Enquanto existir o amor...
4 Máscaras
Notas iniciais
Angélica parou na frente dos dois, impedindo que continuassem em direção ao castelo.
— Vocês têm sorte por ser eu e não um dos professores! – Olhou-os de forma rígida – Já passou do toque de recolher! Não têm ideia do quanto estariam encrencados se eu não estivesse aqui.
— Se está tão tarde assim, o que você está fazendo aqui? – Draco olhou a ruiva de forma desconfiada. De fato estavam encrencados, mas não ficaria escutando lição de moral de uma novata.
— Estava procurando a Hermione, é óbvio! – tinha que admitir que estava se acostumando com olhares desconfiados, e que até mesmo achava fofo a forma com algumas pessoas achavam que podiam intimidá-la facilmente, e também não tinha uma opinião formada sobre o loiro, mas estavam sem tempo e ela sem paciência – Ninguém a viu desde a hora do almoço, e a situação ficaria crítica se eu não tivesse garantido que ela estava no dormitório repousando. Não fui questionada, já que ela não parecia bem nas primeiras aulas do dia. – enquanto falava de forma monótona, observava a situação dos dois. Malfoy parecia bem, apenas precisava de um banho, mas Hermione estava pálida e com a roupa suja de sangue, de uma forma que mostrava claramente que as feridas eram dela. Isso explicava o fato de estar sendo carregada. Era melhor se apressarem.
— E como nos achou? – Draco ainda a olhava com desconfiança. A história parecia legítima e bem provável, mas o fato de ela os ter encontrado no momento em que saíram da floresta ainda o intrigava.
— E isso realmente importa? – estava perdendo a pouca paciência que tinha – Precisamos sair daqui agora! Se formos pegos seremos expulsos, e isso não seria bom para ninguém. – ela o olhou de forma fria, antes de se virar e começar a andar, esperando ser seguida.
— Espere aí Angel! – o loiro gritou antes que ela pudesse se afastar muito. Ela seguia por um caminho que ele não conhecia e não confiava que a ruiva não fosse entrega-los ao diretor – Não vou a lugar nenhum antes de você explicar direitinho como sabia exatamente onde nós estávamos!
— Eu sei de muitas coisas, Draco Malfoy, e nenhuma delas lhe diz respeito! – ela o olhou de forma intimidadora e riu internamente ao ver a confiança do loiro falhar por um momento. Hermione estava quase desmaiando novamente, precisava de cuidados urgentes – Agora, você tem duas opções: vem comigo sem reclamar ou você pode ir para o castelo e fazer as malas e ir para casa assim que deixar Hermione na Ala Hospitalar. A decisão é sua.
Não esperou para escutar a resposta. Sabia que a discussão estava encerrada. Por mais orgulhoso que fosse, não ia arriscar ser expulso. Sorriu com o canto dos lábios ao ouvir os passos do jovem a seguindo.
Em poucos minutos chegaram a uma cabana, ao lado da floresta. Ficava escondida nos fundos dos jardins, na sombra de algumas árvores. Do castelo seria impossível vê-la, a menos que soubesse exatamente o que estivesse procurando.
— Que lugar é esse? – Hermione perguntou, despertando um pouco do torpor em que estava.
— É o meu refúgio. – Angélica respondeu enquanto os guiava para dentro – Precisava de um lugar para terminar alguns estudos da minha antiga escola, que Dumbledore achou que era de interesse educacional. – Isso não era uma mentira. Talvez meia verdade – Encontrei essa cabana ontem enquanto conhecia o lugar. O Professor Snape me ajudou a organizá-la.
