Enquanto o Sol se Pôr
3 Visita Noturna
Eu sempre me perguntei como deveriam ser as amizades verdadeiras. Será que nelas não existiriam brigas? Eu nunca pude chamar ninguém de amigo... nunca mesmo. Mas eu queria muito ter um.
Já era noite, e eu estava recostado sobre o parapeito da janela, avistando a rua. O vento era bastante fresco ali. Os pensamentos rondavam minha cabeça por culpa de Maria. É que me vinha, de vez em quando, uma vontade súbita de que ela aparecesse ali no meu jardim, me gritando, com aquele sorriso único. Eu queria tanto a amizade dela, é engraçado como uma tarde pode fazer diferença na vida de uma pessoa. Aquela tarde com ela...
Naquele momento alguém atravessou o meu jardim, saindo pra rua, era meu pai. Com certeza antes do outro dia ele não chegaria. A casa era nova, mas a rotina era a mesma. Sempre saía e voltava no outro dia, sabe lá Deus o que ele estaria fazendo. A minha mãe já estava acostumada, eu estava indo pro mesmo caminho, não me fazia muita diferença se ele voltaria no outro dia ou não aparecesse mais.
Mesmo que minha mãe insistisse com as torradas com geléia, eu não estava muito afim de come-las. Estavam duras demais. Ela nunca fora boa em torradas. Eu fiquei deitado no colchão... espiando as estrelas. Uns biscoitos salgados me fizeram companhia, e parecia que meu lanche ficaria naquilo mesmo. Por falar em lanches, até naquela hora eu não havia tido notícias do Rodrigo, o entregador de comida japonesa. Talvez ele tivesse ficado com raiva de eu o deixar esperando aqui em casa, quando eu saí, e não apareci a tarde toda. A culpa não tinha sido minha mesmo.
Tenho certeza que fiquei ali no colchão, na mesma posição por nada menos que umas três horas. Se minha mãe estivesse por perto iria achar que eu estivesse doente, como sempre. Mas aquele era o meu normal. Era bom pra passar o tempo, bom pra descansar, e principalmente pra pensar. Era a minha forma de meditação diária.
Lá em baixo minha mãe parecia destruir a sala, era uma barulheira de pratos, de televisão e de pisadas pesadas pra tudo que é lado. Eu torcia pra que um dia ela desmaiasse no sofá toda vez que o sol se pusesse, assim eu poderia ficar tranqüilo pra dormir, mas enquanto isso não acontecia eu tinha que escutar tudo. Naquele momento era uns sons muito estranhos, de madeira sendo arremessada numa parede... bem, era o que parecia.
Mas em meio aquele barulho, um pareceu mais alto, ou talvez mais perto. Levantei a minha cabeça pra escutar melhor. Parecia que vinha dali do quarto.
_Marcos! – Era da janela, tinha alguém lá
Eu assustei e franzi a testa, sentei como se tivesse acabado de receber um choque. Minha vista demorou a avistar aqueles cabelos loiros. Era o Rodrigo, sorridente, pendurado na minha janela.
_Cara... você é... você é doido? – Eu perguntei sem medir palavras, eu realmente havia me assustado muito _ Não conhece a porta não?
Ele saltou pra dentro do quarto, ainda sorrindo.
_Me deu um bolo hoje, não é?- Me disse vindo pro meu lado, as mãos nos bolsos da calça
Eu ainda não podia crer naquilo tudo.
_Eu... tive que sair... Cara, o que você ta fazendo aqui?
Ele se sentou no colchão.
_Você é engraçado. A gente não é amigo? Vim te visitar...
Eu olhei pra ele, a gente não era amigo. Era? Se era eu nem tinha me dado conta daquilo. Bem, ele só me entregou uma comida, uma noite antes... eo que mais? A gente não era amigo.
_Você podia usar a porta das outras vezes... porque, sei lá... a minha mãe é louca com essas coisas. Se ela ver você entrando pela janela, logo a polícia do bairro ta aqui no meu jardim, ou melhor, da cidade toda.
Rodrigo riu, passando a mão em alguns biscoitinhos que haviam caído no chão.
