Enquanto você me amar

3 O aniversário do Gui


Notas iniciais
"Harry deveria achar que ela era uma pinguça, que estava no fundo do poço. Ora... Mas o que importava o que ele pensava? Ele não era ninguém importante. E se ele ousasse abrir a boca grande dele para os outros..."


Por volta das onze horas, o Departamento de Jogos Mágicos estava em alvoroço. Com a Copa Mundial de Quadribol aproximando-se, podia-se perceber uma atmosfera tensa em todo o Ministério. Costumeiramente, cada departamento tratava de seus assuntos sem muitos problemas, mas durante a Copa existia um esforço em conjunto para que os trouxas não percebessem nada.

Rebeca estava sentada em sua mesa, procurando concentrar-se nas cartas que precisava escrever para as seleções que participariam da Copa. Sua cabeça latejava a cada toque da ponta da pena no pergaminho, tornando aquela tarefa quase impossível. E ela ainda teria o almoço com Erick... A jovem parou para esfregar os olhos, tentando esvair aquela sensação horrível de que o mundo estava girando. Foi interrompida quando um saco de papel caiu em cima de sua mesa, com um estalo. Ela ergueu os olhos: Henry estava parado à sua frente, ambas as mãos sobre a escrivaninha. Trazia no rosto um sorriso debochado, quase satisfeito.

– Agora você me deve uma. – ele anunciou, abrindo um sorriso branco triunfante para ela. A morena arqueou uma sobrancelha, abrindo o pacote.

– O que é? – perguntou, tirando de lá uma ampola com um líquido viscoso roxo em seu interior.

– A solução para sua ressaca. Fui ao apotecário e comprei para você.

Becky abriu o vidrinho, meio desconfiada, e o cheirou. Tinha cheiro de esgoto.

– Arrrgh! Merlim, que diabos tem aqui dentro?

– Receita secreta. Tome, confie em mim.

– Mas cheira esgoto!

Ele cruzou os braços.

– É pra ser eficiente, não para ser gostoso. Tome.

Apesar de suas diferenças e de estarem constantemente brigando, os irmãos mantinham uma boa relação. Se Erick falava que resolveria, não havia motivos para ela não tomar o remédio. Além disso, qualquer coisa que afastasse a sensação de hipogrifos trotando em sua cabeça valeria o esforço. A bruxa prendeu a respiração e tomou tudo de uma vez, engolindo rapidamente para sentir o mínimo do sabor possível. Era realmente horrível.

– Ai, que nojo... – ela gemeu, afundando o rosto das mãos com uma careta. Assim que o sabor começou a se dissipar, Rebeca sentiu sua cabeça ficar mais leve. Primeiro, as pontadas se foram. Em seguida, a sensação de náuseas. Ela respirou fundo, sentindo-se bem pela primeira vez naquela manhã.

– Eu disse. Bom, não é?

– É... Incrível! – a jovem voltava a olhar para ele, sem conseguir esconder o sorriso. – É por isso que você bebe tanto! – emendou rapidamente, sorrindo da cara de desgosto dele com o comentário.

– Há-há-há...Engraçadinha. Eu nem estou bebendo tanto assim.

– Tem razão. Você melhorou bastante recentemente. O próximo passo será se casar.

Aquele simples comentário foi o suficiente para fazer Henry se retrair, como um cão acuado.

– Nem pense! Além disso... A única mulher com quem eu me casaria seria com você, Bex. Você parece ser a única com alguma coisa na cabeça... – completou, fazendo a irmã rir. Em seguida girou sob os calcanhares, fazendo o caminho para fora da sala.

– Ah! – ele falou, voltando-se para ela pouco antes de encontrar a saída – Você vai no aniversário do Gui hoje?

– Hmm, claro. Não tenho motivos para não ir. Por quê?

Henry abriu outro sorriso safado.

– Nada. A gente se encontra lá. Bom trabalho, maninha.

– Para você também... – ela respondeu, balançando a cabeça negativamente e voltando, aliviada, à suas cartas.

***


Por volta das 19, o Chalé das Conchas estava em alvoroço: por toda parte podiam-se ver cabeças ruivas – grandes ou pequenas – correndo para todos os lados. O senhor Weasley montava uma enorme tenda sobre as pedras miúdas que se estendiam por toda a costa e Molly, sua esposa, ajudava Gina a pendurar os enfeites. Bex apareceu com um estalo em frente a pequena cabana, levando consigo uma pilha de cinco caixas de cerveja amanteigada. A morena agitou a varinha, fazendo as caixas de bebida flutuarem para dentro do Chalé e as seguiu.

