Ensaio sobre a perda e a coragem
1 capítulo único
Eu caminhava pelas ruas mal iluminadas da cidade com as mãos enfiadas no bolso. O dia tinha sido cansativo e cada segundo de minhas aulas pareceu se arrastar por horas. O cansaço me fazia suspirar a cada passo que meus pés davam sem vontade alguma. Andava pensando em tudo: meu dia, meus amigos que já não faziam parte do meu cotidiano, na minha família a horas de viagem... e pensava principalmente em tudo aquilo que eu queria esquecer, como o último sorriso que ele me deu antes de eu estragar tudo, como sempre. Já não era “se” ou “por que”, era “quando”. “Quando as coisas vão dar errado?".
Até aquele momento eu tinha sido forte, segurado cada lágrima que ameaça cair de meus olhos. Não era como se eu tivesse escolha. Como morava em uma pensão apinhada de gente, era difícil ter mais que alguns vislumbres de privacidade. Os minutos de caminhada entre o ponto de ônibus e minha casa eram o tempo que eu tinha pra mim, no resto do dia, minha máscara voltava e fazia um ótimo trabalho enganando a todos, até mesmo a mim. “está tudo bem”. Mas quando o sol se punha, a noite vinha e eu me via em silêncio, todas aquelas memórias me invadiam.
De fato, não deveriam ser memórias tristes, mas o tempo as havia tornado dolorosas. Cada momento, cada sorriso, cada palavra dele estavam marcadas a ferro quente no meu coração. E as feridas doíam e sangravam, ainda que dias tivessem passado. Olhar para trás e perceber que, outrora, eu tivera tudo; olhar para trás e perceber que dei conta de perder tudo isso que me era precioso. Se não por “escolha” minha, por brincadeira do destino, bifurcação de caminhos. Mas, ah, perdê-lo havia sido culpa unicamente minha e eu sabia, no fundo de minha alma, eu sabia. E me culpava por isso a cada vez que me olhava no espelho.
Uma luz me cega por um momento e vejo que o semáforo estava verde. Ótimo. Ali, esperando os carros passarem, me perco novamente em minha espiral. Não acreditava que havia alguém que “me completasse”, mas perdê-lo, não, deixá-lo, deixá-lo foi como perder um de meus sentidos. Foi como perder uma parte de mim. E, ainda que o tempo passasse, eu não conseguia me recuperar. Vermelho. Os carros param e o súbito silêncio me tira de meu torpor. Arrasto um pé em frente ao outro sem sequer querer fazê-lo. Tem sido assim há muito tempo.
O vento bate em meu corpo, mostrando que o inverno ainda não havia acabado. Rio com o duplo sentido da frase assim que a formulo. Dias assim me lembram de seus abraços quentes e de suas palavras que costumavam aquecer até meu coração, assim como a sua risada genuína. Eu desejava a cada piscar de olhos que eu ainda o tivesse comigo. Mas como poderia pedi-lo para ficar quando era eu a ir embora? Como poderia prendê-lo em algo potencialmente penoso, quando ele era a pessoa que eu mais queria ver sorrir?
Eu sei. Sei que me cavar todas essas lembranças diariamente só tem piorado a situação. Só tem me impedido de superar isso tudo. Só tem me segurado no passado. Mas não é como se eu tivesse controle sobre isso tudo. “eu podia ter feito mais”. Essas palavras ecoam em minha mente. Olho para o lado e encaro meu reflexo na vitrine de uma das muitas lojas daquela rua, a essa horas deserta. “eu podia ter feito mais”. E era exatamente isso que me impedia de seguir em frente. Desvio o olhar do casulo vazio, da criatura triste e digna de pena que vejo em meu reflexo.
Dou mais alguns passos cheios da insegurança que eu transbordava nos últimos tempos. Deixá-lo foi a coisa certa. Cortar cada um de nossos laços era o que eu precisava fazer. Mas por que isso havia me tornado tão infeliz? Era a coisa certa. Não era? Mais uma rajada de vento passa por mim. “Não”, ouço. “Não era a coisa certa e você sabe disso”. Olho para os lados, procurando quem havia dito essas palavras. Não havia ninguém. Ninguém além de mim e do vento. Ninguém do lado de fora de minha casca vazia. Tampouco alguém do lado de dentro.
Sinto as lágrimas quentes caírem de meus olhos pela primeira vez desde que tudo havia acontecido. Elas quebram todos os meus muros e, pela primeira vez desde que tudo aconteceu, choro. Choro como uma criança. Choro pela saudade, pela tristeza e pela percepção de que tudo o que eu fiz a ele não tinha passado de egoísmo. De medo. De covardia. Ainda me lembro das palavras amargas que disse naquele dia. “Não podemos mais ficar juntos. Não vai dar certo”. Palavras que deviam esconder meu medo de perdê-lo. Um medo tão grande que se concretizou.
Outra rajada de vento. “Não é tarde demais”. Novamente procuro por quem quer que tenha dito isso. Não encontro ninguém do lado de fora, mas do lado de dentro... “não é tarde demais.” Do lado de dentro de mim sinto alguém de volta. Uma luz, mas não a do semáforo. Mais lágrimas escorrem por meu rosto. Será? Será que já não é tarde demais? O vento agora se tornara uma brisa. Leve, mas constante. “para o amor nunca é tarde demais”. Olho o relógio. Onze e vinte e sete da noite. O último trem para a cidade onde o deixei parte em treze minutos.
Digo a mim mesma que é loucura. A brisa que me circunda sopra mais forte. Parece até mesmo que me encoraja a ir. Doze minutos. O pessoal da pensão vai ficar preocupado. Loucura. Sinto meu coração retumbando em meus ouvidos, enlouquecido com a decisão que estou prestes a tomar. Onze minutos. Respiro fundo. É loucura. Mas pode não ser tarde demais. Coragem. Meus pés parecem mexer por vontade própria enquanto corro até a estação. Quase não chego a tempo.
São horas de viagem, mas a ansiedade toma conta de mim e não permite que eu durma um segundo durante o trajeto. Pulo do trem assim que as portas se abrem no destino final. Corro pela estação de minha antiga cidade. Sei que ele a utiliza todos as manhãs para ir à faculdade. Olho o relógio. Sete e sete. Será que ele ainda está aqui? A adrenalina invade cada um de meus ossos. Tudo em mim vibra como se eu estivesse em chamas. Olho ao redor e congelo. No momento em que vejo aquele par de olhos escuros que tanto amo. O sangue para em minhas veias e me pergunto se pegar aquele trem fora um erro. E então vejo um sorriso brotar em seus lábios.
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