Enquanto sua sombra vem

24 Anotação 3: Diário do Daniel


Enquanto eu crescia, fui aprendendo que fantasmas são seres da escuridão. Existem muitos culpados para isso. Literatura. Filmes de Hollywood. Minha tia Carlinha. Por causa disso, me surpreendi quando a convivência provou que Nim era muito mais do que trevas.

Ela podia ser meio escura sim, mas era pontilhada de luz. Isso era um detalhe tão bonito que era estranho que eu tivesse levado tanto tempo para notá-lo. Apesar de ser um espírito melancólico, perdido e faminto, Nim possuía uma personalidade maravilhosa e um ótimo senso de humor. Era inteligente de uma forma que as pessoas raramente o são, com um olhar tão singular sobre a vida que só podia partir mesmo de uma pessoa morta. E, é claro, ela tinha bom gosto musical. Era difícil não apreciar o conjunto da obra.

Na verdade, acho que quanto mais eu pensava, mais a comparava com a lua ou com um céu cheio de estrelas. Quer dizer, embora as trevas ainda estivessem visíveis, elas não eram tudo. A verdadeira beleza nasce quando você encontra paz na escuridão. Nim era exatamente isso e, por causa disso, muito mais bonita que qualquer astro celeste.

Assim como as estrelas, Nim sempre parecia me guiar para casa. Não no sentido físico da palavra, mas enquanto lar. Mesmo que às vezes fosse impossível terminar uma conversa sem termos vontade de nos enforcar, eu não conseguia mais imaginar como seria viver em um mundo que ela também não habitasse. Me amedrontava sempre que ela, com seus olhos castanhos e sábios, me fitava profundamente, como se estivesse perscrutando os recônditos desconhecidos da minha alma. Saber que ela tinha começado a me conhecer muito bem me assustava. Sou um homem, afinal, e como tal não fui treinado para me sentir compreendido.

Quanto mais eu penso a respeito, mais acho tudo isso encantador. E terrificante. Ou, melhor dizendo, terrivelmente atraente.

E existe um fato sobre garotas terrivelmente atraentes. Eu não sei lidar com elas.

— Você consegue falar com os animais? — perguntei um dia desses.

Tínhamos acabado de assistir Dr. Dolittle na Sessão da Tarde. Nim nunca tinha visto aquele filme, pelo menos não em morte, e tinha gostado bastante dele. Ela parecia tão entretida com a TV que eu impedi a mim mesmo de mudar de canal. No fim das contas, acabei me divertindo um pouco também.

— Como gatos de rua? — ela perguntou.

— Ou urubus. — completei.

— Não. Na verdade, nunca tentei. — ela ergueu uma sobrancelha para mim. — Não acho que um urubu falaria comigo.

— Acho que eles gostariam de você. — eu disse. — Quer dizer. Fantasmas tem tudo a ver com carniça e tal.

Em legítima defesa, eu só costumo me dar conta que estou falando merda depois que eu já falei. Isso acontecia com frequência perto de garotas bonitas. A parte boa é que Nim havia se tornado minha amiga o bastante para pensar que eu estava zoando com a cara dela. A parte ruim é que eu não sabia como parar.

Então, é claro, havia aquele programa. Mil maneiras de morrer. Evidentemente era um bom entretenimento, mesmo que fosse meio estranho assistir um programa desses com um fantasma.

— Esse é meio mórbido. — Nim comentou, embora seus olhos se mantivessem fixos na televisão.

— Fala sério! — repliquei. — Esse programa tem altíssima qualidade. Só não é melhor que aquele programa dos policiais procurando contrabando nas malas do aeroporto.

Nim assentiu.

— Eu também gosto muito daquele que acompanha a rotina dos policiais prendendo os bandidos cara de pau.

Meu único crime foi amar demais! — imitei.

Nim tinha um olhar divertido.

O meliante estava sendo preso pela posse de 250 quilos de cocaína. — ela respondeu, imitando a voz do narrador.

Nenhum de nós dois conseguiu evitar a risada.

