Enquanto existir o amor...
9 Decisões
Notas iniciais
Draco sentia o coração afundar em seu peito. Já havia perdido completamente a noção de há quanto tempo estava ali, pateticamente abraçado à Hermione, chorando. Não era apenas pela amiga atacada, ou por estar sentindo-se mais solitário do que em toda a sua vida. Era também por toda a confusão que a sua vida se tornou nos últimos meses, pela carta que havia recebido de sua mãe de manhã, por sentir-se tão confortável naqueles braços, mesmo sabendo que não devia, não podia. Afastou-se com relutância da castanha, encostando-se na parede. Não tinha forças para olhá-la, nem falar qualquer coisa. Não tinha forças para afastá-la.
Sentiu um arrepio quando a mão quente da jovem tocou seu rosto, secando as últimas lágrimas que ainda teimavam em escorrer.
— Por que está aqui? – perguntou em um fio de voz, finalmente encarando-a.
— Porque você precisa de mim. – não foi um comentário superior ou agressivo. Apenas a simples constatação dos fatos.
— E por que você se importa? – precisava questioná-la, fazê-la continuar falando. Era a única coisa que o mantinha inteiro no momento.
— Eu não sei. – optou por ser sincera.
Ele apenas bufou.
— O que você quer que eu diga? – afastou-se, precisava manter a clareza dos seus pensamentos – Que você me deixa confusa? Que não consigo te tirar da cabeça? Que penso naquele beijo a cada maldito momento do meu dia? – suspirou derrotada – O que você quer de mim, Draco?
— Quero cada coisa que eu sei que não posso ter. – a certeza da morte eminente o deixava menos cauteloso. Aproximava-se a cada palavra, vendo-a se afastar até a outra extremidade, ficando presa entre ele e a parede á suas costas – Quero cada palavra, cada toque, cada sentimento. – suspirou olhando-a nos olhos – Quero me sentir completo, em paz. Sou uma criança mimada, Hermione. – aproximou-se o suficiente para sussurrar as últimas palavras em seu ouvido – Quero tudo o que não mereço. Quero aquilo que não me pertence.
O cheiro que ela exalava era inebriante. Separou-se dela apenas o suficiente para encarar seus lábios, tão convidativos. Reunindo todas as suas forças, foi para longe, fechando os olhos com mais força do que o necessário, tentando ignorar o que seu corpo pedia.
— Por que você está com ele? – soltou um suspiro impaciente, completamente consciente sobre seu tom enciumado.
Hermione demorou algum tempo para absorver tudo o que estava acontecendo. Há alguns segundos ele estava tão perto que podia sentir seu hálito mentolado. Podia sentir o calor do seu corpo aquecendo-a. por alguns instantes, teve certeza de que ele iria beijá-la. E no segundo seguinte ele a olhava rancoroso do outro lado, encostado na parede oposta. Foi só então que entendeu a pergunta.
— Por que está com ela? – devolveu no mesmo tom desafiador. Ele não estava em condições de julgar ninguém.
— Você tem um ponto! – ele ergueu as mãos, como imagem de rendição, soltando uma risada fraca, tentando amenizar o clima – Vamos fazer um acordo. – viu os olhos dela brilharem. Ah, maldita curiosidade grifinória – Vou ser completamente honesto com você, enquanto essa conversa durar. Sem máscaras, mentiras, enganação.
— E em troca? – sentiu certo receio. Nada de bom podia vim de algo assim.
— E em troca você fará o mesmo comigo. – estava cansado daquilo. Do jogo, das desculpas. Seu destino já estava traçado, mas aproveitaria uma última noite de liberdade.
— E o que você ganha com isso? – ainda estava receosa. Ele mudava de humor tão rapidamente que não conseguia acompanhar.
— Apenas a sua sinceridade. – suspirou – Estou cansado, Hermione. – resolveu dar o primeiro passo, confiar para depois receber confiança. Não era algo que lhe fosse natural, mas decidiu tentar – Estou farto de todas as mentiras, enganações, traições, mortes. – manteve seus olhos firmes nos dela. Frio e calor, opostos, que se atraiam como se fossem complementares – Toda essa angústia, esse desespero, está me consumindo. Quero ter apenas uma noite verdadeira em toda essa vida miserável.
— E por que resolveu compartilhar esse momento comigo? – só precisava dessa resposta. Se ele fosse verdadeiro, aceitaria qualquer coisa que ele lhe pedisse. Também precisava de algo verdadeiro na sua vida, mesmo que fosse apenas aquela noite.
