Ensaio da Amante
1 Este mar sabe.
Notas iniciais
Eu, tão rendida ao brilho de teu riso, fui incapaz de mostrar resistência contra ti. Rendi-me ao avanço. Tua boca tão rente, tão convidativa. Tão disposta a ser minha. Não fiz movimento. A decisão daquele singelo selar foi tua. Assim como o aprofundar. Aquele mar foi testemunha de que não fiz coisa alguma que não fosse corresponder ao que me deste.
Tua boca em minha derme, sugando, maltratando. Ah, seria tão mais fácil fingir que tudo não passara de uma mera ilusão se o rastro de seu traço não ardesse feito brasa em meu pescoço. Em seu limite, minha cara corada e respiração desenfreada, só me restara um pouco de sua essência em meus lábios. Tão salgado. Gosto de lágrimas.
E ao acabarmos tão doce pecado, afastou-se. Disse-me que a culpa recaía sobre mim. Que o tentei. Que o provoquei. Agindo tal qual o demônio que afirma ser fortemente similar a mim. Ora pois! Careço de bela fronte, de curvas sinuosas e de robusta inteligência. Como posso eu, mera mortal, desprovida de encanto maior, ter seduzido-o? Diga o que quiser a tua bem-amada. Aquela que repousa teus olhos com doçura e serve-te de ninho. Mas Iemanjá fora testemunha de que nada fiz senão tornar recíproco cada toque.
O que fizemos foi condenável. Um erro. Não discordo, foi inegável. Contudo cuspir a culpa em cima de mim não é nada além de baixo, sujo, covarde. As ondas do mar sabem. Disseste que não queria mostrar, demonstrar, fazer, receber. Porém quem foi o responsável, percursor de tudo isso, foste tu. Assim como o oceano que banhava a praia aquele dia, repleto de mistérios e segredos, levarei este comigo para o túmulo. Pois aparentemente esta é a sina d'a outra: uso e descarte.
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