Notas iniciais
Oi pessoal!
Primeiro de tudo: Eu sei que esse cap ficou horrível (e eu sinto muito por isso) e que eu demorei muuuuuuito pra postar dessa vez. É que eu tenho passado por algumas coisas não muito legais que tem me afetado muito, e ocupado muito do meu tempo, por isso eu demorei tanto para postar e o capítulo ficou tão 'blergh'. E eu sinto muito por isso, pessoal. Sério.
Segundo: Eu já tenho alguns capítulos prontos (e que estão melhores que esse dai). Ou seja, não vai haver mais atrasos como esse! o/
Terceiro: Eu queria agradecer as minhas leitoras lindas que deixaram reviews no cap passado (obrigada, lindas ♥), as leitoras novas (sejam bem vindas!) e a Licie, por ter me ajudado a escrever e a tornar esse cap não tão ruim quanto ele deveria ser hahaha
É isso pessoal :3 aqui está o cap!

– Você sabe que eu posso andar, não sabe? – eu disse – Que é pra isso que as minhas pernas existem.

Estávamos andando a uns bons 10 minutos por um dos corredores principais da escola daquele jeito; meio abraçados, meio caindo. Quando o garoto louro virou a esquina em direção a enfermaria, eu comecei a me perguntar o que raios tinha dado no mundo hoje.

Quer dizer, eu já tinha quase despencado de uma árvore, expelido os meus pulmões pra fora do meu corpo e ainda por cima – como eu havia percebido minutos antes — rasgado metade da única jaqueta que eu possuia.

Afinal, o que mais podia dar errado nesse dia?

Ah, claro. Sempre existe a possibilidade de um meteoro cair na minha cabeça.

E com a sorte que eu tinha, eu não me surpreenderia se isso acontecesse.

E então vocês se perguntam: Mas Emma, porque você simplesmente não da o pé daí logo de uma vez?

É, bem que eu queria sair correndo desse lugar horroroso pra nunca mais voltar.

Mas acontece que eu estava presa.

E ainda por cima, presa a um garoto que aparentemente não batia muito bem da cabeça.

Legal. Muito legal mesmo.

Eu já disse como o meu dia estava ficando cada vez melhor?

– Você não precisa me levar até a porta – eu disse, irritada, quando ao garoto ao meu lado me ignorou. Eu me sentia uma idiota, andando para lá e para cá com esse garoto louco me segurando — Eu não sou um bebê! E eu posso andar, tá legal?

Maravilha. Eu mal o tinha conhecido e já estava brigando com ele.

– Eu não disse que você é um bebê. – ele disse calmamente, enquanto atravessávamos as portas brancas em forma de arco que davam na enfermaria. Seus braços eram fortes contra meu corpo, sustentando quase todo o meu peso.

– Mas você está me tratando como um.

– Você só sabe reclamar, é? – ele disse, um pouco irritado. Ah, que ótimo. Agora o Señor Weasley estava ficando irritadinho – Eu só estou tentando ajudar você.

– Por quê? – eu perguntei, minha voz se elevando – Por que você está me ajudando? E por que raios você foi atrás de mim naquela maldita árvore?

Ele soltou um suspiro pesado, do tipo que as pessoas soltam quando tem que explicar algo pela centésima vez a uma criancinha do jardim de infância e do tipo que me irritou profundamente.

– E esse tipo de coisa lá precisa de uma razão? É o que as pessoas fazem! Elas ajudam umas as outras!

Eu revirei os olhos.

Ah, claro. E Papai Noel existia..

– Sim. – eu disse, ignorando a última parte do que ele havia dito – Precisa sim de uma razão.

Afinal, ninguém podia ser tão bom assim.

Não sem um motivo, pelo menos.

Eu olhei para o garoto, e seus olhos verdes brilhantes me encararam de volta.

– Tudo bem. – ele suspirou. – Você parecia estar precisando de ajuda. E eu não podia deixar você se — ele balançou as mãos -... arrebentar toda ali, como eu sabia que ia acontecer. Todo mundo sabe que aquelas árvores são velhas, e que podem cair a qualquer momento – ele me olhou de lado, como se aquela fosse a coisa mais obvia do mundo.

E um rubor gigantesco subiu pelo meu pescoço.

Céus. Não. Não. Definitivamente eu não podia estar corando na frente daquele garoto.

– Bom, deveriam colocar uma placa ou algo assim na frente dela. – eu bufei, olhando para o outro lado. Sentindo o calor abrasador tomar conta das minhas faces. – Como as pessoas vão saber que elas simplesmente não podem subir lá?