O interior do chalé exalava todo tipo de aromas típicos de uma festa Weasley: haviam tortas de abóboras, chás de frutas, salgadinhos de queixo e cones coloridos. Em um canto da sala, Hugo, Rosa e Victoire observavam, entediadas, os adultos correrem de um lado para o outro.

– Tia Becky! – as crianças gritaram, em uníssono. Rebeca só teve tempo para ver duas cabeças ruivas e uma platinada correndo em sua direção. Em seguida sentiu os bracinhos delas em suas pernas, fazendo-a rir.

– Meu amores! – respondeu, abaixando-se para abraça-los – Titia estava com saudade. Vocês se comportaram?

– Eu me comportei! – a primeira a falar foi Victoire, erguendo seu dedinho indicador pálido. A menina tinha quase sete anos e cabelos muito louros, que contrastavam com seus enormes olhos castanhos. Às vezes Becky podia jurar que havia algo de veela nela também, assim como em sua mãe.

– Eu também! – interrompeu Rosa, sendo seguida por Hugo, que se contentou em bater palmas, extasiado. A morena riu, aproximando-se dos meninos para confidenciar algo.

– Titia trouxe sapos de chocolates para vocês. Por que não vão se sentar para abri-los? – perguntou, entregando aos meninos uma sacola colorida, repleta de doces. As crianças gritaram e saíram em disparada pela casa, passando por baixo dos braços de Rony, que agora voltava dos fundos com uma pilha de pratos. Hermione vinha logo atrás, carregando dois sacos de copos descartáveis vermelhos.

– Becky! – chamou, aproximando-se para abraçar a amiga – Que bom que chegou! Eu falei com o Rony que deveríamos ter te consultado, mas ele não me ouviu.

– Eu não podia fazer nada. Ele quis vir e Gui é amigo dele também. Não me envolva nessa história! – o ruivo defendeu-se antes que Rebeca pudesse lhe perguntar o que estava acontecendo. Mais rápido ainda Rony sumiu, levando os pratos até a tenda montada no lado exterior.

Hermione o fitou, arqueando as sobrancelhas como sempre fazia quando não aprovava uma situação. A morena observou Rony se afastar, voltando a olhar a amiga em seguida. Mas antes que pudesse perguntar o que estava acontecendo, Fleur surgiu, limpando as mãos em um pano de prato.

– Bécccky! Que bom que chégou. E obrrrigada pelos sapos, Victoire está obcecada em encontrrrar a figurrrinha com Dumblédoure.– comentou, observando as crianças tentarem apanhar um sapo que agora pulava pela mesinha de centro. Dos três, Hugo é que o parecia mais empolgado, soltando gargalhadas contagiosas a cada sapo novo que as meninas mais velhas abriam.

Rebeca sorriu, mas antes que pudesse responder foi interrompida novamente.

– Viu onde o Harry foi? Pedi a ele que buscasse as cadeirrras lá trás, mas ele sumiu e… Oh, aí está você! Harry, se importarrria em ajudar Jorge a levar as cadeirrras lá para fora?

Harry. A simples menção daquele nome foi suficiente para fazer uma onda fria rolar por seu estômago. Já fazia quase um ano desde a última vez em que se viram, no aniversário de Rosa. A morena virou-se devagar: e foi aí que o viu.

Início do Flash-Back – Madrugada da noite anterior.

Harry saltou da cabine telefônica e caminhou em passos largos pela rua. Não que ele fosse super dedicado, mas naquele dia havia ficado especialmente até mais tarde no trabalho. Em breve teriam mais uma edição da Copa Mundial de Quadribol e nenhum departamento estava imune às toneladas de trabalho que antecediam o evento. Ele deu a volta em um quarteirão mal iluminado, procurando o beco escuro que sempre utilizara para aparatar. Foi aí que a viu.

Em baixo de uma lâmpada falha, uma mulher de costas para a rua segurava firmemente um pedaço de madeira, olhando para o objeto de forma excepcionalmente concentrada.

– Hmmmm não, não... Era.... Hmmm...

Ele chegou mais perto, devagar. Reconheceria aquela silhueta em qualquer lugar: Becky estava do lado de fora do Caldeirão Furado, mas na saída trouxa. Já era bem tarde da noite e o bar estava fechado. Conhecendo-a como conhecia, ela jamais ficaria na área trouxa encarando a varinha daquela forma. Era perigoso demais. Tinha alguma coisa errada.