Ambos estavam impressionado. O interior era aconchegante, todo de pedra e madeira rústica, com tecidos de veludo pendurados em algumas paredes (as que não estavam ocupadas com estantes) dando um ar meio medieval. O lugar era composto por dois ambientes, uma sala com duas poltronas em frente a lareira, perto da janela que dava para a floresta, com a parede de trás escondida por uma estante repleta de livros. E um tipo de cozinha, com uma mesa de quatro cadeiras e uma bancada de pedra, que ocupava a maior parte do espaço, onde havia um caldeirão fumegando, um pequeno fogão com uma chaleira fervendo e duas paredes com prateleiras repletas de frascos, cheios e vazios, além de vários utensílios, como caldeirões, de vários tamanhos e materiais, conchas, facas, entre outros. Sentaram-se nas poltronas, ainda embasbacados.
— Isso é realmente impressionante! – Hermione suspirou – Eu adoraria trabalhar em um lugar assim.
— Por isso queria trazê-los aqui. – a ruiva os encarou de forma acusatória – Tenho tudo o que preciso para te ajudar. – Caminhou até um armário que ficava acima da bancada e pegou duas xícaras. Em uma serviu o conteúdo do caldeirão e em outra o conteúdo da chaleira. Entregou uma xícara para cada um – Poção revitalizante para Hermione e um chá calmante para você, Malfoy.
— Agora que estamos aqui, você pode explicar... – o jovem começou a perguntar, um pouco melhor depois de se sentar perto do fogo e tomar o chá.
— Vocês não desistem mesmo, não é?! – ok, havia perdido completamente a paciência.
— Desculpa, mas é muita coincidência... – a morena tentou falar, também sentindo-se melhor após tomar a poção, mas também foi interrompida.
— Não foi coincidência, Hermione! – a ruiva bufou. Tirou a varinha do bolso, conjurou uma poltrona para si própria e começou a falar. – Você não parecia bem na primeira aula, então depois que sumiu na hora do almoço, presumi que estava descansando. Resolvi te procurar no lago, para saber se precisava de alguma coisa, mas vi Malfoy por lá, então achei melhor deixar vocês se resolverem. – olhou de forma significativa para os dois, que coraram – Mas quando estava chegando perto do castelo percebi que você havia sumido e que ele estava indo em direção à floresta. Não precisa ser muito inteligente para saber que vocês dois haviam brigado novamente. Voltei correndo até a árvore, mas ele já havia sumido. Não ia ser de muita valia eu também entrar na floresta. Não conheço o lugar e dois alunos lá dentro já era problema o bastante. – remexeu em um bolso interno do casaco – Aliás, encontrei isso. – entregou a varinha para Hermione – Deveria ser mais cuidadosa.
— Obrigada! – estava constrangida. Quanta coisa poderia ter sido evitada se não houvesse deixado a varinha em baixo da árvore? Sentiu-se estúpida.
— Mas isso não explica como nos encontrou no momento em que saímos! – Draco ainda estava raivoso, ainda mais agora que sentia o olhar reprovador da ruiva.
— Continuando... – sabia que sua voz estava um tom mais baixo do que o normal, o que acontecia quando estava brava. Respirou fundo antes de continuar – Acreditei que com a experiência que ambos possuíam sobre o lugar, ficariam seguros. Fui para as aulas da tarde, para dar cobertura. Foi mais fácil com Harry e Rony, que por mais que estivessem preocupados, aceitaram a história que eu disse sobre você estar repousando no quarto. Já no seu caso, Malfoy – encarou o jovem – Deveria esclarecer sua posição com sua namorada. A Parkinson revirou o castelo atrás de você!
— Ela não é minha namorada! – quase gritou. Estava cansado de ter que repetir isso por todos esses anos.
— Nesse caso, deveria contar a ela. – viu Hermione sorrir de canto, de forma discreta – Aparentemente ela não sabe disso. Mas enfim, começou a ficar tarde e eu estava preocupada. Fui até o ponto da floresta em que vocês entraram e fiz um feitiço localizador. Descobri que estavam bem, mas parados em algum ponto. Não seria seguro entrar, então lancei outro feitiço, tipo um alarme, que iria disparar assim que vocês entrassem em movimento e cruzassem a linha que eu estipulei. Depois disso fui passear no jardim com um amigo, e quando escureceu, vim para cá preparar as coisas e esperar. Simples assim.