Ele riu, e seu corpo tremeu.

– Não precisam colocar placas nas árvores porque você é a única louca o suficiente nessa escola para tentar subir nelas. – ele brincou.

– Aparentemente, isso não é verdade. – eu falei irritada — Já que você subiu em uma delas também.

O garoto louro revirou os olhos e andou até a 'cama' mais próxima. A enfermaria era constituída por uma sala grande e bem iluminada; com quatro camas de madeira e janelas grandes que tinham vista para boa parte do pátio e da secretária. O piso de linóleo branco refletia a claridade que saia delas; fazendo com que eu tivesse que estreitar os olhos para conseguir enxergar alguma coisa lá dentro.

O garoto me colocou delicadamente sentada na cama e se afastou, pegando uma cadeira de madeira que combinava com o lugar, e colocando-a perto da cama; e se jogando em cima dela.

E um pensamento surgiu de repente na minha cabeça.

– Como você sabia o que eu estava fazendo? — ele me olhou confuso — Quer dizer, como você sabia que eu estava lá; naquela árvore?

Porque era impossível, além de ele ser um escalador profissional, ser também um vidente profissional.

A compreensão atingiu seu olhar, e ele se esticou na cadeira – as pernas tão grandes que quase tocavam o pé da cama – e mexeu as mãos, parecendo envergonhado.

– Eu estava observando você. – ele admitiu baixinho.

– Me observando? — eu perguntei, perplexa. Mas não havia ninguém perto de onde eu estava. E olha que eu tinha checado — De onde?

Ele coçou o queixo.

– Você ficaria surpresa se visse a vista que a sala da Madre Superiora tem. – ele disse, piscando um dos olhos para mim. – É realmente incrível.

Meu queixo caiu.

Ai. Meu. Deus.

– Não pode ser. – eu disse, mas ele não respondeu — Você está brincando, não está?

Ele balançou a cabeça, colocando seus braços atrás dela, e um sorrisinho idiota apareceu no seu rosto.

– Nem um pouco. Assisti a tudo de camarote, se você quer saber.

Eu me senti estupidamente burra.

Mas onde é que estão os meteoros para cair em nossas cabeças quando precisamos deles?

– Mas a Madre não viu nada. – ele assegurou, quando viu a expressão de desespero em meu rosto. – Ela estava de costas conversando com Beatrice. Eu fui o único que viu o que aconteceu. Pedi licença para sair da sala dela, então corri para te ajudar.

Ficamos em silêncio por um breve momento.

– Sabe, eu realmente pensei que você fosse se jogar daquela árvore. – ele murmurou, os olhos verdes me encarando seriamente. – e só pra você saber, eu não cai nessa história de você só estar apreciando a vista. Seja lá o que você estivesse fazendo lá em cima, não era coisa boa.

Eu revirei os olhos.

– Você sofre de surdez crônica ou é apenas lesado? — eu perguntei com a maior delicadeza que eu podia. — Eu já te falei: eu não estava querendo me matar.

– Então você estava querendo fazer o que? Não vai me dizer que era companhia para os passarinhos? — ele piscou os olhos duas vezes e fez uma voz fininha, zoando comigo.

Será que dava pra alguém enfiar uma bola de tênis na boca desse garoto?

– Eu estava querendo sair da escola. — eu grunhi — Satisfeito agora?

Ele me encarou, sem fala por um momento.

– Você ta brincando. – ele disse, os olhos se arregalando de repente.

– Nem um pouco. – eu cruzei os braços, repetindo o que ele havia me dito.

Ele pareceu não saber o que falar, e eu comemorei internamente.

Há! Toma, Weasley! Por essa você não esperava!

– Quando você articulou esse seu... plano maluco – ele disse, lentamente, com uma expressão pensativa no rosto — você levou em conta os seguranças que ficam do lado de fora da escola, não levou?

Epa.

Por essa eu não esperava.

– Seguranças? — eu pisquei.

– Sim. E não podemos nos esquecer das câmeras.

– Eu achei que só tinham câmeras perto do portão principal. – eu franzi a testa.

– Não. – ele balançou a cabeça, os cabelos louros balançando com ele. – Desde que alguns alunos começaram a tentar fugir da escola, a Madre Superiora decidiu instalar câmeras de segurança por toda a mansão. Você sabe, só por precação.

Dessa vez, era eu quem não sabia o que dizer.