_Que maluca! – Ele se levantou e voltou para a janela; o Rodrigo era diferente, daquelas pessoas que você espera tudo, sabe, muito diferente de mim, muito mesmo, era estranho ver ele me tratando sempre como se eu fosse um amigo de infância, eu não me sentia tão à vontade perto dele, ele não era como Maria, me parecia um desconhecido, como exatamente devia ser quem você nunca havia visto antes
_Você veio aqui hoje, não é? – Eu perguntei, ainda sentado no colchão
Ele afirmou com a cabeça. Mas pareceu não importar muito com o assunto, e já emendou logo com outro.
_Você sabia que antes de você vir morar aqui, eu vinha bastante nesse quarto? – Ele me olhou com uma expressão nova, desafiadora, não entendi bem _Esta casa está fechada há muito tempo, e eu sempre pulava essa janela aqui, quase todo dia... às seis horas. Eu amava esse lugar, o clima desse quarto...
Eu estranhei:
_Ás seis horas? Por que?
Ele sorriu olhando pro céu, iluminado pela lua:
_Já viu esse céu às seis horas da tarde? É a hora do sol se pôr... Você tem a melhor vista da cidade aqui... é tudo tão perfeito. Ele meio rosado, laranja... não sei bem a cor.
_É bonito mesmo. – Eu disse, ele me olhou mais uma vez
O céu era lindo a qualquer momento mesmo. Naquela noite, o céu estava com algumas nuvens escuras, talvez de chuva. Não demoraria a chover.
_Rodrigo? – Eu disse, o pensamento distante dali _Você conhece a Maria?
Ele ficou sério e pareceu revirar os pensamentos na cabeça. Não demorou muito para me dar a resposta.
_Eu sei. Mora aqui perto. – E apontou uma casa ali pela rua, eu quis levantar para ir ver, mas não o fiz _Já conhece ela?
_Já. – E levantei em direção a ele _Na casa da minha avó, sei lá, ela é muito legal, sabe?
Ele logo disse, sem olhar nos meus olhos:
_É mesmo. – A voz fraca e baixa, o sorriso desfeito, de alguma forma aquele assunto não havia agradado ele, será que era aquilo mesmo que eu estava pensando? Ele gostava da Maria? Mas... eu só a via como uma grande amiga, ele não precisava ficar daquela forma
_Mas... ela é só minha amiga, assim como você. – Disse logo, procurando o sorriso dele de volta, mas ele não veio como eu esperava
_Marcos. Eu sei que é cedo, até demais pra eu dizer isso... mas...
Ele iria dizer que era apaixonado por ela, e que não era pra mim entrar na disputa, que ela já tinha dono, que era dele... e ponto final. Eu tinha quase certeza disso. Mas o que eu ia dizer? Eu iria ficar sem graça, não iria sair uma palavra da minha boca. Eu era mestre em ficar sem graça... Que raiva.
_... mas – ele continuou _Você é meu amigo e eu gosto demais de você, certo? Olha... a Maria... você quer mesmo... o que com ela?
Pronto, eu tava ferrado, o que eu ia dizer...
_Ser amigo. E pronto! Só...
Ele sorriu, um pouco mais sincero. Me aliviei um pouco. Depois daquilo ele emendou com uma conversa de filmes de terror. Percebi que o Rodrigo não era realmente estranho, era até mais legal do que eu achava. Realmente, de filme ele sabia bastante coisa. Também era muito engraçado. Conversamos bastante. Rimos também, até rir eu ri, com vontade.
Rodrigo me fez sentir bem, depois me chamou para ir até a casa dele. Saímos da minha casa, ele pela janela, para minha mãe não estranhar. Foi difícil explica-la onde eu iria quase na hora de dormir. Ela não era acostumada com saídas noturnas, pelo menos não comigo, já meu pai era diferente. Novamente ela tentou um beijo antes que eu saísse pela porta, me esquivei antes que ela pudesse me alcançar, e avistei, na calçada da rua, o sorridente Rodrigo. Era irritante como ele sempre sorria quando eu olhava pra ele. Que garoto... feliz.
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