Empurrou as cobertas com força, pulou da cama e correu em direção ao banheiro do quarto, com as mãos nos lábios. Jogou a cabeça sobre a pia e vomitou. Já era a terceira vez em oito horas, mal conseguira dormir.


“Droga. Não devia ter misturado Cerveja Amanteigada com Margaritas.” – pensou, levantando o rosto.

Na noite anterior, Rebeca havia saído com as amigas para comemorar sua despedida de solteira. O que deveria ter sido uma "diversão inocente de garotas", acabou tornando-se uma noite desastrosa: ela nem se recordava de quantos copos tomara ou de como chegara em casa. Aliás, parando para pensar naquilo, em algum momento entre chegar em casa tropeçando nas coisas e pegar o pijama para dormir, lembra-se vagamente de ser amparada por alguém ao subir as escadas até o quarto. Alguém familiar. Balançou a cabeça levemente, esvaindo o pensando. Tinha coisas mais importantes no que pensar agora.

A morena olhou-se no espelho: tinha olheiras fundas, o rosto pálido e lábios em um tom bege-estou-de-porre. Como se não bastasse, o que um dia já fora seu cabelo, agora resumia-se à um emaranhado castanho denso, grudento, cheirando à cerveja e cigarro. Ela mais parecia um personagem saído do videoclipe Triller.


“Tenho que dar um jeito nisso. É só respirar fundo e rebocar a cara de base” – pensou otimista, procurando alguma coisa para vestir. Se trocaria e com um pouco de maquiagem, daria um jeito no rosto.

***


Ao descer as escadas, Becky viu sua mãe, Nicole, arrumando a mesa para o café. Ela trajava um vestido comprido azul e havia prendido os cabelos medianos em um rabo de cavalo. Nicole era brasileira, mas havia se mudado para a Escócia ainda pequena. Por isso, fizera questão que ao menos um de seus filhos também nascesse no Brasil. E a eleita havia sido Rebeca.


– Pensei em chamá-la, mas achei que deveria descansar. Venha, o café está na mesa. – a mãe chamou, colocando uma travessa de frutas sobre a mesa farta. Por um segundo, a moça estranhou o banquete matinal, sendo que apenas as duas tomariam café. Seu pai, John, estava viajando à negócios e seu irmão mais velho, Henry, dificilmente comia algo pela manhã. Mas como ela estava com preguiça de perguntar o que estava acontecendo, resolveu deixar por isso mesmo.

– Obrigada mãe, mais já vou. Estou super atrasada. – respondeu rapidamente, apanhando uma maçã em cima da mesa e tentando enfiá-la na maleta retangular que carregava. Abaixou o rosto para colocá-la na pasta e BUM, uma dor de cabeça terrível a golpeou como um balaço.

– Vomitou de novo? – a mãe interrompeu, aproximando-se dela. A jovem respirou fundo e concentrou-se em não surtar naquele momento, permitindo que sua mãe puxasse o canto inferior de seus olhos, examinando-os. Ela estava com pressa, porque havia combinado de encontrar Erick, seu noivo, no horário do almoço. Precisava chegar no Ministério e começar a trabalhar logo ou se atrasaria. E Erick detestava atrasos.

Rebeca não ria muito com Erick, mas ao menos ao lado dele sentia-se segura. Ele era sério, introspectivo. Trabalhava muito e eram raras as vezes em que se falavam durante a semana. Mas isso não a incomodava. Para ser sincera, ela podia dizer que não sentia falta dele. Era livre e sentia-se dona de seu nariz, independente de qualquer homem: isso lhe trazia segurança, algo essencial em sua opinião.

“É esse tipo de relacionamento que procuro”– pensava, todas às vezes que alguém questionava o futuro do relacionamento –“Assim tenho certeza de que não sofrerei por amor. Nunca mais me sentirei de pés e mãos atados. E não estarei sozinha também”.

A mãe dela a soltou, esperando por uma resposta.