– Você iria ser pega. – ele concluiu, voltando a se esticar na cadeira e a colocar os braços atrás da cabeça. – E então, seria expulsa.

– Ok, eu admito. – eu resmunguei, mexendo na pontinha do lençol que estava em baixo de mim — Foi um péssimo plano.

– Péssimo? — ele deu uma risada sarcástica. — Não foi só péssimo. Foi totalmente horrível. O pior de todos os planos.

– Ok, Sherlock – eu o cortei. – Foi um plano horrível. Já entendi. Podemos falar sobre outra coisa, agora?

– Tudo bem, Watson – ele disse com uma voz suave, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e se inclinando na minha direção na cadeira – Sobre o que você quer falar?

Eu olhei para seu rosto sorridente. A luz do sol lá fora refletia em uma mecha de seu cabelo louro desgrenhado; que caia em cima de um de seus olhos verdes brilhantes. Percebi que uma série de sardas douradas se estendiam pela região em baixo de seus olhos e na testa, e que ele tinha uma cicatriz em forma de ‘x’ em baixo do queixo; tão perfeita que eu me perguntei como ele a havia conseguido.

E eu percebi também, que ele estava perto de mais de mim.

Eu me afastei um pouco.

– Eu não quero falar sobre nada. – eu disse – E a propósito, você não tem mais nada pra fazer da vida? — eu perguntei, cruzando os braços.

Ele revirou os olhos.

– Alguém já te disse como você adorável?

– Alguém já te disse como o seu sarcasmo é irritante?

Ele bufou.

– Pra falar a verdade – ele disse, ignorando meu comentário. – Eu tenho o que fazer – ele falou, se recostando na cadeira novamente. – Mas vou ficar aqui com você.

– Por que...

– Porque seria errado te deixar aqui sozinha. – ele falou, seriamente, mas então, um sorriso tosco surgiu no canto de seus lábios – Com todos esses remédios e agulhas... Quem sabe você não tenta se matar novamente?

Senti a raiva crescer em mim. E eu podia assegurar, que se esse garoto continuasse falando, eu ia acabar apresentando a cabeça dele a um poste. E aquilo não ia ser nada legal.

Não ia ser nada legal pra ele, quero dizer.

– Você é um idiota. – eu disse.

Ele soltou uma gargalhada alta, e a minha vontade de bater nele aumentou. Maldito garoto.

Mas antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa – ou tentar fazer algum estrago no rosto daquele louro de quinta — uma mulher alta e morena falando ao celular entrou no cômodo. Ela vestia um jaleco que algum dia já fora branco e um jeans preto, e aparentava ter 40 e poucos anos.

– Aquele cara não presta, Ash! Pois é, eu falei isso para ela! Mas se ela ainda quiser sair com ele, não a nada que a gente possa fazer. Pobre Margareth... – a mulher alta tagarelou, e assim que percebeu que estávamos lá, parou de andar. – Opa, eu tenho que desligar. Te ligo depois.

Ela desligou o aparelho preto e o guardou no bolso da calça jeans.

– Ora, ora, olhe o que temos aqui. – ela disse, se aproximando de nós com cautela. – O que aconteceu?

O garoto louro desatou a contar para a enfermeira a mesma história que tinha contado para a Barbie-Girl-Demoniaca mais cedo, enquanto eu me se ajeitava na cama. Ele mentia tão bem, que eu me perguntei se tudo o que ele falara para mim mais cedo era verdade.

Mas afinal, porque ele estava me protegendo? Quer dizer, o que ele ia ganhava com isso?

Ele tinha que estar planejando alguma coisa.

Porque afinal, eu sabia. Ninguém era tão... bom assim.

Não sem ganhar algo em troca.

Depois que ele terminou, a enfermeira assentiu e caminhou até a sua mesa, pegando uns aparelhinhos estranhos que me lembravam aqueles filmes de alienígenas em que os humanos sempre eram abduzidos e dissecados.

– Vou examinar você agora, Sta.White. Abra bem os olhos... – ela tirou um aparelhinho que emitia uma lusinha estranha e o apontou para os meus olhos, afastando com os dedos alguns fios da minha franja que tocavam a minha sobrancelha. A luz me cegou por um momento. Depois ela se inclinou para ouvir meu coração com um aparelho de metal.

– Parece que você sofreu um ataque de pânico, Sta. White. — a enfermeira disse, surpresa, enquanto guardava o ‘aparelhinho-que-emitia-uma-lusinha-estranha’ no bolso do jaleco e pendurava o estetoscópioseiládoque de metal no pescoço. — Por acaso a senhorita sofre de pressão alta?

