Nosso pequeno grupo se manteve silencioso ao longo do caminho de volta. Por um longo trecho, tudo que ouvi foi o farfalhar das folhas e o ruído dos nossos passos. O Cemitério do Bonfim tinha um ar diferente a noite. A luz tênue das luminárias pintava os túmulos com tons esverdeados e sombras alongadas, transformando a bela imagem que existia de manhã em algo mais sinistro.

Nosso entorno parecia lentamente estar ganhando vida. Notei que vários espíritos se faziam visíveis pela primeira vez, vagando entre as lápides. Se estavam voltando ou saindo de casa, eu não sabia. Eles não pareciam me ver de volta. Daniel não pareceu notar que, de repente, estavámos cercados de espectros.

— Gente. — Odette chamou, rompendo o silêncio com um meio sorriso nos lábios. — Acabei de me dar conta que eu esqueci de contar algo engraçado para vocês.

— O que é? — Daniel perguntou.

— Acho que vocês já conheciam a Berthe.

— Como assim? — foi a minha fez de perguntar.

— Existe em nossa cidade uma história muito antiga, de uma noiva que entrava em táxis desconhecidos no meio da noite e pedia para ser levada até sua casa. — Odette contou. — A casa, entretanto, era este cemitério.

— Nem fodendo. — Daniel riu. — Você não está querendo dizer que a Berthe é a Loira do Bonfim, né?

O choque estava estampado na minha cara.

— É verdade, Nim. Berthe é a origem da lenda.

Daniel se aproximou, curioso.

— Mas como? Quero dizer, ela não parece ser o tipo de fantasma que sai por aí assustando pessoas...

Odette soltou uma risada suave, seus olhos brilhando com um misto de diversão e tristeza.

— Berthe nunca teve intenção de assustar ninguém. Mas, veja bem, as histórias ganham vida própria com o passar do tempo. Como ela mesma disse, houve um momento em que ela tentou fugir disso aqui. Pelo que eu sei, um dia a senhorita Berthe decidiu sair e vagou pela cidade até ter dúvidas de como voltar para casa. O mundo tinha mudado demais desde a sua época, então ela acabou sentindo que não pertencia mais a civilização. Assim, ela acabou sendo ajudada por um taxista e, a partir daí, a lenda de uma loira sedutora e falecida começou a se espalhar feito fogo de palha.

— Considerando que ela é efetivamente muito bonita, duvido muito que ela tenha precisado fazer algo para que... a fama de sedutora se reproduzisse. — comentou Daniel.

— Há uma grande dose de exagero também. — Odette observou. — Homens ainda são homens, afinal.

— E ela não se incomoda? — perguntei, lembrando-me da aura tranquila e imponente de Berthe.

Odette deu de ombros.

— Acho que ela vê isso como parte de seu papel. Os Guardiões não apenas preservam memórias; às vezes, tornam-se parte delas.

Continuamos andando até que o pórtico do cemitério apareceu diante de nós, suas colunas desgastadas pelo tempo parecendo se curvar sob o peso da história. Odette parou de repente, como se uma barreira invisível a impedisse de ir além.

— Bom, aqui é o meu limite — disse ela, sua voz mais baixa do que o habitual.

Eu e Daniel nos viramos para ela. A ideia de deixá-la para trás era estranha, quase errada, depois de tudo que havíamos compartilhado naquele dia.

— Não se preocupem — continuou, lendo nossos pensamentos. — Este é o lugar ao qual eu pertenço. Tudo que eu sou vive aqui. Mas vocês... — ela fez uma pausa, seus olhos pairando sobre mim por um instante mais longo. — Vocês têm um caminho muito longo a seguir.

— Obrigada, Odette — murmurei, sentindo um nó na garganta.

— Boa sorte, Nim. Boa sorte, Daniel. Estarei torcendo por vocês!

Daniel apertou a mão dela em um gesto meio desajeitado, mas sincero. Despedidas não eram o seu forte. Em seguida, ele sacou as chaves do bolso e se voltou para o carro, deixando-me a sós por um momento com Odette.

— Eu volto. — prometi.

Ela sorriu, mas não respondeu.

Foi a minha vez de virar as costas.

Quando entrei no carro, Daniel estava ocupado sintonizando o rádio com o celular. A música começou a tocar assim que ele deu partida e o ar se encheu com uma voz masculina cheia de substância e sentimento.

Ele lançou-me um olhar rápido.

Tears for Odette. — explicou. — Achei apropriado.

Sorri, embora ainda sentisse o peso do dia em meus ombros. Enquanto ele dirigia, o silêncio que crescia no espaço entre a música e ausência de diálogo não era desconfortável, mas reflexivo. Me limitei a olhar pela janela, para as luzes da cidade que brilhavam na distância, misturando-se à escuridão crescente.

Não consegui evitar pensar em Berthe, em Odette e em tudo que ainda nos esperava. A jornada parecia mais real agora, mais palpável, mas também mais assustadora.

Enquanto a música preenchia o espaço entre nós, eu me perguntei, mais uma vez, o que encontraria no final do rio.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.