– Bex...? Você está bem? – ele chamou, mantendo certa distância. A jovem levou um susto e virou para ele de uma vez. Com o movimento o equilíbrio dela vacilou e ela teve que se apoiar na parede para não cair.

– Ah, não! – ela resmungou, parecendo muito aborrecida. – Eu estava quase lembrando. Agora vou ter que lembrar tudo de novo.

Harry coçou a barba por fazer, tentando entender.

– O que você estava quase lembrando?

– Para ir para casa, dãããã – a bruxa respondeu, sacudindo a varinha no ar em um movimento exagerado. Harry arqueou as sobrancelhas: jamais havia visto Rebeca Loover bêbada.

– Aparatar, você quer dizer?

– Isso! – ela respondeu, sacudindo a varinha na direção dele. – Obrigada. Agora eu vou... – a morena levantou a varinha e a apontou para o alto, como se fosse a estátua da liberdade. Harry teve um péssimo pressentimento. Antes que pudesse prosseguir ele avançou até ela, puxando a varinha de sua mão.

– Hey, me devolve! — ela protestou, tentando recuperar o objeto. Seu equilíbrio falhou e ela vacilou, caindo na direção dele. Por instinto o homem a segurou, puxando-a para cima pela cintura. Os rostos deles pararam acirrados.

– Desculpe Bex, mas não acho que você esteja em condições de fazer isso. – a voz dele soou rouca e Harry surpreendeu-se por aquilo. A mulher apoiou-se no ombro dele, buscando equilíbrio.

– Eu estou em condições de fazer tu-do. Tudo. Tudinho. – respondeu, começando a rir.

– É, estou vendo...

Harry olhou ao redor: eles estavam sozinhos. Não importava o que ela estivesse fazendo ali, ou com quem estivesse, essa pessoa havia se mandado. E Rebeca definitivamente não estava em condições de aparatar sozinha. Ela provavelmente estruncharia na minha tentativa.

– Você está sozinha? Onde está seu irmão? – perguntou, segurando-a com mais força para que ela pudesse olhar em seus olhos. A bruxa subiu os olhos mel até ele, fitando-o com um ar magoado.

– Não sei. Ele não quis vir. Ele não gosta do Erick – respondeu, franzindo os lábios em um biquinho – Nem eu gosto... E eu não gosto de você. – choramingou, sentida.

Harry permaneceu calado, analisando a situação. Aquela era a primeira vez em anos em que conversavam, embora aquilo não fosse exatamente uma conversa. Sempre que se encontravam, ela parecia disposta a cortar qualquer tentativa de aproximação dele. Ele suspirou: haviam tantos desentendimentos entre eles... Seria tudo mais fácil se ela fosse menos orgulhosa e cabeça dura. O bruxo respirou fundo, enfiando a varinha dela no próprio bolso.

– Vem Bex. Eu vou te levar pra casa. – respondeu, conduzindo-a para um canto escuro da calçada. Aos tropeções ela o acompanhou, rindo de alguma coisa muito engraçada relacionada aos tijolos da parede.

– Você não presta! – ela comentou, rindo. Ele arqueou uma sobrancelha e a puxou pela cintura, oferecendo apoio enquanto ela cambaleava pela calçada.

– Como é que é?!

– Está se aproveitando de mim.– concluiu com um sorriso malicioso, enquanto ele a puxava para dentro de um beco escuro. Harry revirou os olhos – Hmmm não me olhe assim. – o dedinho dela passeou pelo maxilar dele, enquanto empinava o rosto, aproximando os lábios dos dele – Você sabe que eu estou falando a verdade. – respondeu em um sussurro, começando a rir em seguida.

Eles se encararam por um segundo.

– Estou apenas te levando em casa.

– É o mínimo, depois de me terminar comigo daquele jeito perto da formatura. – ela agora parecia sentida. Devagar encostou-se na parede e olhou para cima: o céu estava estrelado e brilhante, como um manto de pedras preciosas. Fez-se silêncio. – Eu acho que chorei todas as noites até dormir, durante uns três meses. – confessou, piscando devagar.

Os olhos dela baixaram do céu ao rosto do homem. Inesperadamente, Harry não parecia mais irritado com ela. Seus olhos verde esmeralda fitavam o rosto dela em uma expressão que ela não conseguia definir. Sem saber como reagir àquilo ela estendeu a mão, segurando a dele.

– Você disse que ia me levar para casa.

Ele continuou em silêncio, sentindo os dedos pequenos dela. Estavam frios e tremiam um pouco. Sem falar nada ele se aproximou, cedendo ao impulso de abraça-la pela cintura. Surpreendeu-se ao perceber que o corpo inteiro dela estremeceu. Então puxou a varinha e aparatou.

