rafael realmente foi o melhor hacker que já ousou existir. Ele não parava de teclar, qualquer pessoa poderia ver que estava lutando contra os softwares.
Conheci ele há três anos e infelizmente o envolvi nisso. Nunca cheguei a amá-lo de verdade, mas eu consigo sentir algo por ele, isso tinha que acabar. Rafael tem apenas 23 anos, tão jovem, sem falar do futuro promissor que ele teria.
— Aguentou mais quinze minutos, parabéns. O resultado do público é... Numero três. Vamos ver quem vai morrer. — cortei a corda numero três e o pai da detetive se foi. — O espetáculo ainda não acabou. Temos esta querida garota, não é?
Abruptamente as janelas foram quebradas e homens de pretos invadiam o galpão.
— Nada disso. Se eu me afastar 705 metros deste galpão ou, se meus batimentos cardíacos diminuírem, a mulher e a garota explodem. Não podemos se esquecer dos corpos lá em baixo. Aproveitando que vocês estão aqui: que tal se juntar ao espetáculo, mas não quero vocês na plateia.
Pelo incrível que pareça eles ficaram ali parados me olhando. Sou tão sanguinária assim? Consigo notar os calafrios que causo neles, parecem tão assustados.
— Imaginei que vocês estariam por aqui. Estão vendo aquelas cadeiras? Sentem-se. Veja só cinco cadeiras e três homens, não tem como chamar mais corajosos? Tudo bem, vamos continuar assim. Erga as cadeiras.
Agora sim o espetáculo parece estar completo.
— Sabe... Estava esperando vocês, chegaram na hora exata! — chegou minha vez de brilhar. — Respeitável público, no palco, temos três botões em ordem aleatória, porém estão numerados. Em qual irão votar? Um, dois, três, quatro ou cinco? Vou ajudar vocês. Eu voto no número um.
Já tinha se passado oito minutos quando as telas do computador ficaram vermelhas.
— O que está acontecendo? Por que está tudo vermelho e piscando?
— Temos um invasor no sistema, estou tentando cuidar disso, DROGA!
— Droga?
— Estamos fora do ar, fomos cortados.
— Faça alguma coisa ou quem estará em uma daquelas cadeiras será você. Faltam cinco minutos, este é o seu tempo.
“Estava tudo muito quieto, apesar deste pequeno problema. Não tenho tempo para tolices!” — pensei.
—Estamos de volta!
—Olá plateia maravilhosa, prontos para o que vai acontecer? E o vencedor deste número circense é: o numero três! — apertado o botão, a cadeira 4 onde estava o policial caiu. — Mas que isso? Tentei ajudar. Vamos facilitar as coisas, irei apertar o botão um. — Uma cadeira vazia caiu. — Acho que agora está mais difícil, pois bem... Alguém quer se manifestar? Votem.
Logo isso tudo vai acabar, bem mais rápido do que a plateia pensa.
— Ligue as câmeras.
— Pronto, estamos ao vivo.
— Quero agradecer a todos vocês e principalmente ao meu assistente, sem ele este espetáculo não teria acontecido. E ele quer se despedir de vocês.
— Espera, o que? — sussurrou. No mesmo estante cortei a garganta dele.
— Ele já não era mais necessário. — Tem certas coisas que realmente não mudam, como o modo de matar. Cortar o pescoço sempre foi e sempre vai ser, o meu método favorito de matar.
— Nos solte, você já conseguiu o que queria, vamos. — gritava a detetive desesperada.
— Sabe... Pensei que você era mais forte e que sua personalidade era um tanto melhor, mas me enganei. — me virei para as câmeras. — O público votou, e o botão vencedor é... O número dois!
Assim que apertei o botão todas as cadeiras caíram e a gaiola se abriu, como eu planejei.
— Nãããão! — gritava a detetive.
— Não seja ingênua, achou que todos sairiam de mãos dadas? Em fila única? — depois disso, seja quem for que esteja lá fora, a minha espera, não tinha motivos para não entrar.
Tem coisas que não são explicadas, mas desta vez vou dizer como vou escapar: Embaixo de mim tem um túnel que leva direto para fora daqui, só preciso descer até ele e pronto.
— Queridos o espetáculo acabou, sinto muito.
— Você vai me deixar aqui? Me solta! — gritou.
— Pare de gritar, você só sabe gritar. Algumas coisas não mudam, ainda vou deixar você envelhecer e sofrer.
Foi a última coisa que disse antes de entrar no túnel.
São dois quilômetros para percorrer, mas já estou chegando ao fim, consigo ver até uma luz.
— Pegamos você, você está presa e sentenciada à morte! — desta vez eles me pegaram, realmente estou surpresa.
— Sem ser julgada já estou a caminho da morte?
— Não precisa de julgamento!
Notas finais
Espero que tenha gostado e obrigado por lê!
@lucasfariasf
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