Ela e o garoto louro me olharam.

– Não. — eu disse, revirando os olhos e cruzando os braços — Já posso ir embora?

– Nem pensar. — ela estalou a língua. – Esse tipo de coisa não é comum para adolescentes da sua idade. Você vai ficar aqui e descansar. Não queremos que você fique mal de novo, não é mesmo? Agora, quanto a você... – ela se virou para o garoto louro. – O senhor já pode ir agora, Sr.Bright. – ela disse, despachando-o

– Tem certeza? — ele perguntou, as sobrancelhas claras erguidas — Posso ficar mais um pouco, se a Emma precisar...

– Agora, Bright. — a enfermeira disse, enfurecida. E pelo tom da voz dela, ela poderia ser facilmente confundida com um treinador bombado de um time de futebol falando com um de seus jogadores.

O garoto louro ergueu as mãos em forma de rendição e pulou da cadeira.

– Tudo bem. — ele disse, enquanto se espreguiçava, esticando os braços para frente e para trás. E então ele se virou para mim — A gente se vê, Emma.

Ele me lançou um meio sorriso simpático antes de sair caminhado corredor a fora.

Eu quis esganá-lo. O motivo de eu estar presa nesse maldito lugar era dele.

Mas, pensando bem, o motivo de eu estar viva também.

A enfermeira caminhou até uma das poltronas perto das camas e se sentou, pegando em seguida uma das revistas da mesa mais próxima.

Eu suspirei, derrotada, me esticando na cama e arrumando os travesseiros atrás de mim.

– Tem TV por aqui?

Ia ser um looongo dia.


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Perto da última aula antes do almoço — quando meu estômago estava praticamente criando vida própria dentro de mim de tão esfomeada que eu estava. — a enfermeira me liberou com um 'tome cuidado' e um bilhete para apresentar aos professores; explicando a minha ‘ausência’ nas aulas. Eu sai da cama rapidamente, mal dando tempo de ela terminar de falar, e fui em direção ao corredor onde meu armário estava.

Quando a sineta bateu indicando o começo do quarto tempo, eu comecei a amaldiçoar mentalmente cada maldita pessoa daquele colégio. Inclusive a mim mesma, por ter esquecido de tomar café da manhã. Eu peguei meus livros de dentro do meu armário, aproveitando para colocar minha mochila dentro dele (ou seja, jogar ela com toda a minha força e esperar que ela não quebre nada) e fui em direção a sala da minha próxima aula. Literatura Clássica.

Ou seja: Blergh.

E olha que nem tinha escolhido ter essa matéria – se é que dava pra chamar Literatura Clássica de matéria. Mas, ou era isso, ou era Educação Física. E como correr não era lá o meu forte, eu tinha que aturar 90 minutos de puro blá blá blá.

E eu nem precisava dizer que eu preferia ser engolida por um dinossauro, a ter que ficar naquela aula.

A área de Artes e Linguagens ficava na parte de cima da mansão. E eu tive que subir três lances de escada quase que morrendo no meio do caminho para chegar até ela.

Se não fosse aquele garoto me impedindo de fugir desse maldito lugar...

Contei cinco salas até encontrar a minha. Por ter apenas 15 alunos – 15 alunos que preferiam morrer de tédio a ficar correndo sem objetivo nenhum em volta de uma quadra — tínhamos que ter aula na menor de todas as salas da mansão. Um cubinho apertado de apenas duas janelas e teto baixo que ficava no final do corredor, e que as quartas e sextas-feiras, era utilizado como sala de música

Cheguei ao mesmo tempo em que a Sta. Guinevere, a professora. Uma mulher alta e magra, de pele bronzeada e de cachos negros que caiam até seus ombros. Ela vestia uma blusa rosa rendada, e uma saia florida que a fazia parecer mais com uma personagem de uma história infantil do que com uma professora de verdade.

Ela sorriu para mim, quando eu quase topei – vulgo cai com todo meu poder e força em cima dela — com ela a um passo da porta, e acenou com a cabeça para dentro da sala de aula, me dando passagem.

Eu passei rapidamente por ela e me joguei em uma das cadeiras brancas que formavam um circulo perfeito no meio da sala – e que ocupava praticamente o espaço todo dela — entre uma garota baixinha de cabelos pretos espetados que usava uma camiseta verde justa que continha os dizeres SALVE O PLANETA, em letras grandes e um garoto meio gorducho de boné azul.