— Você sabe o motivo. – levantou a mão para tocá-la, mas abaixou instantaneamente. Não podia.
— Temos um acordo. – sorriu fracamente. Não adiantava fingir, amos sabiam o motivo de estarem ali.
— Você me perguntou porque estou com Andresa. – sentou-se, esperando ela fazer o mesmo antes de continuar falando. Encostados em paredes opostas, a única parte de seus corpos que quase se tocavam eram os pés. Era mais seguro assim – Ela foi a distração que eu consegui em uma forma desesperada de tentar esquecer qualquer coisa que tenha acontecido entre nós dois. Qual a sua desculpa com o Weasley?
— Uou! – o encarou abismada – Direto ao ponto! – ele não disse nada, apenas levantou a sobrancelha em questionamento – Bom, somos amigos há muito tempo, e houve uma época em que eu achava que sentia algo diferente por ele.
— Achava? – questionou curioso. Talvez esse não fosse apenas um mal grifinório.
— Sim. – sentiu as bochechas esquentarem. Por que mesmo estava tendo aquela conversa com Draco Malfoy? Ah é, porque era idiota – Eu achava que era apaixonada por ele.
— E o que mudou? – estava cada vez mais ansioso pelas respostas. O quão masoquisrta aquilo era? Não queria pensar sobre isso.
— Eu não sei. – suspirou – Nos perdemos em algum momento. Acho que começou depois do baile de inverno no quarto ano. Eu fiquei tão magoada porque ele simplesmente não teve coragem de me convidar, que acabei aceitando ir com o Victor. – viu que ele ia comentar alguma coisa, mas nunca conseguiria completar o raciocínio com ele interrompendo, então emendou rapidamente – E foi incrível, na maior parte do tempo, até ele agir como um babaca por eu estar com outro na festa. Na época eu achava que isso era uma prova de que eu gostava dele, por me importar tanto com o que ele fazia ou dizia. Foi apenas quando eu beijei o Victor, na despedida no fim do torneio, que percebi a verdade. Eu nunca teria olhado para outro rapaz, me interessado por outro rapaz, se realmente o amasse. Era apenas algo fraterno, sempre foi.
— E por que está com ele então? – tentou não parecer azedo, mas sério, Victor Krum? O que as meninas tanto viam nele?
— Por que os sentimentos mudaram para ele também. – murmurou receosa – Ele gosta de mim. E é compreensível, carinhoso, companheiro.
— Ele é um cachorro ou um namorado? – precisou debochar. Era difícil ouvir aquilo.
— E o mais importante... – ignorou o comentário – Ele sabe como me sinto.
— Como você não sente, quer dizer. – ela não podia mentir, não na sua cara. Tinham um acordo.
— Sim, ele sabe que não correspondo aos sentimentos dele. – estava ainda mais envergonhada. Admitir aquilo em voz alta era torturante.
— Então por que estão juntos? – finalmente a resposta que queria ouvir, a que talvez decidisse tudo.
— Porque eu precisava seguir em frente! – quase gritou, sentindo algumas lágrimas escorrerem por seu rosto – Porque você virou a minha vida do avesso, porque você me fez sentir viva, e depois quase me matou, porque você me beijou, e depois foi embora, me deixando em pedaços!
Sentiu cada palavra atravessando seu peito como facas, mas sabia que merecia isso. Havia feito da vida dela um inferno e depois a afastou.
— E ele está disposto a juntar os seus pedaços? – suspirou. Doía falar – Está disposto a esperar?
— Pelo tempo que for necessário. – juntou todas as suas forçar para conseguir segurar as lágrimas. Se tinha algo bom naquilo tudo, é que finalmente podia dar voz sos seus sentimentos, todos eles.
—E você acha isso justo? – perguntou em um fio de voz. Se saber que era importante o suficiente para deixá-la atordoada era o que queria ouvir, saber se isso mudava alguma coisa para ela era a resposta que mais temia. Não entendia os próprios sentimentos, não sabia o que havia entre eles, mas tinha certeza de que vê-la com outro o destruiria por dentro, por mais egoísta que isso fosse.
— Não, não é! – as lágrimas vieram com força total. Abraçou os próprios joelhos, encolhida, soluçando – Oh Merlin, não posso fazer isso com ele! – murmurou em meio às lágrimas – Porque nem todo o tempo do mundo seria suficiente, não é? Nunca vou corresponder às expectativa dele!
