Enquanto sua sombra vem
2 Primeiro Encontro
Embora as janelas estivessem meio embaçadas, eu ainda conseguia ver a lua se erguendo bem alto no céu, irradiando sua luz sobre a cidade silenciosa. Sempre que eu olhava para fora daquele pequeno refúgio, tinha a sensação de que eu era a única pessoa desperta no mundo. No exterior, a luminosidade era ínfima e os os sons quase não chegavam até mim. Talvez, por causa disso, que frequentar esse lugar tinha se tornado um hábito.
Era uma loja de conveniências, daquelas que existem em quase todos os postos de gasolina. Eu a havia descoberto ocasionalmente e aprendera a gostar daqui porque o rapaz (Miguel, segundo seu crachá) que cuidava do caixa durante a noite costumava ouvir músicas que me agradavam. A invisibilidade espiritual me permitia dançar por todo estabelecimento sem ser percebida e, normalmente, essa era a coisa mais divertida do meu dia.
Eu também apreciava a tranquilidade de Miguel. Não sei se era por causa do horário, mas ele não costumava ser barulhento ou irritante como as outras pessoas vivas. A maior parte do tempo, ele simplesmente cochilava ou jogava em seu celular, cantarolando baixinho ou comendo salgadinhos. Vez ou outra, ele pegava um par de óculos escuros do mostruário e imitava o Tom Cruise naquele filme antigo, enquanto dançava agarrado a um esfregão.
Essa era uma das noites em que ele estava dormindo.
Por causa disso, o grupo de adolescentes que adentrou a loja parecia ser muito mais barulhento do que realmente era. Miguel despertou com um salto e tentou fingir que não tinha pegado no sono, abrindo um sorriso. Os adolescentes passaram por ele sem lhe dar muita atenção e se dirigiram até o fundo da loja, indo abastecer algumas cestas com salgadinhos e bebidas.
Normalmente eu os teria ignorado, mas não daquela vez. Um garoto havia me chamado atenção.
Possuía olhos azulados e lábios perfeitos. Era esguio, com cabelos negros e encaracolados e usava uma jaqueta de couro. Devia ter cerca de vinte anos, o que fazia dele o mais velho do grupo. Pude notar que ele se divertia bem menos do que os demais. Eu franzi o cenho. Aquele rapaz me era familiar, quase como se lembrasse alguém que eu conhecia, embora eu não soubesse exatamente quem era. Talvez eu o tivesse conhecido em vida, talvez eu tivesse esbarrado com ele na morte. Em todo caso, eu o conhecia e isso tornada a sensação que o cercava ainda mais angustiante. Havia algo errado, algo tenebrosamente errado.
Eu o segui de perto. Cruzei as estantes com meu corpo imaterial e fiquei bem próxima. Ele exalava um odor estranho e forte. Eu não costumo sentir cheiros, exceto em uma ocasião.
Aquele garoto ia morrer.
Uma sensação estranha atravessou minha espinha e eu senti como se uma mão invisível e forte tivesse me agarrado pela garganta. A morte também incomodava aqueles que já partiram.
Eu não tive muito tempo para pensar a respeito, pois logo em seguida um homem alto e estranho adentrou a loja. Tinha o maxilar quadrado e o nariz adunco. Andava como se algo incomodasse sua cintura e eu engoli em seco quando percebi que havia uma arma enfiada em sua calça.
O barulho do revolver sendo engatilhado soou alto como um grito, assustando a Miguel, assustando aos adolescentes, assustando a mim. Ele apontou a arma para nós, depois para Miguel e para nós outra vez.
— Todo mundo para o chão! Isso é um assalto! — ordenou. Apontou a arma para Miguel antes que ele pudesse se abaixar. — Você não. Me passa o dinheiro do caixa, anda!
Com os dedos trêmulos, Miguel abriu a gaveta da caixa registradora e colocou todo o dinheiro sobre o balcão. Não havia muito mais que umas notas miúdas e algumas moedas. O ladrão não pareceu muito satisfeito. Mandou que Miguel deitasse no chão e exigiu a carteira e os celulares de todos que estavam ali. Tremendo em um canto, eu observei o bandido abaixar e recolher seus espólios, enfiando-os no bolso interno da jaqueta. Com o canto do olho, eu vi a mão de Miguel se erguendo e pressionando o botão embaixo do caixa. A polícia logo chegaria.
Foi então que tudo deu errado. No silêncio tenso, um gemido baixo, mas claramente audível, quebrou o clima. Vinha de uma garota, a única mulher entre os amigos. Num instante, o ladrão se deu conta que havia uma presença feminina no local. Ela estava agachada em um pequeno espaço entre o freezer e as caixas no fundo, escondida de forma que passaria despercebida se os seus lábios não a tivessem traído.
Tomado por um instinto animal e burro, ele a agarrou com o braço forte e a obrigou a se levantar. Empurrou-a com força contra uma estante e, com terror, eu o vi escostando o cano da arma em seu maxilar.
O punho cruzou o ar mais rápido que meu raciocínio. Espantada, eu reconheci o garoto de olhos azuis. Ele estava de pé, a mão que usara para socar o ladrão ainda estava meio levantada. O sujeito largou a garota, que saiu correndo para atrás do balcão, e saltou sobre seu agressor. Os dois começaram a se engalfinhar, trocando pancadas. O garoto agarrou fortemente a arma do homem com as duas mãos e este lhe desferiu violentos golpes nas costas. Eles se empurraram, bateram na estante e caíram em uma confusão de mãos e braços se agitando com fúria.
Então, eu ouvi o som do tiro. Em choque, eu percebi que o ladrão se preparava para levantar enquanto o garoto permanecia imóvel. Precipitadamente, eu tentei agarrar a estante, mesmo sabendo que eu não podia interferir nos objetos materiais ou tocar neles. Todas as minhas tentativas haviam falhado.
Exceto essa.
A estante se inclinou para frente e caiu pesadamente sobre o homem, derrubando todos os produtos que nela estavam e emitindo um som alto. Eu podia ouvir o som do carro de polícia lá fora e as luzes da viatura iluminaram toda loja. Eu estava surpresa demais para pensar.
Me aproximei do homem e percebi que não era só ele que eu havia prendido. O garoto estava tombado de lado e uma poça de sangue se formava ao seu redor. Os olhos azuis estavam vidrados em mim.
Eu abri a boca, estarrecida, quando percebi que seus olhos não estavam vazios. Ele me olhava. Ele sabia que eu existia. Ele sabia que eu estava ali.
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