— Nunca ouvi falar de um feitiço do tipo. – Draco estava com um misto de desconfiança e espanto.
— Você ficaria surpreso com a quantidade de coisas que você não sabe, Malfoy. – ele deu impressão de que iria retrucar, mas ela o cortou – Fim da história. Agora, preciso ver seus ferimentos, Hermione.
— Não está tão ruim, eu fechei os cortes. – Draco levantou-se, indo até a porta – É melhor você fazer isso direito. – e saiu. Iria esperar do lado de fora, já que Angélica teria que levantar a saia da morena, e ele já tinha imagens perturbadoras o suficiente na cabeça.
— Se você não se importa, Hermione, preciso levantar a sua saia. – Angélica disse assim que o loiro fechou a porta atrás de si.
Hermione ergueu a saia sentindo o rosto corar. Era engraçado como se sentia constrangida com uma menina mas não ficou tão incomodada como deveria por Draco ter feito isso mais cedo.
A ruiva ajoelhou-se a sua frente e analisou as marcas.
— Ele realmente fez um bom trabalho! – murmurou para si mesma – Ele teria futuro na profissão.
— E então? – a morena estava ansiosa. Não havia escutado Angélica.
— Está ótimo. – a ruiva se levantou e saiu em direção a uma das prateleiras, onde pegou um frasco laranja – Apenas um pouco de pomada cicatrizante três vezes por dia e não vai ficar nenhum sinal.
Enquanto espalhava a pomada, a ruiva deixou a mente vagar, lembrando-se de uma vez em que uma situação parecida aconteceu com ela.
“Era seu aniversário de 14 anos. Estava na escola, mas teria permissão para passar o fim de semana em casa com os pais. Tudo estaria perfeito se não fosse aquele jogo amistoso de última hora. Como o feriado da páscoa estava próximo, a diretora Mikhaylova decidiu que seria uma boa ideia reunir os times das famílias (a escola era dividida em quatro famílias, para onde os alunos eram selecionados a partir do quarto ano, conforme suas aptidões. Antes disso, todos frequentavam a mesma parte do castelo, divididos apenas em dormitórios conforme a idade) para ensinar aos alunos mais novos patinação artística. Não era o único esporte praticado na escola, mas era sem dúvida o mais famoso. Como era a capitã do seu time, era sua responsabilidade instruir um dos grupos de alunos, por isso fizeram uma competição.
Tinham que apresentar uma coreografia para avaliação dos alunos mais velhos, além de elaborar uma aula prática para as crianças. O time que fizesse a melhor coreografia e o capitão que desse a melhor aula, ganhariam um prêmio da direção.
Seu time havia ganho a competição de coreografia, então agora só faltava ensinar um grupo de cinco alunos de 12 anos. Estava indo tudo bem, até um menino tropeçar nos próprios pés e cair em cima de outra aluna. Tentou segurá-los, mas acabou caindo junto. A menina teve apenas uma leve luxação no tornozelo, mas o menino acabou quebrando o braço com a queda. As atividades foram encerradas e os professores presente levaram os alunos machucados para dentro da escola para receberem cuidados.
— Você se cortou! – a voz do amigo veio de trás de onde estava. Havia tirado os patins e caminhava para um canto mais afastado, ao lado da pista. Estava tão acostumada com machucados que nem havia percebido aquele. Aparentemente na hora em que caiu, cortou o joelho no ferro dos patins da menina que havia machucado o tornozelo.