Foi a vez dele de abraçá-la. Não era seguro ficar tão perto, mas vê-la tão desolada partia seu coração. Demorou alguns minutos para que ela conseguisse se recompor, e ele a soltasse.
— Você que me beijar. – ela sussurrou, ele ainda estava próximo. Não foi um pergunta – E sabe que eu não vou oferecer resistência. – encarou-o – Então por que não o faz?
— Porque você assumiu um compromisso com o Wealsey. – afastou-se irritado – Nada me daria mais prazer do que esfregar na cara dele que eu poderia te beijar agora, e que você ia gostar. – viu ela corar, envergonhada por suas palavras – Mas não faria isso com você. – viu ela o fitar de forma surpresa – Você se sentiria culpada se traísse a sua confiança. E isso não ficaria bem para a sua imagem.
— E por que você se importa com a minha imagem? – aquilo quase a fez rir. Não por ser ridículo, mas por ser inesperado.
— Por favor, Hermione, eu recebi uma boa educação! – sorriu de forma superior – Sou um Malfoy! Sei como tratar uma dama.
Ela precisou rir. A situação toda era tão fora de contesto que ficou cômica. Ele sorriu mais abertamente.
— Não esperava essa atitude de você! – foi a sua vez de sorrir debochada.
— Há muitas coisas que não sabe sobre mim! – ele piscou de forma maliciosa.
Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, ouviram as batidas do relógio. Meia noite. Até mesmo eles, se fossem pegos fora dos dormitórios nesse horário, estariam muito encrencados.
— Precisamos ir! – Hermione levantou em um pulo, sendo acompanhada pelo loiro – Acho que nosso acordo acaba aqui.
— Não precisa acabar se não quiser. – abruptamente sentiu-se desesperado. Não estava pronto para deixá-la partir.
— Mas você mesmo disse que não podemos fazer isso! – olhou-o confusa. Ainda lembrava das palavras dele “Não muda nada”.
— Eu estava errado! – pegou suas mãos, obrigando-a encará-lo – Estava errado em assumir que podemos fingir que nada aconteceu. Sabemos que isso é ridículo! A quem queremos enganar? Só estamos nos trazendo mais sofrimento.
— Mas você disse que isso não muda nada! – podia ouvir a mágoa em sua voz, mas precisava ter certeza do que estava entendendo da conversa. Não se permitiria ser iludida.
— Eu sei! – ficava mais desesperado a cada segundo. Havia tantos riscos – Mas isso muda tudo! Mas você precisa saber onde está se metendo. Eu não tenho nada para oferecer, Hermione. Não podemos ser vistos, não posso sair de mãos dadas com você, ou te beijar em público. Não posso te abraçar quando estiver frio, nem comemorar com você as datas festivas. Se alguém descobrir, na melhor das hipóteses, acabaremos mortos.
— Draco, eu... – não consegui pensar direito. Era muita informação de uma vez.
— Não precisa me responder agora! – apertou mais as suas mãos – Vou te dar um tempo para pensar. Sábado que vem haverá um passeio até o vilarejo de Hogsmead. Vou te esperar ao meio dia em frente à casa dos gritos. Se você não for, saberei que a resposta é não e juro pela minha vida que vou te deixar em paz.
— E se eu for? – sua voz saiu baixa, receosa.
— Então prometo que podemos tentar. – sorriu malicioso, tentando disfarçar seu nervosismo. Quando foi que tomou a decisão de cometer essa loucura? O que estava pensando quando proferiu tais palavras? Mas a resposta é simples, não estava pensando, estava sentindo.
Olharam-se por alguns segundos, absorvendo o momento. Talvez fosse o último.
— Te dei muita coisa para considerar, Hermione. – sussurrou – É melhor irmos embora agora. – sabia que ela não conseguia responder. Estava confusa. Ele próprio estava confuso. Ambos precisavam de um tempo para pensar nas consequências da noite. Levou sua mão direita até seus lábios, depositando ali um beijo casto, antes de soltar ambas as mãos, deixando-a livre para partir – Boa noite Hermione!
— Boa noite Draco! – ela suspirou, antes de se virar e ir embora.