Final do Flash-Back

Hermione passou por eles, abrindo caminho como se fugisse dos comensais, fazendo Rebeca despertar do devaneio. Todas as peças da noite anterior que haviam sido perdidas pelo álcool pareciam voltar de uma vez, como que atraídas pelo feitiço accio. Harry havia à levado para casa. Ele havia subido as escadas com ela quando Henry ouviu a movimentação e acordou. Ela estava tão bêbada que mal conseguia andar sozinha. A moça sentiu o sangue subir pelo pescoço. Oh, céus. Ela não conseguiria olhar mais para ele, não depois de saber que havia dito coisas que não admitiria nem sob tortura. Oh, céus! Onde ela havia se metido? Por um segundo, a jovem focalizou o chão, desejando com todo o coração que este se abrisse e a engolisse viva. Aquilo não poderia estar acontecendo. O silêncio entre eles estava se tornando palpável. Alguém precisava fazer alguma coisa. “Socorro? Alguém?” gritava mentalmente, esperando que qualquer um aparecesse. Qualquer um. Onde estava o inútil do Henry, quando se precisava dele? Sem saída ela ergueu o rosto. Seria rápida e acabaria logo com aquilo.

– Oi, Harry. – cumprimentou, passando o olhar pelo rosto dele por uma fração de segundo.

Harry trajava uma calça jeans e suéter cinza, realçando a cor de seus olhos. O bruxo ajeitou a armação redonda no rosto e sorriu: estava parado exatamente no meio da porta, em um local estrategicamente estudado durante toda a manhã.

– Oi, Becky. – ele respondeu, colocando a mão direita no bolso e levando a esquerda à nuca, como se procurasse esvair a tensão. Rebeca o fitou no exato momento, deixando escapar um sorriso que ela não queria dar: adorava quando ele fazia aquilo.

Silêncio.

A morena cruzou os braços e girou o rosto, procurando pelas crianças. Sua estratégia era ficar com elas até a festa acabar. Talvez assim, ela conseguisse esquecer a incrível burrada que cometera na noite anterior. Harry deveria achar que ela era uma pinguça, que estava no fundo do poço. Ora... Mas o que importava o que ele pensava? Ele não era ninguém importante. E se ele ousasse abrir a boca grande dele para os outros... A morena bufou, sentindo-se fortalecida pela raiva. Ai de Harry Potter, se soltasse por aí o ocorrido na noite anterior.

Ter aquilo em mente a ajudou a não reparar em como ele estava bonito e que em sua mão esquerda não havia nenhuma aliança de compromisso. Pensar naquilo a fez sorrir mais uma vez: nunca imaginou que se sentiria tão bem ao saber que uma pessoa estava encalhada.

Harry a observou sorrir e tentou dar o primeiro passo rumo a uma conversa amigável.

– Qual é a graça? – perguntou, curvando os lábios em um sorriso curioso.

– Estava pensando em como seria se eu te transformasse em uma coruja. Corujas ocupam menos espaço e você está no meio do caminho. – respondeu, ríspida. Por que diabos ela havia sido tão mal educada com ele? Becky não entendia, mas havia algo na presença dele que a incomodava profundamente. Hugo, que acabara de voltar da sala com a boca toda suja de chocolate, fatavelmente captou o exato momento da conversa e começou a bater palmas, empolgadíssimo com aquilo.

– Coruja, coruja! Tio “Hau” é coruja! – dizia, agitando seus bracinhos no ar, em uma gargalhada contagiosa. Rebeca riu e se abaixou, pegando o garoto no colo.

– Desculpe, Harry. – pediu, erguendo o menino no ar e o apoiando na lateral do quadril – Bom, foi ótimo te ver e tudo mais, mas se não se importa… – respondeu, avançando na tentativa de passar por ele. O moreno arqueou as sobrancelhas, observando-a passar. No último instante, ergueu o braço e o apoiou no batente da porta, bloqueando a saída. Becky respirou fundo. O rosto dela começava a ficar púrpura, como do tio Válter ficava todas as vezes em que Harry mencionava algo relacionado ao mundo mágico.

– Esta será uma longa noite, Rebeca Loover. – comentou, com um sorriso provocante. Então, antes que ela pudesse responder, soltou o braço, deixando-a passar.

Notas finais
Olááá meus amoures. Obrigada por terem chegado até aqui. Deixem suas sugestões para que eu possa melhorar, tá bom? x.o.x.o
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.