Michael sempre sentava no lado oposto ao que eu sentava na sala de aula. Todo dia, durante todos os períodos, eu, eventualmente, o olhava. Eu não podia me controlar, aqueles seus olhos castanhos escuros, seu cabelo bagunçado, seu corpo de porte médio, levemente marcado, malditas características. Eu costumava dizer que ele era uma “pequena grande criança adulta”, devido ao seu temperamento, um equilíbrio quase que perfeito entre adulto e criança.

Nós estávamos no período de física, revisando circuitos elétricos. Chatice. E, como em todas as aulas da maldita física, eu tentava olhar para frente e prestar atenção, mas meus olhos eram chamados para outro lugar. Como se existisse um campo elétrico me puxando para aquele lado.

Eu estava escorado na parede, dividindo a minha atenção entre duas linhas de raciocínio. Uma delas era em como aquele guri era bonito, e a outra era sobre o fato de eu ser um idiota por ter um amor platônico por alguém que nem fala comigo. Bufei.

- Pensando nele? – Kevin era um daqueles tipos de amigos que sabem o que tu estás pensando sem haver um diálogo direto. Ele estava sentado ao meu lado, já que sentamos em dupla no colégio.

- Sempre. Eu não consigo parar de pensar “naquilo”. – Desencostei-me da parede e virei para frente, apoiando minha cabeça nas mãos. – Sou apaixonado por alguém que eu tecnicamente nem conheço. – Falei em tom baixo, mas evidenciando a tristeza.

- Tu estás assim desde o começo do ano, estou começando a me cansar.

- E o que tu queres que eu faça. Diferente de mim tu já estás namorando há meia década com uma guria perfeita. – Me irritei um pouco, mas não aumentei o tom de voz para não atrapalhar a aula.

- Meia década é muito tempo, será que eu ela duramos tanto tempo?

- Vou te espancar Kevin.

- E por que tu não falas com ele mesmo?

-Quantas vezes a gente teve está discussão?

- Sei lá, umas nove vezes?

- E adiantou?

- Não. Bixa do jeito que tu és.

- Obrigado Kevin. – Revirei os olhos

O sinal tocou, todos da classe começaram a guardar seus materiais e a colocar sua mochila nas costas, saindo da sala. Eu me levantei, entreguei para Kevin um livro que ele havia me pedido e me despedi.

- Obrigado pelo livro, quando eu te devolvo?

- Quando tu terminares de ler.

- Vai demorar então. – Nós rimos e ele o guardou na mochila.

- Ok, sem pressa.

- Tudo bem, e pensa com carinho no que a gente vem discutindo há quatro meses.

Dei as costas para ele e caminhei até o corredor. Minha mente vagava por mundos estranhos e complexos que me salvavam deste caótico universo físico. Nestes mundos eu não conhecia a língua e não conhecia as pessoas, eles eram diferentes de tudo que existe.

Resolvi ir ao banheiro, que era exatamente em frente a minha sala, só que no final do corredor. Entrei e fui até a pia, jogando um pouco de água em minha face. Fechei os olhos e abaixei a cabeça. Mesmo pensando em algo diferente eu me sentia sozinho, perdido, como se minha vida estivesse sendo vivida no modo automático, em que eu não tinha consciência do que fazia. Tudo era impulsivo, eu não tinha vontade de continuar jogando este jogo, a não ser que meu prêmio fosse aquele ser. Suspirei.

Ainda cabisbaixo notei que alguém havia aberto a porta e entrado no banheiro, mas continuei como estava, com os olhos fechados sob a pia. Segundos depois senti um braço circundando minha cintura, seguida por uma forte vontade de chorar. Mas eu não podia, eu nem conhecia o meu suposto “cavalheiro”.

- Fê, está tudo bem?

Aquela voz foi como um choque para o meus músculos. Eu fiquei rígido e minha mente travou. Michael estava lá, ao meu lado, tocando a minha cintura, se preocupando comigo. Ergui o meu corpo arqueado e olhei em seus olhos.

- “Que guri bonito”. — Pensei.

- Não vou te mentir. Eu estou na fossa, com vontade de chorar. De me jogar em um fosso e dizer para quem passar jogar moedinhas em mim.

- Calma Fê, vai ficar tudo tranquilo, seja lá o que for tu vai superar. Vem cá, me dá um abraço.

Abracei aquele ser que era vinte centímetros mais baixo que eu, não que isso tenha atrapalhado alguma vez minha imaginação. O abraço foi rápido e indolor, mas confesso que se dependesse de mim, eu ficaria abraçado com ele por muito mais tempo.

- Obrigado. – Eu estava vermelho, mas ele não tinha notado.

- Não te esquece, sempre que precisar, pode contar comigo ok? E vê se fica feliz.

Ele deu as costas e saiu do banheiro, me deixando plantado ali. Tudo bem que aquilo não significava muito pra ele, mas pra mim foi como um soco no estômago. Não sei se me ajudou ou tornou as coisas piores, só sei que depois daquilo o meu mundo caiu.