Ainda estava completamente “embriagada” pelos eventos da noite quando chegou ao Salão Comunal. Seria possível o que havia entendido da proposta de Draco? Será que realmente poderia haver alguma esperança para os dois. Ainda podia sentir as pernas bambas, de lembrar a forma delicada como ele havia segurado suas mãos, como havia sido atencioso e respeitoso. Aquilo não se parecia muito com o Malfoy que conhecia há tantos anos. Mas será que em algum momento chegou a realmente conhecê-lo? Provavelmente não. Conhecia sua máscara, sua postura fria e indiferente. Esse garoto que havia se aberto com ela, conversado tão honestamente, lhe era completamente desconhecido. Eram tantos prós e contras! Ao menos tinha uma semana inteira para pensar. Mas independente de sua decisão, havia algumas coisas que deveria resolver independentemente do que fosse fazer.
Suspirou desanimada. Aquela não seria uma conversa fácil. Estava planejando-a mentalmente enquanto se dirigia ao seu dormitório, tão concentrada que quase caiu de susto quando ouviu seu nome ser chamado.
— Hermione! – Rony estava sozinho, sentado em frente á lareira.
— Rony! – sentiu seus passos vacilarem enquanto andava até ele – O que faz acordado essa hora?
— Estava te esperando. – Viu o espanto nos olhos dela. Mas havia tomado uma decisão. Passou parte da noite na Sala Precisa com Luna. Às vezes, depois que terminavam sua ronda, iam até lá. Voltavam para a sala onde passaram o ano anterior treinando, com a A.D. No começo havia ficado preocupado com a loira, pois de todos os membros do grupo, ela era a mais solitária. Não queria que ela voltasse a se sentir isolada. Por isso faziam isso, para conversarem, relembrarem algumas histórias, falar sobre as aulas. Atualmente o principal tópico das conversas era Hermione. Ela que o incentivara a se abrir com a castanha, mostrando seus sentimentos. Também o aconselhava da melhor maneira que podia. Tornaram-se bons amigos. E essa noite, ela o havia ajudado a se decidir, para o melhor entre ele e Hermione.
— Aconteceu alguma coisa? – claro que sabia que aquela era a melhor oportunidade para conversarem, mas algo na expressão do ruivo a deixava nervosa. Ele estava com aquele semblante decidido, que usava para jogar xadrez. Sentou-se de frente para ele, unindo as suas mãos nas dele.
— Acho que é mais sobre o que não aconteceu, Mione. – olhou nos fundos dos olhos dela. Não queria fazer aquilo, mas precisava – Nós dois, não está acontecendo.
— Eu sinto muito... – sua voz foi abafada pela nova enxurrada de lágrimas. Era muita coisa para uma noite só.
— Não precisa sentir. – tentou sorrir. Podia ver o quanto ela estava sofrendo – Não é sua culpa, nem minha. Você sabe que eu te amo, e isso não vai mudar. Mas não estamos sendo honestos. Há muito tempo você deixou de me ver dessa maneira. Você merece mais do que a conformidade de estar com alguém apenas para poder se curar. – apertou a sua mão com mais força. Aquilo estava sendo mais difícil do que imaginava. A cada palavra sentia seu coração sangrar. Queria poder dizer para tentarem mais um pouco, que se davam bem, que talvez um dia ela pudesse amá-lo. Mas seria mentira. Conhecia a garota há tempo demais para tentar se iludir com isso – E eu...
— Merece alguém que te ame de verdade. – terminou a frase por ele. Viu algumas lágrimas também descerem pela sua face. Ele estava sofrendo. Como queria poder dizer algo para amenizar aquilo! Queria poder dizer que o amaria, que só precisava de tempo. Mas ele também sabia que aquilo era mentira – Eu queria poder ser essa pessoa Ron! Como queria! – o abraçou, sentindo seus músculos tremerem pelo esforço que ele fazia para se controlar – Você sabe que eu te amo incondicionalmente...
— Da mesma forma que ama o Harry. – ele suspirou, puxando-a mais para si, enterrando o rosto em seus cabelos – Eu sei. É o bastante para mim. Mas não podemos continuar com isso Mione, nos enganando. Nada vai mudar na nossa amizade, eu prometo.
— Eu não mereço um amigo como você! – apertou-o mais.
— Vamos superar isso, juntos. – soltou seus braços dela, dando espaço para ela se afastar e olhar em seus olhos – Como sempre superamos tudo há tanto tempo. – sorriu fracamente. Preferia ter que enfrentar todos os descendentes de Aragogue novamente á ter que se afastar dela, mas era o melhor para ambos.
— Um dia você vai encontrar alguém que te ame, alguém que te mereça de verdade. – sorriu, secando seu rosto com uma mão, carinhosamente.
— Eu sei. – suspirou pesadamente, levantando-se – Eu preciso ir dormir e você também.
— Nos vemos no café da manhã? – perguntou incerta, também de pé.