— Eu estou bem. – disse sentando-se, enquanto Marc chegava mais perto e se ajoelhava ao seu lado, com a varinha em punhos. Ele era seu melhor amigo desde que havia entrado na escola, e agora pertenciam à mesma família. Mas depois de algum tempo ela percebeu que seu coração sempre disparava quando ele se aproximava. Os cabelos negros na altura dos ombros estavam sempre bagunçados, emoldurando o rosto de pele muito pálida e olhos azuis penetrantes.
— Deixe-me dar uma olhada nisso. – ela concordou com um aceno de cabeça, quando viu a expressão preocupada nos olhos dele. Tentou reprimir um suspiro, quando seus dedos gelados tocaram sua pele, que parecia febril, limpando e fechando o corte com um feitiço murmurado. Fechou os olhos e mordeu os lábios, apreciando a sensação de correntes elétricas percorrendo cada centímetro do seu corpo.
— Anna... – ele sussurrou o apelido carinhoso pelo qual a chamava, fazendo com que ela abrisse os olhos e o fitasse. Ele estava muito perto. Podia sentir a respiração dele tocando a pele de seu rosto. Seu coração acelerou. – Anna... – ele chamou mais uma vez, enquanto uma de suas mãos a puxava pela nunca, ao encontro de seus lábios. Seu cheiro era inebriante. Fechou os olhos e se entregou ao beijo.”
Levantou-se bruscamente e foi até a mesa pegar outro pote de pomada para Hermione levar. Pôde sentir os olhos da morena em si. Como pôde se lembrar disso agora? Essa é uma das lembranças que deveriam estar apagadas de sua memória. Fez o melhor que pôde para se recompor antes de voltar até a poltrona.
— Como você está se sentindo? – a morena a olhava de forma estranha, então era melhor focar em outra coisa do que no seu pequeno surto.
— Estou bem, de verdade. – Hermione sorriu, apesar de incomodada. Podia jurar que há alguns segundos atrás viu uma sombra passar pelos olhos da ruiva. Sentiu-se mal, porque apesar de tudo o que ela havia feito para ajudá-la, não havia nem mesmo agradecido. – Muito obrigada, Angélica, por tudo, mesmo.
— Tudo bem. – sorriu de forma tímida – Fico feliz em ajudar. Além disso, é o que amigos fazem, não é? – começou a arrumar as coisas para poderem ir.
— Falando em amigos... – percebeu que a ruiva começou a guardar suas coisas. Mas não estava preparada para encarar Draco ainda. Estava nervosa por algum motivo, então decidiu puxar assunto. Além do mais, queria ficar mais próxima da jovem – Você disse que foi passear com um.
— Sim! – sorriu mais abertamente agora. Por mais que não gostasse de falar sobre coisas pessoais, esse talvez fosse um assunto seguro. Também sentia falta de conversar com uma garota. Passou muito tempo rodeada apenas por velhos bruxos, com mais idade do que poderia contar – Christian Constantine.
— Não sei se conheço. – fez um esforço mental para se lembrar, mas não conseguiu.
— Eu duvido muito que se lembre. Ele é da Sonserina. – disse olhando atentamente para a morena, a procura de qualquer sinal de reprovação. Encontrou apenas espanto.
— Oh! – não soube o que falar. Estranhou o fato de ela ser amiga de um sonserino, mas não estava em posição de julgar.
— Eu o conheci nas férias, durante minha estadia em Paris. – continuou a contar, feliz com o resultado de sua análise – Ficamos hospedados no mesmo hotel e nos conhecemos durante um almoço. Ele foi muito simpático e fiquei feliz quando o vi ontem à noite. – isso era verdade. Enquanto andava pelo corredor, procurando pelos rostos que conhecia de fotos e sorriu ao ver um jovem sorrindo para ela da mesa da Sonserina. Reconheceu-o de imediato, talvez pelo fato de que ele era uma das pessoas que procurava. – ele faz a maioria das matérias conosco.
— Eu o vi hoje de manhã? – não se lembrava muito da aula que havia assistido.