– Mais duas vezes. – respondeu, abaixando o rosto novamente e BUM, o balaço de novo. Começou a mexer no trinco da maleta, tentando fazer a maçã redonda caber lá dentro de algum jeito.

– Ela é redonda, caso não tenha percebido. – uma nova voz ecoou no ambiente. A bruxa ergueu o rosto com um sorrisinho cínico: seu irmão, Henry, descia as escadas trajando um terno escuro coberto por uma capa. Ao que tudo indicava, estava pronto para seu trabalho como Auror.

Henry era dois anos mais velho que ela e, embora fossem irmãos, não tinham quase nada em comum. Enquanto ele tinha 1,90m e olhos azuis intensos, Rebeca com seus olhos cor de mel não passava dos 1,70m. Ele era calmo, debochado e boêmio. Ela era agitada, mandona e dotada de uma personalidade forte. Ele era uma cópia perfeita do pai. Ela, da mãe.

– Não me diga! Troféu trasgo de ouro para você, por sua inteligência sobrenatural. – respondeu irônica, agora forçando o trinco. Henry sorriu de lado. Um sorriso safado e capaz de deixar 90% das mulheres aos seus pés. Ele era bonito e fazia uso disso sem o menor caráter.

– Toda aquela orgia acabou com você, não foi? – provocou, rodopiando a varinha entre os dedos como se fosse uma pistola de cowboy.

– Não teve “orgia”. Estávamos no Caldeirão Furado. Foram só drinques. – ela se defendeu, lhe devolvendo um olhar entediado.

– Isso explica porque sua cara está horrível... – o louro rebateu, pegando uma xícara e se servindo de chá.

– Ei vocês dois, parem agora mesmo! – a mãe interviu, prevenindo o pior. Foi inútil.

Os dedos de Becky deslizavam frenéticos pelo trinco até que ela bufou, tirando a maçã e enfiando em baixo do braço enquanto fechava a maleta. Iria levar a fruta na mão mesmo.

– Nem todos foram agraciados com seus olhos azuis e seus cabelos louros, Henry. – a morena rebateu, revirando os olhos enquanto caminhava até a lareira. O homem arqueou as sobrancelhas.

– Hey, já vai? – Inesperadamente, ele parecia querer que ela ficasse.

– Sim, quero me livrar de sua adorável companhia.

– Não podemos ter um café da manhã em família?

– Nós trabalhos juntos, esqueceu? Você me verá novamente daqui dez minutos.

– Mas vai perder o melhor do café da manhã...

Há esta altura, Rebeca já estava dentro da lareira com uma maleta em uma mão, uma maçã no sovaco e um pó esverdeado em outra mão. Ela não havia entendido o que ele queria dizer com “Vai perder o melhor do café da manhã”, mas ele era tão idiota que nem valia à pena perguntar. As chamas da lareira ficaram verdes e de repente ela não estava mais lá.

O bruxo puxou uma cadeira e sentou-se de forma desleixada, apanhando um pêssego e dando uma boa mordida.

– Mulheres... São um problema. – comentou para si, observando sua mordida na fruta.

Nicole repousou a xícara com elegância sobre o pires de porcelana e sorriu, como se soubesse de algo que a filha não sabia.

– Não diga isso. Sua irmã só estava com pressa... – respondeu, virando o rosto em direção à cozinha – E você, aceita uma xícara de chá, querido? É o mínimo que posso fazer por trazê-la para casa em segurança ontem à noite.

Um homem alto de olhos verdes surgiu da porta estreita da cozinha, trazendo consigo uma fornada fumegante de bolinhos de abóbora. Ele os colocou de forma meio desajeitada sobre a mesa, parando para arrumar os óculos de armação redonda no caminho. Nicole apressou-se em encher outra xícara até a borda, ignorando o fato dele ainda não ter aceito o convite. Em seguida completou – Venha, sente-se Harry. Temos muito a conversar.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui! :) A partir do próximo capítulo, as coisas começam a esquentar.