— Claro que sim, Mione. – sorriu verdadeiramente agora – Eu disse que nada vai mudar.
Viu-a acenar com a cabeça antes de se virar. Sentia tanta dor no peito que era difícil respirar, mas iria superar. Já estava quase na escada quando se lembrou de algo.
— Se ele a magoar novamente, diga que vou matá-lo com as minhas próprias mãos. – falou sério, olhando a expressão de espanto da castanha, que ainda estava parada no mesmo lugar – Eu te conheço melhor do que ninguém e sei que não desistir tão fácil. Não aprovo a ideia e sei que Harry também não vai gostar muito, mas tentaremos manter a mente aberta, se for realmente o que você quer. Mas não posso prometer que aquela doninha oxigenada vá viver por muito tempo se você voltar a chorar por causa dele. – não esperou uma resposta, apenas continuou seu caminho.
Hermione permaneceu no mesmo lugar por muito tempo, tentando assimilar tudo. Como tanta coisa podia mudar em tão pouco tempo? Precisava de tempo para digerir tudo aquilo.
Durante o café da manhã ninguém perguntou porque Rony e Hermione não estavam mais de mãos dadas, nem porque seguiram separados após terminarem. A forma como eles conversaram, como sempre fizeram, deixou claro que independente do que houvesse acontecido, ele estavam bem. Deixaria para que falassem quando estivessem prontos.
Hermione conseguiu disfarçar a ansiedade por não ver Draco na mesa, assim como não viu Andresa. Percebeu o olhar intrigado de Angélica, mas conversaria com ela mais tarde. Não haviam se falado diretamente desde a noite anterior. Queria saber notícias da Pansy, porque ainda se sentia culpada. Decidiu ir ler alguma coisa perto do lago. Estava fazendo um dia bonito, não muito quente. Gina e Rony haviam saído para conversar. A ruiva tinha uma expressão bem decidida no rosto. Harry teria ido com eles, o que a fez suspeitar do que estava acontecendo, mas tanto ele quanto Angélica foram chamados na sala do diretor. Sabia que não ia adiantar nada ficar remoendo as coisas, então pegou um romance trouxa no quarto e saiu para o jardim.
— Draco, meu amor, já passou da hora do café! – a voz melosa de Andresa o acordou. Havia ido dormir tão tarde, remoendo a conversa com Hermione, que perdeu a hora.
— Abra a porta! – ela continuava a lhe chamar. Levantou irritado. Ao menos poderia terminar com aquilo de uma vez.
— Andresa. – disse de má vontade, transbordando descontentamento, enquanto abria a porta e dava espaço para ela entrar. Não que tivesse outra opção, já que ela se jogou em seus braços.
— Eu tenho andado preocupada, meu amor. – sabia que ele não a queria por perto. Estava sendo ignorada há quase dois dias, mas precisava insistir. As coisas estavam mais complicadas do que quando envolvia apenas a sua paixonite pelo loiro. Havia recebido uma carta do seu pai durante a noite. Precisava garantir Draco ao seu lado – Você tem estado tão distante.
— É porque estou te evitando. – às vezes a verdade era dura e cruel, e essa era a sua vantagem. Uma parte sua sentia pena na garota, por ter se aproveitado dela, mas no fundo não se importava. Não era como se tivesse roubado a sua virtude ou coisa assim. Desde o começo era ela que se jogava para ele.
— E por que você faria isso? – sentiu um formigamento no couro cabeludo. Algo havia mudado. Precisava agir rápido.
— Porque não quero mais ficar com você. – por que ela continuava se aproximando? Não queria ter que usar força bruta. Por que ela simplesmente não ia embora?
— Eu não acredito nisso! – tentou controlar a raiva. Quem aquele idiota pensava que era? Não ia simplesmente dispensá-la – Você apenas está abalado por causa da Parkinson. – na verdade, todos estavam. Não por ela ser adorada, mas pela audácia de alguém atacar uma aluna dentro dos portões do castelo. Principalmente uma aluna de uma família declaradamente envolvida com Voldemort – Não está pensando com clareza.
— Eu nunca estive tão consciente em toda a minha vida, Constantine! – viu ela dar dois passos para traz, intimidada pelo seu tom raivoso. Bom. – Você sabe que nunca significou na da para mim. Não vamos fingir que realmente tivemos alguma coisa. – debochou. Era a única forma de agir que conhecia.
— Quem é ela? – perdeu totalmente o controle.