— Não. – o sorriso morreu – A irmã dele passou mal e ele ficou com ela na Ala Hospitalar até na hora do almoço. Encontrei com ele na aula de Feitiços, quando ele se desculpou por não ter conversado comigo ontem e me convidou para conhecer o jardim.
— E como foi? – parecia que esse era um assunto que ela estava disposta a falar, então era melhor aproveitar.
— Foi bom! – estava sendo sincera – A escola é realmente incrível!
“Estava na orla da floresta. Tinha combinado de encontrar Christian perto do lago, mas aproveitou para lançar os feitiços. Eles estavam demorando.
— Tem alguma coisa te incomodando? – ele surgiu ao seu lado. Estava distraída o suficiente para não vê-lo se aproximar.
— Apenas curiosa. – desconversou – A floresta parece interessante.
— E perigosa. – ele sorriu. Os olhos castanho-esverdeados brilharam. Os cabelos castanhos, ligeiramente compridos, estavam esvoaçando com o vento – Eu topo se você quiser, mas o jardim é bem mais bonito e seguro.
— Quem sabe outro dia. – era um dos primeiros sorrisos sinceros que dava desde as férias – Hoje eu aceito o convite do café no jardim.
Ele estendeu a mão e ela prontamente aceitou, olhando-o pegar a cesta de vime que havia posto no chão. Tinham desenvolvido uma amizade durante os dias que conviveram nas férias. Ele não cobrava que ela falasse sobre seu passado ou seus pais. Simplesmente aproveitava o momento, como ela.
— Eu realmente queria me desculpar por ontem. – ele disse de forma sincera, quando chegaram até uma árvore grande que ficava no meio do jardim. De lá tinham visão de tudo, mas a sombra os mantinha escondido de olhares curiosos. Estendeu a toalha que havia trazido e começou a tirar as coisas para o café de dentro da cesta – Eu tinha a intenção de ir te recepcionar, mas ainda estava superando o choque de você estar sentada na mesa da Grifinória.
— Ficou decepcionado? – perguntou de forma leve, enquanto o ajudava com a comida. Havia uma garrafa com suco de abóbora, que estava sob um feitiço refrescante para mantê-la gelada, além de alguns lanches de pão com queijo e salada, bolachas doces e uma garrafa de cappuccino caseiro.
— Na verdade não. – sorriu enquanto servia uma caneca de cappuccino para ela – No fundo eu imaginava que era para lá que você iria, mas não custa nada sonhar, não é?
— Imaginava? – pegou a caneca e esticou as pernas, encostada na árvore ao lado dele. Não estavam se olhando, mas sabia pela sua postura que ele estava sendo sincero.
— Sim, só pela forma como você estava sorrindo. – mantinha um sorriso presunçoso descarado.
— E o que o meu sorriso tem haver com a casa que fui selecionada? – estava ligeiramente curiosa, mas acreditando que ele iria dizer um besteira qualquer.
— Simples, se fosse arrogante seria Corvinal, tímido é igual à Lufa-Lufa, se fosse superior ou de escárnio logo você estaria sentada ao meu lado, mas aquele sorriso de “eu estou com medo mas que se dane, eu vou esconder e encarar isso como se fosse um passeio até a padaria”, aí meu bem, com certeza é Grifinória! – terminou como se sua constatação fosse óbvia.
— Estou impressionada! – riu apesar de estar realmente espantada, não apenas pela constatação simples mas até que correta, mas também pelo fato de ele ter sido capaz de ver através da sua máscara que fora tão bem treinada e grudada com cola permanente na sua face.
Precisou virar-se para olha-lo. Ele tinha estampado um sorriso extremamente encantador, com aqueles olhos brilhantes e convidativos, instigando-a a se aproximar mais, tentar ver através da fachada orgulhosa que ele também estampava. Por um momento, permitiu-se ignorar a sua consciência que a alertava sobre as consequências de sorrisos charmosos e aura misteriosa, e permitiu-se aproveitar a tarde ao lado dele.”