E ele me fez lembrar que eu estava disposta a vender a minha alma por uma fatia de pizza.

A Sta. Guinevere nos cumprimentou, dando ‘Bom-Dia’ – enquanto eu pensava o quanto meu dia estava mais perto do ‘péssimo’ e do ‘deprimente’ do que realmente do ‘bom’ – e sentou-se em uma das cadeiras. Ela sorriu para nós, pegando um pequeno exemplar de Romeu e Julieta de sua bolsa.

– Qual a primeira coisa quem vem ás suas cabeças, quando ouvem falar de Romeu e Julieta? – ela perguntou rapidamente, erguendo o livro surrado e gasto para que todos da sala vissem.

Um silêncio desconfortável – do tipo que nem grilhinhos ousavam interromper – baixou no lugar. Provavelmente aquele pessoal queria estar ali tanto quanto eu.

Até que a garota de cabelos negros ao meu lado levantou a mão.

– Sim, Alexia. – A Sta. Guinevere disse, animada pela iniciativa da garota. Uma coisa que eu achava curiosa, sobre o comportamento da Sta. Guinevere, é que ela nos chamava pelo nosso primeiro nome. Diferentemente dos outros professores, ela realmente nos via como humanos, e não só como mais um boletim a ser entregue.

– Besteira. – a garota chamada Alexia disse, simplesmente.

– Poderia explicar melhor, por favor? – A professora perguntou, sem parecer ofendida pelo o que a garota tinha dito. Apenas curiosa.

– Simples. Romeu era um pretensioso e Julieta, uma idiota por acabar com a própria vida só por causa dele. Isso faz da história a mais besta de todas.

– Julieta não era idiota. – protestou, de repente, uma garota de cachos castanhos avermelhados e casaco bege que estava sentada perto da porta. Ela se vestia mais como uma dama da alta sociedade do que como uma aluna do primeiro ano. O que sustentava a minha tese de que todo mundo naquela aula tinha alguns parafusos a menos dentro da cabeça – Ela estava apaixonada! Romeu era tudo para ela! E quando ele morreu...

– Julieta tinha 13 anos! – Alexia argumentou calmamente, cruzando os braços e adotando uma posição mais relaxada na cadeira. – Era uma criança. Era ingênua e mal tinha começado a viver a vida. E se matar por aquele garoto, que ela mal conhecia, há – ela soltou uma risada — foi a maior idiotice de todas.

Eu olhava para tudo aquilo achando graça, assim como o restante da sala. Aquela discussão estava mesmo acontecendo?

– Mas Romeu também se matou por ela. – a garota insistiu, com a testa franzida. – O amor deles era puro e verdadeiro! Não importava se ela era uma criança ou não, ou se eles se conheciam há pouco tempo! Eles se amavam!

Foi então que eu levantei a mão. E a discussão parou de repente; o olhar de todos voltado para mim.

– Sim, Emma? – A Sta. Guinevere perguntou, olhando curiosa para mim, enquanto se endireitava na cadeira. – Quer compartilhar algo conosco?

Eu assenti; mas olhei para a garota de cabelos castanhos quando fui falar.

– Ela – apontei com o polegar para a Garota Miss GreenPeace ao meu lado. – Está certa. Julieta era uma criança; tinha toda uma vida pela frente. E tirar a própria vida assim, por causa de Romeu, foi uma idiotice; não uma prova de amor. Romeu provavelmente seria sentenciado a morte pelos próprios Capuletos, por ter assassinado Páris. Mas Julieta ainda tinha uma vida toda pela frente.

A garota dos cachos me olhou; com raiva, e cruzou os braços no peito. Eu achava – só achava – que ela não gostava muito de mim.

– Muito bem – a Sta. Guinevere bateu uma palma e olhou para nós. – Estou impressionada com a participação de vocês na aula de hoje. – ela riu – apesar do propósito dela não ser bem esse. Agora que todos vocês tiveram exemplos de opiniões, que devo dizer, muito diferentes sobre o livro; quero que vocês façam uma redação dizendo o que vocês pensam sobre Romeu e Julieta. Vocês poderão terminá-las em casa, se quiserem.

Ela se levantou e entregou a cada um de nós uma folha rosa para escrevermos. Quando me virei para pegar uma caneta na espiral do meu livro de Literatura Clássica, percebi que a garota SALVE O PLANETA me observava, o rosto apoiado com desdém em uma das mãos.