— Como assim? – tentou disfarçar o espanto. Como ela sabia que havia alguém envolvido – Não existe ninguém.
— Eu não sou idiota, Malfoy, então não tente me enganar. – precisava resolver isso rápido. Quem quer que fosse o obstáculo precisava ser identificado e eliminado. Sua família, sua própria vida, dependia disso – Eu sei que nunca tivemos algo importante, mas você parecia confortável com a ideia de me ter. Se está me dispensando, é porque encontrou uma vadia qualquer para aquecer a sua cama. – cuspiu as palavras com nojo.
— Não é uma vadia qualquer! – gritou em resposta, só para depois se desesperar ao ver o sorriso triunfante surgir nos lábios da morena à sua frente. Era uma armadilha. E ela havia caído nela como um completo imbecil. Com certo pânico percebeu que aquela não era a mesma menininha idiota e apaixonada que tinha batido na sua porta há poucos minutos atrás. Não era o único fingindo alguma coisa. Todos tinham seus segredos e suas mentiras.
— Eu vou descobrir quem é, Draco, e depois vou tirá-la do caminho. – deixou o sorriso se alargar. Era apenas questão de tempo. Além do mais, tinha ajuda.
— Por que faz tanta questão de ficar comigo quando sabe que não sinto nada por você? – queria ir até ela e esmagar o seu delicado pescoço, apenas para ver seus olhos saltando das órbitas. Mas não o fez. Não era um animal. Mas não iria privá-la do veneno em suas palavras – Sabe que não vejo nada em você, nem mesmo o suficiente para me satisfazer em momentos de necessidade. Por que insistir?
— Porque eu preciso. – ela respondeu tão baixo que ele nem mesmo teve certeza de ter ouvido corretamente. Então ela saiu, deixando-o sozinho e atordoado.
Já fazia uns cinco minutos que estavam ali, sentados e olhando para o nada, quando alguém entrou.
— Srta Angel. – Snape cumprimentou com um aceno de cabeça, ignorando completamente a presença do rapaz sentado ao seu lado. Onde diabos o diretor estava com a cabeça para chamá-lo para participar da reunião?
— Bom dia, Prof. Snape. – ela não sorriu, como seria seu costume. Ainda estava tentando assimilar o fato de Harry estar ali. O que estava acontecendo.
— Lamento tê-los feito esperar! – Dumbledore apareceu sorrindo, através de uma porta que deveria levar até os seus aposentos – Que bom que já estão todos aqui. Temos muito á tratar.
— O que ele faz aqui? – Nem ao menos se dignou a olhá-lo. Sentou-se na sua cadeira costumeira, ao lado do diretor, enquanto via a mesma pergunta refletida nos olhos da ruiva.
— Severo, já conversamos sobre isso. – o tom do diretor era cansado – Ele precisa saber, caso isso se torne uma ameaça maior.
— Vocês poderiam não falar de mim como se eu não estivesse aqui? – Harry perguntou irritado. O que infernos estava acontecendo.
— Perdoe-me Harry. – o diretor sorriu bondosamente – Você vai entender do que se trata em breve.
— Antes que me esqueça. – Snape levantou-se bruscamente, caminhando até Angélica – Aqui está, como prometido. – entregou-lhe um frasco com um líquido azulado.
— Obrigada! – seus olhos quase lacrimejaram – Está na mesma concentração?
— Já conversamos sobre isso. – sua resposta foi curta, embora não tenha sido grosseira.
— Você a preparou, Severo? – o diretor perguntou curioso, enquanto o homem sentava-se novamente.
— É uma mistura delicada, precisa de mãos firmes e concentração. – respondeu olhando para frente, evitando o olhar do diretor – Pode ser fatal se preparada errada. Após o incidente de ontem, achei melhor garantir que ela não morresse envenenada. – ignorou completamente o sorriso nos lábios do mais velho.
— É algo para o seus pesadelos Angélica? – Harry a olhava intrigado. Toda aquela cena era muito bizarra.
— Algo assim. – ela sorriu para ele, guardando o frasco nas vestes.
— Vamos ao que nos trouxe aqui. – o diretor chamou a atenção dos dois – Conseguiu descobrir alguma coisa?
Harry se assustou, achando que a pergunta era para ele, já que Dumbledore ainda os encarava. Mas a maior surpresa foi ver a ruiva respondendo.
— Não muito. – soou irritada com o fato – Apenas uma ligeira motivação. Aparentemente, Pansy Parkinson estava realmente fazendo uma poção ilícita no banheiro, quando foi atacada. Não sei qual a poção exatamente, mas sua intenção era atingir Andresa Constantine.