O televisor ainda exibia mortes excêntricas. Um homem tinha morrido depois de tentar bater o recorde mundial de ingestão de vodka... pelo ânus. Uma mulher havia partido dessa para melhor depois de tentar realizar uma fantasia sexual do marido, descendo da sacada dos andares superiores de seu prédio até o seu apartamento vestida de Papai Noel.

— Quem em sã consciência tem fetiche no Papai Noel? — Nim perguntou. Havia um misto de indignação e divertimento em sua voz.

— Consigo pensar em duas ou três garotas que adoram idosos que dão presentes.

— Espero que não a ponto de cair de uma sacada enquanto desce por um lençol com a cara do Ben 10!

— Me parece meio idiota cair assim, de qualquer forma.

A risada dela não foi tão vivaz dessa vez, mas eu não conseguia dizer o que havia de errado. Estávamos nos divertindo. Nada podia estragar uma simples momento diante da televisão, certo?

Errado.

Nem eu sou páreo o suficiente para minha boca grande às vezes.

— Nim. — chamei quando o silêncio brevemente se instalou. — Como você morreu?

Observei toda a alegria desaparecer de sua face enquanto ela desviava os olhos da televisão e os voltava para mim. Ela respirou fundo, mesmo sem ter pulmões operantes. Notei em seus olhos que buscava as palavras corretas, mas elas nunca pareciam vir.

— Eu me matei.

Mil coisas me passaram pela cabeça. Eu poderia ter dito todas elas, mas escolhi a mais inteligente delas.

— Ah.

O silêncio tinha assumido as nuances do desconforto. O programa não parecia mais divertido.

— Você está falando sério? — perguntei.

— Sim. — ela suspirou. — Você levou bastante tempo para me perguntar.

— Achei que você não se lembrasse.

— Quando nos conhecemos, essa era a única memória que eu ainda tinha. O peso da morte sempre nos acompanha durante todo pós-vida.

Por um longo tempo, ninguém disse nada.

— Como?

Ela ajeitou no sofá, como se tivesse ficado meio desconfortável de repente. Achei que não fosse obter uma resposta, mas então ela umedeceu os lábios e me dirigiu um sorriso triste.

— Eu me joguei do quinto andar do prédio onde eu morava.

Havia tristeza em seus olhos, mas também um certo constrangimento. Automaticamente me senti culpado. Eu tinha acabado de dizer que aquilo era idiota.

— Olha, Nim. Eu não... — comecei.

— Está tudo bem. — ela me interrompeu com suavidade, como se já soubesse o que eu ia dizer. — Quer dizer, não acho que isso importe agora. Eu já estou morta.

É claro que importava, mas não sabia como demonstrar isso em palavras. Meu coração doía com uma dor pulsante e parecia que o chão tinha desapercebido sob os meus pés. Nunca estamos prontos para o fato de que as pessoas que nos importamos podem se destruir de um jeito profundo e implacável.

Nim era tão jovem. Ela provavelmente possuiu mil chances de ser feliz, mas não teve a possibilidade de aproveitar nenhuma. Aquela expressão em seus olhos... Era evidente que a sua tristeza havia lhe consumido até só restar a janela e a queda. Isso não era só uma pena. Pensar nisso fazia tudo doer mais.

Talvez pudéssemos ter nos conhecido antes que ela se tornasse uma sombra. Eu poderia entrelaçar meus dedos aos dela e dizer que ela era uma garota incrível. Mas agora não havia mais chances disso acontecer. Nim havia se destruído. E ao me dar conta disso, uma pequena parte de mim havia sido destruída também.

Continuei a sentir um gosto amargo em minha boca muitos dias depois dessa revelação. Meu peito ainda estava pesado. Num fez tudo que podia para tentar me animar. Inclusive, se desculpou várias vezes. Eu não tinha como perdoá-la porque não havia nada para ser perdoado. O sentimento em si era difícil de explicar e eu não sabia se ela seria capaz de me compreender.

Eu estava de luto por alguém que eu jamais conheci em vida.