Eu estava com o corpo dolorido e minha cabeça latejava. Virei-me para o lado, peguei meu telefone e olhei a hora.
- Ai minha deusa! – Gritei.
Eu já havia passado do estado de “atrasado”. Levantei correndo da cama e engoli duas fatias de pão, deixando o banho para mais tarde. Dirigi-me ao cortpo de meu irmão e adentrei violentamente para xingá-lo por não ter me acordado, mas ele estava dormindo com fones no ouvido.
Revirei os olhos e sai correndo pela porta principal. Desci as escadas de uma forma meio imprudente, quase caindo no último lance. Corri durante as doze quadras que me separavam do colégio, mas meu físico não permitia isso, causando-me um mal estar devido a queda de pressão. Quando cheguei à última rua que cortava meu caminho eu não olhei para os dois lados e quase fui atropelado por um C4.
Desculpei-me com o motorista e continuei correndo rumo ao colégio. Atravessei um dos portões laterais e percorri o corredor da minha sala em tempo olímpico. Quando entrei na sala de aula encontrei Kevin sentando com um notebook sob a classe.
- Acordou atrasado? Estás ofegante.
- Que droga é essa? – Ignorei sua pergunta e apontei para o notebook.
- Eu cansei de usar caderno, agora sou “Hightec”.
- O professor não vai te deixar usar isso. – Falei ainda ofegante
- Vai sim, quer apostar. – Disse Kevin com um sorriso no rosto.
- Cinco reais. – Apertamos as mãos.
Como era de se esperar o professor, ao entrar na sala de aula, retirou o notebook de Kevin e o obrigou a pegar umas folhas e canetas emprestadas. E, graças ao professor, agora eu teria dinheiro para meu lanche no recreio.
Durante o percorrer das aulas minha concentração estava focada na matéria e não em Michael como de costume. Isso me causava muitas perguntas.
Depois dos três períodos exaustivos de aula o intervalo teve início. Fui até o banheiro e logo em seguida voltei, indo conversar com Lena e Kevin.
- Não acredito que ele te mandou um “recadinho” pelo twitter antes de tu sair. Que safado! – Lena estava prestes a ter um ataque.
- Quem disse isso pra ti? – Olhei meio pasmo.
- O Kevin.
- Fofoqueiro.
- Ele é bonitinho Fê? – Disse Kevin enquanto resolvia um cubo mágico em trinta e seis segundos e ignorava meu último comentário.
- Pelo que ele me disse, deve ser.
- Lena, deixa eu falar. – Eu não gostava quando Lena respondia por mim; o que acontecia com frequência. – Ele é sim, mas eu mal o conheço, e se ele for um sequestrador? – Eles me olharam com uma cara séria.
- Ele vai te ligar daqui a pouco. – Disse Kevin colocando a mão na testa como Chico Xavier.
- Duvido. – Falei em tom de desafio.
Logo após terminar minha frase monossilábica meu telefone começou a tocar. A música “Bla bla bla” inundou a sala e meu corpo gelou. Peguei o telefone e mirei Kevin com um olhar de pavor. Ele me olhou com um olhar de conquista, com a sobrancelha arqueada. Eu não possuía o numero que aparecia no visor do telefone, e isto me deixou com certa dúvida. Apertei o botão e o coloquei na orelha.
- Alô? – Perguntei meio acanhado
- Fernando?
- Sim?
- Hey, aqui é o Daniel, como estás? – Um leve tom de emoção podia ser notado em sua voz.
- E-eu estou legal. – Gaguejei. — Como tu descobriste meu número?
- Ah, é que ontem eu roubei teu celular e peguei o teu número.
- O quê! – Gritei com um tom de pânico.
- Calma Fê. – Ele riu. – Eu procurei na lista telefônica o número da tua casa, liguei para lá e disse que precisava falar contigo. Depois disso o rapaz que me atendeu, acho que era teu irmão, me disse teu número.
- Mesmo assim, ainda não estou acreditando nisso. – Ri de forma leve.
- Bem, eu não posso demorar muito porque estou trabalhando. Enfim, vai estar ocupado pela tarde?
- Eu tenho natação até às quinze horas, mas depois disso estou livre.
- Onde é a natação?
- No parque esportivo da Puc, por quê?
- Nada não. Eu tenho que ir, até depois.
- Até. — Desliguei o telefone celular e olhei para Lena e Kevin com uma cara de apavorado. Eu não conseguia compreender o que havia acontecido.
- Kevin! – Berrou Lena. – Me diz os seis números da Mega-sena agora! – Ela correu até a mesa e pegou algumas folhar para usar como anotação.
- Sou foda. – Disse Kevin enquanto dançava ainda sentado na cadeira.
- Como que tu fizeste isso? – Perguntei para ele com um olhar vago enquanto me sentava.
- Não sei, foi intuição. – Ele respondeu.
Depois deste caos Kevin citou para Lena os seis números da Mega-sena e eu saí da sala para beber um pouco de água. Depois de saciar minha sede no bebedouro virei-me e caminhei de volta para a sala, mas, quando estava quase chegando ao meu destino, esbarrei em uma pessoa.
- Desculpe. – Respondi meio acanhado.
- Foi nada Fê. – Aquela voz, doce e suave, Mika estava ali. – Aproveitando, eu queria te dizer uma coisa.
- Diga. – Corei.
- É, bem, sobre o que tu disseste sábado. É que...- Ele fez uma pausa. — Eu não queria te magoar, não quero te iludir, nem que tu fiques mal.
- Tudo bem. – Encarei o chão por um leve instante e ergui a cabeça para e olhá-lo nos olhos. – Eu já sabia que isso iria acontecer, mas quem sou eu para negar um sentimento. – Sorri.
Mika e eu seguimos caminhos opostos depois de nova pequena conversa. Eu fui para a sala e ele para o pátio. Confesso que escutar da boca de uma pessoa que tu gosta que vai acontecer nada, é realmente dolorido. Porém, esta dor, não me magoou tanto. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas, depois destes quatro meses, é como se meus sentimentos não estivessem voltados para ele.
Notas finais
Não sei o motivo de eu ter colocado ela... talvez fosse a música do dia. -qzão
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