— Isso é muito grave. – Snape proferiu, enquanto o diretor apenas observava. Não esperava outra coisa. Na grande maioria das vezes ele se limitava a dar sua opinião apenas no final, após assistir por horas as discussões entre ele e a ruiva – Como ninguém viu isso acontecer?
Harry ia perguntar algo, mas viu o olhar que o diretor lhe lançou e se calou. Entendeu o que significava. Era mais um pedido para que esperasse.
— Provavelmente ninguém acreditou que ela realmente pudesse fazer algo que chegasse a ser perigoso. – respondeu contrariada. Não ia dizer nada sobre Hermione – Ela não era conhecida por seus talentos na arte de preparar poções.
— Isso não importa. – se recusava a alterar o tom de voz – Algum monitor deveria ter visto. E se me lembro bem, você disse que iria pessoalmente averiguar.
— Eu ia. – suspirou derrotada – Mas estava indisposta, e depois me esqueci. – sentiu sua voz morrendo no final.
— Indisposta por causa do seu showsinho na aula de poções? – tentou não ser sarcástico, mas falhou miseravelmente – Alguns pontos perdidos para a sua casa são mais importantes do que a segurança dos alunos? Mais importantes do que o seu trabalho?
— Não! – quase rosnou. Mas depois respirou fundo, trincando os dentes e fechando as mãos com força, sentindo as unhas rasgarem sua pele. Ele estava lhe provocando, como sempre. Testando seu controle. Era um aviso de que estava se desviando do caminho. Vestiu sua máscara de indiferença e viu a sombra de um sorriso se formar nos lábios do mais velho. Então era esse o objetivo? Colocá-la na linha? Como sempre fazia – Eu fui irresponsável e inconsequente. Não vai acontecer novamente.
— Trabalho? – Harry não pôde se conter dessa vez. A cada palavra aquilo fazia menos sentido.
— Sim Potter, trabalho. – Snape sorriu maliciosamente – Até mesmo você já deve ter notado que ela não é uma aluna comum. – não esperou por resposta – Angélica Angel é um membro Ordem da Fênix, infiltrada na escola por ordens do diretor.
— Ouvimos rumores de que Tom tentaria se infiltrar na escola através dos alunos. – foi Dumbledore que continuou, atraindo a atenção de Harry, que ainda estava em choque – Não sabíamos como, quando e quais armar usaria. Angélica gentilmente se candidatou para se passar por estudante, para tentar coletar informações.
— Por isso você sempre soube tanto sobre nós? – tentou não soar acusador, mas sabia que não podia evitar. Olhava para a ruiva como se não a conhecesse.
— Sim. – tentou não se ofender – Eu passei muito tempo estudando o caso, coletando o máximo de informações relevante sobre todos os alunos da escola. Faz parte do meu trabalho.
— Você é tipo uma espiã. – ainda não conseguia assimilar aquilo tudo.
— De forma simples, sim. – tentou não rir com a escolha de palavras do moreno.
— E de forma simples, o seu trabalho é...? – precisava tentar entender. Estava tão confuso!
— Te manter vivo. – mas não foi ela quem respondeu, foi Snape.
— Onde exatamente eu entro nessa história? – perguntou ofendido. Não precisava de mais uma adolescente de 16 anos tentando salvar a sua vida.
— Você é um possível alvo para o suposto ataque de Comensais. – viu o esforço que a ruiva fazia para simplificar as coisas, tentando fazê-lo compreender. Apreciou isso.
— E se estão me contando isso agora significa...? – ficou apreensivo.
— Que uma aluna foi atacada e tememos que você possa ser o próximo. – agora era a vez dos homens mais velhos apenas escutarem a conversa.
— Atacada? Quem? Como? – eram tantas perguntas.
— Pansy Parkinson foi encontrada no banheiro feminino por um fantasma. – tentou conter um arrepio ao se lembrar da cena – Estava desmaiada, com marcas pelo corpo. Quase morreu devido ao feitiço que lhe atingiu, somado com a perda de sangue.
— E quem fez essa barbaridade? – não tinha qualquer tipo de amizade com a sonserina, mas pensar em qualquer um sendo atacado dessa forma dentro do castelo era aterrorizador.
— Não sabemos. – tentou controlar o tom de voz. Estava muito irritada por não ter conseguido nenhuma informação relevante – Quem fez isso foi muito cuidadoso.