–Algum problema? — eu perguntei, com uma sobrancelha erguida.

Ela simplesmente balançou a cabeça e disse:

– Você é estranha. – e então, virou-se e começou a escrever em sua própria folha.

Eu a encarei, irritada. Porque todo mundo ficava me dizendo aquilo? Primeiro o garoto maluco, e agora ela? Mas o que diabos tinha dado no universo hoje?

Quando o sinal bateu, eu me vi guardando as minhas coisas e pulando da minha carteira numa velocidade sobre-humana, apenas querendo sair logo daquela sala que mais parecia um cubo e chegar naquele maravilhoso pedaço de pizza o mais depressa possível.

– Emma, você pode esperar um pouquinho? — A Sta. Guinevere perguntou, quando eu estava a um passo de sair daquela sala apertada. — Tem algo que quero lhe entregar.

Eu parei, olhando-a desconfiada.

– Hm, claro. — Lá vem bomba, pensei.

Ela flutuou até sua mesa de madeira no canto da sala, que ficava em baixo de um quadro que representava uma cena de Hamlet. A barra da sua saia florida arrastava-se pelo chão.

Alguns dos outros alunos, inclusive a Cachinhos Vermelhos observavam, curiosos, a cena. Mas logo se dissiparam. A fome era maior que a curiosidade deles.

E a minha também.

– Deve estar aqui em algum lugar. — ela murmurou, abrindo uma das gavetas da mesa e revirando o conteúdo dentro dela. — Espere só um... ah! Aqui está!

Ela caminhou até mim e me entregou um pequeno caderno com capa de couro marrom.

– Pra que isso? — eu ergui uma sobrancelha, olhando do caderno para ela.

– Para você escrever, oras! – ela disse, e um sorriso largo se abriu em seu rosto, fazendo com que pequenas ruguinhas se formassem no canto de seus olhos. – Pesquisei seu histórico da sua antiga escola, Emma, e devo dizer que seu talento é único! As coisas que você escreve é tão apaixonada! – ela falava de um modo tão eufórico que eu precisava me esforçar para entender o que ela estava dizendo — e você ganhou tantos prêmio! Você precisa investir nesse seu talento, querida!

Quando finalmente entendi sobre o que ela estava falando; apesar do calor infernal que estava fazendo dentro da sala, senti meu corpo gelar por inteiro.

– A senhorita... pesquisou o meu histórico escolar? – eu perguntei, lentamente, tentando compreender o que estava acontecendo.

Ela pareceu envergonhada.

– Bom, sim, mas – ela disse, tentando se explicar. – fiquei curiosa quando me disseram que você tinha sido... como se diz? Expulsa da sua antiga escola. Não que estejamos julgando você, Emma. – ela apresou-se em dizer, colocando um cachinho atrás da orelha. — Pelo contrário. Nós somos uma escola famosa por dar segunda chances as pessoas e... – percebendo que estava sendo falando demais, ela se calou.

Eu encarei a mulher a minha frente por um momento, sem acreditar. Se ela sabia que eu tinha sido expulsa... Ela também deveria saber sobre...

Não. Não pensa nisso, Emma.

Eu peguei a mão da Sta. Guinevere e coloquei o caderno de volta na mão dela.

– Sinto muito, Sta. Guinevere. Mas eu não faço mais esse tipo de coisa.

Seu sorriso murchou, e o brilho em seu olhar se apagou um pouco.

– Mas porque? Emma, você não pode desistir disso assim. E se você me deixar, eu posso te ajudar a...

– Com todo respeito, Sta. Guinevere, isso não é da sua conta. E eu já disse que não faço mais esse tipo de coisa. Agora, se você me der licença, eu estou com fome.

Não esperei ela responder. Sai correndo em direção as escadarias em forma de caracol que dariam na parte debaixo da mansão. Saltei os degraus de dois em dois e fui em direção ao meu armário. Meu coração batia num ritmo frenético dentro do meu peito, mas eu não estava nem aí.

A última coisa que eu precisava agora, depois de tudo, era ter meu passado trazido à tona novamente.

Porque, se eu tinha uma certeza nessa vida, era que certas coisas não podiam ser lembradas.

Porque elas eram horríveis demais; dolorosas demais.

Assustadoras demais.

E meu passado era uma dessas coisas.

Uma coisa era certa: Eu não era uma boa pessoa.

E nunca iria ser.


Notas finais
Bom, é isso! Obrigada por lerem, sério
Beijos de todo o coração,
Ly.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.