— Acho melhor irmos agora, Hermione. – conferiu as horas no relógio de pulso que usava, com estrelas e planetas no lugar de números e ponteiros – Está na hora da troca de ronda. Ninguém vai estar na entrada. – Ajudou a morena a levantar-se e seguiram para a porta.
Draco estava perdido em seus próprios pensamentos. Não sabia há quanto tempo estava ali fora esperando. Sem a presença dela, o calor que emanava de seu corpo, o cheiro inebriante de baunilha que se desprendia do seu cabelo, tentava pensar de forma mais racional. Não conseguia entender. Até dois dias atrás tinha um plano traçado, uma meta. Mas agora, um incidente no trem virou toda a sua vida de cabeça para baixo! Tinha que voltá-la aos eixos. Ainda tinha muitas coisas para fazer, e consequências severas se não fizesse. Não era a hora para tê-la em sua vida. Na verdade, sabia que essa hora nunca chegaria. Não esperava sobreviver para ver o fim de tudo, só queria proteger aquela que era a única que o amava, sua mãe.
“- Como você pôde fazer isso, Lúcio?! – ouviu sua mãe gritando através da porta do quarto. Pela fechadura, podia vê-la chorando em pé, na frente de seu pai, que permanecia impassível – Ele é nosso único filho!
— É sua culpa, por não ter me dado mais herdeiros! – ele a segurou com força pelos ombros. Podia ver tudo, mas não conseguia fazer nada para impedir. Odiava o pai, e tudo o que ele representava. Mas era fraco demais para enfrentá-lo – Agora não adianta ficar chorando! Era isso ou minha morte!
— Eu preferiria que você estivesse morto... – foi apenas um sussurro, mas ele viu a fúria se formar nos olhos do pai, que imediatamente deu um soco no rosto da mulher derrubando-a no chão com a boca cortada, por onde saía muito sangue.
— Queria que eu estivesse morto, é? – Lúcio começou a chutá-la em todas as partes que conseguia alcançar – Pois você vai desejar estar morta se aquele maldito fedelho falhar com a missão! – Não soube por mais quanto tempo sua mãe apanhou, pois foi correndo para o seu quarto. Decidiu que faria o que lhe foi mandado, depois mataria seu pai e manteria sua mãe segura. Escreveu uma carta para sua tia nojenta dizendo que executaria o plano. Não que houvesse outra opção.”
O que o tirou de seu devaneio foi o som de passos. As duas jovens estavam se aproximando. Não conversaram. Seguiram direto para o castelo o mais silenciosamente possível, para não chamarem atenção. Nesse período, Draco teve tempo para decidir o que faria. Não podia se aproximar dela, nem de ninguém. Não podia trazê-la para toda essa confusão, apesar de ela estar envolvida do outro lado. Ficaria mais segura ao lado do cabeça de cenoura. Quando chegaram nas portas do grande salão, empurrou Hermione contra a parede, segurando-a com força, com a varinha apontada para seu rosto. Ela se assustou tanto que nem conseguiu reagir.
—-Escute aqui, o que aconteceu hoje nunca mais vai se repetir, entendeu? – a raiva que emanava era verdadeira, apesar de não ser dirigida a ela. Não ousava olhá-la nos olhos. Sabia que se o fizesse perderia toda a sua convicção. Não queria ver o estrago que suas palavras causariam, apesar de saber eu estava doendo mais em si próprio do que nela – Você nunca vai contar isso para ninguém, nunca! – sentiu ela tremer e percebeu que o seu pescoço estava ficando vermelho nas partes que estava pressionando. Viu também, que Angélica já havia se recuperado do susto e estava pegando a varinha. Não tinha muito tempo – A única coisa que sinto por você é dó! Não quero minha imagem associada à de alguém como você, nem que fosse a última chance da minha vida! – assim que a ruiva ergueu a varinha, ele soltou Hermione e foi embora. Não olhou para trás. Sentiu as próprias lágrimas escorrendo por sua face. Nunca seria perdoado, e isso era o melhor para ambos.