— E não há nenhuma pista? – não conseguia acreditar que algo assim estava acontecendo.
— Era sobre isso que discutíamos quando você interrompeu. – Snape cortou a conversa entre os dois, estavam perdendo tempo – Estamos tentando encontrar a motivação do agressor para tentar achá-lo.
— Uma pequena briga entre alunos não é motivação suficiente para aquele ataque, além do mais, um feitiço daqueles está além da habilidade de estudantes. – pelo tom da ruiva, Harry entendeu que aquela não era a primeira conversa que tinham sobre aquilo. Preferiu ficar em silêncio, tinha muita informação para absorver.
— Não há motivo plausível para aquilo! – Snape também estava cansado. Estavam andando em círculos.
— Exatamente! – Angélica exclamou, tendo finalmente uma teoria – A memória da menina foi apagada, ela não se lembraria do ocorrido, então não havia motivos para atacá-la. – tinha a atenção de todos em si – Quem fez aquilo fez por puro sadismo e provavelmente para mandar uma mensagem. – podia sentir as engrenagens do seu cérebro funcionado – Ou várias mensagens, na verdade. – não esperou ninguém se manifestar. Se perdesse a linha de raciocínio, não teria nada – O caldeirão ter sido esvaziado mostra que a pessoa não queria que Andresa fosse prejudicada. Atacar tão brutalmente uma aluna deixa o aviso de que o agressor não vai se intimidar. E o maior recado dado é de que estamos atrasados.
— Atrasados? – Snape tentou acompanhar o raciocínio da ruiva. Menos de um segundo depois, entendeu – Um deles já está aqui.
— Sim. – ela suspirou – Temos um Comensal da Morte dentro do castelo.
— E quanto á mensagem marcada no braço dela, você tem alguma ideia? – era difícil definir o que o diretor estava sentindo. Ela podia ver a dor por ter um aluno ferido, a preocupação de que isso possa acontecer novamente, a raiva destinada ao agressor. Era tudo muito complexo, quando se tratava dele.
— Aquilo era para mim. – tentava a todo custo tirar aquela imagem da cabeça. As palavras marcadas na pele pálida, queimadas em sua carne.
— E o que significam? – Snape fitava-a intensamente.
— É sobre alguém do meu passado. – controlava a respiração. Não podia se abalar – Quem quer que seja, sabe que estou aqui, sabe sobre o meu passado.
O resto da reunião foi um borrão. Harry não conseguiu mais acompanhar nada da conversa. Apenas tinha a vaga consciência de que Angélica o conduzia para fora da sala, deixando toda aquela loucura ainda pior. Olhou por uma das janelas do corredor e viu que já estava escurecendo. Quanto tempo passaram lá dentro?
— Harry, você está com cara de quem vai vomitar. – ela parou na sua frente, olhando-o nos olhos.
— Eu estou bem. – mal ouvia a própria voz – Apenas preciso de um tempo para assimilar.
Ela o ajudou a sentar-se no chão, encostado na parede fria, e sentou-se ao seu lado. Não falou nada, apenas esperou. Não soube quanto tempo se passou, mas quando finalmente conseguiu dizer alguma coisa, já estava completamente escuro lá fora.
— Você ia nos contar? – sua voz estava rouca.
— Em algum momento. – suspirou – Mas provavelmente não assim.
— Era tudo parte do seu trabalho? – não conseguia encará-la.
— Você sabe que não. – encarava o céu através da janela. Era um hábito que a acalmava – Nossa amizade, esse contato com vocês, Christian... – estava sendo completamente verdadeira – Nada disso foi planejado ou encenado.
— Acredito em você. – realmente acreditava. Não queria pensar que alguém poderia fingir tão bem.
— Obrigada. – não havia mais o que ser dito.
— Posso te fazer uma última pergunta? – foi a primeira vez que a olhou desde que saíram da sala do diretor.
— Sim. – sentiu o olhar dele, mas ainda não estava pronta para encará-lo.
— O que dizia a mensagem? – tinha medo da resposta.
— Apenas algumas palavras, versos de uma música. – sentiu o sangue gelar.
Ainda podia ouvir a melodia perfeitamente em sua mente, podia sentir o hálito quente dele contra a sua nuca, enquanto cantava em seu ouvido, num tom de voz baixo, rouco. Podia sentir as mãos dele em sua cintura, enquanto a guiava pela dança. Apenas algumas palavras, mas que lhe transmitiam mais horror do que qualquer maldição.
“Got a secret, Can you keep it?”
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