Ensaio Sobre A Vida
13 j
Na manhã seguinte eu fui acordado com Sara cutucando meu braço, avisando que eu deveria acompanha-la para retirar o gesso. Eu não estava muito motivado, pelo fato de ter sido acordado e por ter de fazer fisioterapia. Saí da cama cambaleando e caminhamos juntos até a sala onde eu removeria o gesso.
A retirada dele foi rápida e indolor, mas confesso que o barulho da cerra me incomodava, parecia que ela estava destinada a rasgar minha pele. Logo que o procedimento terminou eu fui para a sala de fisioterapia e lá reaprendi a andar. Meus passos eram firmes e rápidos, deixando a fisioterapeuta impressionada.
- Acho que você não vai precisar ficar aqui no hospital, vai poder ir para casa e voltar apenas para fazer fisioterapia uma vez a cada dois dias. – Disse a mulher em um tom suave e amigável.
Eu fiquei feliz com a notícia já que, como as férias de inverno estavam chegando, eu poderia me divertir um pouco na praia. Tudo bem que era inverno e estaria frio, mas correr na areia é bom de qualquer jeito.
Caminhei de volta ao meu quarto, passando por corredores longos e brancos, cheio de pacientes e pessoas idosas muito simpáticas. Era divertido dar oi para eles, não existia o medo ou a vergonha de responder.
Continuei caminhando e, finalmente, cheguei a meu quarto. Assim que sentei na cama e liguei a televisão, Matt entrou no meu quarto e ficou me olhando.
- Eu ainda não sei o porquê de tu ficares me encarando quando me vê, e eu não tenho comida.
- Eu também não sei por que eu fico olhando para as pessoas, é involuntário. Ah, e eu não estou com fome, ainda. – Rimos.
- Mas então, qual o motivo de sua humilde visita?
- Tu fazes falta lá na sala. Sinto-me idiota falando coisas mais intelectuais com pessoas que não entendem, é estranho. – Ele sorriu. – Outra coisa, tu sabes como eu fico reparando nas pessoas né?
- Sim, o que aconteceu?
- Mika aconteceu.
- Como assim. – Olhei confuso.
- Desde que tu sofreste o acidente ele tem agido diferente, não presta atenção na aula, fica olhando para o teto e, sempre que alguém vem te visitar, ele é o primeiro a perguntar como tu estás. Ele já sabe de ti?
- Achei que eu já tinham te contado. Eu dei com a língua nos dentes uns dias antes do acidente, ele sabe sim.
- Pode ser este o motivo, assim como pode ser qualquer outra coisa.
- Adoro quando tu realmente és objetivo. – revirei os olhos.
Depois dos tópicos objetivos de Matt, nós ficamos conversando sobre assuntos aleatórios até que ouvimos o barulho da porta sendo aberta. Ajeitei-me na cama, assim como Matt tirou os pés de cima do criado mudo e vimos Mika entrando pela porta. Sorri.
- Oi bonitão. – Falei com certo entusiasmo.
Mika parou e encarou Matt por um curto tempo, indo apertar sua mão logo em seguida. Matt olhou em meus olhos expressando um tom de dúvida, mas deixamos tudo isso passar.
- Oi. – Disse ele timidamente. – Finalmente tirou o gesso. – Ele sorriu.
- É, o problema é que minha perna parece estar murcha.
- Falta de uso dos músculos, daqui a pouco ela cai. – Disse Matt tentando fazer graça. – Feios, eu irei até a lanchonete comer alguma coisa, pois o saco sem fundo aqui acabou de vibrar. Daqui a pouco eu volto, alguém quer alguma coisa.
- Não, obrigado. – Disse Mika logo em seguida.
- Eu aceito um suco de pêssego. – Respondi meio animado.
Matt saiu e bateu a porta. Eu e Mika ficamos nos olhando por um tempo, esperando que alguém iniciasse um diálogo ou que algo acontecesse. Ele se aproximou e sentou ao lado de minha cama, onde Matt estava sentado. Ele estava cabisbaixo, como se algo o atormentasse. Suas feições estavam caídas e seu olhar estava fixo. A respiração, lenta e pesada, denunciava medo, insegurança. Coloquei minha mão no ombro dele.
- Está tudo bem Mika?
- Fê, eu preciso contar uma coisa. – Fiquei encarando-o. – Fê, eu... – Sua frase foi interrompida pelo meu telefone que começou a tocar.
- Desculpa Mika. – Atendi o telefone. – Ah, oi mãe.
- Oi filhote, acabamos de receber uma ligação do hospital dizendo que tu estás liberado, tem alguém aí contigo? – A felicidade era evidente.
- Tem sim, dois seres. Por quê?
- Nós estamos arrumando tuas coisas para ir pra praia conosco, se quiser convidar algum deles, sem problemas.
- Ok, quando nós vamos?
- Hoje pelo meio dia.
- Mas falta 1h hora mãe. Está tão boa esta cama.
- Vai te catar. – Ela riu. – Daqui uma hora passamos aí.
- Ok. — desligamos o celular. – Mika, minha mãe disse que um de vocês podia ir pra praia comigo. Hoje, o problema é como tu irias. Estás afim?
- Bem, não sei, eu tenho que falar com a minha mãe. Mas antes, Fê, eu...
- Só tinha suco de morango, não te importa né? Outra coisa, isso aqui é um roubo, bah, tive que contar minhas moedas. Pelo menos estou sem fome. – Disse Matt interrompendo Mika.
Michael ficou encarando o chão novamente até que se levantou, nos cumprimentou e saiu pela porta. Eu abaixei minha cabeça e Matt tomou um gole de meu suco, fazendo um pequeno barulho.
- O que houve com Mika? – Perguntou Matt.
- Acho que ele queria me contar alguma coisa. Mas ele acabou não contando. – Mirei meu cobertor.
- Por quê? – Disse ele com suco na boca.
- Foi interrompido duas vezes.
- Ah, me desculpe. – Matt encarou o chão.
Fale com o autor