Hermione ficou estática, sentindo as lágrimas quentes molharem suas bochechas. Não sabia se sentia mais raiva dele ou de si mesma. Afinal, isso só a estava matando por dentro porque baixou a guarda, porque permitiu-se ter esperança, porque deixou-se importar com algo que não deveria existir. Esqueceu que ele era Draco Malfoy.
Angélica pegou-a pelo braço e a guiou até a torre da Grifinória. Foram direto para o dormitório, se trocaram e deitaram sem falarem nada. Nenhuma das duas sabia o que dizer.
Hermione ficou deitada, olhando para o dossel de sua cama, agradecida por Angélica não ter tocado no assunto e ter lhe dado espaço. Como havia se permitido afetar dessa forma? Justo ela que era tão racional. Deixou-se dominar por fantasias bobas, fingindo mentalmente que não vivia seu mundo, mas sim em um lugar imaginário, onde tudo era possível. Mas ela tinha que aceitar quem era e o mundo no qual vivia. E nesse mundo, ele era Draco Malfoy e ela Hermione Granger, e nada mudaria isso.
Na cama ao lado, Angélica já havia dormido, e se contorcia em agonia.
"- Por favor, deixe-o em paz! – tentava gritar, mas sua voz mal saía. Seu peito ardia pela falta de ar. Algo segurava seu corpo contra o chão frio. Sentia algo encharcar sua roupa, se era suor ou sangue, não sabia distinguir.
— Sua tola, acha que pode lutar contra mim? Acha que depois de tudo, poderia fugir do seu destino?
Aquela voz a congelou por dentro. Não conseguia se mover, não podia respirar. Sentiu dor. Uma dor profunda e lacerante. Sua vista escureceu. Não consegui mais gritar. Sentia a morte se aproximando, como uma sombra que rastejava sobre o seu corpo. A vida se esvaía de si como o suor por seus poros. Mas precisa salvá-lo. Precisava impedir que aquele monstro o matasse.
— Me mate no lugar dele! Por favor, não o machuque... – usou as suas últimas forças para implorar. Ela não podia morrer, não daquela forma, não sem olhar em seus olhos uma última vez.
— Menina tola! Te matar no lugar dele? Mas você já está morta! – a agonia preencheu seu corpo enquanto tentava lutar contra a dor. Tinha que salvá-lo, tinha que vê-lo uma última vez...
—-Não!!"
— Angélica, acorda! – sentiu mãos puxando-a para cima, e a voz de alguém chamando seu nome. Instintivamente puxou o corpo para trás e acabou caindo. Sentiu as mãos novamente. Com muito esforço, percebeu que era Hermione.
— O que aconteceu? – perguntou fracamente, enquanto Hermione a ajudava a se desenrolar do lençol e a sentar na cama. Estava coberta de suor e tremendo.
— Ouvi você gritar e cair da cama. Quando levantei, você estava se contorcendo no chão, enrolada no lençol. Parecia estar sufocando. Você está bem? – estava preparada para o caso de a ruiva cair novamente.
— Não, estou bem. – Angélica estava pálida como cera, podia sentir as mãos tremendo – Não foi nada, acho que só um sonho ruim, mas já passou. – olhou para a morena, que ainda parecia preocupada – Obrigada, Hermione, pode voltar a dormir! – forçou o melhor de seus sorrisos, tentando mascarar o pavor que estava sentindo. Não era a primeira vez que tinha aquele sonho. Estava ficando preocupada.
— Se você insiste, boa noite! – a morena disse enquanto voltava para a cama, mas ainda estava preocupada.
— Boa noite! – Angélica respondeu, apesar de saber que não conseguiria mais dormir. Só restava esperar que o dia amanhecesse.
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